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  • há 4 semanas
A Colônia de Itanhenga, em Cariacica, foi inaugurada em 11 de abril de 1937

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Transcrição
00:00A história começa com a chegada de um médico sanitarista, o doutor Pedro Fontes, que chega em 1927.
00:08Ele vem já indicado pelo doutor Sousa Araújo, um conhecido sanitarista brasileiro.
00:13E o doutor Pedro Fontes, ele chega no estado, e que era um estado conhecido, por não ter casos de
00:22ranceníase.
00:23Mas quando o doutor Pedro Fontes chega, ele tomou conhecimento imediato de 22 casos de ranceníase.
00:32E ele organiza uma missão itinerante para o interior do estado, conversando com médicos do interior.
00:41E ele faz aí essa, que a gente chama até de buscativa, porque ele vai para o interior, ele examina
00:48pessoas, ele conversa com os colegas.
00:50E aí é isso que ele vai fazer, ele institui mesmo, faz um pente fino e percorre todas as regiões
00:57do Espírito Santo, tentando levantar isso.
00:59Olha, ele descobre mais de 300 casos de lepra, e aí ele diz, olha, aqui precisa ter um hospital para
01:06abrigar essas pessoas.
01:09A escolha desse espaço aqui foi, conta-se, a gente vê pela história que o doutor Sousa Araújo esteve aqui
01:16no estado,
01:17junto com o doutor Pedro Fontes, que caminharam por vários possíveis espaços para abrigar esse complexo.
01:26E eles escolheram esse espaço aqui, onde nós estamos, que dista 14 quilômetros da capital, Vitória.
01:34É um espaço de 1.200 hectares, ele é bem grande.
01:38E aí começa a construção das edificações, que são edificações, como você pode verificar, robustas, né?
01:46Uma construção muito sólida, com paredes largas.
01:51Tinha que ser um local afastado, ninguém ia querer um leprosário perto de um local muito povoado.
01:59Assim como hoje, ninguém quer uma penitenciária perto de um local muito populoso.
02:06A preocupação, na verdade, não é com o doente.
02:10A preocupação é com o são.
02:11De que forma esse doente pode contaminar o são.
02:25A doença, que hoje é conhecida como ranceniza, que na época chamava lepra,
02:31há registro dela desde a antiguidade, né?
02:33Ou seja, já no oriente já se falava dessa doença.
02:39E também é interessante que já mesmo no oriente se pensava mesmo na doença como algo impuro.
02:47Quando a Bíblia começa a ser disseminada, isso acaba se tornando muito mais, vamos dizer assim, muito mais forte.
02:57E aí o estigma em relação à doença, ele vai crescer enormemente, né?
03:03Ele se difunte, ele já existia, entretanto, a partir desse momento, ele, vamos dizer assim,
03:11ele se alasta com muito mais força, com muito mais vigor, né?
03:16De associar doença ao pecado, né?
03:19O doente é um pecador, né? É um impuro, né?
03:23Eu me lembro que na fazenda do meu avô tinha uma escola, daqueles filhos, dos menheiros, que estudava.
03:29Aí quando eu ia para a escola, eles ficavam tudo, até aqueles grandes, assim, falavam assim,
03:35cuidado, ela é fia de leprosa, que naquele tinha corrido aquela notícia.
03:39Ah, apanharam a mulher do seu mar porque ela tinha uma doença que pegava nos outros e não sei o
03:44quê, é lepra, falava aquilo.
03:47Eu ficava pensando, meu Deus, o que é isso? O que é isso?
03:49Foi a partir do governo Vargas que essa ideia de apartar os doentes, né?
03:58E interná-los compulsoriamente se consolidou no Brasil.
04:02O conceito de segregação era muito forte, mas não era unânime, né?
04:06Tinha pessoas que não concordavam, porque a gente sabe da repercussão familiar, da repercussão social,
04:13de você tirar uma pessoa porque ela tem uma doença e isolá-la do resto da sociedade, do seio da
04:21sua família.
04:22Então isso, é claro, é que tem um potencial enorme de gerar problemas de diversas ordens, como de fato gerou.
04:32Eu tenho a lembrança que chegou uns três homens, assim, umas roupas meio amareladas, com os uniformes, naquele jipe,
04:43desceram e já foram lá dentro de casa, já pegando a minha mãe.
04:47Não cabia ao doente questionar ou protelar a sua ida.
04:53É, chegou, vai na mesma hora.
04:56Não tem tempo de preparar nada.
05:00Se você tem uma pequena propriedade, tem seus animais, você deixa tudo para trás e vai embora.
05:06Viatura, pegava e botava numa ambulância, que nem era uma ambulância, era um carro, não sei que carro era aquele,
05:14e trazia.
05:19Muitos contam que eles não tinham muito, podiam contar com pessoas para explicar isso ou aquilo.
05:26Tinha que chegar aqui e ver com o outro que já estava aqui, o que podia fazer, o que tinha
05:31que fazer,
05:32onde queria acomodar, tinha uma certa organização, sim,
05:37mas uma organização de o que você vai fazer, onde você vai ficar.
05:39Mas não quanto tempo você vai ficar, como você tem uma doença, né?
05:44Então, aquele acolhimento, que hoje a gente entende essa palavra, né?
05:50Aquele acolhimento, muitas vezes, não tinha.
05:54Já tinha hora que dava até vontade de não viver mais, que era muito difícil na época.
05:59As coisas eram muito estranhas, muito difíceis.
06:02Não podia, assim, ter contato com ninguém.
06:04A gente trabalhava ali dentro, era separado dos outros funcionários, não podia ter contato.
06:10Era dividido em zona doente, zona sadia e uma zona intermediária.
06:15Então, a gente tinha até onde a pessoa afetada pela ranceníase podia ir,
06:21onde ela podia ir e ter, não uma interação com as pessoas sadias,
06:27mas era muito evidente essa segregação.
06:30O doente, ele não podia sair da zona doente, né?
06:34Ali é o local dele, a não ser aqueles que iam trabalhar na lavoura,
06:40porque ali era uma colônia, a ideia de criar uma colônia era
06:43para que eles pudessem plantar, criar animais.
06:48Era uma sociedade completamente oposta à sociedade em geral.
06:54E era uma sociedade atípica, né?
06:56Tinha os castigos, para casar teria que pedir licença ao diretor,
07:02para as visitas, visitas teriam que pedir licença.
07:06Os doentes, os pacientes não eram os moradores, né?
07:12Não eram aceitos fora daquele habitat.
07:16Eles, os bancos, as instituições públicas, nos cartórios eleitorais,
07:21se tivessem que votar, eles teriam que votar dentro da própria colônia.
07:26Aconteciam, né? Pequenas fugas, pessoas que às vezes não queriam ficar aqui,
07:30tentavam voltar para a família.
07:31E quando voltavam, muitas vezes não eram aceitas,
07:34porque a sociedade, quando via, a comunidade, a cidade,
07:38quando via aquela pessoa se aproximando, né?
07:41Não queriam aquela pessoa mais ali.
07:43Onde a gente morava, o dono da casa falou que ia queimar a casa com nós todos dentro,
07:50porque ele não queria ninguém ali com aquela doente.
07:54Aí a minha mãe desesperou, catou nós as coisas e levou nós para cada um,
08:01para um parente dela.
08:03Muitas pessoas fugiam, não era com o intuito de nunca mais voltar, né?
08:07Às vezes eram fugas que eram, vamos dizer assim, temporárias mesmo.
08:14É a saudade de um familiar que você deixou, né?
08:19Você imagina, você vinha para cá, provavelmente você não tinha visita nenhuma durante meses, né?
08:25Então, é resolver problemas pendentes que você deixou lá,
08:30que você não teve tempo de resolver, né?
08:35Poderia ser mesmo da própria estrutura que ali está posta de um rigor,
08:43de uma fiscalização muito grande.
08:46Minha mãe, muitas das vezes, não só minha mãe,
08:49como outras mães internas do hospital, colônia,
08:53fugiam de lá, sem a administração saber,
08:56e aí ela vinha pedir a diretora nossa aqui
09:00para conseguir ver, visitar a gente escondidas.
09:05Ia no berçário enquanto a gente era bebê.
09:07O serviço de lepra, ele vai ter como base, né?
09:10Três sustentáveis, né?
09:13Os dispensários, que era para poder você achar
09:16e dar conta daqueles, dos doentes, né?
09:19E comunicar sobre esses doentes.
09:24A internação e o preventório, que era o local onde colocava essas crianças,
09:31porque toda criança nascida de pais ou de algum dos pais leprosos
09:38eram afastados imediatamente do convívio dos pais.
09:42Eles não eram afastados.
09:43Eu não conhecia minha mãe.
09:45Eu fui conhecer, sim,
09:46porque a gente fazia visita duas vezes por ano a gente a pé daqui até lá.
09:50Era no dia das mães e no dia de Natal,
09:53que a gente ia lá fazer visita a mãe da gente, os pais, né?
09:57Aí quando você chegava lá,
09:59e a turma todo mundo andando a pé,
10:00e que chegava lá,
10:01eles falavam assim,
10:02ó, seu pai e sua mãe aqui lá,
10:03você não sabia nem quem era, né?
10:05Aí a gente chegava, ficava lá perto dela,
10:07tinha três camadas de tela, entendeu?
10:09Eles ficavam conversando com a gente, mas, entendeu?
10:13Ficava assim uma meia hora conversando com a gente,
10:16e depois aí a gente vinha embora.
10:18Minha mãe chegava,
10:19eu levava a mão lá em cima naquela vidraça assim,
10:22cadê a minha filha?
10:23Eu quero ver a minha filha.
10:24Quando ela fazia assim,
10:25eu via o queixo dela e o nariz,
10:26aquela água descendo,
10:27aquelas lágrimas descendo,
10:29ela chorando,
10:29e o meu pai me pegava aqui assim,
10:32e suspendeu assim,
10:33e eu falava,
10:34mãe, mãe, volta pra casa,
10:36mãe, eu quero ver a senhora ali em casa comigo,
10:37mãe, mãe, eu quero ver a minha mãe.
10:39Aí o papai me botou no João,
10:40os guardas, chegou,
10:41tira ela, tira ela, tira ela,
10:42não pode mais ter contato, não.
10:44Meu pai já afastou comigo, e aí?
10:46Acabava a história por ali mesmo.
10:48Tem criança que é até revoltada,
10:51mas a gente não tinha culpa.
10:54Mas agora, com a idade que eles estamos,
10:56eles já estão cientes
10:58o porquê que nós não ficamos com o cílio.
11:03Porque até meu filho falou,
11:04por que o senhor mandou nós pra aquele lugar?
11:06A segregação, ela se dava
11:08pela crença de um contágio
11:12intenso dessa doença,
11:14o que não acontece na ranceníase.
11:16Em 1962,
11:18já tem aí,
11:19por parte do governo,
11:21uma determinação
11:22de suspensão
11:24do isolamento compulsório
11:26pra ranceníase
11:27nas colônias de todo o país.
11:29Se entendeu que a segregação
11:30não tinha impacto
11:31na interrupção
11:34da cadeia de transmissão
11:35dessa doença,
11:37que não foi o isolamento,
11:39que nem foi,
11:41nem seria, né,
11:42o isolamento,
11:43que traria aí algum resultado
11:47que impactasse
11:49na saúde pública.
11:51Entretanto,
11:51a gente sabe, sim,
11:52que essa política,
11:56ela continuou acontecendo
11:58em muitos estados,
11:59e aqui também.
12:00Mesmo em ambientes
12:04extremamente coercitivos,
12:07mesmo em ambientes
12:08extremamente sofridos,
12:11foi possível
12:12elas se reinventarem,
12:14elas encontraram
12:15a alegria,
12:16o prazer,
12:17e descobrir novas
12:19possibilidades
12:20nas suas vidas, né.
12:22O forrozinho
12:22de 15 em 15 dias,
12:24tudo surgia ali dentro,
12:25música ao vivo,
12:27ali tinha um salão da caixa,
12:29que ali era o forrozinho,
12:31assim,
12:31todo final de semana
12:32o pessoal reunia ali,
12:34que eles queriam brincar,
12:34brincavam,
12:35tinha um som,
12:37e tinha tocador interno
12:39dali mesmo,
12:39que ia pra lá
12:40pra se divertir,
12:41aquele pessoal ia passando o tempo,
12:43foi esquecendo um pouco
12:44as tristezas
12:45e aprendendo
12:46como viver ali dentro.
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