00:00É muito difícil falar sobre isso, sobre a violência que esse pessoal passou,
00:06sobre a discriminação, o preconceito.
00:10Vocês já botaram no mato para você não sair de lá, para isolar as pessoas,
00:15para segregar as pessoas, para prender, porque as pessoas iam para lá presas.
00:19A polícia sanitária prendia as pessoas e ia para lá presas.
00:23O que mais me incomodava era aquela sociedade entre muros,
00:28da falta de acesso aos serviços e bens que a sociedade poderia oferecer àquelas pessoas.
00:35Para você ter uma ideia, tinha 25 anos que não tinha nem telefone e nem ambulância.
00:41Mesmo que tinha a poliquimioterapia já, mas o pessoal tinha medo de pegar a doença.
00:48Antes ficava tudo isolado, ninguém entrava.
00:50Até os médicos, inicialmente, eles entravam por trás e não tinham cuidado com o paciente,
00:55tinham um vidro que separava.
00:57Nunca um ginecologista fez exame preventivo de câncer, de colo de útero e de câncer de mama
01:04nas pacientes de rancenite.
01:07Achavam que a tabula rancenite era o fim do mundo, já acabou.
01:10Acabou a vida para aquelas mulheres.
01:20Eu cheguei lá em 1974, naquela época eu tinha férias de dois meses na Emescan e eu acabei mudando para
01:27lá,
01:28eu e minha mulher.
01:28A gente não tinha filha, a gente mudava para lá nas férias e final de semana a gente ia para
01:34lá.
01:34Aí eu comecei a observar que a gente podia mudar muita coisa, sabe?
01:39Com pouca coisa a gente mudava muito.
01:42Tinha um portão para o doente falar com a gente, o guarda tinha que autorizar abrir o cadeado
01:49e o doente vinha para cá para falar com a gente.
01:52Mandei juntar o portão.
01:53Eu já comecei a misturar as pessoas.
01:57A gente criou essa perspectiva, essa reestrutura social.
02:01Ao invés da gente ir lá, técnico, dar um treinamento para o professor,
02:05a gente trazia o professor para dentro da colônia.
02:07Nós abrimos o campo de futebol.
02:09Nós fizemos uma horta de mil metros quadrados que abastecia o infantil,
02:15abastecia o Dório Silva.
02:17Eu consegui, com o padre Carlos, levar o time da Ferroviária de Janeiro,
02:21o time profissional, inaugurar aquele campo lá dentro.
02:24Nós jogamos a metade do time de doente e a metade de funcionário.
02:29Aqui tem uma foto minha aqui.
02:32Esse aqui sou eu.
02:34Esse aqui, cabeludo, barbudo aqui, sou eu.
02:37Isso aqui é uma mistura de time de pacientes com funcionário.
02:41Você vê, eu estou aqui, Alvino, mas quem...
02:45Paulo Valdetar, o diretor, está cá embaixo.
02:47Paulo Valdetar é o diretor.
02:48Nós criamos dois bairros, chama-se Pecapal e Cajueiro,
02:53em áreas limítrofes da colônia, do estado.
02:57E assim, quem gostaria de sair da área central?
03:00Porque aí já era uma primeira iniciativa.
03:03E aí foi aí que começou, entendeu?
03:05Entre 80, começaram as pessoas a saírem.
03:08Aí, na medida que saiu, já não tinha mais aquele amparo, assim, né?
03:13Porque enquanto você é muito tratada com assistência,
03:20não te leva a muita coisa, né?
03:22Mas quando você trata as pessoas como sujeito,
03:26você vai ter frutos bem diferentes.
03:29E essas pessoas começaram a criar as suas famílias
03:32e reconstruir suas famílias nesses dois bairros.
03:3550 metros de frente e de fundo que ele pudesse cultivar.
03:40Era muita terra, né?
03:4250 metros de frente.
03:43Olha, e aquilo ele fazia aquela chácara,
03:46e com isso ele fazia.
03:48Trazia a mulher pra cá, ou o marido vinha pra cá.
03:51Você conseguia juntar a família novamente.
03:55E você fazia uma coisa importante.
03:58Praxterapia, terapia ocupacional.
04:00Além da mente, as mãos.
04:03Fazia exercício com as mãos.
04:05Pra cavar, pra capinar, pra plantar.
04:07Mesmo quando a doença já tinha cura,
04:12mesmo quando o tratamento para os doentes
04:15já era ambulatorial, etc.
04:19A carga, o peso, o estigma da doença
04:24não se dissipou completamente da sociedade.
04:30Ele tá impregnado e é difícil
04:34de você acabar completamente com ele.
04:38É por isso mesmo que a maioria
04:41acaba não saindo de lá.
04:43Acabou vivendo lá.
04:45Constituiu famílias, os filhos moram lá,
04:48os netos moram lá.
04:49Tem Léo Tirica ainda,
04:51tem a Manelzinho,
04:52tem a Nadir,
04:54e tem a Gracinha que tá...
04:56Nasceu lá dentro.
04:57Nasceu e foi para o adentório.
04:59Porque ali é o local
05:01onde você tem a sua identidade.
05:03Aqui ninguém vai me estigmatizar,
05:06porque todos são iguais aqui.
05:08Então, isso vai fazer com que
05:11essas pessoas
05:14consigam criar uma identidade
05:17naquele lugar.
05:19E dali não pretende sair.
05:21Aqui, agora,
05:22é bom,
05:24é um lugar tranquilo.
05:28Hoje, eu não penso mais
05:30em sair para fora
05:31com a meia idade que eu estou.
05:33Então,
05:34fica agora até o final
05:35que Deus nos chama.
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