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  • há 4 semanas
Crianças sofrem com discriminação; educação antirracista precisa estar nas escolas e nas famílias

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Transcrição
00:02Maria Luísa tinha apenas 3 anos quando foi atacada pela primeira vez.
00:20Na memória de Natália, foi também na infância que a cor de sua pele e o cabelo crespo se tornaram
00:27alvo.
00:30As duas não se conhecem.
00:30Mas eu tinha uma criança que estudava no Rio do Andrade, no bairro da Penha, que o menino sempre implicava
00:33comigo, me chamava de neguinha da macumba, falava que eu era neguinha da macumba por conta do meu cabelo.
00:38Meu cabelo não era cacheado assim, meu cabelo era cacheado mais para baixo.
00:41Só que criança é assim, deixa o cabelo preso, coquinho, aí falava, olha lá o cabelo de neguinha da macumba,
00:47olha lá a neguinha da macumba, olha lá a preta macumbeira.
00:50Me chamava disso por conta da minha cor e eu ficava chateada.
00:53E nisso eu não tinha pessoas para me confortar, porque eu não sabia o que era isso, entendeu?
00:57As duas não se conhecem, mas tem uma trajetória em comum.
01:01Sofrem cotidianamente a discriminação racial.
01:06Natália, recentemente em uma atividade da escola, além de ser abordada com uma declaração machista de outro aluno, ouviu insultos
01:13por sua aparência.
01:14No meu celular tem a minha mulher que, olha aqui, mostrou para os amigos dele, a mulher dele, e falou,
01:20o cabelo dela é liso, o olho dela é claro.
01:23O senhor nem passa pente, o seu cabelo é duro, garota.
01:25Aí todo mundo começou a rir de mim, aí o menino falou que o meu cabelo não passava a máquina,
01:29porque o meu cabelo era duro.
01:31Aí o outro começou a rir, até então eles ficaram entre eles rindo de mim, rindo de mim.
01:35E isso afetou em mim, porque eu já vivi isso já meses atrás.
01:42Maria Luíza, com somente 5 anos, já precisa ser educada pela mãe Janine para se defender dos ataques.
01:49Eu falo, eu sou preta, só que não tem problema.
01:52Do mesmo jeito que não quiser ser meu amigo, é uma oportunidade.
01:57Isso porque, por sucessivas vezes, Maria Luíza foi excluída, ofendida e maltratada por ser quem é.
02:04Chegou uma vez ela chegar de Mulher Maravilha na pracinha, e aí ela chega,
02:08a sua Mulher Maravilha, não, você não pode ser Mulher Maravilha.
02:10Mulher Maravilha tem um cabelo liso, Mulher Maravilha é branca.
02:14Já cansou de ouvir essas coisas.
02:16Com o tempo que ela foi passando várias situações, começou a ficar, ela começou a se sentir mais.
02:21E ela acordou um pouco tarde, chegou na janela do prédio para olhar para o parquinho.
02:26E aí as crianças começaram a gritar umas coisas lá embaixo que eu não consegui entender muito.
02:30E eu só vi que ela começou a chorar.
02:31Quando eu cheguei na janela, eles estavam gritando.
02:33Você não tem pente em casa, não?
02:36Como você fica com esse cabelo desse tamanho?
02:38Sai com esse cabelo penteado na janela?
02:40Você não tem vergonha, não?
02:41Aí eu fiquei chocada, fiquei chocada com aquela situação.
02:44Eu fiquei revoltada.
02:46Eu falei com eles, que isso, ela está na casa dela, dentro da casa dela.
02:49Vocês não tem que ofender ela.
02:50Eu fiquei revoltada.
02:51E aí eu fui no grupo do condomínio, fiz um post.
02:53Falando que eu queria pedir os pais para conversar em casa, porque isso era uma coisa séria.
02:57Ela nem estava lá embaixo, ela estava dentro de casa.
03:00Então assim, como seria a vida dela?
03:02Insustentável?
03:03Dentro de casa ela ia ser humilhada e ofendida por uma coisa que é dela.
03:07O cabelo dela não é feio, entendeu?
03:09O cabelo dela é assim.
03:10No parque, no condomínio, na escola e até mesmo na família, em um discurso disfarçado de cuidado, sugerindo arrumar o
03:18cabelo quando, na verdade, trata-se apenas de preconceito.
03:21E aí eu comecei a ensinar para ela que ela deveria responder.
03:24Ela deveria falar que o cabelo dela era assim e tudo, mas ela chorava muito.
03:28Aí ela desceu, uns dias depois, e aí as crianças, as mesmas crianças que tinham xingado na janela, falaram com
03:34ela.
03:35Que o cabelo dela estava feio, bagunçado.
03:37E aí ela falou assim, meu cabelo está assim porque eu sou preta, minha família é preta, meu cabelo é
03:42black, meu cabelo não está feio.
03:44Respondeu para as crianças, peitou as crianças, mas chegou em casa, mãe chorando, mãe passa chapinha no meu cabelo, não
03:50quero mais ter esse cabelo assim.
03:52E aí assim, começou a ficar assim, na frente das pessoas ela revidava, mas em casa desesperada, queria analisar o
03:58cabelo, que não queria mais ser preta, né?
04:01Quem fala não mede as consequências.
04:03A transição, na verdade, eu não aceitava meu cabelo antigamente, eu passava chapinha e tal.
04:12Mandava, ah mãe, passa chapinha, não quero meu cabelo assim, porque as pessoas me julgavam.
04:17Aí eu ficava ofendida e analisava, ah, se eu deixar meu cabelo liso, as pessoas vão me aceitar.
04:22Você sentir a dor de uma pessoa que você ama, uma situação que você não pode mudar, é uma característica
04:26física.
04:27Ninguém tem o direito de se intrometer nisso, de fazer com que a pessoa sinta diminuída por isso,
04:32mas a pessoa afeta naquilo ali, entendeu? É muito difícil.
04:36Janine já questionou a atitude da professora, fez post no grupo do prédio em que morava,
04:41reclamou com parentes. Nem sempre encontra acolhimento e compreensão.
04:45Ela chegou da escola chorando, mãe, quase eu perdi meu lápis novo que você me deu.
04:49Eu falei, mas como assim? Não, porque a tia virou pra mim e falou, você pegou o lápis da colega,
04:55devolve agora.
04:56Aí ela falou, não, é meu, eu trouxe de casa, não é, é dela, eu sei que é dela, não
05:01sei o que, não sei o que.
05:02Arrumou mó confusão falando que ela tinha, não perguntou pra ela se ela tinha pego lápis, se a menina tinha
05:06emprestado, nada disso.
05:07Nem cogitou da amiguinha ter emprestado. Simplesmente falou que ela pegou, devolve o lápis à sua colega que você pegou.
05:12E a menina é branquinha, cabelorizinha, né, o padrão que a gente tá acostumado de ver que as pessoas, é,
05:20as pessoas acham que é o padrão de beleza, né, que é o certo.
05:24E aí, no final, eu falei, mas e aí, o que aconteceu? Ela, o que aconteceu que a tia pegou
05:29o lápis, devolveu pra colega e a colega falou, não, não é meu, tem um igual.
05:33Então quer dizer, a menina tinha um lápis igual realmente, mas não era minha filha, não tinha roubado o lápis
05:38dela, entendeu?
05:38Então eu achei que era muito pesado, muito grave. Sim, mandei bilhete pra professora que eu queria conversar, e aí
05:43lá conversei com ela, e ela falou que não, que ela não tinha ofendido, falado assim.
05:47E ela achou que era da colega, eu falei, tudo bem, mas achar é uma coisa, acusar uma criança de
05:525 anos de roubar uma coisa da outra, porque a outra não poderia ter roubado da minha, se as duas
05:57tinham iguais, entendeu?
05:58Então assim, isso pra mim foi muito pesado. A gente vê que a gente não sabe se pode soltar o
06:03nosso filho na rua e como que ele vai ser tratado, como ele vai voltar.
06:07A família mudou de cidade e a menina de escola. Janine, no entanto, guarda uma apreensão sobre a existência de
06:14Maria Luiza. Até quando ela vai sofrer?
06:17Eu canso de receber visitas na minha casa que falam que a minha filha precisa cortar o cabelo, porque o
06:21cabelo dela é armado, porque eu tenho que cortar.
06:23Uma vez eu recebi uma visita aqui em casa, da minha família, e falou, esse cabelo dela tem que ter
06:27só dois dedos de altura, senão fica muito armado.
06:30Ela foi pro quarto na mesma hora e cortou o cabelo. E aí falou, mãe, agora não vai armar mais
06:35meu cabelo. E assim, são coisas que a gente não tem, a gente não sabe como recorrer, sabe? Pra resolver.
06:43Porque as pessoas acham que tem o direito, né?
06:46Natália, que já percorreu mais dessa estrada de preconceito que a Maria Luiza, ainda espera por mudanças. Mas ela mesma
06:53precisou passar por um processo de aceitação e hoje, com um olhar mais afetuoso para si, deseja ser também inspiração
07:01para outras meninas pretas, com seu cabelo e sua cor.
07:05A pessoa faz um preconceito de um jeito que é pra você não, tipo assim, ah, você tem que tirar
07:09esse cabelo. Eu, fiquei, não, eu não vou mudar meu cabelo, meu cabelo é bonito, é lindo, é maravilhoso, chama
07:17atenção, eu inspiro as pessoas, eu não vou deixar o meu cabelo baixo, eu vou alisar porque as pessoas querem,
07:23não, eles vão ter que aceitar que meu cabelo é black, vão ter que aceitar que meu cabelo é armado,
07:28que é cacheado. E é isso, e é crespo.
07:31Janine, por sua vez, vai pavimentando o caminho da autoestima da filha.
07:35Sim, eu falo pra ela que é linda, que ela tem uma pele linda, que ela tem um coração lindo,
07:41que ela vai vencer, que ela vai ser, vai, ela tem os mesmos, ela tem que ter os mesmos direitos
07:45que todo mundo, né? Que ela não é diferente de ninguém.
07:47E Malu, pelo visto, segue aprendendo e reconhecendo quem a valoriza, como um coleguinha da nova escola.
07:54Ele fala que meu cabelo é perfeito e ele é mó, o cabelo dele é igual ao meu.
08:00E aí
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