00:07Um dia não resume uma história, né, no modo geral.
00:11Um dia, acho que também o negro nunca precisou de um dia para lembrar que sempre foi consciente.
00:15O negro é consciente desde sempre.
00:17Desde o início de sua história, o negro sempre foi consciente.
00:20A gente devia ter um dia da consciência dos outros povos que acham o negro uma raça inferior.
00:25O molecado, né, de morro, tem o costume de, quando a mãe chama um, vai com a galera toda.
00:32Fomos nesse mercado.
00:34Então, a moda era chinelo branquinho, né, bonitinho e tal.
00:39Passamos para dar uma olhadinha no chinelo, a gente todos com chinelo, não havia.
00:43Na hora de passar lá no caixa, aí o cara abordou a minha mãe, os meninos pegaram chinelo lá e
00:49tal.
00:49Tal pessoa viu, e aí minha mãe daquele jeito, né, já arrumou logo uma confusão.
00:56E ninguém achou a pessoa que viu.
00:59E a gente ficou lá, né, que ela foi, não foi, foi, não foi.
01:02Ninguém conseguiu provar nada, até que o pai de um desses amigos nossos chegou lá com a nota do chinelo,
01:09justo do chinelo que falaram que tinham pego, que nós tínhamos levado, né.
01:15E foi isso, foi constrangedor, né.
01:18Mas, é, geral, geral.
01:21E você acha que foi por isso que teve falta?
01:23Por isso, a gente só olhou, a gente nem encostamos no chinelo.
01:26A gente já sabia também, né, a gente já sabe como é que funciona,
01:30onde a gente entra, como é que fala, como é que fica o esquema.
01:35A gente entra no mercado, olha para trás, sempre tem um acompanhante.
01:39O que é que precisa para mudar essa história?
01:42Correr atrás, achar que é capaz, entender, entendeu?
01:47Abraçar uma causa e ir até o fim.
01:51Não desistir no meio do caminho.
01:52Ai, meu olhar é ruim, parei.
01:56Não, meu olhar é ruim.
01:58Vou mostrar agora que eu sou capaz de ir lá na frente, vai me olhar bom.
02:03Se não olhar, continuar olhando ruim, vai ter que me engolir.
02:06Porque eu faço igual ou melhor, entendeu?
02:08A ideia é essa, é ir para cima mesmo, não tem essa.
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