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  • há 6 semanas
Décadas após o fechamento dos pavilhões mais sombrios daquele que ficou conhecido como o holocausto brasileiro, as paredes do Hospital Colônia de Barbacena, no Campo das Vertentes, em Minas Gerais, deixaram de ser apenas um memorial da barbárie para se tornar o epicentro de uma batalha jurídica histórica. Ações judiciais individuais, agora fortalecidas por um inquérito civil conduzido pelo Ministério Público Federal (MPF), buscam a responsabilização civil do Estado e a reparação financeira e existencial para uma parcela invisível de vítimas: os filhos das mulheres internadas à força no que foi o maior manicômio do Brasil, marcado pelas graves violações aos direitos humanos.

Imagens: Arquivo/EM; Arquivo Público Mineiro;
Reportagem: Melissa Souza/EM
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Transcrição
00:00Décadas após o fechamento dos pavilhões mais sombrios daquele que ficou conhecido como o Holocausto Brasileiro,
00:06as paredes do Hospital Colônia de Barbacena, no Campo das Vertentes, em Minas Gerais,
00:11deixaram de ser apenas um memorial da barbárie, para se tornar o epicentro de uma batalha jurídica histórica.
00:17As ações judiciais individuais, agora fortalecidas por um inquérito civil produzido pelo Ministério Público Federal,
00:23buscam a responsabilização civil do Estado e a reparação financeira e existencial para uma parcela invisível de vítimas.
00:31Os filhos das mulheres internadas à força no que foi o maior manicômio do Brasil,
00:37marcado pelas graves violações aos direitos humanos.
00:40Com a abertura desse inquérito civil e a divulgação através dos veículos de rede,
00:45algumas das vítimas nos procuraram para compreender o que poderia ser feito dentro dessa perspectiva.
00:54Onde nós iniciamos a habilitação dentro do inquérito civil do Ministério Público Federal, aqui em Belo Horizonte,
01:01para começar a cooperar com o Ministério Público Federal na investigação do ocorrido lá dentro do hospital.
01:08E é muito importante dar a voz a essas vítimas, porque algo nos chama a atenção,
01:14que é muito importante nós trazermos à tona, que a vida das vítimas, o Estado destruiu a vida das vítimas
01:23na infância,
01:24na adolescência, na vida adulta, e agora que eles estão criando coragem de buscar uma reparação,
01:31o Estado, nós estamos enfrentando diversos obstáculos, sejam eles processuais, psíquicos, para conseguir buscar essa reparação.
01:42Os castigos aplicados rotineiramente na colônia desenham um cenário de crueldade institucionalizada.
01:48Relatos médicos e prontuários da época detalham a aplicação indiscriminada da eletroconvulsioterapia,
01:54os temidos eletrochoques, sem o uso de anestésicos.
01:57Dentre todas as histórias está a de Débora, que nasceu em 23 de agosto de 1984 dentro do hospital.
02:04A mãe biológica, Sueli Aparecida Resende, era uma jovem epiléptica,
02:09que foi deixada por sua família na adolescência e jogada em hospitais psiquiátricos,
02:14até ser despejada em Barbacena.
02:16O pai de Débora foi José Malaquias, internado por ter crises esquizofrênicas.
02:21Com apenas 10 dias de vida, ela foi entregue por meio de uma adoção à brasileira.
02:25Uma sessão ilegal, acobertada pela direção do hospital a um casal de funcionários da instituição.
02:31Débora cresceu dentro do hospital, já que os pais trabalhavam lá, e recorda que sentia uma certa incompletude.
02:38Eu não sabia sequer que eu era adotada. Descobri que eu era adotada aos 23 anos de idade.
02:43Eu fui adotada por um casal de funcionários lá do hospital.
02:47Desde criança, eu tinha notícias lá do hospital. Aquela rotina, pra mim, era comum.
02:51Eu ficava na creche lá, tinha contato com vários internos, chamava de tio, tia, ia às festinhas lá da Femig.
03:00Então, pra mim, aquele cenário era comum. Eu estranhava aquilo tudo, achava muito triste.
03:05Mas era o meu cotidiano.
03:07E eu não sabia que eu tinha nenhuma ligação com o hospital, assim, sobre as minhas origens.
03:13Eu descobri, através de uma pessoa, que minha mãe era uma interna lá do hospital, ela me deu até o
03:18nome.
03:19Fui ao hospital, tentei conversar com funcionários antigos, tentei ir na administração, ter mais informação.
03:25E descobri que ela já tinha falecido há um ano, que por um ano eu não conseguia encontrá-la.
03:30Eu fui descobrindo os detalhes da vida dela. Tudo que ela passou lá dentro, toda a crueldade.
03:36Que ela não tinha sequer nenhum problema psiquiátrico, ela era apenas epilética.
03:41Foi internada aos 8 anos em Belo Horizonte, de lá passou por vários hospitais, até chegar no hospital infantil de
03:48Oliveira.
03:49Com o fechamento do hospital de Oliveira, que ela foi transferida pra Barbacena, aqui pro hospital Colônia.
03:55Ela chegou com 16 anos no hospital Colônia e foi completamente abandonada pela família.
04:02Ela me procurou a vida inteira, eu e a minha irmã, porque eu tenho uma irmã também, mais nova.
04:07Ela lembrava as datas de aniversário, ela guardava doce, boneca pra um possível encontro.
04:13Tudo que ela queria, ela sabia como era o rosto das filhas dela.
04:16Então, até o último dia da vida dela, ela esperou por esse momento, ela rezava.
04:20Porque, no fundo, ela não pôde ser filha, porque ela foi abandonada pelos pais e também não pôde ser mãe.
04:27Então, a maternidade pra ela não deu a identidade dela lá dentro.
04:31Ela se sentia orgulhosa por ter tido duas filhas.
04:33E ela sonhava em ir pras residências.
04:36Ela chegou aí pras casinhas, ficou um tempo nas casinhas que era um tratamento mais humanizado,
04:42mas não deu tempo dali pras residências.
04:44E a gente vê a transformação.
04:46Eu vi lendo os prontuários, quando o hospital passa pela reestruturação, como que ela foi modificando.
05:15Também, fruto do descaso e falta de assistência, a história de João Busco se assemelha de Débora,
05:21uma vez que foi tomado de sua mãe e se sentiu abandonado durante anos, sem saber a verdade.
05:27Geralda de Siqueira, mãe de João, tinha apenas 14 anos, era órfã e trabalhava como empregada doméstica
05:34para famílias influentes em Virginópolis, no Vale do Rio Doce.
05:38Em um ambiente doméstico de extrema vulnerabilidade, foi submetida a abusos sexuais praticados por seu patrão,
05:46um advogado de renome e fazendeiro.
05:48A minha dor é tão grande que essas marcas são tão profundas,
06:00ainda não consegui chegar na profundidade delas, ainda não consegui entendê-las,
06:08ainda não consegui assimilar, porque é um vazio, uma lacuna que se forma ali.
06:20Não sei. Honestamente, eu não sei explicar.
06:26Hoje, eu tenho buscado a reparação do Estado.
06:29Mas por que o Estado?
06:31Porque o Estado não me protegeu.
06:34Ele não tinha o direito de me tirar da minha mãe.
06:37Ele não protegeu a minha mãe.
06:39Ele não tinha o direito de me deixar 45 anos órfão.
07:01Eu fui conhecer a minha mãe, eu tinha 45 anos.
07:12E isso reflete os meus filhos, as pessoas com quem eu convivo.
07:19Lógico que reflete.
07:23Reflete até na minha relação hoje com a minha mãe.
07:36O inquérito civil em andamento no MPF investiga as violações de direitos fundamentais ocorridas no Hospital Colônia,
07:44fornecendo subsídios probatórios fundamentais para que dezenas de filhos de ex-internas
07:49ingressem com ações de reparação por danos morais e existenciais crônicos.
07:54A reportagem do Estado de Minas entrou em contato com o Estado brasileiro
07:58e não obteve retorno até o fechamento dessa matéria.
08:01Já a Advocacia-Geral do Estado informou que se manifestará nos autos do processo.
08:06Em nosso site, você encontra a reportagem completa da repórter Melissa Souza sobre o assunto.
08:12O link da matéria está aqui embaixo.
08:14Siga a gente no WhatsApp e nas redes sociais
08:16e receba notícias importantes diretamente em seu celular.
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