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O episódio do Podcast Divirta-se desta semana debate sobre a série Andar na Pedra, sobre a banda Raimundos. Para contribuir com a conversa convidamos o jornalista e rockeiro Paulo Galvão, e o nosso editor-chefe Carlos Marcelo que por via do jornalismo, ainda na época de Brasília, acabou se tornando um personagem na trajetória dos Raimundos.

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#cultura #música #raimundos #rock

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Transcrição
00:00Divirta-se! Divirta-se! Cultura, advirta-se!
00:04Olá, seja bem-vindo ao Divirta-se, o seu podcast de cultura do Jornal Estado de Minas.
00:09Hoje a gente está propondo um conteúdo um pouco diferente.
00:11A gente vai falar sobre a série dos Raimundos Andar na Pedra, produzido pelo Globoplay.
00:16E a gente tem aqui na mesa o Carlos, que participou com o entrevistado da série.
00:23Carlos, seja bem-vindo.
00:24Valeu.
00:25Tenho aqui do meu lado também Paulo Galvão, uma pessoa envolvida com música, camisa da obra aqui representando o rock
00:31belo-horizontino e o underground belo-horizontino.
00:34Então seja bem-vindo.
00:35Obrigado, um abraço.
00:37Então vamos em frente, porque tem muito para falar.
00:40Carlos, queria que você contasse as suas primeiras experiências com o Raimundos.
00:44Como que chegou até você, que você ouviu, e as suas primeiras matérias também sobre a banda, para a gente
00:52dar uma esquentada aqui.
00:53Legal. A gente tem que, na verdade, voltar ao século passado.
00:58A gente tem que voltar ao início dos anos 90, onde eu começo a minha atividade profissional como repórter do
01:04Correio Brasiliense.
01:05Primeiro comecei na editoria do Paulão, também no Esportes, e depois fui para a editoria de cultura.
01:09E lá havia, na sessão do jornal impresso ainda, não estamos falando ainda de época de internet,
01:15Para vocês terem ideia, nessa época havia só um ponto de internet na redação, que era da editoria de informática.
01:20E ficava ali, ia fazer uma fila para se ter acesso.
01:23Não havia redes sociais, então a gente está realmente falando de um outro mundo.
01:27E isso é o início dos anos 90, mais especificamente em 1993.
01:31Eu, como repórter da editoria de cultura, era encarregado de uma sessão chamada Garage,
01:35que era exatamente para divulgar e descobrir talentos da música, dos quadrinhos, do cinema,
01:41do movimento underground, do movimento mais alternativo.
01:44E essa época, Otávio, é que está explodindo lá fora.
01:48O Nirvana, o grunge, você tem uma onda de rock alternativo muito forte.
01:52É uma grande reviravolta que o rock experimenta, né, Paulão?
01:55Você lembra disso?
01:55Porque você vinha, especialmente do rock pesado, que vinha de uma fase do chamado hair metal,
02:03do Guns N' Roses como grande expoente, apesar dele ter furado essa bolha do hair metal,
02:09se tornando a grande banda que é.
02:11Você tinha o Metallica lançando o seu álbum preto, o Black Album, que também é um grande marco.
02:16Então, era a volta do rock pesado.
02:18E um rock pesado que conseguia atrair uma plateia maior do que era do seu nicho.
02:24Então, isso em Brasília se reflete nessa nova geração.
02:30E eu frequentava isso como fã de rock, sempre gostei de acompanhar.
02:35Então, o que eu escrevia de manhã era o que eu via à noite, nos shows, nas casas noturnas.
02:40Aqui tinha a obra, né, Paulão, nessa cena aqui.
02:42Na época não tinha a obra, mas tinha, por exemplo, a Broda,
02:44e você tinha algumas casas noturnas que abriam espaço para bandas autorais.
02:48O Botecário já era dessa época.
02:50O Botecário era dessa época.
02:51Eram casas, assim, já existia, por exemplo, o Matriz.
02:55Já tinha o Calabouço, enfim, depois o Matriz.
02:59Era uma cena que já...
03:01Belo Horizonte sempre teve muita banda, né?
03:03Principalmente depois de Sepultura.
03:05Não só de Heavy Metal, mas de Punk Rock, de rock em geral.
03:09Além das bandas cover.
03:11É, a gente até, desculpa te interromper, a gente entrevistou a Pesta aqui no Divirtas também.
03:16E eles falaram, quando foram tocar na Dinamarca, na Noruega,
03:19que representar Belo Horizonte era uma grande responsabilidade,
03:22exatamente por esse histórico que você está contando aí.
03:25E essa época era muito legal e por isso surgia muita banda, né?
03:28A gente vai falar um pouco mais sobre isso,
03:29sobre os festivais que tinham, por exemplo, o Junta Tribo.
03:32Eram festivais bem legais, assim,
03:34que realmente tentavam fazer, justamente furar essa bolha.
03:37Então, não era uma coisa só de Punk Rock ou só de Heavy Metal.
03:39Era justamente para juntar todo mundo.
03:41E acho que havia um circuito que se comunicava de uma forma paralela.
03:44Porque, volto a lembrar, a gente está falando de uma época
03:46que não havia redes sociais,
03:48que a internet ainda era muito precária, né?
03:50E muitas vezes as comunicações eram feitas ainda por cartas.
03:54Então, para vocês terem uma ideia,
03:55eu trabalhava, fazia um programa de rock lá em Brasília,
03:59na Rádio Cultura, chamado Cult 22.
04:01Que existe até hoje com o meu grande amigo Marcos Pinheiro.
04:03A gente fez esse programa.
04:04Então, ele começa em 91, salvo engano, 92.
04:08E a gente divulgava as fitas demo, né?
04:11De demonstração que as bandas enviavam para lá.
04:13E uma das fitas que a gente recebeu lá
04:14foi de uma banda chamada Pato Fur.
04:16Com um bilhetinho do John, sabe?
04:18Dizendo assim, olha, essa é a minha nova banda.
04:20Depois de uma experiência que a gente fez com Sustados por um Gesso,
04:23que era a banda com o Bob Faria, salvo engano.
04:25E a gente se comunicava por cartas.
04:27E ele manda, ele disse,
04:28será que vocês conhecem algum lugar em Brasília que a gente possa tocar?
04:30E a gente acabou ajudando até a viabilizar o primeiro show do Pato Fur lá em Brasília.
04:34Que demais.
04:35E tocando pela primeira vez o Pato Fur lá.
04:37E uma das pessoas que...
04:39Esse programa vai ao ar, ele ia ao ar ao vivo, de sexta-feira, de 10h à meia-noite, né?
04:44Então, era meio que um horário que o pessoal falava do início da programação noturna.
04:49Então, as pessoas ouviam indo para o show, indo para uma balada, para uma boate,
04:52uma coisa que não existia mais, para casas noturnas, pelo menos não dessa forma.
04:56E para ouvir rock.
04:57Então, assim, era muito curioso porque havia uma demanda reprimida e represada
05:02de uma geração que não tinha Spotify, sabe?
05:06Não tinha Apple Music, não tinha YouTube.
05:07Então, muitas vezes ela conheceu músicas quando a gente conseguia uma fita cassete
05:12com um amigo que gravou isso, Brasília.
05:15sempre teve um pouco dessa tradição por ter essa conexão direta com o exterior
05:19por meio dos filhos dos diplomatas.
05:21E foi assim que o rock chega, o punk rock, por exemplo, chega à Brasília nos anos 70.
05:25Antes até de chegar em São Paulo, em BH e no Rio, por conta dessa proximidade, né?
05:29Assim, um filho do diplomata viajava, trazia fitas, discos e assim começa...
05:33Revistas.
05:34Revistas, é.
05:35O N1000, o N1000 Express, o Melody Maker, a The Face, enfim, revistas e referências.
05:40Isso era meio que disputado.
05:41Então, já havia também uma certa tradição.
05:45De Brasília, nesse sentido de vanguarda e de espaço para o rock, né?
05:49E também pelo tédio da cidade, né?
05:50Ter poucas opções, assim, também era uma das características.
05:53E havia, interessante, essa conexão com o BH, nesse fato de ser outro centro de rock,
05:59mas fora do eixo Rio-São Paulo.
06:01Exato.
06:02É o que a gente tinha muito também com Curitiba e com Salvador, assim,
06:05a gente conhecia muita banda de lá.
06:07E a gente lembra que tinha os fanzines, né?
06:09Que eram as revistas feitas pelos próprios fãs, assim, pelas próprias bandas.
06:14E que antigamente era a forma de divulgar, que você tinha que divulgar a sua banda ali.
06:18Se você não era, não tinha gravadora nem nada, você procurava um fanzine.
06:21As letras.
06:22A gente mandava fita para todo mundo, assim, a gente recebia fita, né?
06:26Ajudava a editar um fanzine aqui.
06:27Meu projeto de graduação na faculdade foi sobre comunicação alternativa e fanzine.
06:32Então, assim, é um universo que hoje...
06:34Por isso que é importante o que o Paulão está fazendo, Otávio,
06:36de contextualizar em que momento os Raimundos surgem.
06:39Porque, por exemplo, as bandas vendiam essas fitas demo,
06:42eram formas de arrecadação, entendeu?
06:43Então, assim, não havia cultura digital.
06:45Então, as bandas faziam cópias, assim, de cassete para cassete, entendeu?
06:48Faziam, produziam suas capinhas de fitas demo e a gente recebia pilhas de fitas demo, entendeu?
06:53E tocava na programação da Rádio Cultura.
06:56Depois, alguns conseguiam entrar na própria programação da rádio
06:58e que era uma rádio do governo, é uma rádio do governo, do Distrito Federal,
07:01mas que tinha essa liberdade de tocar músicas de bandas, de artistas da cidade, entendeu?
07:05Então, tudo isso conspirou a favor de acontecer o que eu digo o seguinte aqui.
07:11Porque eu escrevi a biografia do Renato Russo, né?
07:12Renato Russo, filho da Revolução.
07:14Então, eu passo a morar em Brasília em 1985,
07:18que é o momento que a Legião Urbana sai de Brasília, né?
07:20Mas já tinha acontecido esse primeiro grande movimento na virada,
07:24dos anos 70 para os anos 80.
07:25Quando isso começa a acontecer no início dos anos 90,
07:28eu percebo que estava acontecendo alguma outra coisa muito forte.
07:31Eu penso, não é possível.
07:32O raio caiu duas vezes na mesma cidade, entendeu?
07:34O raio do rock caiu nessa cidade por duas vezes.
07:37E acho que isso é...
07:39E essa matéria aqui, por exemplo,
07:42a gente publicou em 93,
07:43trouxe uma cópia,
07:44esse aqui era o jornal impresso de 93,
07:46nessa sessão garagem,
07:47que a gente falava, comentou,
07:49fez a primeira crítica da fita demo dos Raimundos,
07:52que tinha quatro músicas,
07:53entre elas,
07:54Negra Jurema,
07:54Palhas do Coqueiro e Marujo.
07:56E tinha uma música que eles depois...
07:57Era uma música mais tradicional,
07:59que eles não aproveitaram.
08:00Salvo engano,
08:00chama Insanidade.
08:01Essa música acabou sendo descartada do repertório.
08:04E eu fiz a crítica dessa fita demo.
08:06A gente faz,
08:07olha só,
08:07a gente publicava no jornal
08:08críticas de fitas demo.
08:09E foi o meu primeiro contato com os Raimundos.
08:12Porque quem me entregou essa fita
08:12foi o Fred,
08:13baterista dos Raimundos.
08:15Esteve na redação do jornal,
08:16me entregou essa fita
08:17e falou assim,
08:17a gente vai fazer um show,
08:19vai fazer uma participação
08:20num festival,
08:20num projeto chamado Feira de Música,
08:23que tinha em Brasília,
08:24que era muito legal.
08:25De 15 em 15 dias,
08:26abria-se no Teatro Garage,
08:28e o nome era muito oportuno,
08:30que era literalmente num subsolo,
08:32um palco de 100 pessoas,
08:33150 no máximo,
08:34um projeto onde as bandas se inscreviam
08:36e tocavam na hora.
08:37Então tinha a programação definida
08:38e havia bandas que se inscreviam
08:39para dar uma canja.
08:40E aí os Raimundos foram lá,
08:42dar essa canja.
08:43Eu estava lá nesse dia.
08:44Eu ia quase sempre nessa edição,
08:46nessas edições desse projeto.
08:47Cara, mas quando eu vi os Raimundos,
08:48foi algo assim,
08:51a minha memória não é muito boa,
08:52mas essa experiência
08:53é absolutamente inesquecível.
08:54Primeiro,
08:55porque eu acho que meus tímpados
08:56nunca se recuperaram,
08:56desde essa primeira audição
08:58dos Raimundos,
08:59porque era absolutamente ensurdecedor.
09:02Ainda um som muito misturado,
09:04porque você não conseguia regular direito,
09:05porque eu sou muito,
09:06muito pesado,
09:07muito rápido,
09:08pela influência que eles tinham
09:09do hardcore,
09:10sempre tiveram,
09:12mas ao mesmo tempo
09:13já me chamava a atenção
09:14essa conexão com o Nordeste,
09:17com a música nordestina.
09:18E por eu ser paraibano também,
09:19então eu identifiquei na hora
09:20qual era alguns daqueles cenários,
09:22não conhecia o Roda Viva
09:24do puteiro lá do Rodolfo,
09:26mas sabia em que hipéria estava assim,
09:28e principalmente eu sabia reconhecer ali,
09:32eu percebi a picardia do nordestino,
09:34do humor nordestino,
09:36que vem da música popular nordestina.
09:39Ele até cita o Genival Lacerda,
09:41o Genival Lacerda,
09:41exatamente,
09:42o pai dele ouvia,
09:44o Genival,
09:45a Marinês,
09:47a Anastácia,
09:48mas especialmente a música
09:49de duplo sentido,
09:51que o rei desse duplo sentido
09:53é o Zé Newton,
09:54o safoneiro,
09:54que participa do primeiro disco
09:55dos Raimundos,
09:56e que ele faz regravações.
09:58É engraçado assim,
09:59porque a energia,
10:00que eu me lembro disso,
10:01de ter visto,
10:01a primeira vez que eu vi o Raimundos
10:02aqui em Belo Horizonte,
10:04a energia do show
10:04era um negócio absurdo.
10:05Não era completamente diferente?
10:07Era uma coisa assim,
10:07que realmente...
10:08E com todo respeito
10:09às bandes que tocavam antes
10:10e depois,
10:10era um massacre,
10:11você não conseguia lembrar
10:13do que tinha tocado antes
10:14ou depois dos Raimundos,
10:15porque era uma coisa tão absurda,
10:16a potência,
10:17e o inusitado
10:18daquele frontman
10:20fazendo rimas,
10:20assim,
10:21repentes praticamente,
10:22e a música vinha super pesada
10:23e parava
10:24e começava um forró,
10:25sabe assim?
10:25Era uma coisa...
10:26E aí a gente tem que lembrar,
10:27Carlos...
10:28E você começava a sorrir,
10:29sabe?
10:29Você tinha...
10:29Desculpa,
10:30só que eu lembrei da imagem agora,
10:31que foi de repente,
10:33o pessoal começava a dar moche
10:34lá no show dos Raimundos,
10:35e o próprio Rodolfo
10:36também fazia isso,
10:37e aí começava o forró,
10:38aí o pessoal começava a dançar forró,
10:39então você tinha metaleiro,
10:40porque também tinha mistura
10:41lá de Brasília,
10:42de cabeludo,
10:43metaleiro,
10:43com o pessoal mais hardcore,
10:45de cabeça raspada,
10:46entendeu?
10:46Se misturava
10:47e começava a dançar forró,
10:48sabe?
10:48Então era uma coisa
10:48absolutamente inusitada,
10:50porque a gente está falando
10:51de uma época também,
10:52Chico Sainz vem um pouco depois,
10:53com Nação Zumbi,
10:54fazendo a fusão
10:55com os ritmos regionais,
10:56os Paralamas faziam isso,
10:58mas os Paralamas,
10:59a própria Legião,
11:00as bandas dos anos 80,
11:01não eram muito referência
11:02para essas bandas
11:03neste começo,
11:04entendeu?
11:04Nos anos 90.
11:05Então essa mistura
11:05de ritmos regionais
11:06que o Skunk faz depois,
11:07mas só bem do primeiro
11:09e começa com o Reggae,
11:10depois é que ele vem
11:10com o Calango,
11:11isso é só no segundo
11:12ou terceiro disco
11:13do Skunk que aparece.
11:14Então essa mistura
11:15era muito original,
11:16especialmente para um tipo
11:17de música que a gente
11:19pode falar que era
11:19chamada pejorativamente,
11:21eu fico à vontade de falar
11:22porque eu sou paraibano,
11:23mas de música de Paraíba,
11:24entendeu?
11:25Assim,
11:25essa era a música do porteiro,
11:26do trabalhador,
11:27do pau de arara,
11:28e muitos dos fãs do rock
11:30eram pessoas de classe média alta,
11:31então eles ouviam essa música
11:33por meio do radinho de pilha
11:34dos seus funcionários,
11:35dos seus empregados,
11:36da empregada,
11:36da empregada,
11:37entendeu?
11:38E isso o Rodolfo
11:39nunca teve,
11:40sabe?
11:41Essa separação,
11:42ele colocou mesmo
11:43a música brasileira,
11:44e o que eu sempre chamo
11:45é a verdadeira música,
11:47eu chamo de MBP,
11:48que é a música brasileira popular,
11:49porque eu acho bem diferente
11:51da MPB,
11:52que é a música popular brasileira
11:53de gênios como Chico,
11:54Caetano e Gil,
11:55mas que muitos deles,
11:57alguns deles,
11:57não tem músicas tão populares
11:58como Severino Chique Chique,
12:00por exemplo,
12:00como Luiz Gonzaga,
12:01como Asa Branca,
12:02entendeu?
12:02São músicas mais populares
12:04que todo mundo conhece
12:05do que músicas da MPB.
12:07Você citou o Paralamas e tal,
12:10como que estava essa cena
12:11em Brasília?
12:12A gente já contextualizou um pouco,
12:14quando você foi no show,
12:16tinha hardcore acontecendo,
12:18era comum ter Roda Punk,
12:20ter essa pegada?
12:22A gente está falando
12:22de um aumento primeiro,
12:23o heavy metal sempre foi forte
12:24também em Brasília,
12:25não tão forte como o Sepultura,
12:27que sempre foi uma referência,
12:28mas tinha uma banda
12:29chamada Sepultura,
12:30inclusive em Brasília,
12:31que deu um processo longo
12:32por causa do nome,
12:33enfim,
12:33da banda,
12:34o hard rock também
12:36tinha uma tradição muito forte,
12:37o rock sempre foi muito forte
12:37em Brasília,
12:38desde os anos 70,
12:39na verdade,
12:39anterior ao movimento
12:40dos anos 80,
12:41na cena de rock progressivo também,
12:43então assim,
12:44era, digamos assim,
12:46a primeira música urbana
12:47de Brasília,
12:48não é à toa que esse é o nome
12:49da música do Capital Inicial,
12:50que acaba se tornando
12:51meio que nome,
12:52e não é à toa que o Renato
12:54chamava o movimento todo
12:55de Legião Urbana,
12:56na verdade,
12:57só para fazer
12:57esse pequeno parênteses,
12:58porque eu vou fazer
12:59uma comparação
12:59entre esses dois momentos,
13:01o que o Renato Russo
13:02chamava de Legião Urbana,
13:03na verdade,
13:03era o movimento
13:04de todas as bandas
13:05de Brasília,
13:05o que ele pretendia fazer
13:07era fazer um projeto
13:08no Cauê e o Bonfai
13:09e iam se revezando
13:10com músicos convidados,
13:12tipo o André Miller
13:13da Pleb Hood,
13:14outros convidados,
13:14e eles iam ficar tocando
13:15para formar
13:17a Legião Urbana,
13:18mas isso acaba
13:19virando depois
13:20a própria banda.
13:20O próprio conceito
13:21de Legião.
13:22Só que essas bandas,
13:23tanto o Capital Inicial,
13:24quanto a Pleb Hood,
13:25quanto a Legião Urbana,
13:27já tinham saído da cidade,
13:28então havia certo vácuo,
13:30um certo vácuo
13:30de ocupação
13:31e toda nova geração
13:32quer
13:34contestar a geração anterior.
13:35Então não era
13:36uma grande referência,
13:37pelo contrário,
13:37acho que até
13:38eles não eram
13:39um som que eles ouviam,
13:40Legião,
13:41Pleb,
13:41Capital,
13:42entendeu?
13:43Só depois,
13:44até que eles fazem,
13:44no especial mostram,
13:46eles falam um pouco
13:47sobre isso,
13:47mas eu vi recentemente
13:48também um vídeo
13:49do Caniço cantando
13:51num show dos Raimundos,
13:52Daniel na Calva dos Leões,
13:54na Legião Urbana,
13:55entendeu?
13:55Mas não era uma referência
13:56para eles.
13:57Mas o que era referência
13:58é que já havia
13:59uma tradição na cidade,
14:00uma cidade nova,
14:01uma cidade de 50 anos de idade,
14:03nem tinham chegado
14:03aos 50 anos,
14:04entendeu?
14:04Então é uma cidade nova
14:06e já tem essa tradição
14:07do rock.
14:08E o que acontece,
14:09cara,
14:09é o seguinte,
14:09é que quando os Raimundos
14:10começam a fazer isso,
14:11é isso que o Paulo,
14:13e fico feliz,
14:13eu vi que foi a mesma sensação
14:15que eu tive lá,
14:16eu vi pela primeira vez,
14:17que era,
14:19primeiro,
14:19é muito curioso isso,
14:20porque mesmo como
14:21eu estava começando
14:22na minha profissão,
14:23mas sabe quando você tem certeza
14:24que a história está sendo escrita?
14:26Você tem certeza absoluta
14:27que tem uma história
14:28que está sendo escrita
14:28e que você precisa contá-la
14:29e que você vai levar
14:31para as páginas do jornal,
14:32sabe assim,
14:33e vai ter,
14:34isso vai ser um documento
14:35como acabou sendo,
14:35porque era muito óbvio,
14:36é isso que o Paulo está dizendo,
14:38era muito gritante a diferença,
14:40não vou falar,
14:41não que os Raimundos
14:42fossem os melhores músicos,
14:43muito longe disso,
14:44entendeu?
14:44Não é por aí,
14:45não é pelo virtuosismo,
14:46não é isso,
14:46mas é pelo impacto
14:47que a banda causava
14:48e a química
14:49entre os quatro integrantes.
14:50É na série mesmo
14:51o Miranda fala,
14:52Tosqueira,
14:53Tosqueira Boa,
14:54que é um pouco
14:55a pegada punk,
14:56eu acho que isso
14:57está um pouco ligado ao punk.
14:59Havia dezenas
14:59de bandas toscas também,
15:00não era só isso,
15:01tinha Tosqueira,
15:02mas tinha essa picadinha,
15:03tinha uma personalidade própria,
15:03e tinha uma química
15:04entre a banda,
15:04e tinha isso que o Paulo
15:05está descrevendo,
15:06havia algo ali
15:07que era maior
15:07do que os quatro juntos
15:09formavam algo maior,
15:10é isso que eu quero dizer.
15:11O que eu achei
15:11sempre foi isso,
15:13eles juntos
15:14funcionavam muito bem,
15:15mais do que você,
15:17ninguém ia a um show
15:18de punk rock
15:18para ver um excelente
15:20solista,
15:21nada disso.
15:21Exato.
15:22E o que vale muito
15:23é isso.
15:23E aí eu queria te perguntar
15:25sobre os passos seguintes
15:27da banda,
15:27porque foi uma banda
15:28que surgiu de certa forma
15:29muito rápido,
15:30você está falando
15:30de 93 e 94
15:31saiu o primeiro disco.
15:33Isso,
15:33que é esse aqui,
15:34é o CD,
15:35esse disco é gravado,
15:37eles são contratados
15:38pelo selo Banguela,
15:39que era da PMG.
15:40Conta um pouco
15:40essa história
15:41de você ter falado
15:42com o Miranda,
15:43que na série
15:44é um pouco dita
15:45também a história.
15:46O que eu conto
15:48na série
15:48do Andar na Pedra
15:49é que os fatos
15:50acontecem
15:50como o Paulo falou,
15:51é muito rápido,
15:52porque veja bem,
15:53aqui a gente está falando
15:54que na garagem,
15:56na sessão garagem,
15:57que os Raimundos
15:57foram o grande destaque,
15:58o primeiro lugar
15:59do top 10
16:00dos destaques
16:00do garagem de 93.
16:03Só que aqui
16:03eles não tinham
16:04gravado o disco ainda,
16:04então no primeiro semestre
16:05de 94 eles começam
16:06a gravar,
16:07eles vão gravar o disco
16:07e lançam esse disco,
16:08Raimundos.
16:09Como é que eles chegam,
16:10como é que esse disco
16:12nasce?
16:12Nasce da seguinte forma,
16:14depois que eu faço
16:15essa matéria
16:16com a fita demo,
16:17eu chamo a atenção,
16:18eu era o correspondente
16:19da revista Biz em Brasília.
16:21Para quem não sabe,
16:21a revista Biz
16:22era uma referência,
16:23era a grande referência
16:24da música jovem,
16:25digamos assim,
16:26especialmente do rock,
16:27do pop,
16:28do Brasil.
16:30E eu me torno
16:32uma espécie de correspondente
16:33da revista Biz em Brasília.
16:35Aqui em BH
16:35era o Arthur Conto Duarte,
16:37uma grande referência,
16:38sempre li os textos dele,
16:39e havia,
16:40o Dolabella chegou
16:41a colaborar também
16:42durante um tempo,
16:43então havia correspondentes
16:44espalhados pelo Brasil,
16:45informais,
16:46não tinha contrato,
16:47não era nada disso,
16:47eram indicações,
16:48a gente emplacava matérias
16:49como freelancers.
16:50E em algum momento,
16:52eu também escrevia críticas
16:53de discos
16:54naquela sessão
16:55de lançamento
16:56de discoteca básica
16:57da Biz.
16:57Em algum momento,
16:59o Miranda,
16:59ele trabalhava
17:00na revista Biz
17:01e ele era o editor
17:03de uma sessão chamada
17:04Salvo engano,
17:04Conexão Brasil,
17:05algo assim.
17:06E ele pede uma matéria
17:08sobre a cena de Brasília,
17:09e eu preparo
17:09essa cena de Brasília,
17:10essa matéria,
17:11mando para ele,
17:11essa matéria é publicada,
17:12e logo depois que é publicada,
17:14ou um pouco antes,
17:15ele me liga
17:17e fala,
17:18o Carlos,
17:18o velhinho,
17:19daquele jeito dele,
17:19o Miranda era um cara,
17:21assim,
17:21uma figura incrível,
17:22muito carismática,
17:23muito característica
17:25nas suas expressões.
17:26Não vou imitá-la,
17:27porque tem gente
17:28que faz isso mesmo,
17:28mas aquele jeito gaúcho,
17:30da chinelagem
17:31que ele falava,
17:32enfim,
17:33o velhinho,
17:33e essa história aí
17:34de banda que mistura
17:35com forró,
17:35com hardcore,
17:36cara,
17:36isso deve ser muito bom,
17:38muito ruim,
17:39manda isso aqui para mim,
17:40tem como mandar?
17:41E aí foi assim que surgiu,
17:42então a gente pegou,
17:43eu pedi ao Fred,
17:44que ela sempre foi,
17:45a Gilma,
17:45eu como empresário dos Raimundos,
17:46então era o cara que organizava,
17:48a gente acha que isso ficou
17:49muito claro na série,
17:50esse foi o papel dele,
17:51mais até do que a virtuosa
17:53na bateria.
17:54Exatamente,
17:54de ser o cara que
17:55deu norte da banda,
17:57deu profissionalismo,
17:58colocou a banda no caminho,
17:59então eu falo com o Fred
18:01e pego uma cópia da fita,
18:03pego mais uma fita
18:03e faço um malote,
18:05para quem lembra também,
18:07o malote era um envelope mesmo,
18:09que a gente fazia,
18:11eu fui na sede da Editora Abril,
18:12que a revista BIS pertencia
18:13à Editora Abril,
18:14e mandei lá um envelope
18:15com diversas fitas,
18:16cassete,
18:17das bandas de Brasília,
18:18e uma delas era o Raimundos,
18:20e então é assim que o Miranda
18:21ouve o Raimundos
18:21pela primeira vez,
18:22se apaixona,
18:23fala que é sensacional
18:24e mostra essa mesma fita
18:26para os integrantes do Titãs,
18:28que estavam se juntando,
18:30três integrantes,
18:31para montar o selo Banguela.
18:32Que era dentro da Warner.
18:34Da Warner, exatamente.
18:35E o Miranda sai da revista BIS
18:37para se tornar o diretor
18:37do selo Banguela.
18:38Isso acontece,
18:39como o Paulo antes destacou,
18:40em menos de um ano,
18:40isso é um processo muito rápido,
18:41e enquanto isso,
18:42o Raimundos está fazendo muito show,
18:44abrindo para os Titãs também,
18:45salvo engano,
18:46eles abriram a turnê
18:47do Titanomaquia,
18:48então já era um show maior,
18:49entendeu assim.
18:51E, de novo,
18:51eles continuavam impressionando,
18:53entendeu assim.
18:53E entre isso,
18:55enquanto isso,
18:55era muito doido,
18:56porque eles continuavam frequentando,
18:59a gente tinha esse programa
18:59de rádio lá em Brasília,
19:02e a porta ficava aberta,
19:04assim,
19:04na sexta-feira à noite,
19:05então os músicos passavam por lá,
19:06conversavam um pouco,
19:08entravam no ar,
19:08e o Fred ficava atendendo o telefone,
19:10ele era o nosso telefonista,
19:11entendeu assim.
19:11Falava, gente,
19:12se quiser falar com o Fred,
19:13ele está aqui,
19:13liga para ele,
19:14mas participa da promoção,
19:16ele anotava lá,
19:16entendeu,
19:17saia,
19:17aí chegava o Rodolfo,
19:18chegava o integrante de outras bandas,
19:20entendeu,
19:20assim,
19:20então era meio como,
19:21havia uma cena,
19:22entendeu,
19:22o que estava acontecendo,
19:23e de lá a gente saía,
19:24muitas vezes,
19:25para ver shows de bandas,
19:26e para a noite,
19:27isso fazia parte dessa cena,
19:29a gente está falando entre 92 e 93,
19:31e a gente ouvia juntos,
19:32eu lembro da primeira vez
19:33que a gente tocou Nirvana,
19:34por exemplo,
19:34na programação,
19:35do Cult 22,
19:36e de músicas antigas também,
19:38então a gente se divertia
19:38com essas descobertas também,
19:40era o momento da descoberta do rock,
19:42então foi assim que surge,
19:44então,
19:45o contato com o Miranda,
19:47e aí depois disso,
19:48o Miranda faz o contrato,
19:50com a Warner,
19:52com a Warner,
19:52com o Banguela,
19:53e eu e o Miranda,
19:54é o produtor desse disco,
19:55o que é o primeiro disco,
19:56o Raimundo,
19:56que eles aproveitam muitas músicas,
19:58três músicas estavam na demo,
20:00compõem outras,
20:01e aí sim,
20:02aí começa a história,
20:03ganha o Brasil inteiro.
20:05E a impressão que você tinha,
20:07assim,
20:07dessa coisa muito nova,
20:08da história estar sendo escrita,
20:09você sentia que isso era,
20:11todo mundo tinha essa percepção nos shows,
20:14assim,
20:14eles chegavam e dominavam o ambiente mesmo,
20:17ou no início,
20:19ouve muito barulho?
20:20Não,
20:21não,
20:21dependia da qualidade do som também,
20:23muitas vezes a gente não conseguia ouvir absolutamente nada
20:25do que o Rodolfo estava cantando,
20:27porque o Digão colocava a guitarra no talo,
20:30o Fred também é uma mão pesada,
20:31o Caniço lá,
20:32entendeu?
20:33E o Rodolfo,
20:34a voz dele é ótima,
20:35mas ela não é uma voz gutural,
20:37não é a voz do Max Cavaleira,
20:39entendeu?
20:40A série mostra isso,
20:41porque eles tinham uma briga,
20:43o Caniço com o Digão,
20:45sobre a altura dos instrumentos,
20:47que um sempre reclamava da altura do instrumento do outro,
20:50isso fica muito claro,
20:51e eu queria te perguntar justamente sobre isso,
20:53você já notava naquela época,
20:54o que a série deixa muito claro,
20:55que havia ali uma série de problemas,
20:59de relacionamento entre eles?
21:01Interessante você falar isso,
21:02Paulo,
21:02porque eu vi a série,
21:04como você falou,
21:04eu dei um depoimento para a série,
21:06mas só vi a série pronta,
21:07como todos nós,
21:08agora,
21:09dois anos depois,
21:09esse depoimento foi gravado dois anos atrás.
21:11Primeiro,
21:12eu queria destacar,
21:12eu queria parabenizar o diretor Daniel,
21:15porque eu acho que ele fez um trabalho impecável,
21:17assim,
21:17não pela minha entrevista,
21:19até porque eu não tenho nenhuma participação,
21:20além de ter dado a entrevista,
21:21então eu não participei de edição,
21:22não participei de sugestão de pauta,
21:24nada disso,
21:24então o mérito é todo da equipe deles,
21:27mas eu acho o trabalho impecável,
21:28sabe por quê?
21:30pelo que o Paulão destacou agora,
21:31eu acho que ele conseguiu narrar essa história
21:36na voz dos quatro integrantes,
21:39mesmo que o Caniço não esteja mais em nós,
21:41mas ele tinha ainda a gravação da entrevista,
21:45que ele chama de entrevista de guia,
21:47que ele ia preparar,
21:48a preparatória da entrevista que ele ia gravar,
21:50então isso foi muito feliz,
21:51ele ter conseguido fazer disso também,
21:54uma narração que abre espaço
21:58para que todos nós tenhamos conclusões,
22:01como o Paulão falou,
22:03sobre o que levou o Raimundos ao estrelato
22:05e também a terminar depois,
22:07eu acho que ele não fecha uma teoria,
22:09ele não nos guia nesse sentido,
22:11pelo contrário,
22:11quem nos guia são os quatro,
22:13e aí às vezes há versões conflitantes
22:15dentro dos próprios depoimentos,
22:17e curioso,
22:18quando eu acabei de assistir,
22:19são cinco episódios?
22:20Cinco,
22:21cinco episódios,
22:23a frase que me veio,
22:24a cabeça,
22:25foi da Legião Urbana,
22:27foi de eu era lobisomem juvenil,
22:30que todos têm suas próprias razões,
22:32assim,
22:32que ficou para mim muito claro,
22:33que respondendo a sua pergunta,
22:35Paulo,
22:35o que para mim já estava,
22:36quando eu conhecia mais o Fred,
22:38o Fred é um amigo pessoal mesmo,
22:40o Rodolfo tinha um contato maior,
22:41a gente tinha uma afinidade
22:42por conta da Paraíba e tudo,
22:43mas nunca foi tão próximo,
22:45digamos,
22:45entrevistei ele algumas vezes,
22:46o Candício não era tão próximo,
22:47mas a gente sempre se brincava,
22:49zoava,
22:50sempre sim,
22:51especialmente por ter feito,
22:52digamos,
22:52esse primeiro contato dele,
22:54com a gravadora,
22:55então assim,
22:56a gente sempre se encontrava,
22:57a gente se contava,
22:58lembrava disso e tudo,
23:00mas o que me chamou atenção foi,
23:02ficou na minha cabeça essa frase da Legião,
23:03que todos têm suas próprias razões,
23:05assim,
23:05eu não consigo julgar ninguém,
23:07nenhum dos quatro,
23:08pelo que está dito,
23:10pelo contrário,
23:10eu já conhecia,
23:12não com tantos detalhes,
23:13obviamente,
23:13mas os motivos que levaram o Rodolfo
23:15a sair da banda,
23:17entendi também a mágoa,
23:18especialmente do Fred,
23:19com quem eu falei,
23:20entrevistei,
23:21e o do Digão,
23:22logo depois,
23:23pela forma que isso foi conduzido,
23:25que foi de uma forma muito intempestiva,
23:26foi numa reunião,
23:27acabou,
23:28estou saindo da banda,
23:29e ele sempre falava,
23:30isso aqui não é assim,
23:31isso aqui agora,
23:31você tem famílias para sustentar,
23:33você quer uma empresa,
23:33tem os contratos,
23:35tem os contratos,
23:35tem os contratos,
23:35que tinha agitamento recebido,
23:37exatamente,
23:37a série mostra ainda,
23:40mas eu entendi essa mágoa
23:41que eles carregavam,
23:42mas eu já entendia que,
23:44para o Rodolfo,
23:44e isso agora acho que foi muito claro na série,
23:46que se ele não fizesse isso,
23:48ele teria tido o mesmo destino,
23:49talvez,
23:49do chorão do Charlie Brown,
23:50entendeu,
23:50ele não estivesse aqui para contar a história,
23:53então eu acho que o Daniel,
23:55o diretor,
23:56foi muito feliz,
23:57em conseguir deixar o Rodolfo à vontade,
23:59para dar um depoimento tão sincero,
24:01então eu acho que também tem isso,
24:03não me parece,
24:04eu conheço,
24:05de alguma forma,
24:06a gente não conhece bem todo mundo,
24:07mas eu acho que eu conheço bem os quatro,
24:09mesmo o Canecio que está gravado ali,
24:11eu vejo os quatro muito transparentes,
24:13não vejo ninguém escondendo nada,
24:15muito pelo contrário,
24:15isso é muito raro,
24:16em um documentário,
24:17e te gerou,
24:19em mim gerou isso,
24:20uma vontade louca de ouvir os sons de novo,
24:22eu comecei a escutar os discos,
24:24e a minha mulher virou em casa,
24:25e falou assim,
24:25mas de novo Raimundis,
24:27agora estou na fase Raimundis,
24:28voltei,
24:29espera só um pouco,
24:30você chegou a escutar muito?
24:31Sim,
24:32fazia tempo que eu não escutava,
24:34e fui ver de novo,
24:35e o que eu fiquei impressionado com,
24:37também com o documentário,
24:39foi a incrível capacidade que eles tiveram,
24:44de recuperar trechos de shows,
24:46que nos devolveram,
24:48Paula,
24:48aquela sensação que a gente teve de ver os shows,
24:50de repente a gente estava ali de novo,
24:52eu fico até arrepiado,
24:53lembra,
24:53parecia que a gente estava nos anos 90 de novo,
24:55e essa sensação,
24:56aí eu não estou falando mais,
24:57era única,
24:58porque quando você vê aquele mar de gente pulando,
25:01era o início do show dos Raimundos,
25:03quando eles começavam a tocar,
25:04era uma coisa absurda,
25:05e o documentário consegue trazer isso de novo,
25:08mesmo nos momentos mais dramáticos,
25:10aquelas mortes dos shows em Santos,
25:12então é uma banda com uma trajetória muito acidentada também,
25:15se você for parar para pensar,
25:16tem um episódio que não está no documentário,
25:18mas que correu Brasília,
25:21pouco antes da gravação do primeiro disco dos Raimundos,
25:25que num show que eles fizeram,
25:26talvez o primeiro show deles no Circo Voador,
25:29no final do show,
25:29o Fred foi dar um morte,
25:30só que a roda abriu e ele caiu de cabeça,
25:33e ele ficou internado na UTI,
25:35a vida é morte por dois dias,
25:37ele ficou com um hematoma no cérebro,
25:39um coágulo no cérebro,
25:40e até alguns,
25:41e de novo,
25:42nós estamos falando de época que não tem internet,
25:44não tem redes sociais,
25:45e teve um momento que correu boato,
25:47e assim,
25:48pouca gente tinha celular também,
25:49ninguém filmava,
25:50porque os celulares não tinham essa câmera com capacidade de filmar,
25:53ninguém carregava a câmera para filmar,
25:54pouca gente,
25:55especialmente da minha turma,
25:56não tinha celular,
25:57era uma coisa inacessível,
25:58o celular era aquele,
26:00motorola enorme,
26:01com fio,
26:02antes dos anos 2000,
26:02quase ninguém tinha,
26:03então correu o boato em Brasília,
26:05que o Fred tinha morrido,
26:06não tinha resistido a cirurgia,
26:07entendeu,
26:08e aí,
26:09isso durou algumas horas,
26:10então os boatos também assim,
26:13corriam,
26:13como hoje corre no Zap,
26:15entendeu,
26:15corria na época,
26:16e isso foi um momento,
26:17um dos momentos mais dramáticos também,
26:18por isso que o Fred,
26:19inclusive aqui,
26:19no encaixe do CD dos Raimundos,
26:23aqui é legal,
26:24porque os quatro autografaram,
26:26o encaixe do CD,
26:27isso em 94,
26:28aqui é o Fred,
26:28o cabelo bem curtinho,
26:29está vendo,
26:30ele nunca mais usou,
26:31ele sempre usava o cabelo,
26:32assim,
26:32mais alto,
26:34caracolado,
26:34maior,
26:34e aqui ele está de cabelo bem curto,
26:36porque depois que ele fez a cirurgia,
26:37ele fez,
26:37e que teve um coágulo,
26:39e foi,
26:40agora o episódio engraçado,
26:41é que um dos amigos nossos da turma,
26:43na época falou,
26:43você não sabe o que aconteceu com o Fred,
26:45ele falou,
26:45o que foi?
26:45não,
26:46ele está internado,
26:46ele está com água no cérebro,
26:49a linha cruzada,
26:50assim,
26:50o cara não entendeu,
26:51o que é água no cérebro?
26:52Ele está com água no cérebro,
26:54era o coágulo no cérebro,
26:55entendeu?
26:56Então,
26:56assim,
26:56é um momento,
26:57o que eu acho curioso,
26:58Otávio e Paulão,
27:00é que,
27:01a gente está falando de 30 anos atrás,
27:02mas parece que foram 100 anos atrás,
27:03porque o mundo mudou tanto,
27:05é verdade,
27:05e a forma de consumo da música,
27:07mudou tanto,
27:08assim,
27:09primeiro,
27:09nenhum desses shows,
27:10eu não tenho,
27:10por exemplo,
27:11nenhum registro de fotos com os Raimundos,
27:13a gente não ia para o filme fazer foto,
27:14eu não tenho,
27:15eu não tenho,
27:16eu não era fotógrafo,
27:16agora,
27:17por outro lado,
27:17também isso foi bacana,
27:18ele entrevistado no documentário,
27:20alguns fotógrafos da época,
27:21faziam esse documento,
27:22então,
27:22você tem o Zé Maria Palmieri,
27:23que dá um bom depoimento lá,
27:25você tem o Patrick Grossner,
27:27que aliás,
27:28eu recomendo para quem quiser assistir,
27:29tem um documentário chamado
27:31Geração Baré Cola,
27:32que é entrevistando os Raimundos,
27:34e outros integrantes de bandas da época,
27:36Little Quail,
27:36especialmente,
27:37que é uma banda muito importante
27:38para a formação dos Raimundos,
27:39o Gabriel tem,
27:40dá um depoimento importante,
27:41e o Little Quail,
27:42eu acho que era uma banda,
27:43num certo momento,
27:44Paulo,
27:45me corrija se eu estiver errado,
27:45era uma banda mais conhecida em BH
27:47do que os Raimundos,
27:47né?
27:48Era muito conhecida,
27:49sim,
27:49eles fizeram shows muito bons aqui,
27:51isso,
27:51é uma banda conhecida pela qualidade
27:52dos seus shows,
27:53Eles eram muito profissionais,
27:56acima da média
27:57do que a gente estava acostumado,
27:58então,
27:59isso,
28:00o Gabriel sempre gostou muito
28:01de as coisas estarem boas no palco,
28:04e isso acabou influenciando
28:05muita gente aqui também,
28:07e abrindo portas,
28:08eu acho que abriu porta
28:08para o Raimundos,
28:09por exemplo,
28:09e eles eram parceiros,
28:11assim,
28:12aquela música do sucesso dos Raimundos
28:13é a música do Gabriel,
28:14né?
28:15Então,
28:15o Gabriel falou que eu sei,
28:16também parece que eles fizeram shows,
28:18os maiores,
28:18os maiores sucessos,
28:19o Gabriel falou que os maiores sucessos
28:20são com o Raimundos,
28:21não são...
28:22Exatamente,
28:23e o Little Crow era uma banda
28:24que juntava muita gente,
28:25entendeu?
28:25Assim,
28:25em Brasília,
28:26uma das mãos mais populares
28:27dessa nova geração,
28:29então,
28:29o que eu acho,
28:30e eu queria saber,
28:30na verdade,
28:31a opinião de vocês também,
28:32mas o que me chamou
28:32muita atenção
28:33foi o fato de a gente ver
28:34quatro pessoas
28:37refletindo sobre
28:37suas próprias vidas,
28:38mais até do que,
28:39eu acho que é um documentário,
28:40claro,
28:41sou suspeito para falar,
28:41não só por estar lá,
28:42mas porque o gênero musical
28:44me interessa,
28:44a música me interessa,
28:46mas eu acho que é um documentário
28:47que até uma pessoa
28:47que não gosta de música
28:48pode ver pela trajetória
28:50dessas quatro pessoas,
28:52e outras pessoas
28:52que dão depoimentos
28:53muito importantes,
28:54por exemplo,
28:54o Guiminha,
28:55que é o Guilherme,
28:56que é o técnico de som
28:56dos Raimundos,
28:57que conta as histórias,
28:59e é o cara que estava lá
29:00o tempo todo,
29:01então,
29:01se tem alguém que conhece
29:01muito bem a história,
29:03é o Guiminha,
29:03que está a depoimento também,
29:05então,
29:05assim,
29:05ele foi muito feliz também
29:06na escolha,
29:07e acho que até
29:07algumas opções que ele fez,
29:08que algumas eu já vi
29:09que foram questionadas,
29:10que,
29:10por exemplo,
29:10não entrevistar os integrantes
29:12da formação atual dos Raimundos,
29:14mas eu até entendo,
29:15porque eu acho que ele está falando
29:16É um recorte ali.
29:17Um recorte daqueles quatro.
29:18Daquela época,
29:18exatamente,
29:19da primeira fase do Raimundos,
29:21que eram os quatro,
29:23a formação original.
29:25Eu realmente fiquei impressionado
29:26com isso,
29:26como você destacou,
29:29existe o que a gente imagina
29:31e o que o mundo real.
29:32Às vezes,
29:33a gente tem uma frase
29:35do Gabriel Tomás
29:35no documentário
29:37que ele fala assim,
29:38o que acaba com a banda
29:39é pouco dinheiro
29:39ou muito dinheiro.
29:40Isso.
29:41Então,
29:41ele falou que não é só o Raimundos,
29:43várias bandas,
29:43e isso ficou,
29:44eu fiquei lembrando,
29:45quantas bandas já,
29:45já se deram mal por isso,
29:47porque o ego foi maior,
29:49porque o dinheiro falou mais alto.
29:50E não foi o caso do Raimundos.
29:51O caso do Raimundos
29:52foram decisões pessoais,
29:54pelo que eu entendi,
29:56eu já conheci um pouco a história.
29:58Parte das tretas
30:00começaram um pouco
30:00por conta de grana,
30:02mas não era só sobre isso.
30:03Não, não era.
30:04Você mesmo comentou
30:05das questões musicais,
30:07quando o Caniço errava,
30:09o Digão ficava puto,
30:10ou então estava alto demais,
30:11baixo demais.
30:12Eu gostei do que eles falaram
30:14que teve um produtor
30:16do Rio de Janeiro,
30:17que eu comentei,
30:17que falou,
30:18não,
30:18abaixa a guitarra,
30:20para de falar palavrão,
30:22na boa,
30:23esse vocalista aí
30:24precisa fazer uma aula de dicção.
30:25Eu fiquei imaginando
30:26esse produtor
30:27assistindo a essa série hoje,
30:29que falta de percepção
30:32do quão novo era aquilo.
30:34Mas realmente
30:34não conversava com nada,
30:36Carlos,
30:37que estava ali.
30:38mas é isso que eu acho
30:39muito interessante.
30:40Eu acho que os Raimundos
30:43fizeram,
30:44eles foram precursores
30:45de uma geração
30:46que misturava o rock
30:47com os ritmos regionais,
30:48entendeu?
30:49Mas de uma forma
30:50tão pesada
30:51que depois se tornou até,
30:52foi muito limitada
30:53e nunca com o mesmo êxito,
30:55entendeu?
30:56E eu acho que
30:57todos meio que se deu mal,
30:58ficou muito evidente
30:59que era uma imitação
31:00dos Raimundos,
31:01porque isso é outra coisa
31:02que eu posso falar,
31:04se tem uma coisa
31:04que não teve,
31:05não teve nenhuma armação
31:06dos Raimundos.
31:06Eles são aquilo mesmo,
31:08sempre foram aquilo.
31:09Eu até conto uma história
31:11que uma das primeiras vezes
31:12que eu fui entrevistar
31:13o Rodolfo,
31:14eu fui perguntar para ele
31:15sobre uma referência
31:17na letra de Beabá,
31:19no primeiro disco,
31:19e eu perguntei,
31:20Rodolfo,
31:21e interessante a sua referência
31:22à morte e vida severina,
31:24do João Cabral de Melo Neto,
31:25como é que você leu
31:26muito o livro
31:26do João Cabral de Melo Neto
31:28e outros poetas nordestinos,
31:30pernambucanos,
31:30ele,
31:31não caso,
31:31eu nunca li,
31:32do que você está falando?
31:34Então,
31:34só,
31:35ele sabia a expressão
31:36morte e vida severina,
31:37mas ele não tinha lido,
31:39talvez ele tenha ouvido
31:41dos pais,
31:41a música,
31:42a versão musicada
31:43pelo Chico Buarque,
31:44talvez ele tenha visto
31:45o especial que a Globo
31:46fez nos anos 80,
31:47não sabemos,
31:47mas o que sabemos
31:48é que ele é,
31:49e isso eu acho,
31:50eu continuo defendendo,
31:51eu acho que o Rodolfo
31:51foi um dos maiores
31:52eletristas dos anos 90,
31:53pela capacidade
31:55que ele tinha
31:56de colocar
31:57num ritmo
31:58muito difícil de letrar,
31:59que é o Hardcore,
32:00músicas muito rápidas,
32:01toda essa verba
32:02nordestina,
32:03e colocando elementos
32:04que iam surgindo
32:05e que ele ia incorporando
32:06e fazendo disso
32:07uma metralhadora,
32:08entendeu?
32:08Uma capacidade de absorver
32:09gotas de arte
32:10de outros lados ali,
32:12e misturar rap
32:12com repente,
32:13tem uma música
32:14chamada Rapante,
32:15rap com repente,
32:17entendeu?
32:17E tá na mesma prateleira
32:19colocar o Genival Lacerda,
32:21o Zenilton,
32:22pra ele,
32:22o Zenilton tem o mesmo peso
32:23do Mike Mill
32:25e do Suicide Tennis,
32:26entendeu?
32:27Pra ele é a mesma coisa,
32:28ele tá no mesmo,
32:29ele não faz distinção
32:30entre isso.
32:30E aí fica aquela impressão,
32:32pelo menos ficou pra mim
32:32aquela impressão assim,
32:33que eles estavam,
32:35a hora que eles falam lá
32:36que eles não queriam ser
32:37uma banda engraçadinha
32:38porque surge o Mamonas Assassinas,
32:39e algumas das músicas deles
32:41que fizeram muito sucesso
32:42eram músicas
32:43de um bom humor absurdo,
32:45assim,
32:45só que era diferente.
32:47E eles fizeram muito sucesso,
32:50e eles eram músicas,
32:51eles mesmos falam
32:51que eram músicas de brincadeira,
32:52que não era de repente
32:53nem pra ter entrado no disco.
32:55Fica essa impressão.
32:56Mas aí depois vem o Lapada,
32:58que é mais pesada.
32:59E é exatamente,
33:00eles meio que renegando
33:01esse passado de humor,
33:04mas que nunca abandonaram,
33:05e que depois eles retomam com tudo
33:08no solo 4EVs, né?
33:10que aqui que a gente faz,
33:12essa matéria saiu
33:12no Correio Brasiliense
33:13em 1999,
33:15que é a volta,
33:15digamos,
33:16ao filho pródigo,
33:17assim,
33:17é a volta dos Raimundos
33:18fazer um grande show em Brasília,
33:19mas já consagrados.
33:20E é com isso só no 4EVs,
33:22assim,
33:22essa sessão de fotos aqui,
33:24a gente fez em frente
33:25ao Palácio Panalto,
33:26nas Praças Três Poderes,
33:27a gente levou um sofá pra lá,
33:28eles vestiram essas capas de chuva,
33:29não me pergunte por quê,
33:31mas enfim,
33:31estão os quatro ali,
33:32e eu acho que acabou sendo
33:33um documento valioso,
33:35porque olha a felicidade deles,
33:36assim,
33:36de estarmos,
33:37e qual era a ideia aqui?
33:38Raimundos no centro do poder,
33:39entendeu?
33:40o poder,
33:40novamente no centro do poder,
33:42uma banda de Brasília,
33:43e meio que provocando
33:44uma afronta,
33:45entendeu?
33:45O poder constituído na cidade,
33:47e é isso,
33:47os mais pedidos,
33:48tinha a música mais pedida,
33:50e aqui tinha os fãs
33:52perguntando aos seus ídolos,
33:53assim,
33:54de 14, 15 anos,
33:55porque o que acontece
33:56com Mulheres de Fase,
33:57especialmente,
33:59é,
33:59de novo,
34:00eu tenho que fazer a comparação
34:00com os anos 80,
34:02a Legião Urbana começa
34:03lançando um disco em 85,
34:05que não faz um grande sucesso
34:07no primeiro momento,
34:08o disco sai em janeiro de 85,
34:09que é o mesmo ano
34:10do Rock in Rio,
34:13e quem,
34:13a grande banda de 85,
34:15são os Paralamas de sucesso,
34:16que estouram com óculos,
34:18e tudo,
34:18um pouco antes,
34:19é o traje a rigor,
34:2084,
34:2183 Blitz,
34:2184 o traje,
34:2385 o Paralamas,
34:25mas a Legião começa a fazer
34:27sucesso,
34:27sem trocadilhos,
34:28com o Será,
34:29com os Soldados,
34:30algumas músicas
34:31de geração Coca-Cola,
34:32ainda no primeiro disco,
34:33só que vem o segundo disco,
34:34no segundo disco,
34:35então a Legião tocava
34:36no que se chamava
34:36de danceterias,
34:37o segundo disco,
34:39que é o disco 2,
34:40que está completando,
34:41inclusive,
34:41o disco de 86,
34:42então está fazendo 30 anos,
34:44agora,
34:45ele já leva a banda,
34:4640 anos,
34:4740 anos,
34:47já leva a banda
34:48a um outro patamar,
34:49por quê?
34:50Porque tem sucesso
34:50como Tempo Perdido,
34:52tem Eduardo e Mônica,
34:53que aí já começam
34:53a música mais folk,
34:55já pegam outro público,
34:56mas quando eles vão
34:57para o terceiro disco,
34:58que na verdade,
34:58eles recuperam,
35:01gravações punk
35:01dos anos 70,
35:02e vem Faroeste Caboclo,
35:04aí a banda toca,
35:05pega um outro patamar,
35:06e se você for parar
35:08para pensar um pouco,
35:09é um pouco
35:09a trajetória dos Raimundos,
35:10porque eles começam
35:11fazendo sucesso
35:12no seu nicho,
35:13se tornam
35:13a grande banda
35:14do seu nicho,
35:15o segundo disco
35:15confirma isso,
35:16no Lavou está novo,
35:17é um grande sucesso também,
35:19depois vem um disco
35:19que não faz tanto sucesso,
35:21que é o Lapadas,
35:23que é um dos que eu mais gosto,
35:24é o mais pesado,
35:25foi feito nos Estados Unidos,
35:27mas que tem uma coisa
35:28muito interessante,
35:29muito reveladora,
35:29eu não conhecia aquilo
35:30que está no documentário,
35:31a dificuldade,
35:32a pressão que o Rodolfo
35:32sentiu para escrever as letras,
35:34porque de repente
35:35tem uns três ali
35:36falando,
35:36e aí as letras,
35:36não vão sair não,
35:37e os caras estão em Los Angeles
35:38para gravar o disco
35:39e não tem letra,
35:41sendo pago pela gravadora
35:43com a pressão de
35:44olha aqui,
35:44o relógio está correndo.
35:46E isso ajuda a explicar,
35:47Paulo,
35:47voltando ao tema
35:48da nossa conversa,
35:50eu acho que ajuda
35:50a contar um pouco
35:51da pressão que o Rodolfo
35:52sentia que os outros
35:53não sentiam,
35:54porque ele era um letrista,
35:55ele era um band leader,
35:55então tudo estava,
35:56não tem jeito,
35:57numa banda,
35:58sempre o band leader
35:59vai atrair mais atenção,
36:01isso vai estar muito mais
36:02em evidência.
36:03E no caso dele,
36:04além dele ser o cantor,
36:05ele era o principal compositor,
36:07as letras principais,
36:08tinha muita cara dele.
36:09Tudo nascia,
36:09claro,
36:10muitas vezes as bases
36:11vinham do Digão,
36:12de um revido do Digão,
36:13do Canisto,
36:13do Frege,
36:14enfim,
36:14mas as letras eram dele,
36:15basicamente dele.
36:16Então,
36:17esse momento,
36:17quando eles fazem
36:19o solo no Forevis,
36:21eles atingem o que eu chamo
36:22de novo de música
36:23brasileira popular.
36:24Por que eu digo isso?
36:25Porque Mulher de Fases
36:26é uma música
36:28que ultrapassou
36:28as barreiras da M,
36:30da FM e do elevador,
36:31entendeu?
36:31É uma música,
36:32os Raimundos,
36:32que é a primeira,
36:33o Raimundos sempre foi
36:34uma banda muito,
36:34de um público muito masculino,
36:36entendeu?
36:36Você via até nas imagens
36:37dos shows,
36:38dá para ver isso,
36:38os primeiros shows.
36:3970% ou 80% dos shows
36:41eram homens,
36:42adolescentes ali,
36:42sabe?
36:43Muito hormônio,
36:44muita testosterona.
36:45Com o Mulher de Fases,
36:46especialmente essa música,
36:48não,
36:48porque é do Rodolfo,
36:50é a forma de uma declaração
36:51de amor para as mulheres,
36:52do jeito dele,
36:52mas é o...
36:53A música de amor
36:54feita pelo Rodolfo.
36:54Exatamente,
36:55mas é o mais próximo
36:56que ele chega
36:56de uma música de amor.
36:57Quer dizer,
36:57tem as declarações de amor
36:58mais pornográficas,
36:59mas assim,
37:00em termos de declaração
37:03de amor,
37:03é essa música.
37:04E essa música
37:05conquista as mulheres também.
37:06E ela passa a tocar,
37:07ainda mais quando eles fizeram
37:08um arranjo mais suave,
37:09Essa música toca em todos os lugares,
37:10que é o que acontece de novo,
37:12que é o que tinha acontecido
37:13com a Legião também,
37:14com músicas como
37:14Floresta Caboclo,
37:16com músicas como
37:17o disco solo do Renato Russo
37:18cantando italiano,
37:19que pega um público
37:20que nunca ouviu
37:20Legião Urbana.
37:21Então,
37:22de novo,
37:23isso, por exemplo,
37:24o Little Queen não conseguiu,
37:26a Plebe Hood não conseguiu,
37:27o Capital Inicial consegue,
37:28mas só agora,
37:29depois,
37:29agora sim,
37:30dessa nova fase da banda,
37:31mas não quando o Renato
37:32estava vivo,
37:33não com as músicas do Renato,
37:34e sim com essa fase
37:35mais popular,
37:36mais pop agora,
37:37entendeu?
37:37Então,
37:38é um outro momento,
37:38e o Skank consegue
37:39com o Garoto Nacional,
37:40por exemplo,
37:40entendeu?
37:41Então,
37:41o Chico Sainz nunca conseguiu
37:43um hit como Garoto Nacional,
37:45como o Raimundos consegue
37:46com Mulher de Fase.
37:47Então,
37:47mesmo bandas que são
37:49até mais cultuadas,
37:50não conseguiram um sucesso
37:51tão grande como os Raimundos
37:52e como os Mamonas,
37:53que a gente citou.
37:54Então,
37:54eu acho que esse,
37:56digamos que é o canto
37:57de cisne dos Raimundos,
37:58a banda,
37:59por isso que foi tão traumático,
38:01porque eles estavam acabando
38:01praticamente no topo,
38:03tinham disso para fazer,
38:04e eles,
38:05só com Mulher de Fase,
38:06eles ficariam mais de 10 anos
38:07fazendo shows,
38:08entendeu?
38:08Assim,
38:08não estou até hoje nos shows,
38:09eu vi imagens recentes
38:11do Raimundos tocando com o Digão
38:13na abertura do Guns N' Roses,
38:14e quando começam a tocar
38:15Mulher de Fase,
38:15é 40,
38:1650 mil pessoas cantando juntos,
38:18entendeu?
38:18Assim,
38:18então,
38:18essa capacidade que eles tinham
38:20de mobilizar multidões,
38:21eu acho que a gente não pode
38:22desprezar,
38:23entendeu?
38:23Assim,
38:23é realmente,
38:24e de novo,
38:26a gente vendo o documentário
38:27é que a gente entende
38:28mais a dinâmica da banda,
38:29de como é difícil
38:30ter uma dinâmica
38:31de uma banda
38:32de quatro pessoas,
38:33até eles falam sobre isso,
38:34de quatro pessoas
38:35que às vezes só tem
38:36uma afinidade no palco,
38:37ou musical,
38:38não tem uma afinidade pessoal.
38:40Isso fica muito claro
38:41no documentário,
38:42fala,
38:42o Fred morava longe daqui,
38:43era de outra turma,
38:44o Canista era mais velho.
38:46E mais próximos
38:46sempre foram o Rodolfo e o Digão,
38:48que moravam no mesmo condomínio.
38:49Exatamente,
38:49no Lago Sul,
38:50em Brasília.
38:51E você acha que o fato de a banda
38:55ter terminado dessa forma abrupta,
38:58isso acabou gerando esses filhotes,
39:02isso vai para frente?
39:03Por exemplo,
39:04o Rodolfo está voltando agora
39:05com o projeto dele,
39:05você acha que o documentário
39:07vai fazer,
39:08ter um revival disso aí?
39:10Como é que você encara?
39:10Eu acho que o revival,
39:11Paulão,
39:12vai como você falou,
39:13mas de nós que ouvimos a banda
39:15na época,
39:15entendeu?
39:16Eu posso estar redondamente enganado,
39:18mas eu acho muito difícil,
39:20inclusive pelo que está no documentário,
39:21que os Raimundos voltam,
39:22obviamente não com a formação original,
39:23porque o Canista não está mais,
39:25até porque o próprio Rodolfo
39:26coloca um limite,
39:27que ele fala assim,
39:27para mim os Raimundos eram o Canista.
39:30Isso é outra revelação,
39:31eu nunca tinha ouvido falar isso.
39:34Tem um momento lá,
39:34no final do último episódio,
39:35ele fala,
39:36para mim os Raimundos eram o Canista.
39:37Ele atribui ao Canista
39:38a força maior da banda.
39:40Então eu acho que,
39:42por exemplo,
39:42eu acho excelente,
39:44muito bom mesmo,
39:45que eles tenham conseguido,
39:46eu não diria fazer as pazes,
39:47mas que eles tenham se,
39:49pelo menos se encontrado novamente.
39:50Então você tem o encontro
39:51do Fred com o Rodolfo,
39:53você tem o encontro do Digão.
39:56Ele é até muito criticado,
39:57que foi na época que o Digão
39:58começou a falar mais de política,
40:01no Twitter e tal,
40:02e aí foi meio cancelado,
40:03Mas eu tenho dúvidas sobre isso.
40:05O que você acha disso?
40:06Porque eu conheço,
40:07posso dizer que eu conheço bastante
40:09o Digão também,
40:10não tanto,
40:10mas assim,
40:11de novo,
40:11todos têm suas próprias razões,
40:13entendeu?
40:13Não que eu queira defender
40:14por essas questões políticas,
40:15não quero entrar nesse ponto.
40:16Mas o que eu quero dizer
40:17é que a afinidade do Digão
40:19com o Rodolfo
40:19é de criança,
40:20eles praticamente cresceram juntos,
40:22passaram juntos
40:22a adolescência inteira.
40:23Então eu acho até meio
40:25leveando falar de um oportunismo
40:26agora de pessoas
40:27que se conhecem,
40:28que têm uma afinidade
40:29de 30 anos,
40:30entendeu?
40:30De 40 anos.
40:32E mais,
40:33não vejo nas imagens
40:35que estão lá
40:36e nas próprias manifestações
40:37de o Rodolfo estar incomodado
40:38com isso,
40:39muito pelo contrário.
40:40Agora,
40:41eu vejo que...
40:41Mas quem se incomoda
40:42é o Caniço, né?
40:43É, exatamente.
40:44Vejo o Caniço
40:44se incomodado
40:45nas gravações,
40:46vejo um ressentimento
40:47e lamento muito
40:47que ele não tenha podido
40:48participar com a sua imagem,
40:50Está dando um depoimento
40:52completo nesse documentário.
40:54Tirando isso,
40:55eu acho um documentário
40:58vai se tornar um...
40:59Já é, para mim,
41:00um dos grandes marcos
41:01dos documentários musicais brasileiros.
41:02Não estou falando
41:02só de rock, não, tá?
41:03Documentários musicais brasileiros
41:04por essa oportunidade única
41:07de ter os quatro integrantes
41:10dando a sua versão
41:12sobre o início,
41:14o meio e o fim da banda.
41:15E com o tempo, né?
41:16Porque esse modelo também
41:17que a gente vive,
41:19que são as séries, né?
41:20Porque antigamente
41:21a gente era mais...
41:22Tem que caber
41:23em uma longa-metragem e tal
41:24e aí tem que ter
41:25uma estrutura que te leva ali.
41:26A série permite
41:28chafurdar um pouco mais
41:29em temas espinhosos, né?
41:31Eu quero ter a opinião
41:32do Paulão também sobre isso.
41:33Mas você reparou que...
41:34Vocês repararam que
41:35o primeiro episódio
41:36praticamente não tem Raimundos?
41:37É sobre as famílias.
41:38É.
41:38É a origem de cada um
41:39e centrado mais
41:40na origem da família
41:41do Rodolfo e do Digão.
41:42E eu fiquei pensando,
41:43mas por que ele está
41:43fazendo essa opção?
41:44É uma opção corajosa.
41:45Não começar já
41:46com as histórias
41:46mais conhecidas dos Raimundos.
41:47Mas é para a gente entender
41:49depois o motivo,
41:51o tudo que acontece
41:52e os traumas,
41:53as cicatrizes que eles carregam,
41:55os traumas familiares.
41:57A gente entende muito mais isso.
41:58É quase uma sessão de terapia,
41:59na verdade.
42:00A história do irmão do Digão
42:02que morre,
42:03que era o ídolo dele
42:04e ele fica sem saber
42:05se morreu ou se não morreu.
42:07Exatamente.
42:07E ao mesmo tempo
42:08a relação conflituosa do Digão
42:09com os pais,
42:10com o pai,
42:11a relação também difícil
42:12do Rodolfo com o pai,
42:14e ao mesmo tempo
42:16admitindo que é dali
42:17que vem a influência dele.
42:18Então eu acho que
42:19era necessário,
42:20foi arriscado para o diretor
42:21fazer isso,
42:22porque geralmente
42:23as séries são medidas,
42:24a audiência,
42:25se você desiste
42:26a série foi cancelada,
42:28digamos assim.
42:29Mas não,
42:30a primeira opção dele
42:31foi essa,
42:31foi mostrar a família
42:33de cada um deles
42:33com muito tempo
42:34para mostrar um pouco
42:35da origem de cada um deles.
42:36E não sei se você concorda,
42:37mas eu acho um documento histórico
42:38para quem gosta de rock no Brasil.
42:39Sim.
42:40É um documento histórico,
42:41assim,
42:41qualquer pessoa que se interesse
42:42por rock deve ver essa série,
42:44porque ela é...
42:45Até para entender a dinâmica mesmo,
42:47né,
42:47de como que era o contrato
42:48com a gravadora,
42:49como que era isso.
42:50E é muito legal você falar isso,
42:51Carlos,
42:52do início,
42:53que acho que é quando coloca
42:54as bases musicais deles, né,
42:56que aí vem essas músicas nordestinas
42:58que ele ouvia com o pai,
42:59não sei o quê,
43:00um pouco sobre a cidade de Brasília,
43:03porque não um tratado geográfico,
43:04né,
43:05dessa coisa da imigração
43:06para Brasília,
43:07do norte e do nordeste,
43:08que é muito gigantesca, né,
43:10a cidade é construída
43:12por essas pessoas
43:12que vieram de fora.
43:14Então,
43:15essa escolha,
43:16acho que passa o contexto ideal,
43:18o contexto perfeito,
43:20digamos assim,
43:20pegar a parte musical,
43:22a relação com os pais.
43:23Sim,
43:23ele constrói o cenário
43:24para depois colocar os personagens
43:25que vão habitar aquele cenário, né?
43:27Exatamente.
43:27Mas eu queria saber, Otávio,
43:28inclusive musicalmente.
43:29Eu queria saber a tua opinião,
43:30porque assim,
43:31eu fiquei sempre curioso
43:32de saber de uma pessoa
43:33que você não chegou a ver
43:34nenhum show dos Raimundos.
43:34Eu vi,
43:35eu vi.
43:36Apesar de parecer jovem,
43:38eu circulei.
43:39Eu fui no Pop Rock,
43:4098, 99, 2000,
43:42e de fato o que você falou é...
43:43Sim,
43:43mas aí você já está vendo
43:44ele fazer sucesso.
43:46Aí o Paulão vindo da banda
43:46no início.
43:47Eu não vi,
43:47por exemplo,
43:48qual foi o primeiro show aqui
43:49que a gente viu até no...
43:50No Circus Bar.
43:52Circus Bar,
43:53Rock,
43:53Rock,
43:5494,
43:54ou 94.
43:5694,
43:57já tinha um ou dois CDs.
43:59Era o primeiro.
44:00Eu tinha terminado o primeiro,
44:01estava bombando o primeiro,
44:02assim,
44:02eu lembro que a casa estava lotada
44:04e assim,
44:04eu me impressionei muito,
44:06porque eu falei para esse cara,
44:07não achei que tinha tanta gente
44:08que gostasse,
44:09e é realmente assim,
44:10lotado,
44:10e o povo cantando as músicas,
44:12bem legal,
44:13a gente tem que lembrar,
44:13que era uma época
44:14que a gente tinha
44:14mais dificuldade de acesso.
44:16Não é como hoje
44:17que você tem Spotify,
44:18que você consegue escutar
44:19muito.
44:19Eu lembro a primeira vez
44:20que eu ouvi Raimundos,
44:21foi com o CD do meu primo,
44:24Lá Vou Tá Novo,
44:26e ele colocou,
44:27e eu tinha ouvido Nirvana
44:28há pouquíssimo tempo,
44:29Nevermind,
44:30o clássico.
44:31Então foram as minhas duas
44:32portas de entrada,
44:33o Nirvana para o Rock
44:34Internacional,
44:35e o Lá Vou Tá Novo.
44:37e eu lembro de eu ficar chocado,
44:38que isso,
44:39cantando esse tanto de palavrão,
44:40cantando essas piadas e tal,
44:42que incrível e tal,
44:43eu quero ver o Oco,
44:44eu lembro que eu tinha o quê?
44:46Uns 12 anos quando eu ouvi isso,
44:48pulava pela casa,
44:50ficava,
44:50porque o negócio dava uma energia ali
44:53que nada mais eu acho que chegou.
44:55E de novo,
44:56isso eu vi no documentário e recuperei,
44:57eu até fico arrepiado de lembrar.
44:59Eu acho que poucas vezes
45:00num show de rock,
45:01não estou falando só de rock
45:03brasileiro não,
45:04eu acho que o início de
45:06Eu Quero Ver O Oco
45:07é uma das músicas que mais mobilizam
45:09uma plateia,
45:10é uma coisa absurda,
45:12é tipo o Enter Sandman do Metallica,
45:14é um peso que a música tem,
45:17e é isso que muitas vezes também
45:18é um pouco negligenciado
45:21nos Raimundos,
45:22esse peso que a banda tinha,
45:24mas era um peso com um certo swing,
45:25era um peso que não era simplesmente
45:27o peso do, sei lá,
45:28do metal,
45:29do trash,
45:30não,
45:31era um peso ritmado
45:32e que tinha essa influência
45:34e que depois desemboca
45:35no new metal.
45:37Que também veio,
45:38mais já na época
45:39que eles estavam mais famosos,
45:41especialmente no Brasil,
45:42no final da década de 90,
45:44que aí surge o Korn,
45:46outras bandas nessa pegada,
45:48que o Raimundos até,
45:49a gente pode falar que eles
45:50meio que anteciparam isso.
45:52Sim,
45:52e eu vou contar uma coisa
45:53para vocês,
45:53tinha uma banda chamada,
45:55tem ainda,
45:56mas faz menos shows,
45:57tinha uma banda de rap
45:58em Brasília
45:59chamada Câmbio Negro,
46:00e de Ceilândia,
46:02na cidade da periferia de Brasília,
46:04na cidade mais populosa,
46:05de uma cultura muito forte,
46:06o ex,
46:06o vocalista,
46:07o MC,
46:08ele montou com o Jamaica,
46:10e o Câmbio Negro
46:11fez algumas,
46:12duas vezes,
46:12um show com os Raimundos,
46:14no mesmo palco,
46:15e era impressionante,
46:17porque você tinha
46:17a plateia do rap
46:18com a plateia do rock,
46:19que era uma coisa
46:20raríssima também,
46:21então assim,
46:22você tinha o peso também
46:23que vinha das letras do rap,
46:24entendeu,
46:25e essa admiração
46:26que o Rodolfo tinha
46:27tanto pelo rap,
46:28e é como você falou,
46:30por exemplo,
46:31a Rage já ia ser machine,
46:32é um pouco depois,
46:33entendeu,
46:33o Raimundos já estava fazendo
46:34isso um pouco antes,
46:35entendeu,
46:35e acho que a capacidade
46:37do Digão
46:37de produzir riffs
46:39potentes,
46:40entendeu,
46:40simples,
46:41mas ao mesmo tempo
46:41de levantar multidões
46:43não pode ser desprezada
46:44isso foi a única coisa
46:45que eu senti um pouco
46:46falta na série,
46:47que eu lembro
46:47quando eu vi
46:48o documentário
46:48do Nirvana,
46:49tinha assim,
46:50aquela coisa
46:50do produtor
46:51falando assim,
46:52aqui a gente resolveu
46:53colocar esse volume
46:55duplicado,
46:56a voz dele duplicada,
46:57porque o Raimundos
46:58tem aquela coisa,
46:59tem umas vinhetinhas
47:00com voz de nordestino
47:02ali,
47:03isso é rock,
47:03eu quero é rock
47:04e tal,
47:05e eu senti falta
47:06de falar,
47:06por quem deu essa ideia,
47:08de onde veio isso,
47:09de quem que é essa voz,
47:11acho que pode ficar
47:12para a próxima temporada,
47:14eu acho o seguinte,
47:15eu acho que,
47:16eu senti,
47:17para não dizer
47:18que não senti falta de nada,
47:19eu também queria ter visto
47:20um pouco mais
47:21o processo de composição
47:22das músicas,
47:23mas eu acho que não é,
47:24esse é o documentário
47:24que eu queria ver,
47:25não era o que ele estava fazendo,
47:26e o que ele estava fazendo
47:28era detido naquelas
47:29quatro pessoas,
47:30e acho que isso é
47:30muito mais interessante
47:31na verdade,
47:32talvez isso seja mais
47:32para fãs,
47:33já ficcionado por músicos,
47:34e isso outra pessoa
47:35pode fazer também depois,
47:36entendeu,
47:37assim,
47:37isso a gente encontra
47:38até muitos recortes
47:39no YouTube,
47:39mas esse documentário
47:40com quatro pessoas
47:41se expondo dessa forma,
47:43eu acho que é muito raro,
47:45com esse nível de franqueza,
47:46né Paulo,
47:46no rock,
47:47eu acho,
47:47especialmente no rock,
47:48que por mais que a gente
47:50goste do gênero,
47:51mas tem muito clichê,
47:52sabe,
47:53tem muita,
47:53quando eu fiz a biografia
47:55do Renato,
47:55minha grande dificuldade
47:56foi entrevistar músicos,
47:57que já tinham dito
47:59muitas coisas sobre,
48:00então eles já tinham
48:00as respostas muito preparadas,
48:02estudadas,
48:02entendeu,
48:03então eu sempre procurava
48:03pessoas que nunca tinham
48:04dado entrevista,
48:05e isso tornava as entrevistas
48:06muito ricas,
48:06então eu achei
48:08nesse ponto
48:08que os quatro,
48:09isso de novo,
48:10isso não foi para a série,
48:11eles são assim,
48:12eles se expuseram
48:13bastante,
48:14entendeu,
48:14e isso de novo
48:16é um mérito da equipe,
48:17que conseguiu dar
48:18esse acolhimento
48:21e deixá-los
48:21tão à vontade
48:22para que eles
48:23se expusessem
48:24dessa forma,
48:24que você sabe,
48:25nós estamos com
48:25câmeras ligadas aqui,
48:26não é todo mundo
48:27que fica à vontade,
48:28entendeu,
48:28de dar um depoimento
48:29com tanta franqueza
48:30como o Rodolfo,
48:31e também tem uma coisa
48:32muito curiosa,
48:33o Rodolfo,
48:34como ele mesmo disse,
48:35fumou tanta maconha,
48:36ele lembra de coisas
48:36demais,
48:37ele fica impressionado
48:38com isso,
48:38como a memória dele
48:39não foi sabotada,
48:41é um caso realmente
48:42para ser estudado,
48:43porque ele lembra
48:44de coisas com muitos
48:45detalhes,
48:45ele diria que é um milagre,
48:47exatamente.
48:48Eu gostei muito
48:48do que você falou
48:49quando a gente estava
48:50pensando nesse episódio
48:51aqui,
48:52que não é uma série
48:53necessariamente
48:54sobre música,
48:55é uma série
48:56sobre decisões
48:57humanas,
48:58sobre como se reinventar
48:59na vida,
49:00e acho que isso
49:01ficou muito claro,
49:02especialmente no final
49:03que o Rodolfo
49:04fala de forma taxativa,
49:06não vai voltar Raimundos,
49:09então as pessoas
49:10foram mudando,
49:11a banda foi tentando
49:12se adaptar,
49:13até que um momento
49:14cheguei,
49:14agora eu que sou o Rodolfo,
49:16estou fora,
49:17não consigo mais
49:18estar aqui.
49:19Você acha que
49:20isso é isso mesmo?
49:22Como o Paulo
49:22te perguntou,
49:23o Raimundos
49:24nunca vai se acabar,
49:25estava no verso,
49:27mas se acabou,
49:28esse novo Raimundos
49:29é quase um
49:30Sublime It Rome,
49:32é uma nova coisa
49:33e não seria tão radical
49:35porque tem o Digão
49:36da formação original
49:38e, de novo,
49:39eu acho que,
49:40por exemplo,
49:40essa capacidade do Digão
49:41de criar os riffs
49:42de guitarra
49:43que ele faz,
49:43da parte instrumental
49:44é muito,
49:45a gente não pode
49:46desprezar,
49:46mas é óbvio
49:47que as músicas
49:48de mau sucesso
49:48continuam sendo
49:49compostas pelo Rodolfo
49:50e é óbvio também,
49:52isso o próprio Digão
49:53tem que admitir,
49:53que,
49:54como a gente falou
49:54no início,
49:55os Raimundos
49:56eram os quatro
49:57e eram mais do que os quatro,
49:59eram os quatro juntos,
50:00então,
50:00por mais que,
50:01em um determinado momento,
50:02por exemplo,
50:03no Rodox,
50:03o Caniço chegou a tocar
50:04no Rodox,
50:05o Fred chegou a tocar
50:06com o Digão,
50:08o Caniço chegou a tocar
50:09com o Digão,
50:10mas não era mais
50:11a mesma coisa,
50:12isso também,
50:12de novo,
50:13eu tenho que fazer
50:13a comparação
50:13com os anos 80,
50:15a Legião Urbana,
50:16quando o Renato morre,
50:18o Dado e Bonfá falam,
50:19a Legião Urbana acabou,
50:20porque,
50:20por mais que eles estejam
50:21tocando repertório,
50:21eles sempre falam,
50:22Dado e Bonfá
50:23tocando o repertório
50:24da Legião Urbana,
50:25não porque a Legião Urbana
50:26era o Renato Russo,
50:27não é isso,
50:28é porque há um certo mistério,
50:31uma certa química
50:32que só ocorre
50:33quando esses quatro
50:35integrantes estão juntos,
50:36então,
50:37por exemplo,
50:37o pessoal sempre critica
50:38muito,
50:40nos anos 80,
50:41o Dado e Bonfá
50:42não são grandes instrumentistas,
50:43muito ao contrário,
50:44mas só eles
50:45tocam a Legião Urbana
50:45como deve ser tocada,
50:47e foram eles
50:48que o Renato escolheu
50:49para tocar a Legião Urbana,
50:50ele poderia ter escolhido
50:50os instrumentistas
50:51muito mais virtuosos,
50:54entendeu?
50:54Por quê?
50:55Porque ele sabia
50:55que era o que cabia
50:56não apenas na sonoridade,
50:57mas na estética da banda,
50:59então isso é também
51:00muito importante,
51:01então o que eu acho
51:02que no caso dos Raimundos
51:03é a mesma coisa,
51:04o que o documentário
51:05consegue preservar
51:07e ressuscitar
51:08e retomar
51:09é a energia
51:11incrível
51:11que aqueles quatro caras
51:15conseguiam gerar
51:16de eletricidade
51:17e contagiavam
51:18milhares de pessoas,
51:19milhões de pessoas,
51:19mas em cada show
51:20a comunicação
51:21que eles conseguiam
51:22estabelecer
51:23com o seu público,
51:24e eu acho que isso sim
51:25não volta mais.
51:26É o que você falou,
51:27quando você vê um documentário
51:28desse e fica doido
51:29para ouvir a discografia inteira,
51:31é porque parece que ele
51:32foi bem sucedido.
51:33Não tenho dúvida disso,
51:35pelo menos para mim
51:35foi uma volta
51:37do tempo mesmo,
51:37eu curti muito,
51:39curti muito mesmo,
51:40claro,
51:40tem algumas ressalvas,
51:41mas enfim,
51:42não é o principal,
51:43e voltar a escutar
51:46as músicas
51:47de 40 anos atrás,
51:49de 30 anos atrás,
51:51me fez,
51:52me dá aquele sentimento gostoso,
51:55aquela nostalgia boa,
51:56não é uma melancolia,
51:58é uma nostalgia legal,
51:59de lembrar uma época boa
52:00de que acontecia
52:01muita coisa no Brasil,
52:03algumas que eu presenciei,
52:04algumas que eu tive a chance
52:05de estar muito perto,
52:07até de participar,
52:08então eu achei muito legal,
52:10acho que vale a pena
52:10para todo mundo
52:11que quiser assistir,
52:11vale que se puder assistir,
52:13assista.
52:13A música tem esse potencial
52:14de teletransportar a gente
52:16para aquele momento,
52:17e levando em consideração
52:18esses contextos
52:19que você estava vivendo,
52:21então muito legal,
52:22gente,
52:22preciso encerrar,
52:23o nosso diretor
52:24já está pedindo ali,
52:25então Carlos,
52:26queria te agradecer,
52:27é riquíssimo,
52:28valeu demais.
52:29É um prazer
52:29trazer essas lembranças,
52:31como o Paulão falou,
52:32e é um clichê falar isso,
52:33mas é uma verdade,
52:35e os clichês na verdade
52:36nascem de verdade,
52:36esse tempo não volta mais,
52:38até se os Raimundos voltassem,
52:40esse tempo não volta mais,
52:41que é um tempo sem celular,
52:42sem internet,
52:43sem redes sociais,
52:44sabe assim,
52:44de bandas buscando espaço,
52:46e a gente conhecendo
52:47as bandas ao vivo,
52:48sabe,
52:49sem ter a menor ideia,
52:49então assim,
52:50esse momento de ter ouvido
52:51o Raimundos pela primeira vez,
52:52sem ter nunca escutado a banda,
52:54ter visto ao vivo,
52:55e visto o efeito
52:56que eles provocaram,
52:58numa plateia de 50,
52:59100 pessoas,
52:59isso realmente não volta mais,
53:01vou aguardar para sempre
53:01esse momento.
53:02Legal,
53:03obrigado.
53:03Paulão,
53:04valeu demais pela participação,
53:05cara.
53:06Valeu,
53:06espero ser convidado para mais aí,
53:08pois é.
53:09muito legal,
53:09muito divertido aqui,
53:10poder falar,
53:11ainda mais falar de coisa
53:11que a gente gosta,
53:12assim,
53:12falar de futebol,
53:13de rock,
53:14cara,
53:14para mim,
53:14você pode me chamar
53:14o que você quiser,
53:15que a gente fala até.
53:16Acho que está nascendo
53:17um formatinho aqui,
53:18de a gente analisar
53:19algumas coisas,
53:20vamos para os próximos.
53:21É isso,
53:22então gente,
53:23queria agradecer,
53:24você que chegou até aqui,
53:25não esqueça de deixar
53:25o seu like,
53:27para notícias do Brasil
53:28e do mundo,
53:29entre em em.com.br,
53:31e aqui no portal AI,
53:32tem conteúdo de todo tipo,
53:34então fica de olho aí,
53:35beleza?
53:35Até a próxima,
53:36vamos dar um tchau coletivo
53:38para aquela ali,
53:39valeu!
53:40Advirta-se!
53:41Advirta-se!
53:42Advirta-se!
53:42Cultura,
53:42Advirta-se!
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