00:00Depois de dizer que não pretendia prorrogar o cessar fogo com o Irã, o presidente Donald Trump anuncia mais prazo
00:07até que o regime de Teherã apresente uma proposta.
00:10Nessa terça-feira, o republicano já tinha declarado que a soltura de presas seria um ótimo começo para as negociações.
00:18E a nossa entrevistada agora é a professora de Relações Internacionais, Priscila Caneparo,
00:22gentilmente nos atendendo mais uma vez aqui na Jovem Pan.
00:26Tudo bem, professora? Bem-vinda. Boa noite.
00:28Boa noite, Tiago. Boa noite a todos que estão nos assistindo.
00:32Professora, essa decisão do presidente Donald Trump pega muita gente de surpresa, a senhora diria,
00:38porque o cessar fogo terminaria nessa quarta-feira.
00:42E aí ele não elevou o tom dizendo que poderia voltar a atacar o Irã, mas sim ele recua e
00:50não há prazo.
00:51Ou seja, é um cessar fogo até que o Irã venha a público e atenda.
00:56As exigências ou os dois países sentem na mesa de negociação mais uma vez.
01:03De que forma, professora, ele foge um pouco ao tom dele para tentar efetivamente superar essa guerra?
01:12Pois é, Tiago. Eu acho que não pega ninguém de surpresa, né?
01:15Isso tem sido uma tática própria do Trump, né?
01:18Inclusive, nos últimos dias ele falou que ia obliterar o Irã, se porventura o Irã não aceitasse os termos dos
01:24Estados Unidos.
01:25É claro que isso não dá um caminho para a negociação.
01:28A gente precisa entender que uma negociação predispõe um abrandamento de ambos os discursos,
01:35ou, por assim dizer, uma perspectiva de abrir mão de ambos os lados.
01:39E dentro dessa premissa, obviamente, o Irã não aceitou, sequer foi para a negociação.
01:43Mas a gente sabe que essa atitude do Trump também vem com comitância,
01:48com o resultado de uma pesquisa que traz que há uma satisfação, né?
01:52Uma insatisfação muito grande e cada vez mais crescente dentro do cenário interno dos Estados Unidos
01:58em relação às ações do Trump.
02:00Apenas 36% das pessoas aprovam o governo do Trump.
02:04A gente precisa pensar que o Trump também responde a seu eleitorado interno.
02:09E isso desgasta muito a figura do presidente.
02:11Então, o que acontece?
02:13Sabendo que uma das campanhas, ou uma das bandeiras de sua campanha,
02:16foi justamente acabar com as guerras eternas dos Estados Unidos.
02:20E segundo, não fazer um despenho de orçamentário muito grande no campo militar para essas guerras,
02:26ele se vê em uma encruzilhada, quando ele vai justamente, reiteradamente,
02:31falar que ele vai atacar novamente o Irã.
02:33Isso vai fazer com que haja uma queda exponencial na sua popularidade.
02:37Então, todo esse cenário de insatisfação interna,
02:42esse despenho de orçamentário em relação a essa guerra,
02:44e essa falta de coerência em relação à bandeira que ele levanta,
02:48faz com que ele se veja, dentro dessa perspectiva,
02:52em um momento que ele tenha a necessidade de negociar.
02:55Só que a negociação do Trump está muito aquém do que se espera de uma negociação.
02:59Ele quer impor alguns termos para o governo de Teherã,
03:03que a gente sabe que não vão ser aceitos.
03:04Então, o que o Trump está procurando, é importantíssimo destacar,
03:08é alguma saída honrosa.
03:10Então, talvez a saída honrosa dele seja a reabertura do Estreito do Hormuz.
03:14Então, ele esteja jogando agora uma carta em relação a esse cessar-fogo indeterminado,
03:19para ver se, de fato, o Irã vai manter esse Estreito do Hormuz aberto.
03:22Se ele manter aberto, o Trump poderá falar,
03:25eu ganhei a guerra, porque, de fato, não há mais nenhuma resistência
03:29em relação ao fechamento do Estreito do Hormuz.
03:31Somos nós quem estamos controlando, ainda que indiretamente.
03:34E eu também, enfim, fiz uma mudança nesse regime.
03:37Ainda que não seja uma mudança no regime do Sayatolás,
03:40ele conseguiu, enfim, obliterar o líder supremo.
03:43É muito difícil prever as próximas ações do Trump,
03:47mas eu acredito que o cenário interno, sim, esteja pressionando muito
03:52os próximos passos em relação a essa guerra do Donald Trump.
03:55Perfeito, professora. Vou trazer os nossos comentaristas.
03:58Dora Kramer faz a próxima pergunta. Dora?
04:00Boa noite, professora Priscila.
04:04Olha só, o que a gente tem no quadro aí
04:07é que, politicamente, o Trump está perdendo, perde nesse cenário.
04:16E do ponto de vista militar e econômico, como está esse placar?
04:22Ele tem algum tipo de ganho ou também ele acumula perdas nesses dois aspectos?
04:31Dora, essa boa noite, essa pergunta é muito interessante,
04:34porque é de fato que a gente vem analisando, né?
04:36Qual é o cenário de perdas e ganhos do Trump?
04:39A gente precisa entender que, do ponto de vista militar,
04:42nenhuma nação, nenhum regime vai conseguir bater os Estados Unidos.
04:46Os Estados Unidos são, de fato, a maior potência militar hoje mundana,
04:50mas, obviamente, a gente vê um dispêndio orçamentário muito grande.
04:53A gente precisa lembrar que o Trump redirecionou um quarto do investimento
04:58que se tinha para a NASA justamente para esse campo militar.
05:01É claro que as pessoas que, principalmente, acreditavam na bandeira
05:04que o Trump não iria gastar mais com esse campo militar
05:08em relação às outras guerras, vão se sentir muito acuadas,
05:11vão se sentir quase que traídas na perspectiva do Trump.
05:15Mas, do ponto de vista militar, ainda que muita gente fale,
05:18ah, o Irã possui drones muito mais varados,
05:21que estão obliterando algumas ações militares dos Estados Unidos,
05:25é inegável que os Estados Unidos saem como grandes vencedores
05:28da perspectiva militar, inclusive por conta de seu poderio histórico.
05:33Agora, o Irã, sabendo disso, Dora, ele vai se utilizar
05:37de uma guerra assimétrica, que não é uma guerra que nós estamos acostumados
05:41no campo militar, que é uma guerra que se utiliza de viés econômico,
05:45como, por exemplo, a questão do fechamento do Estreito e do Hormuz.
05:47Isso impacta o mundo global numa perspectiva de comércio internacional,
05:52mas vai impactar também os Estados Unidos.
05:54A gente precisa entender que a retórica que os Estados Unidos
05:57são os maiores produtores, são autossuficientes em relação ao petróleo,
06:01não se sustenta, porque é o mercado internacional que dita
06:05esses valores em relação ao barril do petróleo.
06:07Então, se o barril do petróleo aumenta, por exemplo, no Oriente Médio,
06:11vai aumentar também nos Estados Unidos,
06:13e, por consequência, vai trazer uma inflação ainda maior
06:17que a população está sofrendo desde a era de Joe Biden.
06:20Então, a gente precisa entender que, na perspectiva econômica, de fato,
06:24eu não diria que o Trump está perdendo,
06:26mas o seu governo em relação a esse eleitorado,
06:29em relação à população dos Estados Unidos,
06:31com o aumento da inflação, também está perdendo.
06:34E se me permite aqui, Dora, existe uma guerra de retórica,
06:37uma guerra de narrativa e uma guerra também, vamos colocar assim,
06:41de rede social.
06:43E essa guerra de rede social,
06:45o Irã tem feito, surpreendentemente, muito bem.
06:49Se a gente for ver os memes que o Irã está fazendo,
06:52principalmente por intermédio de suas embaixadas,
06:55tem vendido a imagem como se o Irã fosse o bonzinho dessa história.
07:00E a gente sabe que numa guerra não existe bonzinhos.
07:03Ambos os lados têm um fraquejo como vilões aí.
07:07Só que essa perspectiva de manejo da opinião popular,
07:11por intermédio desses memes que as embaixadas estão fazendo,
07:15estão repercutindo em uma opinião global,
07:18como se o Irã fosse, basicamente, o centrado,
07:22como se fosse o que estivesse como papel de vítima nessa história.
07:27Então, são alguns pontos que talvez a administração Trump
07:30esteja colocando na balança para não perpetuar o conflito
07:34na perspectiva militar.
07:36Nosso tempo está terminando, Vilaela.
07:38Rapidamente, a última pergunta. Por favor.
07:41Professora, boa noite.
07:42Professora, falando de Brasil,
07:44temos visto o presidente Lula retomando aí
07:46algumas críticas mais ácidas em relação ao Donald Trump.
07:50Existe risco de termos ali um novo conflito
07:54ou uma nova situação ruim entre os dois países
07:57ou os Estados Unidos já estão com muita preocupação?
08:00A tendência é deixar de lado as críticas do governo brasileiro?
08:05Vilaela, se fosse até ontem, poderia falar que provavelmente
08:08o governo do Donald Trump deixaria as críticas de lado.
08:12Mas hoje aconteceu algo que talvez venha nessa teia justamente
08:17de críticas mais amargadas em relação ao Donald Trump
08:21pelo governo brasileiro,
08:23que é justamente a expulsão do delegado da Polícia Federal
08:27que se encontrava nos Estados Unidos.
08:28Essa perspectiva, por mais que pareça técnica,
08:31ela tem um viés político, sim.
08:33E talvez seja uma resposta, ainda que abrandada,
08:36dos Estados Unidos em relação ao governo brasileiro
08:38e justamente esse posicionamento ante a essas guerras
08:42e ao posicionamento do governo de Washington
08:44que vem fazendo outras ações que o Brasil não compactua.
08:49Então existe aí, ainda que o Brasil não seja
08:51o epicentro da preocupação do Trump,
08:54a gente observa que indiretamente os Estados Unidos
08:57vêm respondendo, sim, a essas críticas mais ácidas
09:00advindas do governo Lula.
09:02Professora Priscila Caneparo, de Relações Internacionais,
09:05mais uma vez obrigado por atender a Jovem Pan.
09:07Volto sempre e bom resto de semana para a senhora.
09:10Muito obrigado.
09:12Obrigada, igualmente, Thiago.
09:14Muito obrigado.
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