00:00Como você vê essa mudança no cenário quebrando esse duopólio de Bolsonaro e Lula
00:06hoje que aparece nas pesquisas?
00:09Isso pode afetar o cenário eleitoral ou pode contribuir para aumentar pelo menos a pluralidade do debate
00:15e diminuir um pouco aquele radicalismo e polarização que nós tivemos em 2022?
00:21Felipe, é fato que estamos num país polarizado que não é de hoje.
00:27Desde 2014, naquela eleição da Dilma e Aécio.
00:32Mas, nesse exato momento, as pesquisas não refletem a realidade do que a gente vai ver na campanha eleitoral.
00:40Explico.
00:42Eu estou pensando em eleições, você está pensando, você é entusiasta desse tema,
00:47mas esse tema ainda não está na cabeça do eleitor.
00:50Um dado que nem todo mundo sabe, cerca de um terço do eleitor chega na semana da eleição sem saber
00:59em quem vai votar.
01:00É ali que ele se decide.
01:02Então, quando nós vemos os números de pesquisas hoje, o que a gente está vendo, na verdade, é um rical.
01:09Se você perguntasse assim para o eleitor, quem que você lembra como grandes apresentadores de TV?
01:15Ele vai falar Silvio Santos, Faustão, o falecido Gugu Liberato, ou seja, uma lembrança.
01:22Nesse exato momento, a lembrança que o eleitor tem em função da polarização é Lula e Bolsonaro.
01:30Não foi apresentado ainda, pelo ecossistema político, o cardápio de opções para os eleitores, ou seja, isso vai acontecer de
01:39certa forma.
01:40Então, eu entendo o seguinte, a situação é polarizada, é polarizada sim, mas não significa que os outros candidatos estão
01:50fora do jogo, não.
01:51Então, a partir do momento que muitos deles estão em partidos grandes, que vão ter tempo de TV, tempo para
02:00apresentar a oportunidade de suas ideias, debates ali,
02:04pode acontecer de alguns deles subirem lá.
02:07Então, eu entendo o seguinte, temos uma diferença enorme para a campanha de 2022.
02:14Na campanha de 2022, somados todos os candidatos juntos, o índice deles, na média das pesquisas, nesse momento, era 42%.
02:2842%, a soma deles todos.
02:31Lula, na ocasião, tinha em média 43%, em função do Rical.
02:36Uma força incrível, né?
02:38Se você for analisar, não são votos válidos, são votos totais.
02:44Foi mais ou menos o resultado que a gente teve na campanha, que foi decidida por 2%.
02:50Deu essa lógica.
02:52Nesse exato momento agora, em 2026, o quadro é totalmente diferente.
02:56Somado todos os candidatos, eles têm 43%, novamente.
03:02Ou seja, uma coincidência aí, né?
03:04Nesse exato momento, na média de todas as pesquisas.
03:08O que mudou é que Lula tem 35% na média.
03:12A gente está falando de 7 ou 8 pontos a menos, em função de um desgaste natural, que é um
03:19mandato, né?
03:20Então, veja bem, o cenário começa de uma forma diferente, né?
03:24Então, nós temos uma segunda diferença muito significativa.
03:29Todos os candidatos juntos, na eleição de 2022, eram do campo de centro-esquerda ou esquerda.
03:37Nesse exato momento, a gente não tem outros candidatos, senão Lula, na esquerda.
03:43Todos os espectros aí, as variáveis, as coisas que podem acontecer, estão na direita.
03:48O que leva a gente a considerar que, naturalmente, esses candidatos não poderão apoiar o Lula num possível segundo turno.
03:57Ou seja, estarão juntos num eventual segundo turno, no campo da centro-direita e direita, né?
04:03Então, eu vejo, dessa forma, uma mudança.
04:05Então, a gente tem uma chave aqui, como se fosse Copa do Mundo, uma semifinal, tá?
04:11Da direita, aqui.
04:13Na minha opinião, devido a isso e vários outros dados que a gente vai conversar aqui,
04:19que o candidato que sair dessa chave aqui, ele ganha do candidato do espectro da esquerda.
04:24É um pouco que nem a eleição no Chile, né?
04:26O Chile foi isso.
04:28Juntou vários candidatos da direita, tinha praticamente um candidato competitivo que da esquerda,
04:33e no segundo turno, evidentemente, todos esses candidatos da direita se uniram,
04:37e o caso ganhou por 20 pontos de diferença, né?
04:40Tá acontecendo no mundo inteiro.
04:43Na América, Equador, Chile, nós tivemos umas três ou quatro eleições dessa maneira que ocorreram assim,
04:51tem algumas na Europa também, para mais do que nomes específicos um ou outro,
04:58eu entendo, honestamente, que a gente tá vivendo uma mudança estrutural de ciclo.
05:04Ela acontece, você vai entender bem do que eu tô falando, que você fala sobre isso também,
05:09ela acontece de forma natural.
05:11No mundo inteiro tá acontecendo isso, as eleições americanas também mostraram isso,
05:17na Argentina, mas no Brasil, especificamente, o nosso tá até atrasado.
05:24Se você me permite, eu queria aprofundar nisso aí.
05:26Você acabou de falar de Fernando Henrique Cardoso.
05:29O nosso ciclo atual, na minha opinião, ele não começa em Lula,
05:33ele começa em Fernando Henrique Cardoso.
05:36Depois de 79, nós vivíamos anos de grande crescimento.
05:41Houveram anos que nós crescemos dois dígitos.
05:45Depois, é claro, tivemos a hiperinflação, a década perdida,
05:50mas ali nós estávamos experimentando um ciclo vertiginoso de crescimento.
05:55Quando o Fernando Henrique Cardoso vem para resolver um probleminha,
05:59que chamava hiperinflação,
06:01ele inventa uma segunda invenção não tão bacana,
06:07chamada reeleição.
06:08Ele volta com a reeleição.
06:11Ali, ele entrega, de certa forma,
06:15grande parte do seu mandato para o Centrão,
06:18a CM Avô, na ocasião,
06:21e todos os programas sociais que tem hoje
06:26foram criados no governo Fernando Henrique Cardoso.
06:29Não foi no Lula.
06:31Lula nunca foi um cara bom de criar pautas,
06:35mas sempre foi muito habilidoso em surfar pautas e oportunidades.
06:40Ele era ligado,
06:42o PSDB é um partido mais de centro,
06:46inclusive pisando um pouquinho na esquerda.
06:48Eles tinham até amizade no início da carreira política deles ali.
06:52Lula se elege com essas pautas,
06:54embalando tudo aquilo ali,
06:56distribuindo muito bem.
06:57Se reelege com 80% de aprovação nessas pautas.
07:01Elege sua sucessora na mesma estratégia.
07:05E aí, em 2014, acontece uma coisa interessante.
07:09O Brasil ali já estava cansado desse modelo
07:11e já quis escapar.
07:13Parte da população já mostrou apta a mudar isso aí
07:18para um outro ciclo,
07:19que ia ser um ciclo mais ligado à social, à igualdade.
07:22O Estado estava crescendo, já estava ficando pesado ali.
07:25Mas Dilma se reelege de novo numa eleição muito polarizada,
07:28talvez porque o candidato,
07:30adversário dela, Aécio, tinha grande rejeição.
07:332018, adivinha?
07:35Nós fomos para o ciclo de liberdade econômica,
07:38depois que passa o ciclo social.
07:41Aí veio Temer, Bolsonaro,
07:42depois do impeachment, né?
07:43Ali aconteceu.
07:45E já poderíamos estar desfrutando desse ciclo.
07:49teve alguns errinhos no caminho que aconteceu
07:52de estratégia de candidatos ligados a esse aí.
07:56Eu entendo que Lula volta
07:58com um excelente produto eleitoral
07:59que ele sabe ganhar campanha,
08:01mas agora de pé trocado.
08:04Num ciclo não adequado.
08:06As coisas que ele fazia que funcionavam outra hora
08:09não funcionam tão bem.
08:11É dito por ele, é dito por Edinho Silva.
08:13Todo o entorno dele fala,
08:14não conseguimos mais conectar a classe média.
08:18Por quê?
08:19Porque essa geração não é sindicalizada
08:22como a geração anterior, né?
08:24Ela priva mais por negociação,
08:27liberdade de horários, né?
08:29É uma coisa assim que não entra na cabeça do PT
08:32que outrora queria uniformizar tudo isso aí.
08:36Então, eu entendo o seguinte,
08:38qualquer que seja o candidato hoje
08:40mais ligado a esses valores,
08:43nesse exato momento,
08:44seja qual for o candidato desse campo,
08:47ele vai nadar uma correnteza a favor.
08:49E quem não estiver,
08:51e são poucos hoje,
08:52por exemplo, Lula ou algum outro candidato que vier,
08:56vai nadar contra essa correnteza.
08:58E o Brasil já está,
08:59essa transformação já está acontecendo
09:01de forma silenciosa há muito tempo.
09:03A única coisa,
09:04você concorda bem com isso,
09:06porque eu já vi você falando sobre
09:08esse tema em várias coisas.
09:10A única coisa que talvez
09:11é um ponto a se discutir
09:13é que, na minha opinião,
09:15não tem jeito da gente viver ao mesmo tempo
09:17um ciclo social
09:18e um ciclo de liberdade econômica.
09:20Para mim, está sempre revezando.
09:22Ou você está de um lado,
09:23ou você está de outro, né?
09:24E as democracias
09:25meio que funcionam sempre assim, né?
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