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  • há 6 horas
Transcrição
00:00E no mês do Dia Internacional da Mulher, um retrato social cruel é espelhado na internet.
00:08Estamos falando da misoginia, mais precisamente da trend, se ela disser não.
00:16Vamos agora aos detalhes na reportagem.
00:21O Ministério Público da Justiça e Segurança Pública encaminhou um ofício ao TikTok do Brasil
00:29pedindo informações sobre as medidas tomadas pela rede social diante da circulação massiva de vídeos misóginos.
00:38Os vídeos fazem parte da trend, se ela disser não.
00:43Os conteúdos trazem jovens, simulando agressões físicas contra manequins que representam mulheres diante de uma rejeição.
00:52A mensagem passada é a violência como resposta à rejeição.
00:56A trend motivou a abertura de inquérito pela Polícia Federal, instaurado após notícia crime
01:03apresentada pela Procuradoria Nacional de Defesa da Democracia, vinculada à Advocacia Geral da União.
01:12O ofício do Ministério Público da Justiça e Segurança Pública deixa claro,
01:17a obrigação da plataforma não se limita à remoção dos conteúdos, já requisitados pela Polícia Federal.
01:25Aqui vale lembrar da decisão do Supremo Tribunal Federal, que reconheceu a inconstitucionalidade parcial do artigo 19 do Marco Civil
01:37da Internet.
01:38Com base na mudança, a pasta aponta que os provedores de aplicações de internet
01:44são civilmente responsáveis pela indisponibilização imediata de conteúdos que configurem crimes praticados contra a mulher,
01:55categoria que inclui expressamente conteúdos que propagam ódio ou aversão às mulheres.
02:02Segundo o documento, a circulação massiva da trend representa riscos de falha sistêmica.
02:10Dentro de cinco dias, o TikTok Brasil terá que apresentar informações detalhadas sobre as medidas adotadas
02:19para detectar e suprimir proativamente conteúdos misóginos,
02:24incluindo o funcionamento dos sistemas automatizados de moderação,
02:29mecanismos de revisão humana, monitoramento de tendências emergentes
02:35e controle sobre o algoritmo de recomendação.
02:39Ainda a rede social terá que mostrar uma avaliação de riscos
02:44sobre a recorrência desse tipo de vídeo
02:47e informar se os perfis que disseminaram a trend foram monetizados
02:52ou se receberam qualquer compensação financeira pelo alcance gerado.
02:58O governo determinou também que sejam encaminhados ao laboratório de operações cibernéticas,
03:05registros técnicos e metadados
03:08que possam subsidiar a identificação da autoria e da materialidade dos ilícitos,
03:15em apoio às investigações policiais em curso.
03:19Segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública,
03:23o Brasil atingiu recorde de vítimas de feminicídio em 2025,
03:29com 1.518 vítimas.
03:32O TikTok argumenta que agiu de forma proativa,
03:37começando a remoção dos vídeos no final de semana.
03:40De acordo com a empresa,
03:43parte dos conteúdos já tinha sido retirada da plataforma
03:47quando a Polícia Federal apresentou a lista de conteúdos investigados na segunda-feira.
03:54Os demais foram derrubados no mesmo dia.
04:02Que absurdo, não, pessoal?
04:04Que coisa!
04:05Será que realmente quem fez esses vídeos aí
04:07imaginou que estava sendo engraçadinho, engraçado,
04:10que estava fazendo algo realmente que seja produtivo?
04:14Que absurdo!
04:14Bom, e para repercutirmos esse assunto agora,
04:17nós convidamos Ana Tomazelli,
04:19que é psicanalista e presidente do Instituto de Pesquisas e Estudos do Feminino.
04:25Ela atribui a trend, se ela disser não,
04:28a chamada cultura do meme típica do Brasil.
04:32Ainda ressalta a importância das redes sociais na formação dos jovens.
04:37Vamos ouvir.
04:39O movimento Red Pill, ele não inaugura nada novo.
04:42Se a gente pensar na música do Sidney Magal,
04:44que dizia se te pego com outro te mato,
04:47te mando algumas flores e depois escapo,
04:49ou se a gente lembra de uma música do Zeca Pagodinho,
04:52que diz, vou te dar uma banda de frente, quebrar cinco dentes e quatro costelas,
04:56a gente vai entender que a normalização da violência contra a mulher
05:00não é nenhuma novidade.
05:01Ela hoje só é mais expandida,
05:04ela hoje só é mais acessível a partir de recursos audiovisuais
05:09que a gente não tinha no passado.
05:11Eram recursos um pouco mais como músicas e assim por diante.
05:14Mas hoje, o que a gente tem também é uma cultura do meme.
05:18Eu atribuiria essa disseminação ou essa normalização
05:22ao que no Brasil a gente vai chamar da cultura do meme.
05:25As coisas mais sérias, mais importantes, mais profundas e mais complexas,
05:29elas vão ser tratadas como uma piada,
05:32que é um recurso, é um mecanismo de defesa
05:34que a gente vai discutir também na psicanálise,
05:36mas ela é muito perigosa, porque a linha é muito tênue
05:40entre fazer uma piada para distensionar e relaxar um pouco
05:44e conseguir lidar com um problema que é muito difícil
05:47e fazer uma piada que, na verdade, vai piorar o tensionamento.
05:51Ou seja, vai normalizar no sentido de
05:54tudo bem a gente brincar com violência.
05:57Em geral, quem brinca com violência
05:59é quem não sofre a consequência dela.
06:02Então, é muito importante a gente entender
06:04que, geracionalmente, a gente vai ter um impacto,
06:08porque a educação desse jovem
06:10vai passar pela mediação da internet,
06:13vai passar por essa normalização
06:16a partir das redes sociais, por essa cultura do meme,
06:19como se fosse um problema menor,
06:21como se fosse um problema um pouco mais suavizado.
06:24Puxa vida, era só uma brincadeira.
06:26Essa desculpa do era só uma brincadeira
06:29faz a gente perder a noção
06:31de que a violência de gênero é um espectro.
06:34A violência de gênero não começa com um tiro na cara,
06:37ela começa com a piada,
06:38ela começa depois com as violências psicológicas,
06:42até evoluir para algo um pouco mais físico.
06:45Então, quanto mais a gente puder evitar
06:48e, se melhor, não fazer, zerar,
06:52não normalizar esse tipo de brincadeira,
06:54é muito importante na educação dos meninos
06:57e dos adolescentes.
06:59Uma solução para isso é a gente entender
07:01que essa conversa precisa acontecer dentro de casa,
07:04precisa acontecer nas escolas
07:06e, por que não, também no trabalho.
07:08Como a gente vai educar as gerações seguintes
07:11e, principalmente, o exemplo que a gente vai dar para elas,
07:14vai fazer toda a diferença
07:15na medida em que a gente avançar
07:18ou quiser avançar
07:19em relação a todos os tipos de violência,
07:21mas, principalmente, as violências de gênero.
07:25Pois é, o problema é que esses memes amplificam, não é?
07:28Essa questão de violência.
07:31Que absurdo.
07:32Bom, nós agradecemos porque nós conversamos com
07:34Ana Tomazelli, que é psicanalista
07:37e presidente do Instituto de Pesquisas
07:41e Estudos do Feminino.
07:43Nosso muito obrigada pela participação
07:46e até uma próxima ocasião.
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