00:00E ainda sobre a ofensiva de Israel contra o Líbano e o Irã, em vídeo, o porta-voz do exército
00:05israelense diz que os ataques acontecem ao mesmo tempo e que o grupo extremista Hezbollah vai pagar um preço elevado.
00:12Vamos ouvir.
00:14O Hezbollah abriu fogo, optou por lançar uma campanha e pagará um preço elevado por isso.
00:21Centenas de combatentes da Força Aérea atacam simultaneamente o Líbano e o Irã.
00:25Estamos em combate em várias localidades ao mesmo tempo, no Irã, no Líbano e em outros lugares.
00:33E a guerra no Oriente Médio, a exemplo de outros confrontos, não se dá apenas no teatro de batalha, mas
00:39também no conflito de retóricas, de discursos.
00:43O Irã contradisse o presidente Donald Trump e afirmou que não negociará com os Estados Unidos.
00:48Ontem, em uma entrevista, o republicano disse que líderes iranianos teriam demonstrado interesse em retomar o diálogo e que ele,
00:56Trump, teria concordado.
00:58Eu vou conversar agora sobre isso com a Mônica Rosenberg, que é advogada, especialista em compliance e comentarista política.
01:05Mônica, bom dia. Seja muito bem-vinda.
01:08Bom dia, Natália. É uma honra estar aqui na serviço.
01:11A gente que agradece a sua disponibilidade. É importante a gente entender toda essa turbulência, os ruídos, a guerra de
01:20narrativas e versões nesse momento, Mônica.
01:23Porque Trump fala em retomar o diálogo e ele também falava na semana passada que o acordo estava caminhando bem,
01:31no sentido de que não escalasse.
01:34E aí vimos o que aconteceu no fim de semana, o que está acontecendo ao longo do dia de hoje.
01:39As negociações sobre o programa nuclear iraniano, que é o centro da discórdia, teria detonado o conflito.
01:46Ela aparentemente estava em curso e, de repente, tudo mudou, não é, Mônica?
01:50Eu sempre acreditei que aquelas negociações eram mais um teste para ver se havia um comprometimento sério do regime iraniano
01:59em fazer algum ajuste
02:01ou se eles estavam apenas tentando ganhar tempo.
02:04E o que eu entendo é que os Estados Unidos perceberam que não havia seriedade, não havia compromisso, não havia
02:10interesse em buscar uma solução.
02:12Então, eles passaram à fase 2.
02:15A gente tem que lembrar que esse conflito não começou há dois anos atrás.
02:21Começou lá em outubro de 2023, 3 quase.
02:25Porque esse processo de tempo em que Israel foi destruindo o que eu costumo chamar de os capangas do Irã,
02:34o Hezbollah, o Hamas, o Futis,
02:36e enfraquecendo o Irã, levou a essa possibilidade, essa tempestade perfeita de um contexto onde todas as condições na região
02:46permitiram que hoje os Estados Unidos e Israel fizessem esse ataque com todos os desdobramentos.
02:52Guerra é sempre muito ruim.
02:53Mas nós estamos apenas numa continuidade de um processo.
02:57Não é uma crise que começa agora e está escalando importante.
03:01A audiência da CBC entender que é um passo a mais e que nós não estamos entrando na terceira guerra
03:09mundial.
03:11Mônica, ao longo do fim de semana, a gente estava aqui nessa cobertura e em vários momentos afirmava-se uma
03:18coisa
03:18e aí por parte do Irã, da Guarda Revolucionária, vinha a negativa.
03:23Isso aconteceu, inclusive, sobre o anúncio da morte do livre-supremo Ali Khamenei.
03:29E agora a gente teve, ontem, Donald Trump dizendo
03:33os líderes iranianos já estão me procurando para retomar as conversas sobre o acordo
03:39e a negativa por parte do regime.
03:42Que, aliás, ainda não há uma clareza sobre o que vai acontecer,
03:46que lideranças seriam essas, quais serão num futuro próximo.
03:51Qual é a leitura que você faz desse tipo de estratégia de Trump?
03:56O que é uma névoa da guerra, do conflito acontecendo?
04:02E o quanto disso é, de fato, uma estratégia intencional aí?
04:08Eu não confio muito na lucidez do Trump, né?
04:11Ele é muito reativo, ele gosta, ele é bravateiro, ele gosta de bater no peco e dizer que ele é
04:16o incrível, o melhor.
04:18Mas faz parte, a postura de ambos os lados faz parte de estratégia básica de guerra.
04:23Quem está acuado, e o regime iraniano que está acuado, sempre diz, não, não está acontecendo nada, está tudo bem.
04:31Os Estados Unidos fazem a sua parte de dizer, nós estamos arrebentando.
04:35Mas o que nós estamos enxergando é exatamente a estratégia correta de quem não quer um repeteco
04:43do que aconteceu no Afeganistão, no Kuwait, no Iraque, é atacar com força.
04:49Logo no começo, decapitando todos os primeiros, seguros escadão, eles mataram o Khamenei.
04:56A gente até achou que tinha matado o presidente, depois o presidente apareceu ontem,
05:00falando em direito de vingança, mas continua sendo um alvo.
05:0440 lideranças da estrutura da Guarda Republicana, de todas as estruturas militares,
05:1240 líderes já, até já falamos em 48, já foram abatidos.
05:17Então, esse sistema de eliminar as defesas, porque ao mesmo tempo, nós não estamos falando disso,
05:22mas todos os sistemas de defesa, os lançadores de mídia, essas estruturas importantes também estão sendo atacadas,
05:30os cabeças estão sendo eliminados, e aí com isso ele coloca a República Islâmica com o regime
05:36em uma situação em que eles são obrigados a negociar.
05:39Por isso mesmo que eles já estão falando em quem serão os sucessores, não, sim, parece brincadeira
05:44eles estarem falando em sucessores, porque só coloca esses quatro nomes na lista de novos alvos
05:50dos americanos e dos israelenses, que estão dessa vez fazendo uma ação cirúrgica,
05:54assim como foi no ano passado, naquela Guerra dos Três Dias, eles não querem a escalada,
06:00não querem a continuidade.
06:01O que nós estamos vendo dos países do entorno é os países árabes se posicionando,
06:08sendo atacados e dizendo nós não queremos contra-atacar, nós não queremos guerra.
06:13A Rússia está lá enroscada na sua guerra com a Ucrânia,
06:17e até nesse momento ganhando dinheiro com a alta do petróleo,
06:21porque eles são grandes produtores de petróleo e não usam o estreito de ouro em Rússia.
06:25Então, para a Rússia, economicamente, a situação está até interessante,
06:30ao contrário de quando houve a Revolução Islâmica em 79,
06:33que a Rússia era ativa, era ator importantíssimo.
06:36Foi a Rússia que trouxe os ayatolás, hoje a Rússia não quer se envolver.
06:40Então, deve ser um conflito com começo, meio e fim.
06:45O regime do ayatolá vai cair, ele já é uma questão agora de tempo,
06:50de como será feita essa transição e principalmente de quem será, né?
06:54Porque o chá dos Estados Unidos, o príncipe perder o filho do Reza Pakim,
06:59e que já tem sido manifestado, não tem dentro do Irã alguém para falar por ele e para agir.
07:07Então, nós temos que observar e ver como isso vai evoluir.
07:09É, e a gente já viu, né, Benjamin Netanyahu de Israel, Donald Trump,
07:15e hoje mais cedo o Pitch Egg 7, o secretário de Defesa,
07:19reforçando a mensagem à população iraniana para que aproveitem a oportunidade,
07:24a janela, né, no sentido de tomar o poder por ali.
07:28Enquanto isso, Mônica, o mundo inteiro, os países, as empresas,
07:33todo mundo que tem uma decisão para tomar, fica de olho nos sinais sobre o quanto isso tem potencial.
07:39de escalar, ou ainda que não escale, de se estender,
07:44porque isso afeta várias questões, né, combustíveis, petróleo,
07:49que passa pelo Estreito de Hormuz.
07:51E aí eu queria saber de você, a que informações, detalhes,
07:57informações no sentido do andamento e da escalada disso,
07:59você vai estar particularmente atenta hoje, nos próximos dias,
08:03e que a nossa audiência também deve ter no radar?
08:07Eu acompanho a imprensa internacional, acompanho a imprensa em Israel,
08:12vejo quais são as movimentações, principalmente em Israel,
08:15que eu acho que tem um foco mais direcionado, né,
08:18o Trump gosta de falar muito, gosta de internamente criar uma grande cortina de fumaça,
08:24vale lembrar que a situação do Trump nos Estados Unidos está muito complicada,
08:28a situação do AIS, a situação dos arquivos déficit,
08:32a economia lá não está indo como ele gostaria,
08:35então ele tem ali algumas preocupações internas que ele precisa poder dizer
08:39estamos vencendo a guerra no Irã,
08:41e o Benjamin Netanyahu também internamente tem muitas questões
08:45que com essa guerra acabam fortalecendo por ainda mais um tempo.
08:49Então, esses são dois líderes que precisam que a guerra seja rápida,
08:53precisam que a guerra seja eficiente,
08:55que ela não custe muito dinheiro,
08:57que os americanos não querem gastar com guerras,
09:00e que haja um resultado positivo.
09:02Qual é esse resultado positivo?
09:04É uma derrubada, ainda que parcial,
09:08porque não temos a ilusão de que vai ter democracia no Irã,
09:11mas que haja, pelo menos, um começo de conversa sobre um regime
09:16onde as mulheres tenham direitos mínimos,
09:18onde o povo tenha seus direitos respeitados.
09:21E quando a gente fala de Irã, é importante lembrar,
09:23a audiência da CNBC é qualificadíssima,
09:26quando vocês ouvirem tal pessoa fala pelo Irã, representa o Irã,
09:30tem que entender que hoje é uma ruptura muito clara
09:32entre o que é o regime do Islã, a República Islâmica e os seus interesses,
09:36e o que é o interesse do povo iraniano que está nas ruas
09:40desde 28 de dezembro do ano passado, com 30 mil pessoas mortas.
09:44O custo de vidas dentro do Irã já é muito alto.
09:47Então, haverá de baixo para cima dentro do Irã,
09:50uma pressão por uma solução,
09:52que não será simplesmente colocar o filho do Kameini
09:56ou o neto do Kameini, pior ainda,
09:59e dizer, segue o jogo.
10:01Ele vai ser muito diferente do que aconteceu na Venezuela.
10:04É importante que haja uma transição na direção de uma estabilidade,
10:08lembrando que o Irã, há muitas décadas,
10:11fala claramente, abertamente, que Estados Unidos e Israel são o grande satã
10:15e que devem ser eliminados,
10:17e que eles financiavam uma rede de terrorismo internacional
10:21que chegou até a Argentina, Bélgica, na Europa,
10:24há muitos atos, no Oriente Médio.
10:26Então, buscar paz e estabilidade significa
10:31eliminar esse regime do Irã como ele é hoje
10:33e criar ali algum tipo de situação
10:35que comece a conversar com princípios democráticos e de liberdade.
10:40E o posicionamento do Brasil, Mônica?
10:43Porque é como se a gente estivesse andando ali numa loja de cristais, né?
10:47Temos relações comerciais com países dessa região,
10:51compramos fertilizantes, exportamos muitos produtos do nosso agro,
10:55somos um parceiro fortíssimo da China,
10:58que inclusive já declarou, manifestou um apoio ali ao Irã.
11:04E aí, como é que você tem visto esse posicionamento nesse momento
11:07em que também não dá para defender o regime iraniano,
11:11por mais que haja relações comerciais em jogo, né?
11:13Se trata ali de um regime abominável, como estava acontecendo.
11:17Pois é, Natália.
11:18É uma pena que o nosso presidente não está agora assistindo e te ouvindo,
11:21porque é exatamente isso.
11:23Não dá para defender esse regime,
11:25e é o que Lula tem feito repetidamente.
11:28O Mahmoud Abunajar, que foi assassinado ontem,
11:32ele era... Lula o chamava de irmão.
11:34Ele foi recebido aqui no Brasil, assim, é uma relação que não condiz
11:39com a posição que o Brasil sempre teve.
11:41O Brasil de Oswaldo Aranha, o Brasil protagonista de tantas mediações,
11:46o Brasil sempre teve um papel de intermediar esse tipo de conflito.
11:50E hoje nós estamos ao lado do eixo das ditaduras,
11:54ao lado do autoritarismo, e isso é muito ruim,
11:57porque o Brasil precisa defender o livre comércio,
12:00precisa defender a multilateralidade, que inclusive Lula defendia.
12:04Quando houve o tarifácio do Trump, ele foi para a imprensa dizer
12:08defendemos o livre comércio, aquilo foi tão bonito,
12:11mas parece que ele esqueceu disso e da importância do Brasil
12:15condenar qualquer ataque terrorista.
12:17Inclusive o que aconteceu em Gaza, né?
12:19Que o Brasil demorou tanto para se posicionar,
12:22depois se posicionou dizendo vamos observar com cautela,
12:25e agora ele se posiciona criticamente.
12:28É claro que a invasão americana e israelense desafia as leis internacionais,
12:34ela é ilegal do ponto de vista da diplomacia internacional,
12:37mas o que nós temos que entender é que a diplomacia internacional hoje,
12:41o direito internacional, a carta da ONU,
12:43não atendem mais à necessidade atual pela paz.
12:48Há tantos conflitos no mundo e a gente dizendo,
12:50ah, o direito internacional, o direito evolui com o tempo
12:53e está na hora de mexer nessas regras
12:55para justamente evitar que um ditador, um regime assassino e truculento
13:01como o que existe hoje no Irã, como o que existia na Síria,
13:04a Pacharel Assar matou 500 mil sírios,
13:07regimes que assassinam a sua própria população,
13:11não podem se sustentar com base num regramento internacional
13:14que impede a intervenção.
13:16Se o seu vizinho está enchendo a mulher dele de pancada,
13:19derrubar a porta, entrar lá e dizer pare,
13:21é o mínimo que a gente tem que fazer.
13:24Mônica Rosenberg, advogada especialista em compliance
13:27e comentarista política.
13:29Obrigada por estar com a gente nessa manhã.
13:31Até a próxima. Bom dia por aí.
13:34Bom dia, obrigada.
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