00:00O Medvedev é interessante, né? Porque quem fala, quem expõe sem diplomacia é o Dmitry Medvedev.
00:06Muitas vezes com a cabeça do governo russo, mas a figura exposta é a do Dmitry Medvedev.
00:12O presidente dos Estados Unidos garantiu que, se depender dele, o Irã jamais terá armas nucleares.
00:19Vamos ouvir o que disse o presidente americano.
00:24O Irã é o maior patrocinador estatal do terrorismo no mundo
00:28e recentemente matou dezenas de milhares de seus próprios cidadãos nas ruas durante protestos.
00:34Sempre foi uma posição dos Estados Unidos, em particular da minha administração,
00:39que esse regime terrorista jamais poderá ter uma arma nuclear.
00:43Repito, eles jamais poderão ter uma arma nuclear.
00:49Está aí, portanto, o pronunciamento do Donald Trump, o Otúlio Nassa.
00:52Dá para garantir que o Irã jamais terá uma arma nuclear?
00:56E lembrando que, muitas vezes, essa arma nuclear serve de uma espécie de defesa para o país que a tem.
01:03Vide Kim Jong-un na Coreia do Norte, meu caro Túlio.
01:07Olha, Nonato, é uma situação difícil.
01:10Evidentemente que não há justificativa alguma para um ser humano normal admitir a possibilidade de uma guerra.
01:17E, portanto, é muito complicado defender a posição de Donald Trump, ainda que seja em relação ao Irã.
01:23Mas, de outro lado, é bem verdade, o Irã vem enriquecendo o urânio muito acima do percentual
01:29que seria destinado apenas a seu uso energético.
01:33Isso não sou eu que estou falando, são organismos internacionais.
01:36É verdade também que o Irã financia o terrorismo ali na região do Oriente Médio.
01:40É verdade que o Irã promove ameaças diretas contra os Estados Unidos, contra Israel.
01:47É também verdade que o Irã viola os direitos humanos ali dos cidadãos.
01:51Nós vimos recentemente a brutalidade dos assassinatos que o governo iraniano cometeu em relação à população que manifestava.
01:58Então, tudo isso, na verdade, forma um caldeirão muito perigoso.
02:01Porque, de um lado, você tem um presidente norte-americano que de pacifista não tem nada.
02:06Ele realmente está mostrando a cara dele ao longo das atuações atuais e das próximas que virão.
02:13Agora, também entender que o Irã não é um país que merecia uma intervenção é complicado.
02:20Acredito que somente uma intervenção internacional poderia resolver o problema do Irã.
02:24Mas uma intervenção internacional, mediada, pensada, arquitetada pela comunidade internacional.
02:30E não, evidentemente, uma ação unilateral dos Estados Unidos.
02:33Até porque, como eu frisei anteriormente, os Estados Unidos não têm capacidade e não têm vontade hoje
02:38de ocupar o Irã e de fazer uma transição de anos ali para que o Irã volte a ser uma
02:44democracia,
02:44para que não haja violação ao direito das mulheres, aos direitos humanos.
02:48Então, não me parece que os Estados Unidos estão querendo resolver o problema da humanidade.
02:52Os Estados Unidos estão querendo resolver o problema dele.
02:55E de forma cruel também.
02:57Vou chamar também agora para essa conversa a Jess Peixoto, que se alinha com a gente também agora
03:03na nossa audiência a partir dessas sete horas e oito minutos até às dez.
03:08Jess, como é que você enxerga que agora o mundo vai olhar para esse conflito?
03:14Organismos internacionais pouco têm conseguido intervir quando a vontade de Trump é colocada ali
03:22num primeiro posicionamento, né?
03:26Então, Trump tem realmente ditado as regras mundiais na sua visão?
03:31Bom dia a todos.
03:33Márcia, de fato, Trump tem ditado as regras mundiais e eu acho que ele tem exposto algo
03:38que já era evidente, mas que nesse momento está mais do que nunca.
03:42A fragilidade institucional e até mesmo em termos de tomada de ação de contenção ou de crítica
03:50da ONU e de outros organismos bilaterais, organismos multilaterais,
03:56porque a lógica que Trump muitas vezes coloca é uma lógica de preferência das escolhas dos Estados Unidos.
04:03O que, para ser bem justa, é também presente nos organismos multilaterais,
04:09mas é que é tão evidente, deixa tão claro e tira aquele véu de que estamos fazendo pelo mundo.
04:15Deixa evidente que existem interesses que são alinhados com o da nação que ele coordena, que ele preside,
04:22lembrando que o lema dele era América em primeiro lugar,
04:25e a partir disso ele toma uma série de decisões que são, sim, menos pacíficas
04:31do que até comparadas ao mandato anterior dele.
04:34O Irã é um exemplo disso, a Venezuela é um outro exemplo disso,
04:38e o ponto principal deles não é, de forma alguma, a implementação de sistemas democráticos.
04:44O caso da Venezuela deixa isso muito evidente, mas sim contenção de risco e a própria segurança dos Estados Unidos.
04:53Não à toa, no passado, ele revogou um acordo sobre a situação nuclear,
04:58feito ali pelo mandato de Barack Obama,
05:01e agora ele buscava um acordo razoavelmente semelhante.
05:06Ou seja, ele busca conter, em termos narrativos,
05:11mas lá atrás ele se opôs drasticamente ao país,
05:13e agora se opõe e tem aí Israel também a seu lado nisso.
05:18Pois é.
05:19Agora, Fabrício, a gente está falando muito aqui a respeito dessa situação do Donald Trump,
05:25tentando, de algum modo, levar, entre aspas, democracia ou um cenário melhor para a população do Irã também.
05:33Só que, como a Dias bem destacou, já houve a ação na Venezuela,
05:37que, no fundo, não tem muito a ver com a retirada de um ditador do poder,
05:42senão teríamos que expandir isso para a Coreia do Norte, para a Arábia Saudita,
05:45por exemplo, que é uma aliada do governo americano.
05:48E, por outro lado, há históricos também, caso do Afeganistão,
05:52em que os Estados Unidos esteve lá ocupando por cerca de 20 anos,
05:54e não resolveu a situação da população local.
05:57Agora voltou o Talibã, tudo voltou ao que era antes da ocupação americana.
06:01Ainda o próprio Iraque, quando houve aquela história de que o Iraque teria armas de destruição em massa,
06:06isso não se comprovou, o Iraque virou um caos,
06:10e só agora começa a ter uma situação um pouco mais estabilizada.
06:13Líbia é outro ponto também.
06:17Qual é a expectativa que se tem para o Irã, em caso de sequência de um conflito,
06:23e, quem sabe, até a retirada do Khamenei do poder?
06:26Porque a gente não tem uma figura de oposição ampla e apoiada por todo mundo no Irã, né?
06:31O Irã, Nonato, ele é um país que tem uma singularidade,
06:37uma peculiaridade em relação aos outros países ao redor do mundo.
06:41Ele é, possivelmente, o país que tem o maior sentimento anti-americano
06:45de todo o planeta.
06:47É difícil encontrar um povo que tem uma aversão maior aos Estados Unidos do que o povo iraniano.
06:53E isso não quer dizer que é um sinal de alinhamento com o regime dos Ayatollahs,
07:01com a República Islâmica iniciada em 1979.
07:03Há a grande possibilidade de, em caso de troca de regime,
07:08Estados Unidos e Israel trocarem um regime que odeia Estados Unidos e Israel
07:12por um outro regime que também odeia Estados Unidos e Israel.
07:17Essa, na verdade, é a grande possibilidade.
07:19É muito difícil a gente imaginar, por exemplo,
07:22um retorno do filho do Shah Reza Palev ao Irã
07:26para retomar o poder, para retomar a época de Império Persa,
07:31do regime dos Shahs lá no Irã.
07:33Isso parece completamente descartado.
07:36Nesse momento não há apoio popular para isso.
07:38O regime cai em 1979 porque ele não tinha apoio popular,
07:41porque ele era um regime que promovia uma repressão brutal contra os cidadãos,
07:46tal qual o regime dos Ayatollahs atualmente também faz.
07:49Então, o futuro do Irã, ele é muito mais incerto do que, por exemplo,
07:55o da Venezuela, como você destacou,
07:58porque a possibilidade dos Estados Unidos e de Israel
08:02terem alguma ingerência sobre o governo,
08:05ela é consideravelmente menor.
08:08As estruturas de poder no Irã são mais consolidadas.
08:11As estruturas do poder no Irã,
08:13elas não têm apenas um aspecto militar,
08:16elas têm também um aspecto religioso.
08:18Então, a gente está falando aqui de algo muito mais profundo,
08:22muito mais difícil de você acabar infiltrando,
08:26acabar influenciando de fora
08:28sem o compartilhamento de valores específicos.
08:31E aí também essa questão do sentimento anti-americano.
08:35O Irã dificilmente aceitaria uma ingerência dos Estados Unidos,
08:42do Ocidente de maneira geral,
08:43ainda mais se a gente considerar que em mais de 30 anos de regime,
08:48em mais de 40 anos de regime,
08:50é claro que foi feito ali um trabalho, digamos assim, de base.
08:53Você pode chamar de lavagem cerebral,
08:56você pode chamar de instrumentalização da população
09:01para entender o que é a defesa do povo iraniano,
09:04do povo pérsio,
09:05o que é o inimigo desse país.
09:07E aí você não, digamos assim,
09:09se rende ao inimigo tão fácil,
09:11por mais que você esteja controlado militarmente.
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