Em entrevista ao Fast News, o clínico geral e professor da USP, Paulo Camiz, alerta para os dados alarmantes do Enamed 2025. O exame revelou que 4 em cada 10 formandos de instituições privadas não atingiram a proficiência mínima para exercer a profissão.
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NotíciasTranscrição
00:00O resultado do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica, o Enamed, acendeu um alerta no Brasil.
00:06Quase 4 em cada 10 estudantes que se formam em medicina em cursos privados pelo país
00:12chegam ao final da formação sem a qualificação mínima.
00:16E para falarmos mais sobre isso e o futuro dos cursos de medicina no Brasil,
00:20nós vamos conversar agora com o Dr. Paulo Camis, que é clínico-geral, geriatra,
00:24professor da USP e membro do Corpo Clínico do Hospital Sírio-Libanês.
00:28Doutor, boa tarde, bem-vindo.
00:31Boa tarde, é um prazer estar aqui com vocês, estou à disposição.
00:34Doutor, eu gostaria primeiro que o senhor desse um panorama geral para explicar para a nossa audiência
00:38do que se trata este exame, qual é a sua finalidade, como ele tem sido recebido na classe médica,
00:45não só para a classe médica, mas também entre os estudantes e os cursos de medicina.
00:51Perfeito. Então, esse exame foi organizado não pelos conselhos regionais de medicina,
00:57até tem uma lei em tramitação, um pedido em tramitação no Congresso Nacional
01:05para que esse exame seja organizado pelos conselhos de medicina,
01:10exemplo de o que é feito pela OAB.
01:12Esse exame foi organizado pelo Ministério da Educação
01:15e foi focado exclusivamente na Faculdade de Medicina,
01:19porque a medicina tem essa questão, digamos assim, de impacto social.
01:26A prova, de uma maneira geral,
01:30ela foi feita de uma maneira mais apressada,
01:34teve 10% das questões anuladas
01:35e foi focado muito em medicina primária,
01:40muito focado, digamos assim, em quem vai sair e já atender no SUS.
01:44Eu avaliei a prova, essa é a minha interpretação pessoal, tá?
01:49E foi, a meu ver, também uma prova propositadamente fácil,
01:55do ponto de vista técnico.
01:58Mesmo diante de questões fáceis,
02:01a gente teve, digamos assim,
02:03um terço dos alunos que estão se formando reprovados.
02:08A prova foi feita muito mais para avaliar as faculdades do que os alunos.
02:15Ela não tem valor para você impedir o aluno de exercer a profissão com o médico.
02:22Boa parte desses que foram reprovados na prova,
02:25inclusive, já estão com o seu CRM,
02:28já estão com a liberdade para exercer a profissão médica
02:31e, eventualmente, já estão atuando,
02:34só para você ter uma base.
02:35Então, o Conselho Regional de Medicina não teve acesso aos resultados individuais de cada um.
02:43Estão lutando, estão, a meu ver, fazendo um bom trabalho,
02:46tentando ver de que maneira
02:49se consegue um controle maior de qualidade em cima dos alunos.
02:53Porque essa prova foi focada muito mais
02:56em avaliar as faculdades
02:58e, a partir daí, propor redução de vagas
03:02ou até suspensão dos cursos de medicina que forem realmente insuficientes.
03:08Doutor Paulo, a pergunta é,
03:11esse resultado, apesar de ser um resultado geral e não individualizado,
03:17o senhor acredita que, a partir dele,
03:18será, de fato, fechado algum curso,
03:21diminuídas as vagas?
03:23E o senhor entende a banalização
03:26da abertura de cursos de medicina
03:28parecido com o que aconteceu, por exemplo, com as faculdades de direito
03:31que se multiplicaram nas últimas décadas?
03:35É, isso aconteceu, se eu não me engano,
03:38principalmente a partir do governo Dilma.
03:41Depois deu uma freada, se eu não me engano,
03:43no governo Temer e depois voltou a aumentar agora.
03:50O que acontece?
03:52Ainda que tenha sido um instrumento,
03:55a meu ver, não foi da melhor forma,
03:58você tem uma consequência imediata
04:00que, finalmente, os conselhos podem ter uma ferramenta
04:04para pleitear e para cobrar as instituições
04:09e exigir um controle de qualidade mais firme dessas instituições.
04:15Agora, o que vai acontecer?
04:18É muito complicado eu responder essa pergunta,
04:21porque as faculdades de medicina viram um negócio extremamente comercial
04:26e tem muita questão política envolvida.
04:28é muito complicado também você chegar e falar para alguém que cursou seis anos de medicina
04:34e falar, ó, lamento, mas você não vai poder exercer.
04:37Tem várias propostas para isso,
04:39fazer uma avaliação ao longo do curso a cada dois anos,
04:43mas, enfim, o que vai acontecer?
04:46Acho que tem muitas camadas envolvidas aí,
04:48eu não tenho como prever,
04:50mas virou uma questão extremamente comercial.
04:55Para você ter uma ideia,
04:57vocês devem saber isso daí também,
05:00que boa parte dos estudantes que cursam medicina
05:03não tem o devido poder que existiu para pagar as mensalidades.
05:08E aí eles são financiados pelo FIES.
05:11E aí depois eles caem no mercado e mesmo assim não conseguem pagar
05:14e acaba muitas vezes, ou dando calote ou tendo essa dívida perdoada pelos governos.
05:22E isso acaba virando como se fosse um financiamento público.
05:26Então, a pessoa teve um financiamento público da faculdade
05:31e está exercendo a profissão de uma maneira ruim,
05:36porque a formação, como vocês estão vendo aí por esse exame,
05:40é bem como deixar bastante a desejar.
05:44Então, é um conjunto de coisas aí.
05:47Professor, eu vou trazer aqui para a nossa conversa o Guilherme Mendes,
05:50nosso analista desta edição do Fashion News,
05:52ou ele vai te fazer a próxima pergunta?
05:54Doutor Paulo, boa tarde.
05:55O senhor coloca a questão da proliferação da abertura de cursos
05:59e da oferta de vagas para os estudantes de medicina
06:02e depois, óbvio, de cumprido o curso, o período acadêmico,
06:08a entrada de profissionais no mercado.
06:10A que o senhor atribui a abertura desses cursos?
06:12A uma mera questão comercial ou a necessidade da formação de médicos
06:16dada a dimensão do nosso país, o quantitativo versus o número populacional
06:23e, sobretudo, uma das queixas muito grandes de quem mora fora dos grandes centros urbanos,
06:30da dificuldade de se encontrar médicos e depois médicos especialistas
06:33em cidades pequenas, em rincões isolados do país, em áreas de difícil acesso.
06:40O senhor acha que a tentativa de se abrir novos cursos e aumentar a formação de profissionais
06:45veio para atender uma demanda do mercado ou uma demanda social
06:50na medida em que o Brasil, em determinadas regiões,
06:54apresenta índices de número de médicos per capita
06:57muito aquém do que recomenda a Organização Mundial da Saúde, não é?
07:01Olha, sabidamente, esse número não é tão aquém.
07:09Então, a relação de médicos por habitante do Brasil já está bem próxima
07:15ao que se recomenda a Organização Mundial da Saúde.
07:18O problema do Brasil é muito mais a distribuição de médicos.
07:23Você tem uma carência de médicos em áreas remotas.
07:25Se a solução para isso é você criar incentivos para os médicos irem para lá
07:32ou abrir novas faculdades de medicina, aí cada um vai ter a sua opinião.
07:38Eu acho que é muito mais no caminho de não abrir faculdade de medicina
07:42e ter uma qualidade sofrível.
07:44É muito mais de criar incentivo para os médicos que temos em grande quantidade
07:49já no Brasil e já com essas novas faculdades estão caindo 40 mil médicos
07:53por ano no mercado.
07:55Então, é muito mais a distribuição dos médicos concentrados nos grandes centros
08:03e não nas zonas remotas.
08:06Doutor Paulo, na sua experiência aí, imagino que o senhor também tenha acesso
08:12não só pelos dados que o exame nos aponta, mas também com os recém-formados
08:18em residências, enfim, onde o senhor tem o contato.
08:22Qual é a grande fragilidade na formação desses médicos?
08:28Qual é o ponto que precisa ser melhorado?
08:30É a parte prática?
08:32É a questão teórica?
08:34Explica para a gente aí na sua visão qual é um bom começo para se melhorar
08:38a formação dos médicos no Brasil.
08:39Vamos lá.
08:42Então, a população, de uma maneira geral, é extremamente crítica com os médicos, a
08:49meu ver, está muito mais do que com as outras profissões.
08:52Todo mundo espera muito de um médico.
08:57Então, todo mundo que se forma em medicina sente esse peso.
09:02Eu, quando recém-formado, e até hoje, não deixo de sentir esse peso, porque você está
09:06lidando com vidas.
09:07Então, inclusive, quando a gente vê, os jornalistas falam, poxa, a formação que se espera
09:12de um médico é, enfim, é sempre usado como comparação, né, tem que ter uma formação
09:19como a que se espera de um médico, né, vai para o interior, tem que entender de tudo.
09:24Então, é até uma das críticas ao Enamed, por exemplo, que não teve uma avaliação
09:30prática, teve só uma avaliação teórica em testes de múltipla, sem testes de múltipla
09:35escolha, nos quais, acho que cerca de 10 foram anulados.
09:40Então, eu diria que é tudo.
09:43Agora, você vai perguntar o que está faltando.
09:46Há alguns anos, já, o curso de medicina, ele já não, ele não é mais visto como um
09:51curso terminal.
09:53O que eu quero dizer com isso?
09:54Você não sai pronto para exercer a medicina depois de seis anos de faculdade.
10:01Então, cada vez mais, é esperado que o médico curse o programa de residência médica.
10:08E aí, você vai para as especialidades.
10:11Clínica geral, e aí você tem as subespecialidades, você vai, mas fala das grandes áreas, clínica
10:16geral, pediatria, as áreas cirúrgicas, enfim, tem outras áreas de acesso direto, dermatologia.
10:22Você não sai totalmente preparado para o mercado depois de seis anos de faculdade.
10:29Você fala, caramba, mas depois de seis anos...
10:30É, a medicina é muito ampla.
10:32Então, muitas vezes, as pessoas que estão entrando na faculdade não sabem, não têm
10:38a menor ideia do que espera pela frente.
10:41Então, a gente está falando de alguém que vai entrar na faculdade entre 17, 20 e 21 anos,
10:48e vai estar minimamente preparado para ingressar no mercado depois de 10 anos.
10:54Estou falando de seis anos de faculdade, mais 2 a 4 de especialização, a depender da área que for.
11:04Se for para uma área como neurocirurgia, por exemplo, são cinco anos de residência.
11:08Então, a gente tem visto o tempo inteiro inúmeras atrocidades, que são noticiadas pelos canais
11:19mediáticos, e tanto eu como meus colegas médicos, nós não ficamos surpresos, porque realmente
11:27a formação deixa muito a desejar.
11:30E aí, o que acontece com muitos desses médicos que já são em grande número, mas como a gente
11:35já falou que não estão bem distribuídos, eles vão ficando no mercado.
11:39Muitas vezes, eles caem nas redes sociais e começam a divulgar um monte de informações,
11:45começam a fazer coisas, a meu ver, não sérias, que até atrapalham quem quer exercer a profissão
11:52de uma maneira adequada.
11:54Então, a gente vê tudo isso, tudo isso que está sendo feito com a medicina no Brasil,
12:00é muito triste.
12:01Professor, eu vou trazer mais uma...
12:05Então, vamos perguntar, o que mais falta?
12:07Tem muita coisa faltando.
12:08A expectativa que você tem de um médico é toda essa, né?
12:11A formação teórica, a formação prática, a formação humana, que muitas vezes é mais
12:15difícil de ser avaliado.
12:17Dificilmente você vê algum médico ser reprovado por uma questão nesse sentido, porque
12:23numa prova dessas, a pessoa vai lá e fala qualquer coisa politicamente correta e tem
12:29que fazer. É difícil do ponto de vista de avaliação também.
12:33Professor, eu vou trazer mais uma pergunta do Guilherme Mendes.
12:36Professor, a visão da medicina como um serviço e não como um direito foi o que prevaleceu
12:41no país na medida em que hoje, até mesmo na prestação dos serviços de saúde públicos,
12:46você tem organizações sociais e entidades privadas exercendo esse serviço junto à população.
12:52Mas há uma característica muito peculiar que, por ser um serviço, dada muitas vezes
12:58a condição em que o contratante, entre aspas, sequer tem consciência daquilo que vai ser
13:02feito ou daquele serviço que ele vem a pagar, porque muitas vezes ele não está ali consciente
13:07quando é levado a um hospital.
13:09Ou então, dada a emergência, a urgência da tomada de decisão para se ir a um ou outro
13:14hospital, a um ou outro posto de saúde, há o poder de escolha do contratante, o poder
13:19de escolha do cidadão, o poder de escolha daquele que paga, fica muito turvo, fica muito,
13:25como eu posso dizer, às vezes até impedido quando comparado a uma contratação de serviço
13:34de outra natureza.
13:36Nesse sentido, a minha pergunta é muito objetiva.
13:39Qual é a responsabilidade das entidades contratantes, dos hospitais, das empresas que prestam serviço
13:45de saúde na escolha, seleção e oferta do serviço desses profissionais que, como o
13:51Enamed mostrou, quatro em cada dez não têm condições mínimas de exercer a função?
13:58O que o cidadão que não tem um plano de saúde, não tem recursos para pagar um bom hospital,
14:03um hospital consagrado, em que talvez um processo de seleção tenha sido rigoroso para colocar
14:08aquele profissional ali, o que essa pessoa pode fazer para não cair na mão de profissionais
14:13que, ao fim e ao cabo, podem decidir se ela vai sobreviver ou se não vai sobreviver?
14:19O cidadão comum, aquele que não é abastado, que não tem condição de escolher, ou porque
14:24não tem dinheiro ou porque não tem consciência, o local onde vai ser atendido, o que ele pode
14:28fazer?
14:31É uma pergunta de um trilhão de dólares aí, né, Guilherme?
14:34A gente não pode fazer nada, né?
14:36Não pode fazer, né, porque na prática você vê, né, todo paciente tem direito a uma
14:41segunda opinião, mas como?
14:44Isso é uma questão até do código de ética médica, mas ele não consegue às vezes nem
14:50ter acesso à primeira opinião de um médico, né, que dirá a segunda.
14:54Então, é uma questão do sistema de saúde, Guilherme.
15:00Tem que melhorar muita coisa, tem que melhorar mesmo.
15:04Dr. Paulo, para a gente finalizar...
15:06O que o cidadão pode fazer?
15:08Para a gente finalizar, o senhor vai poder concluir essa questão também, mas para a gente
15:12finalizar, o senhor acredita que a gente precisa de um exame que possa reprovar o aluno de
15:17medicina que não esteja considerado apto, assim como é o exame da UAB?
15:22Eu acredito sim.
15:24Eu acredito que a fiscalização tem que ser constante.
15:27Ele tem que passar constantemente por uma reciclagem, tem que estar sempre estudando e tem que ser
15:35cobrado por isso, porque nós estamos lidando com vidas, o tempo inteiro.
15:40Quando você está, muitas vezes, numa situação, vamos chamar assim, capitalista, né, de oferta e demanda,
15:47muitas vezes você vai ser punido por os pacientes não quererem mais você.
15:51Então, mas quando você está numa situação dessas como o Guilherme colocou, né, simplesmente
15:59a pessoa, muitas vezes, se esconde através de um contrato e divide a culpa com a instituição
16:06ou com o SUS ou com o sistema de saúde onde ela está inserida e continua fazendo, às vezes,
16:11muitas atrocidades.
16:12Então, ainda falta muito mecanismo de regulação e o Conselho Federal de Medicina está tentando
16:22trabalhar isso, eu vejo, né, acompanho alguns profissionais lá de perto, mas ainda está
16:31difícil, porque você esbarra em uma série de questões políticas e essas próprias faculdades
16:35de medicina que agora tem aos montes, também tem muita influência política por trás.
16:42Então, é complexa a coisa.
16:48Complexa, a gente vai seguir acompanhando.
16:49Eu quero agradecer demais o Dr. Paulo Camis, médico, professor da Universidade de São
16:53Paulo, conosco aqui na Jovem Pan.
16:54Sempre um prazer te receber, doutor.
16:57Obrigado, é um prazer estar aqui com vocês, estou à disposição.
17:00Até a próxima.
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