00:01Agora, ministro, uma questão importante que o senhor bem tocou aqui agora é a questão da abertura econômica.
00:06O Brasil tem que abrir economia. O Brasil, como você bem colocou, foi uma das economias mais fechadas do mundo.
00:11E todos os países emergentes que se tornaram ricos e furaram a bolha da renda média foram países que se abriram ao comércio internacional.
00:20E nós continuamos ainda com essa mentalidade de conteúdo nacional, proteção de mercados, etc.
00:26Como é que nós podemos fazer isso de uma forma gradual?
00:30Evidentemente porque isso é algo que exige um realinhamento da economia brasileira, mas é algo crucial para esse ganho de competitividade do país, como já mostrou o agronegócio brasileiro.
00:42Olha, o agronegócio brasileiro é o que é porque ele se abriu para o exterior.
00:48Você não tem fechamento do agronegócio contrário à importação.
00:53A gente importa trigo, aqui e acolá a gente importa frutas do chile, não tem barreiras para isso.
01:01Olha, a rigor, do ponto de vista institucional, é muito fácil.
01:07É uma questão de fazer um programa, fazer um programa, estar preparado para as ações complementares,
01:15porque não basta dizer assim, vamos abrir a economia.
01:17Aí é uma coisa irresponsável, como fez o Collor lá no trânsito.
01:21O Collor, ou o Martín de Nóis, na Argentina, abriu a economia argentina e a indústria argentina estava pouco competitiva, quase acabou.
01:30Você tem que ter associado a isso uma série de mudanças que aumentem a competitividade da indústria.
01:38O Collor, ele fez bem nisso aí, porque não era só a abertura.
01:43Você tem uma série de medidas do programa dele que incentivavam a melhoria da produtividade,
01:51melhorariam a forma de operação do governo naquilo que interessa a indústria.
01:58Mas eu acho que é uma coisa, e tem que ter um prazo, tem que ter uma coisa gradual.
02:02Não é amanhã abrir, como fez o Martín de Nóis.
02:04Você tem que ter um prazo, e a indústria vai ter que saber que naquele prazo ela tem que ganhar competitividade
02:13através da inovação, através da melhoria de processos, através da melhoria da qualidade de seus trabalhadores,
02:22e pressionar através de suas associações e através do sistema político o governo e o Congresso
02:30para tomar as medidas que tornam a indústria competitiva, para ela não ficar ao léu.
02:36Então isso implica privatização, em larga escala, eu acho que é um fator primordial para isso.
02:44Isso implica investimentos cada vez mais importantes em transportes, comunicações,
02:50e sobretudo energia, energia, então é um programa que pode ser formulado em uma semana, entendeu?
03:00E não existe, às vezes nem existe mudança de legislação, é só de regras.
03:06Agora, ministro, uma coisa fundamental para esse crescimento da economia e inovação,
03:11como o senhor bem colocou, é a questão do investimento em pesquisa e desenvolvimento.
03:16Parte dessa revolução do agronegócio foi investimento na Embrapa durante muito tempo que permitiu isso.
03:22E aí não dá para estar sujeito a corte de verbo, não, esse ano não tem zero para pesquisa,
03:27o próximo ano não tem 1%, não dá, precisa ter uma constância de orçamento, precisa ter um programa.
03:31Como é que nós podemos resgatar isso que nós fizemos bem lá atrás?
03:35Nós fizemos bem com isso com o ITA, quando nós criamos o ITA para depois criar uma Embraer,
03:41depois nós fizemos isso com a Embrapa, como aproveitar esses bons exemplos para valorizar o investimento em pesquisa e em desenvolvimento
03:49como um fator desencadeador dessas inovações?
03:52Eu acho, para usar uma expressão muito comum no Brasil, às vezes eu não gosto dela, é a questão de vontade política, certo?
03:59Porque isso não custa caro, isso não custa caro, certo?
04:02Quer dizer, você tem um orçamento de 2 trilhões no Brasil, você vai ver o orçamento de ciência e tecnologia,
04:08é uma merreca, digamos assim, relativamente falando, né?
04:11Então, é muito mais uma questão de decisão e de absorção da ideia de que o Brasil precisa disso
04:19para gerar uma ciência mais favorável à inovação, né?
04:29Enfim, não depende de uma reforma constitucional, depende de persistência, depende de ter gente competente,
04:37tem que ter gente competente gerenciando isso, tem que ter uma certa centralização, né?
04:43E tem que ter uma integração dos vários órgãos, né?
04:47No caso da agropecuária, foi mais simples, você podia focar só, né?
04:53Como foi feito na Embrapa, e eu acompanhei de perto isso,
04:58porque eu participei de alguns dos seminários que foram promovidos pela Jovem Embrapa,
05:05que é uma coisa que foi nova no Brasil, ela chamou vários especialistas,
05:09eu era um especialista em crédito rural do Banco do Brasil, para discutir.
05:13Qual é que deve ser a atuação da Embrapa nos diversos campos de atuação onde ela vai operar, né?
05:19Então, ficamos um dia, dois de seminário, e tinha um primeiro presidente da Embrapa, né?
05:28Irineu, é o Irineu, me esqueço do nome dele, né?
05:31Um grande brasileiro.
05:33Ele disse o seguinte, nós vamos ficar vários anos formando o PHD, certo?
05:39Então, o Brasil enviou dois mil agrônomos veterinários para o exterior,
05:45para obter o grau de mestrado e doutorado.
05:50E foi essa massa cinzenta que chegou ao Brasil e fez a ruptura, né?
05:55E aí, claro, havia já uma estrutura do Ministério da Agricultura,
06:00mas era uma estrutura bem de setor público, né?
06:04Por exemplo, na minha cidadezinha, onde eu nasci na Paraíba,
06:07tinha um campo experimental de fruticultura, que era do Ministério da Agricultura.
06:11A Embrapa foi a ideia, eu acho que funcionou, foi criada sob a forma de uma empresa estatal,
06:17onde ela tinha mais flexibilidade para contratar os melhores,
06:20para ter planos de carreira, né?
06:23E para não depender tanto do orçamento do Ministério da Agricultura, né?
06:26Eu acho que não é muito dinheiro para fazer isso, né?
06:30O que deve ter é persistência.
06:34Constância do orçamento.
06:35Constância do orçamento, foco, certo?
06:38E uma atuação coordenada do governo nas várias frentes.
06:41Porque para a indústria, não é como a agricultura.
06:44São vários, né?
06:47É por isso que eu acho que o governo criou, o governo Dilma, ou o governo Lula, não sei,
06:52ele criou uma coisa parecida com a Embrapa na indústria.
06:57Eu acho que não funciona.
06:59Porque...
06:59Ainda mais manter a reserva de mercado e tudo, é uma combinação.
07:03É, é, é, entendeu?
07:05Então, e finalmente, e finalmente, por cima de tudo, dizer o seguinte,
07:09olha, acabou esse negócio de reserva de mercado, de conteúdo nacional.
07:13Esse conteúdo nacional é tão atrasado, né?
07:16Porque, na verdade, quem beneficia esse tipo?
07:20As empresas que são ineficientes, né?
07:23E que se tornam fornecedoras privilegiadas do Estado, né?
07:26Se você chegar lá hoje na Petrobras, a quantidade de equipamentos, partes, peças, componentes,
07:34que ela tem que comprar obedecendo esse conteúdo nacional, que no atual governo piorou, não é?
07:39Isso tem que acabar.
07:40Ô, ministro, nós não temos que acabar o nosso bate-papo, mas eu queria, primeiro,
07:45esse tom otimistas, conta um pouco para a nossa audiência aqui,
07:49que ventos, são esses bons ventos que podem fazer o Brasil ficar rico?
07:55Olha, Felipe, eu diria que é um conjunto amplo de fatores que me animam, tá certo?
08:02Eu sou pessimista do que está acontecendo agora, mas otimista nesse campo.
08:06Primeiro, você tem agronegócio e setor mineral altamente competitivos.
08:12O Brasil é competitivo na chamada power shoring.
08:18Power é no sentido de energia, né?
08:21Ou seja, o Brasil tem 90% da energia elétrica no Brasil, é limpa, abundante,
08:28e pode ser barata, muito barata, se acabar todos os penduricalhos que tem na conta de luz, tá certo?
08:34E está provado que a indústria, quanto mais ela é avançada tecnologicamente,
08:41mais ela consome energia, né?
08:43Então, você está vendo já a migração de indústria da Alemanha para outras áreas do globo,
08:49onde tem essas qualificações.
08:50O Brasil é muito competitivo para isso.
08:52O Brasil tem sete das dez melhores universidades da América Latina,
08:57três no estado de São Paulo, e algumas delas de classe realmente mundial.
09:01Então, é entre as cem primeiras do mundo, né?
09:04O Brasil tem justiça independente, com todos os problemas que ela tem aqui, tá certo?
09:12Mas nós incorporamos no Brasil uma ideia chave para isso.
09:17Decisão da justiça não se discute.
09:20Ou cumpre-se ou recorre, tá certo?
09:22Isso é, do ponto de vista cultural, é um grande avanço.
09:25O Brasil tem, por exemplo, o Ministério Público, na investigação, eles exageram em muitos casos,
09:31mas na investigação ele é autônomo, não tem que consultar ninguém para saber quem investigar, né?
09:36Então, o Brasil tem Banco Central Independente, afinal, chegou, né?
09:40Esse momento tem o Banco Central Independente, né?
09:43E a gente está vendo quão é importante o Banco Central Independente.
09:46Todas as apostas que foram feitas, que o Galipo iria ser o Tombini do Lula, né?
09:53Não aconteceu.
09:55Porque, entre outros fatores, ele sabe que ele é independente.
09:58Número um.
09:58Número dois, ele sabe que quem assume esse cargo tem uma melhora do seu patrimônio profissional.
10:05Ele sai dali para ser o reitor da universidade, né?
10:08Importante, como o Ben Benan, que foi para Princeton.
10:11Ele sai para presidir um banco, para presidir uma área de um banco, né?
10:15E se ele baixa a cabeça, ele destrói o patrimônio profissional.
10:18Mas, sobretudo, porque ele é independente.
10:21Independente do sentido da autonomia, né?
10:22Não é independência de demais poderes.
10:25Ele é autônomo, para tomar decisões, né?
10:27E, finalmente, o Brasil tem empresa de classe mundial.
10:31Entende?
10:31Olha, se você olhar, eu selecionei um dia desse, são as 20 empresas brasileiras.
10:37E, cada dia, eu encontro mais uma outra, né?
10:39São empresas.
10:40No meu tempo, de começo de carreira, empresa grande e complexa era do setor público.
10:46Hoje, você chega em Embraer.
10:50WEG.
10:50WEG.
10:52Vale.
10:53Pão de açúcar.
10:54A área de energia.
10:59De ação, né?
11:00É.
11:00Tem umas que você nem sabe.
11:03Por exemplo, Duas Rodas.
11:05Duas Rodas não é a fábrica de bicicleta.
11:07É uma empresa de Jaraguá do Sul, né?
11:10Fundada por imigrantes alemães há um século.
11:13E ela é uma das maiores produtoras mundiais de sabores.
11:16E para fazer bolo, fazer essas coisas de cozinha.
11:21E tem fábrica nos Estados Unidos, tem fábrica na Europa, tem fábrica na América Latina,
11:26tá certo?
11:26São empresas que não quebram, entendeu?
11:29Ela pode ter crise aqui e acolá, porque todas tem, mas elas não quebram.
11:32Então, você tem a continuidade dessas empresas, né?
11:37Enfim, você tem outra empresa que também ninguém conhece, né?
11:42Lá de Fortaleza, que fabrica pais para energia eólica.
11:51Também estou esquecido o nome dela, mas, enfim, e ela exporta para o mundo inteiro.
11:56Inclusive para Israel, que é o maior produtor.
11:58Então, esse é um conjunto novo no Brasil, né?
12:02E se esse conjunto tiver a redução das desvantagens que tem de operar no Brasil,
12:08pelo sistema tributário caótico, a imprevisibilidade, as mudanças da regra do jogo,
12:13essas empresas, elas vão ser a base de um ciclo de prosperidade.
12:20E volto a dizer, estou com muita frequência, eu estou acrescentando a minha lista.
12:27Recentemente, eu descobri que tem uma empresa brasileira que inventou o modelo de negócios
12:32por assinatura para frequência de academias de ginástica.
12:39Isso, o Gym Pass.
12:40Exatamente.
12:41Ela está operando na Espanha, está operando nos Estados Unidos, é uma multidacional.
12:46Então, realmente, é uma coisa nova que está acontecendo no Brasil.
12:49Na verdade, como você falou, o que inibe que esse sistema de novidades no Brasil favoráveis
12:56produza mais benefício ao país é o Estado.
13:01É o sistema tributário, é o excesso de gastos, é a imprevisibilidade.
13:04É essa coisa da cultura de nós contra eles, ricos contra os pobres.
13:10Nós temos que ter aqui um dia baixar um espírito de Deng Xiaoping e dizer assim,
13:15olha, nós vamos ficar todos ricos, porque ficar rico é glorioso.
13:20Ministro, vamos acabar com esse tom de otimismo dos ventos positivos para o Brasil para 2026,
13:25porque é isso que a gente precisa, para inclusive aumentar a consciência cívica e votarmos bem esse ano.
13:30Isso mesmo.
13:30Obrigado pelo convite, Felipe. Foi um prazer.
13:34E nós ficamos por aqui.
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