00:007 horas e 36 minutos, a gente volta a falar aqui da situação no Irã, porque o número de mortos nos protestos contra o regime do Ayatollah Ali Khamenei subiu para 648, segundo um grupo de direitos humanos que monitora a crise no país.
00:14Diferentes ONGs têm denunciado o massacre realizado pelo governo contra os manifestantes.
00:19Sobre o assunto, a gente conversa agora com Gunter Hutzit, que é professor de relações internacionais.
00:24Tudo bem, professor? Bom dia, bem-vindo aqui a Jovem Pan.
00:26Bom dia, Nonato, Soraya, todos que nos assistem. Prazer é meu estar com vocês aqui.
00:32Professor, cada vez mais a gente está dependendo de ONGs que atuam no Irã, ou até mesmo acompanham mais de perto, porque os serviços acabam sendo cortados por lá, principalmente a internet.
00:46Mas, para a gente pegar um histórico aqui rapidamente, professor, o que está na discussão desses protestos?
00:54É o regime? É a economia? É a corrupção? Ou é tudo isso junto com uma insatisfação dessa juventude iraniana? Professor.
01:04Bom, Nonato, a alternativa última aí é a mais correta.
01:07Começou todo esse processo com a economia iraniana mergulhando numa crise forte, já ao longo do ano de 2025, após o que agora ficou conhecida como a guerra dos 12 dias contra Israel.
01:25Moeda se desvalorizou mais de 50%, inflação também chegando perto desse patamar, um desemprego alto e, o mais importante, altíssimo entre os jovens, acima de 40%.
01:40Só que essa insatisfação, diferentemente das outras vezes que o Irã passou por períodos de protestos muito grandes,
01:49não é uma revolta localizada, como, por exemplo, mais em Terã, nas grandes cidades, isso está ocorrendo no país inteiro,
01:59não é uma revolta que está se dando numa faixa etária, como de outras vezes, jovens sem perspectivas de futuro econômico,
02:10não é uma revolta localizada em termos de gênero, quando a gente teve em 2021 a morte de uma jovem sob o controle da polícia religiosa.
02:24Essa revolta, por isso que está chamando a atenção, está se espalhando por todas as camadas da sociedade iraniana
02:31e começou justamente pelos comerciantes, uma das principais bases do regime teocrático iraniano
02:40e começou por causa da alta da inflação, resultado da desvalorização da moeda iraniana.
02:47Então, é uma insatisfação geral que está levando a esse questionamento do próprio regime do Irã.
02:54Agora, professor, muito bom dia para o senhor também.
02:58O Irã diz que não quer guerra, mas que estaria preparado.
03:02E, do outro lado, o governo dos Estados Unidos diz que também não descarta uma intervenção,
03:08que pode até utilizar drones, mas que, nesse momento, prefere utilizar até a...
03:14Até me fugiu a palavra.
03:18Diplomacia, melhor dizendo.
03:19Nessa escalada rápida de tensão que eu acho que até impressiona o quão rápido esses protestos se deram,
03:27por um motivo que era inflação, a economia, como o senhor disse, através de protestos de lojistas, de comerciantes.
03:35E agora, dessas narrativas de ambos os lados, qual a probabilidade que essa intervenção aconteça?
03:41Bom, senhora, a primeira grande pergunta que tem que se fazer é o que, efetivamente, o governo americano quer do Irã.
03:50Quer que pare o massacre da população?
03:56Quer derrubar o regime?
03:58Ou quer somente que o Irã abra a mão do seu programa nuclear?
04:03Ou quer que o Irã diminua suas vendas de petróleo para a China?
04:07Não está claro ainda, nas palavras do próprio presidente Trump, o que, efetivamente, a Casa Branca quer.
04:15Se não tiver essa resposta, fica difícil a gente saber para onde vai caminhar.
04:20Mas uma coisa é certa.
04:22Uma intervenção militar, em larga escala, ou até bastante cirúrgica, como foi em relação ao Maduro na Venezuela,
04:32isso pode reverter completamente a situação do governo iraniano.
04:36Ou seja, fazer com que a população pare de protestar, ou pelo menos a maior parte, principalmente os comerciantes, os mais velhos,
04:45parem de protestar contra o governo e passem a apoiar o governo, porque o sentimento anti-americano é muito forte na sociedade iraniana.
04:52Ela vem desde os anos 50, quando os Estados Unidos e o Reino Unido intervieram na política,
04:58derrubando um primeiro-ministro nacionalista e colocando no poder, como era aliado do Ocidente, não chamava de ditador,
05:07mas um grande ditador, o Sharmu Parleff, que durou até 1979, quando teve a Revolução Islâmica.
05:13Portanto, é por isso que não me surpreendeu quando ontem o presidente Trump anunciou essas medidas econômicas.
05:22Mostra que o governo americano sabe muito bem que é uma situação muito diferente do que ocorreu na Venezuela
05:29e que uma ação militar pode ser um tiro pela culatra em vez de ajudar os manifestantes.
05:36Professor, tem similaridade com o que aconteceu em 1979, à medida em que a gente teve protestos por causa de corrupção também
05:44na dinastia do Shah, tinha também a economia muito ruim dos iranianos, o Shah tinha sua polícia secreta,
05:51assim como o atual regime também tem uma guarda revolucionária.
05:57E aí eu estou perguntando tudo isso para dizer o seguinte, tem potencial para o regime cair na sua avaliação?
06:02Olha, Nunatos, lembrem algumas situações desses pontos que você todo nomeou, são todos realmente pontos importantes.
06:13Só que diferentemente de 1979, quando o Shah estava num processo de se afastar de uma cultura muçulmana,
06:23de tentar reavivar o passado do Império Persa numa sociedade que estava começando a ter um nacionalismo religioso muito forte,
06:37foi aí que acendeu a figura central do Ayatollah Khomeini, que foi o grande líder desse processo
06:46e que conseguiu quando a gente teve, num primeiro momento, em janeiro de 79, quando o Shah fugiu,
06:54você teve a criação de um governo de união nacional, mas pouco mais de um mês depois,
07:00houve então a chamada Revolução Islâmica, quando o Khomeini conseguiu liderar esse processo.
07:06Hoje não tem essa liderança.
07:08Hoje, o filho do Shah Raza Parlevi está no exterior, não viveu no Irã nessas últimas décadas,
07:17ele não é uma unanimidade.
07:19Por isso mesmo que eu acho mais difícil acontecer esse processo de queda do regime
07:25e implementação de uma nova estrutura política e econômica social no Irã.
07:29E, professor, o governo também acabou bloqueando a internet, o que dificulta a divulgação até de número de motos,
07:37as informações acabam passando exclusivamente por agências estatais.
07:41Esse tipo de controle ajuda a conter os protestos ou, claro, na prática vai aumentar ainda mais a insatisfação da população?
07:50Com certeza, Soraya, aumenta muito mais e isso, para mim, é um dado importante.
07:55Mostra a preocupação que o governo, que o regime iraniano tem em relação a esses protestos.
08:03No início deles, finalzinho de dezembro, nem se pensava nisso.
08:09Mas foram nas escaladas que ocorreram nessas últimas, uma semana e meia praticamente,
08:14que mostrou que o regime está preocupado.
08:18está preocupado, sim, em que poderia haver uma queda dessa estrutura teocrática que controla o Irã.
08:27Portanto, a gente não vai saber direito o que está acontecendo lá por um bom tempo.
08:34Professor Gunter Hutzit, muito obrigado pela entrevista aqui,
08:37ajudando a gente a entender melhor esse cenário vivido pelos iranianos.
08:41Um bom dia ao senhor.
08:42Eu que agradeço. Bom dia a todos.
08:44Obrigado.
08:45Obrigado.
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