00:00E agora a gente segue para o noticiário internacional porque o Chile vai às urnas neste domingo para eleger o próximo presidente e no segundo turno, o primeiro líder da extrema direita desde o fim da ditadura Pinochet tem a grande chance de ser eleito também neste domingo.
00:19Vamos conversar com José Luiz Niemeyer, que é professor de relações internacionais do IBMEC do Rio de Janeiro sobre esse tema. Professor, muito bom dia, obrigada pela entrevista.
00:30Oi, Soraya, um abraço a você, o Marcelo, assinante da Jovem Pan.
00:34Bom, vamos lá, professor. O Chile chega a essa eleição com um cenário bastante polarizado, né? São dois polos, um candidato de ultradireita e uma candidata comunista.
00:46O que isso revela sobre esse momento político do país e até um cenário curioso, porque as pesquisas de intenções de voto no primeiro turno mostravam aí que Rara aparecia na frente
00:58e no segundo turno a situação se inverte. Qual que deve ser a tendência para este domingo, né? O resultado dessa eleição?
01:06Olha, Soraya, eu não acho que em outros países da América do Sul vai se repetir exatamente esse cenário de um candidato de extrema direita
01:16com uma candidata de origem comunista. Imagino que não são em todos os países da América do Sul, ou mesmo de outros quadrantes do sistema internacional,
01:27que se vai repetir este desenho.
01:29Mas é interessante nós analisarmos. E penso que a explicação maior está no campo da segurança pública.
01:38Então, a segurança pública acabou se transformando num tema que cai bem no discurso de políticos de extrema direita.
01:49Sempre coube bem. O líder, o político de extrema direita, ele tem soluções radicais para o combate da insegurança pública.
01:58Isso cai bem junto à parte do eleitorado. Mas a esquerda também tem, nos últimos tempos, tentado se aproximar
02:09desta agenda de combate à criminalidade. Então, o tema segurança pública sequestrou o debate no Chile.
02:18O candidato de extrema direita tem um discurso pronto com relação a esse tema,
02:22mas a candidata que representa a esquerda e o Partido Comunista também.
02:28Acho, acho, realmente algo novo você ter uma candidata ligada ao Partido Comunista.
02:36O Partido Comunista, em tese, ele propõe a socialização dos meios de produção,
02:42propõe uma intervenção estatal muito grande na economia e na vida das pessoas.
02:46Não é isso que a candidata chilena mais ligada ao Partido Comunista disser de esquerda, vamos dizer assim,
02:55não é isso que ela está propondo.
02:57Mas, dentro do tema de segurança pública, eu tenho a impressão que acabamos tendo esse desenlace
03:05de dois candidatos mais de extremos do Chile.
03:08como eu disse no começo da nossa conversa aqui, não acho que é o que vai acontecer,
03:13por exemplo, em um país como o Brasil.
03:15No ano que vem, acho que nós vamos ter uma eleição
03:17com menos de extremos se colocando do ponto de vista político ideológico.
03:23Mas está acontecendo o Chile.
03:25Isso pode ter a ver com o passado chileno,
03:28sempre o passado tem um peso muito grande.
03:30A história do governo Pinochet,
03:33a história do governo Allende,
03:35que foi derrubada pelo governo Pinochet,
03:37pode ter surgido isso na cabeça do eleitor nos últimos meses,
03:43mas ela está muito polarizada
03:45e com chances da vitória do candidato de extrema-direita.
03:50Professor Niemeyer, prazer mais uma vez tê-lo conosco.
03:54E a gente observa que também aqui no Brasil,
03:56essa questão da segurança pública já esteve muito presente
04:00nas eleições municipais,
04:01que normalmente não seria o âmbito mais adequado
04:04pra discutir segurança,
04:05mas ela já teve um papel de destaque
04:08e também deverá.
04:10A gente observa que o próprio governo do presidente Lula
04:12também mais focado nesse tema aí.
04:14Mas eu queria aproveitar o senhor,
04:16justamente nessa manhã de domingo,
04:18pra fazer essa análise de Estados Unidos
04:20e a Venezuela, professor.
04:22E a participação do Brasil
04:24no gerenciamento aí,
04:26sua potência regional,
04:28nessa questão que vai,
04:29a cada dia também,
04:30se agravando aqui,
04:31muito próximo,
04:32na nossa fronteira aqui, professor.
04:35Marcelo, muito bom você colocar,
04:37eu até fiz o movimento da câmera aqui,
04:38desculpe,
04:39era pra mostrar pro assinante
04:41da Jovem Pan,
04:43a nova doutrina
04:44de segurança nacional
04:46dos Estados Unidos da América,
04:48que eu venho analisando
04:49desde o dia 5 de dezembro,
04:51está na internet,
04:53livre acesso,
04:54e ela é um marco
04:55nas relações internacionais, né?
04:57As relações internacionais
05:00não serão como estavam sendo,
05:03eu calculo mais ou menos
05:04os últimos 127 anos,
05:07desde a guerra com a Espanha
05:08entre Estados Unidos
05:09e Espanha, né?
05:11Em 1898,
05:13todo o século XX nós tivemos,
05:15foi um século do que aquilo
05:16que nós chamamos de PAPS americano,
05:19a paz americana,
05:20que na verdade nada mais é
05:22do que os Estados Unidos
05:23interferirem em todos os assuntos
05:25internacionais em qualquer
05:27quadrante deste globo,
05:29isso sempre foi o norte
05:31da política externa
05:32e da política de defesa
05:33norte-americana,
05:34mas agora no governo Trump,
05:36a partir deste documento,
05:38parece que você tem
05:39uma mudança muito grande.
05:41É claro que se o próximo governo
05:43que assumir a Casa Branca,
05:45ele pode questionar essa doutrina,
05:47mas essa doutrina mostra
05:49algo importante, Marcelo,
05:51ela mostra que os Estados Unidos
05:53da América não têm mais o interesse
05:56de ganhar, fazer e ganhar
05:59qualquer guerra em qualquer lugar
06:01do mundo.
06:02O limite é isso.
06:03Mas isso mostra também,
06:04Marcelo Soraya,
06:05uma postura de fragilização
06:08dos Estados Unidos,
06:09na minha visão.
06:11Os Estados Unidos não conseguem
06:12mais fazer o que fizeram
06:14no final da Segunda Guerra,
06:15desse tiro à Segunda Guerra,
06:17o que fizeram durante 47 anos
06:19de Guerra Fria,
06:20mantiveram um polo da Guerra Fria
06:23sempre muito coeso
06:24com os aliados e forte,
06:26vencendo a Guerra Fria
06:28em 1991,
06:30o que fizeram em boa parte
06:31no século XXI,
06:32principalmente nas guerras
06:33do Oriente Médio,
06:35algumas com mais problemas,
06:36mas sempre guerras
06:37que os Estados Unidos
06:38conseguiam se colocar
06:39como vencedor,
06:40invasões e ações militares
06:42que eles conseguiam
06:42se colocar como vencedor.
06:44Então, no governo Trump,
06:45o Estado norte-americano
06:47não é só o governo Trump,
06:48é um documento de Estado.
06:49O Estado norte-americano
06:50decidiu,
06:51a partir da sua assessoria
06:53de Pentágono,
06:54Departamento de Defesa,
06:56Departamento de Estado,
06:57e mesmo conversando,
06:58imagino,
06:59com a sociedade norte-americana,
07:01perceberam que não vão mais
07:02poder interferir
07:03em todos os temas
07:04do sistema internacional
07:05e que vão deixar
07:06o sistema internacional
07:07dividido entre outros
07:09dois centros de poder.
07:10Outros dois centros de poder.
07:12A Rússia,
07:12que já vem com uma postura
07:14muito agressiva
07:15no centro da Europa,
07:16na parte leste da Europa,
07:18e a China,
07:19com o seu espaço vital
07:20e com seus interesses
07:22planetários.
07:23A China, sim,
07:24cada vez mais tem
07:24interesse planetário.
07:25E aí eu vou para a sua pergunta,
07:27desculpe, Marcelo,
07:27ter demorado tanto,
07:28mas só para deixar claro
07:30o meu raciocínio.
07:32Com relação à Venezuela,
07:33a situação é uma situação grave,
07:35porque a Venezuela
07:36está no quadrante
07:37de interesses norte-americanos
07:39que os Estados Unidos
07:40não vão abrir mão.
07:41Está no quadrante
07:42da América do Sul.
07:43no documento
07:44fica claro
07:45que os Estados Unidos
07:45da América
07:46terão no quadrante
07:48da América do Sul
07:48e da América Central
07:49regiões estratégicas
07:51onde eles vão agir
07:52com toda a força.
07:53E aí,
07:54isso também explica
07:55essa maneira
07:56muito agressiva
07:58de encarar
07:59as questões internas
08:00na Venezuela,
08:01inclusive,
08:02pressupondo
08:02até uma ação militar
08:04norte-americana
08:05contra interesses
08:06venezuelanos
08:07em território venezuelano,
08:09o que é muito grave
08:10com relação
08:11ao direito internacional,
08:13com relação
08:14à soberania da Venezuela,
08:15mas é o que nós estamos
08:16vivendo,
08:17principalmente agora,
08:18me parece,
08:19no governo Trump
08:20e a partir
08:20dessa nova doutrina
08:21de segurança nacional
08:22dos Estados Unidos
08:23da América.
08:24Professor,
08:24o Acácio Miranda
08:25também vai participar
08:26dessa entrevista
08:27e tem uma pergunta
08:28para o senhor.
08:29Professor,
08:30prazer revê-lo,
08:31sempre um prazer
08:32bater um papo
08:33com o senhor.
08:34Olhando ainda
08:35para a questão regional,
08:36o Chile,
08:38nos últimos anos,
08:39não teve tanto
08:40protagonismo regional,
08:41pelo menos os líderes
08:43chilenos não tiveram,
08:44desde a Michelle Bachelet,
08:46eu acho que não
08:47há esse protagonismo.
08:49Um dos dois
08:51possíveis presidentes
08:52do país
08:53tem condições
08:55de voltar
08:56a exercer
08:57esse protagonismo
08:58junto com o Lula
08:59e com o Milley
09:00e com o Gustavo
09:02da Colômbia
09:02ou não?
09:03O Chile se manterá
09:05o líder chileno
09:06se manterá
09:07num papel
09:08secundário
09:09em termos regionais?
09:12Cátio,
09:13o prazer é meu,
09:13sempre bom te encontrar,
09:15obrigado pela pergunta.
09:16Pergunta importante,
09:17porque na verdade
09:18a sua pergunta,
09:19você está falando
09:20sobre lideranças
09:21no plano internacional
09:22e o papel
09:23dessas lideranças
09:24num mundo
09:25tão dividido
09:26como este
09:26que eu acabei
09:27de mostrar aqui.
09:28tomara que o presidente
09:30eleito
09:31do Chile
09:32ou esquerda
09:33ou direita
09:33tenha protagonismo
09:34como teve
09:35Michelle Bachelet
09:36que foi uma
09:37presidente
09:38muito importante
09:39para que
09:40a América do Sul
09:41tenha líderes
09:42que participem
09:43das discussões
09:44sobre os
09:44sul-americanos.
09:47Falou,
09:47me perguntou
09:48e acabou também
09:49colocando na pergunta dele,
09:51é muito importante
09:52que você crie lideranças
09:53que elas surjam
09:54para a gente poder
09:54dentro da América do Sul
09:56ter um grupo de líderes,
09:57mesmo que sejam alguns
09:58mais à direita,
09:59mais à esquerda,
10:00mas que conversem,
10:01por exemplo,
10:02sobre soberania
10:03da América do Sul
10:05com muita força,
10:07porque em função
10:08desta nova doutrina
10:09de segurança norte-americana,
10:11segurança nacional
10:12norte-americana,
10:13você pode ter
10:14nos próximos meses
10:15os Estados Unidos
10:16da América
10:17e são só
10:18os Estados Unidos
10:18da América,
10:19isso não tem a ver
10:20com os aliados europeus
10:21ou menos aliados europeus
10:23no dia de hoje,
10:25mas tem a ver
10:25com os Estados Unidos.
10:26Pode ser que eles tenham
10:27um fácil questionamento
10:29com relação a outros países
10:30da América do Sul,
10:31tão importante
10:32como a Cássia colocou
10:33que essas lideranças
10:34têm um discurso nisso
10:35com relação à soberania,
10:37interesse da América do Sul
10:39e que isso tem que ser respeitado
10:40frente ao direito internacional.
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