00:00Enquanto outros setores conseguiram avanços nas negociações com os Estados Unidos, exportadores
00:13brasileiros de pescados afirmam estar sendo deixados de lado pelo governo federal. Desde
00:20que as tarifas adicionais passaram a valer em agosto, o setor já acumula perdas de cerca
00:26de 250 milhões de dólares em exportações. Para comentar o assunto, para explicar os
00:35detalhes da notícia, eu falo com a repórter Fernanda Câmara, que tem mais informações
00:41direto da capital paulista. Bom dia, Fernanda, prazer reencontrá-la aqui no Agora. Te passo
00:47a palavra e com o seguinte sublinhado, 250 milhões de dólares em prejuízos ou exportações
00:59deixadas de serem feitas. É muita coisa, hein? Bom dia mais uma vez.
01:04É muita coisa, né, Favale? Muito bom dia pra você, bom dia a todos. Olha, Favale, empresas
01:11do ramo relatam perda, então, no faturamento e encolhimento da margem com a interrupção
01:17da margem, né? É quase total de embarques para os Estados Unidos. Falam também, né,
01:23as empresas também falam das dificuldades para acessar o crédito emergencial anunciado
01:28pelo executivo e de planos de demissões no setor caso o tarifaço permaneça. De acordo
01:34com Atilio Leardini, da Leardini Pescados, de Navegantes Santa Catarina, a empresa exporta
01:43cerca de 60 containers de espécies da costa sul brasileira, como corvina, castanha, gordinho,
01:50anchova e tainha, aos Estados Unidos, por ano. Ele diz que sem o mercado europeu, desde
01:552017, com o fluxo aos americanos pressionados pela sobretaxa de 50%, o setor ficou à deriva.
02:03Ele ainda fala que eles estão na mão de mercados que só compram commodities, o peixe inteiro
02:09de baixo valor agregado e que a produção foi redirecionada para destinos menos rentáveis
02:16desde então, como a África e a Ásia, e que houve impacto significativo no lucro.
02:22A CAIS do Atlântico, empresa com sede em Laguna Santa Catarina também, viu faturamento
02:28em colher 20% com o tarifaço americano. Jean Gonçalves, que é sócio diretor da empresa,
02:35explicou que a empresa destinou a produção para outros locais, mas que a margem é muito
02:40inferior e isso afetou praticamente 50% da margem de contribuição do negócio como um
02:46todo. Ele disse que os itens de maior relevância eram para os Estados Unidos e que está no radar
02:52um corte de funcionários que trabalhavam em linhas de produção específicas para os
02:57Estados Unidos. As empresas catarinenses, Favalli, também relataram dificuldades para acessar
03:03a linha de crédito do Brasil Soberano criada para aliviar a situação de setores afetados
03:10pelas tarifas de Trump. A CAIS do Atlântico tenta obter 35 milhões de reais para bancar
03:18a estocagem da produção até a retirada das sobretaxas. Os bancos, segundo os empresários,
03:24têm exigido garantias adicionais que impedem até agora a liberação do dinheiro. O Banco
03:30Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, BNDES, que opera a linha de crédito
03:35emergencial, informou que aprovou 307,31 milhões de reais em recursos do Plano Brasil Soberano
03:43para empresas do segmento de pescados afetadas pelas medidas tarifárias impostas pelo governo
03:49dos Estados Unidos. Segundo o BNDES, foram realizadas 36 operações, 229,31 milhões de
03:59reais na linha de capital de giro destinada a custear despesas operacionais e 78 milhões
04:06de reais na linha de giro de diversificação para busca de novos mercados. A demanda total
04:12protocolada em 43 pedidos de empresa de pescados foi de 380 milhões de reais. E Favalli, segundo
04:23o Eduardo Lobo, que é o presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Pescados, a ABPESCA,
04:29250 milhões de dólares já deixaram de ser vendidos para os Estados Unidos e 2,5 mil postos
04:38de trabalho já foram fechados por conta da sobretaxa de 50% sobre as cargas de peixes
04:44e frutos do mar enviados para os americanos. Eu volto com você.
04:49Obrigado, Fernanda Câmara, por nossa primeira interação aqui no Agora desta quarta-feira,
04:56dia 3. Daqui a pouco, obviamente, a gente volta a conversar sobre este e outros assuntos.
05:02Agora, eu vou colocar na conversa a Mariana Almeida. Por quê? Do tamanho que a costa
05:07brasileira tem, nos maiores litorais do mundo, obviamente que a nossa indústria pesqueira
05:13é muito importante. Vamos fazer um traço? Mário, a gente estava falando agora há pouco
05:17de tarifaço e aí a gente sabe que houve um lobby enorme, no melhor sentido da palavra,
05:22sem nenhuma crítica não, do setor de carne, de proteína animal, principalmente pecuária,
05:30com os Estados Unidos, para que houvesse um recuo do presidente Donald Trump na questão
05:36da taxação. O governo federal, na pessoa do presidente Lula, entrou em ação. O Itamaraty,
05:42na figura do Mauro Vieira, o nosso chanceler, entrou em ação. O vice-presidente, Geraldo
05:50Alckmin, que também é ministro do comércio, indústria, também teve uma importante articulação.
05:56Ponto. Todo mundo entendeu os benefícios, os privilégios, as vantagens da pecuária,
06:01proteína animal, com o recuo do tarifaço. E o pescado? Foi esquecido, Mário Almeida?
06:09É só olhar no mapa o tamanho do nosso litoral. A indústria deixou de vender, ou acumula um
06:14prejuízo, 250 milhões de dólares, como a Fernanda Câmara muito bem ressaltou.
06:21Eu sou bom de fazer conta de cabeça, mas eu fui aqui na calculadora, 1 milhão, 332 mil,
06:28500 mil reais, na cotação de hoje do dólar, que estão acumulados de prejuízo nesse setor.
06:36É muita coisa.
06:37É bastante, e é bastante pelo perfil do setor, porque o setor tem pouco, primeiro, tem muitos
06:42produtores pequenos no processo de fornecimento, então tem impacto importante na renda, no emprego,
06:47e é um setor que se organizou para a exportação, muitos dos tipos de pescado, da estruturação
06:55do produto, foi organizada para o mercado americano. Então, a realocação dessa produção, ela
07:02não é tão fácil, tão simples quanto em outros setores que conseguem, por exemplo, adaptar
07:07e tentar escoar de outra maneira, sustentando, não é que alguma perda de preço, mas sustentando
07:11volumes exportados. Não foi o caso como a gente viu aqui no pescado.
07:15Agora, voltando para o assunto lobby, se foi esquecido ou não foi esquecido, tem um fator
07:20importante que, além de toda a nossa diplomacia e mais o executivo e mais o setor privado
07:28que viajou para os Estados Unidos, tem um fator importante que pressionou esse retrocesso
07:32das tarifas, no caso da carne, que é o consumidor americano. Do outro lado também, a carne subiu
07:38de preço, a gente não pode esquecer esse fator. Lá nos Estados Unidos, a ausência do volume
07:43de carne brasileira também impactou, não foi sozinha, mas também impactou o aumento
07:48dos preços e isso criou uma pressão também de opinião pública em torno do tarifas brasileiro
07:53na carne. O pescado, ele é menos sensível. Por quê? Porque daí, se do lado aqui da indústria
08:00a gente tem menos mercados para realocar, do lado de querer consumir, ou seja, vale lá
08:06para os Estados Unidos, se ele não compra do Brasil, tem de onde comprar? E uma parte
08:09importante dos produtos tem. Então, na medida em que fica mais caro do Brasil, eles realocam
08:14os pedidos. A tilápia, por exemplo, que é um peixe importante aqui na produção
08:18nacional, a China também vende bastante. Ainda que esteja lá na briga com a China,
08:23tem essas alternativas. Tem outros mercados que podem fornecer, portanto, o preço fica
08:28menos afetado para o consumidor, porque tem uma substituição, e aí a pressão interna
08:33fica menor. Bom, isso para dizer que o lobby tem que combinar com todos os lados de pressão
08:38para onde ele vem, vamos considerar que ainda não está terminada essa história.
08:41Eu e o Favara estamos na semana de contar as longas histórias, o Tarifácio sendo
08:45uma delas. Teve ligação entre o presidente Lula e o Donald Trump, o presidente Donald Trump
08:51nos Estados Unidos dizendo que a ligação foi boa e que ele realmente fez uma, tinha
08:56feito uma, colocou uma sanção ao que é o Brasil, em função de alguns fatos, mas
09:00que ele está acreditando no Brasil, que as conversas são boas. Vamos ver se conversa
09:05boa se efetiva em resultado bom também para o pescado.
09:08A ver, obrigado pelas informações, Mariana Almeida, obviamente que daqui a pouco a gente
09:13volta a falar com a nossa musa das interpretações do mercado financeiro, econômico e político.
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