00:00Os Estados Unidos e o Japão, duas das maiores economias do mundo, chegaram a um acordo comercial
00:05para evitar o tarifácio instituído pelo presidente Donald Trump, ou pelo menos parte dele.
00:11Foram oito rodadas de negociações para que os dois países chegassem a esses termos
00:16que a gente vai apresentar para vocês a partir de agora.
00:20Os produtos japoneses exportados para os Estados Unidos serão tarifados em 15%,
00:25menos do que os 25 ameaçados por Donald Trump lá no começo do mês.
00:31Já no ramo dos automóveis, onde estão concentrados 8% dos empregos do Japão,
00:37as tarifas também serão de 15%, incluindo 2,5 pontos percentuais que já existiam anteriormente.
00:45Já os setores do aço e do alumínio, e isso mexe diretamente com a economia aqui do Brasil,
00:50não foram incluídos nesse acordo e vão continuar com as tarifas de 50%.
00:55Em troca da redução da taxação que a gente vinha falando,
00:59o Japão se comprometeu a investir até 550 bilhões de dólares nos Estados Unidos.
01:06Isso porque o país asiático já é o que mais investe no território americano,
01:10se você considerar todos os países do mundo.
01:13O que a gente pode esperar, então?
01:15Mais investimentos nas áreas de semicondutores, e isso é muito importante hoje em dia,
01:19produtos farmacêuticos, energia e também tecnologia, principalmente a questão da inteligência artificial.
01:28E além disso tudo, os Estados Unidos também esperam ter um acesso ainda maior ao mercado japonês.
01:34Os americanos querem ampliar a presença de marcas de automóveis no país asiático
01:38e também de produtos agrícolas como o arroz.
01:41Agora, quando a gente fala de marcas de automóveis, a gente lembra,
01:45o Japão é um país com várias montadoras conhecidas que vendem tanto para os Estados Unidos quanto aqui para o Brasil.
01:52Historicamente, esse é um mercado onde o Japão consegue mandar muito mais veículos para os Estados Unidos
01:59do que o contrário.
02:00As montadoras americanas não conseguem ir muito bem lá no Japão.
02:05Agora, será que esse acordo ficou bom?
02:08Para falar mais sobre isso, a gente recebe o professor de administração da ESPM, Jorge Ferreira.
02:14Professor, seja muito bem-vindo ao JP Internacional.
02:18Boa tarde, Fabrício.
02:20Prazer receber você por aqui.
02:21Professor, a gente vinha analisando muito bem esse acordo.
02:25O primeiro-ministro do Japão, Shigeru Shiba, afirmou que é uma boa negociação para os japoneses
02:31porque de todos os países que têm superávit comercial com os Estados Unidos,
02:37o Japão é quem acabou ficando com a menor taxação.
02:41Faz sentido, então, entender que esse é um acordo positivo para o Japão nesse momento,
02:46nesses termos que a gente viu aqui?
02:50Inclusive, ele foi a público falando, o primeiro-ministro falando que foi uma vitória diplomática.
02:56O acordo faz sentido no atual cenário.
03:00O Japão tinha uma preocupação muito grande com a tarifação de 25%.
03:06A economia japonesa vive uma situação que é um pouco diferente dos demais países.
03:14Ela vem de uma estagnação muito grande, um ambiente pouco inflacionário.
03:18E aí, eles têm até uma meta, o Banco do Japão, o Bank of Japan, que é o Banco Central japonês,
03:26ele tem uma meta de inflação sustentada.
03:29É um exercício contrário do que a gente conhece.
03:32Normalmente, os bancos centrais, eles tentam conter a inflação.
03:36A preocupação do Banco Central do Japão, durante muito tempo, era uma preocupação com a estagnação econômica.
03:44E nos patamares dos 25%, a economia japonesa, ela acabaria não cumprindo a meta de 2% de inflação.
03:53Com esses 15%, o Japão, a política monetária japonesa volta para o jogo.
03:57Já tem os próprios representantes do Banco Central japonês, falaram que com esse acordo,
04:07a política monetária japonesa possivelmente vai voltar para o ambiente que eles chamam meta inflacionária sustentada,
04:16que dá para o Japão um pouco de condições de retomar uma condição de consumo mais favorável,
04:24que favoreça o crescimento e não estagnação na quantidade de inflação que o Banco Central japonês acha adequada,
04:31que é de 2% ao ano.
04:34Mas eu reitero que esse acordo é uma vitória considerando o atual ambiente internacional
04:40que recebe os nomes que a gente tem dado.
04:44Tarifácio, guerra tarifária.
04:46É, dentro desse cenário em que a gente tem uma mudança de posicionamento dos Estados Unidos,
04:53é sim uma vitória para o Japão, né?
04:55É, pois é. A gente falava até ano passado, né?
04:57A tarifa média para a importação lá nos Estados Unidos era de 2,5% a 4,5%.
05:01Agora esse número mudou muito.
05:03A gente está aqui diante de um outro cenário.
05:06Professor, o que a gente tem escutado de muitos economistas ao redor do mundo
05:09nessas últimas semanas é de que uma tarifa de até 15% aplicada pelos Estados Unidos
05:15contra outro país, como é o caso do Japão,
05:18ela não chega a ser exatamente tão impeditiva assim.
05:22Que essa é uma tarifa que, embora seja alta,
05:24acima daquele patamar que eu mencionei do ano passado,
05:27ela permite que o mundo consiga manter a economia girando,
05:31ainda que em passos mais lentos.
05:34Você acredita que esse é o limite da taxação dos Estados Unidos
05:38que faz com que a economia continue girando
05:40sem provocar um risco de uma recessão mundial?
05:43Ou a gente está falando ainda de 15% como um valor muito alto?
05:47É, 15% é um valor muito alto.
05:51É o que os economistas têm comentado é o seguinte.
05:53Para indústrias muito eficientes
05:55e para empresas prestador de serviço também muito eficientes,
05:58os 15% podem ser contrabalançados pela eficiência
06:02daquela indústria ou do prestador de serviço.
06:06Os serviços não entram muito, não estão no âmbito das tarifas,
06:09então vão ficar mais no âmbito da indústria mesmo.
06:11Para uma indústria muito eficiente,
06:13aí você citou o caso da indústria automotiva japonesa,
06:16que é muito eficiente,
06:18esses 15% podem ser absorvidos
06:21dentro dessa pujança de eficiência que a indústria tem.
06:27Então, assim, é um valor limite.
06:29Ele não prejudica as indústrias que conseguem performar melhor,
06:36mas ele é um valor que vai dar um pouco de dor de cabeça
06:38para aqueles setores da economia que não performam tão bem.
06:44Então, assim, eu acho que vale ponderar.
06:46A gente, os economistas, sim, estão trabalhando com esse número,
06:49virou um número mágico aí, né?
06:51de linha d'água em que a tarifa não prejudica a eficiência,
06:57mas ele tem um efeito de acertar justamente setores da indústria
07:03ou indústrias ou fábricas dentro de uma indústria
07:07que não são tão eficientes assim.
07:10Agora, professor, tem uma outra questão aqui interessante
07:12para a gente tratar, né?
07:13Economia não se trata apenas de números.
07:17Então, a gente fala aqui da questão humana também.
07:19O mercado japonês, a gente fala principalmente dos automóveis,
07:22ele costuma ser um mercado bem voltado para a produção local mesmo, né?
07:26As montadoras japonesas reinam no Japão.
07:29Isso não é segredo para ninguém.
07:30Esse acordo fala de uma abertura cada vez maior
07:33para produtos americanos nesse mercado.
07:35Mas uma coisa é você ter isso no papel,
07:37outra coisa é isso acontecer na prática.
07:40Você acredita que os americanos vão conseguir, de fato,
07:42essa entrada no mercado japonês,
07:45principalmente nesse setor de automóveis,
07:47ou a situação deve continuar mais ou menos como já é hoje em dia?
07:52Eu acredito que tenha espaço,
07:55mas como você próprio comentou,
07:57a indústria, primeiro,
07:59a indústria de automóveis japoneses é muito eficiente,
08:02os carros têm muita qualidade,
08:04e os japoneses têm o hábito de consumo,
08:06de privilegiar produtos nacionais.
08:09Então, assim, mesmo com esse equilíbrio de tarifas,
08:13o desafio para a indústria automotiva média,
08:17de consumo médio dos Estados Unidos,
08:20ele é bastante alto, né?
08:23Teria que haver um esforço para além do equilíbrio de tarifas,
08:27um esforço todo voltado à estratégia de marketing,
08:30a adaptação dos produtos ao gosto do consumidor japonês,
08:36para que essa política fosse,
08:38se tornasse efetiva,
08:40para que a indústria, por exemplo,
08:42a indústria automotiva dos Estados Unidos
08:44ganhasse espaço dentro do consumo japonês.
08:48Professor, uma outra pergunta aqui,
08:49para a gente trabalhar um pouquinho.
08:51O prazo que Donald Trump deu para a entrada em vigor das tarifas
08:55é 1º de agosto, ou seja,
08:56sexta-feira da semana que vem.
08:58Agora, muitos países, blocos comerciais importantos,
09:02como a União Europeia,
09:03ainda estão negociando.
09:05Negociando com a Casa Branca, no caso.
09:07O que a gente tem visto também
09:09é declarações de políticos,
09:11de nomes importantes do governo americano,
09:13é de que esse acordo com o Japão,
09:15por se tratar da quarta maior economia do mundo,
09:17um parceiro comercial muito importante
09:19em um cenário muito pujante, que é o da Ásia,
09:22ele pode servir de base
09:23para outros acordos comerciais
09:25que ainda estão sendo negociados.
09:27Você acha que os Estados Unidos
09:29vão atrás de acordos parecidos com esse?
09:32O que os Estados Unidos ganham principalmente aqui?
09:35Eles estão ganhando com as tarifas,
09:36com a promessa de investimentos
09:38dentro do seu mercado,
09:40ou então com o acesso a mercados estrangeiros?
09:42Qual é o grande trunfo para os americanos?
09:44É, o governo, vamos endereçar primeiro
09:47isso que você colocou, a primeira parte da pergunta,
09:49que eu acho que para a gente já estabelecer algumas bases.
09:53Sim, os 15%, o acordo do jeito que ele foi feito com o Japão,
09:57ele estabelece um benchmark,
09:58principalmente para duas economias muito próximas ali,
10:01que são a economia da Coreia do Sul,
10:03que tem uma base industrial relativamente parecida
10:06com a base japonesa,
10:08e é uma economia que cresceu muito nas últimas décadas,
10:14e para a Taiwan também serve de benchmark.
10:20Então, assim, o efeito direto
10:21para os negociadores dos Estados Unidos,
10:24que eu tenho, assim,
10:24é muito fácil de entender o seguinte, né?
10:29As negociações com esses dois países
10:31vão ser orientadas pelo acordo que foi conseguido com o Japão, né?
10:34Porque são economias que estão ali muito próximas da região,
10:37a economia, como eu citei,
10:38a economia da Coreia do Sul,
10:40ela é uma economia que tem uma base industrial
10:42muito parecida com a japonesa,
10:44e cresceu muito ao longo das últimas décadas,
10:48então serve de padrão, sim.
10:51Eu entendo que, assim,
10:52vai aparecer na mesa esse acordo feito com o Japão
10:55no acordo, na discussão dos acordos com a União Europeia,
10:58mas a União Europeia tem um posicionamento diferente,
11:01vai servir, sim, de base,
11:04mas eu entendo que o nível de pressão ali em cima da Europa
11:07é um pouco diferente.
11:10E, professor, por favor.
11:12O professor comentou na segunda parte da questão,
11:15de algum modo,
11:18a gestão Trump,
11:20ela tem uma obsessão por
11:22essa guerra tecnológica, né?
11:25Que está acontecendo,
11:27e pelos insumos relacionados
11:28à guerra tecnológica,
11:31que não sai do discurso lá do presidente Trump,
11:33que são as terras raras, né?
11:36Existe uma preocupação muito grande,
11:37cada localidade no mundo,
11:39a começar da Ucrânia,
11:41e passando pelo Brasil,
11:42que ainda não tem nem sinalização de ter um acordo,
11:44em algum momento, na mesa de negociação,
11:46aparece,
11:47ah, se você tem terras raras,
11:48a gente quer ter algum tipo de monopólio
11:50na exploração, né?
11:52Tudo isso ligado àquele conceito de, assim,
11:54precisamos proteger as big techs.
11:56E esse é um mercado asiático
11:58que é muito importante os Estados Unidos
12:00se reposicionarem, né?
12:01Porque nos últimos anos
12:02a gente tem visto a China
12:03crescer cada vez mais, né?
12:05Crescer cada vez mais.
12:06E aí, por que eu usei esse...
12:10Por que eu segui esse caminho?
12:12Porque o Japão está se propondo
12:13a fazer um investimento,
12:14a gente não sabe como é que ele vai ser ainda,
12:16ao longo dos próximos anos,
12:17500 bilhões de dólares,
12:18550 bilhões de dólares.
12:19Isso é um acordo sem precedentes
12:22na história.
12:23A gente não tem nada parecido
12:24na história recente
12:26de acordo de investimento.
12:27Justamente nessas áreas
12:28em que os Estados Unidos
12:29estão perseguindo
12:30se manter à frente
12:31do seu principal concorrente
12:32que é a China, né?
12:34Então, assim,
12:34o que eu percebo aí
12:35desse acordo é
12:37os Estados Unidos
12:38acabam estabelecendo
12:40benchmark de investimento
12:41na indústria local
12:42de tecnologia e energia
12:43que são as duas grandes frentes
12:45de disputa
12:46entre Estados Unidos e China, né?
12:49Perfeito.
12:49A gente conversou com o professor
12:51de administração da SPM,
12:52economista Jorge Ferreira
12:54do Santos Filho.
12:55Professor,
12:56muito obrigado
12:56pela sua participação,
12:57sua estreia aqui
12:58no JP Internacional também.
13:00Muito obrigado, Fabrício.
13:01Até uma próxima.
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