00:00No Brasil agora, nós estamos passando por mais um momento de imediatismo,
00:05o que eu chamo até de populismo energético, com essa nova medida provisória
00:09que pretende dar 60 milhões de pessoas, energia de graça, agora tem o vale-gás,
00:15e aí vem um pacote de medidas demagógicas que certamente vai passar a conta
00:21para a classe média, para o consumidor, para o pequeno comerciante, para o pequeno industrial.
00:28Explica um pouco para a gente o real impacto que isso vai ter no bolso brasileiro.
00:33Bom, vamos lá.
00:34Essa medida provisória foi dividida em três eixos.
00:38Então, tem um eixo que é da liberdade de escolha de quem vai fornecer energia para mim,
00:44que é uma discussão que já tem na Câmara desde 2015, no PL 1917,
00:49e tem o reequilíbrio dos custos setoriais entre o mercado regulado e o ambiente livre.
00:56Então, vamos explicar.
00:56Primeiro, tem a energia de graça.
00:59É importante mencionar que você conta no dedo países que dão energia de graça
01:04e geralmente o efeito é contraproducente.
01:07Ou seja, nada que é de graça eu valorizo.
01:10E se o governo quer fazer uma política pública, que faça então com recursos da União.
01:15Então, acho que a primeira crítica da MP é nada contra uma política social
01:19de dar energia de graça para uma parcela da população que ganha até meio salário mínimo.
01:25Acho que é justo, do ponto de vista social, acho que não é justo cobrar essa conta
01:29da classe média, da indústria e do comércio.
01:33Que já tem uma conta de luz extremamente alta, ou seja, no ranking da conta de luz mundialmente,
01:39o Brasil está lá em cima, exatamente por essa falta de segurança energética,
01:44e os penduricalhos que a gente tem na conta de luz.
01:47Então, acho que se o governo quisesse dar conta de graça,
01:50que utilizasse o dinheiro da União, o orçamento público.
01:54Não com o bolso, o meu bolso, o seu bolso e da indústria e do comércio.
01:59Então, acho que essa é a primeira crítica.
02:02A outra crítica é dar desconto para quem, hoje, tem um salário, até um salário mínimo,
02:07que vai trazer outro impacto.
02:09São 11% de desconto.
02:11E só isso o governo estimou que daria um impacto na conta de luz de 1,4%,
02:16por volta de 3,6 bilhões de reais, mas, nas nossas estimativas, quase 10 bilhões.
02:23Então, o governo subestimou, além de ter uma estimativa de 3,4%,
02:27de impacto imediato, dessa medida de dar o desconto para quem ganha de meio a um salário mínimo
02:34e da isenção de conta de luz para quem ganha até meio salário mínimo,
02:38isso é um impacto imediato de quase 10 bilhões de reais,
02:41que eu, você, a classe média e a indústria e o comércio terão que pagar.
02:47Então, isso é um efeito que é bastante preocupante.
02:50O outro efeito, aquele de você ratear os custos do setor
02:54entre o mercado livre e o mercado regulado,
02:57até aí já era algo estudado desde 2016.
03:01Então, nesse aspecto, a gente não é contra.
03:04Ou seja, eu vou trazer mais realidade,
03:05porque o consumidor, o José e a Dona Maria,
03:09concentravam o pagamento de quase todo o encargo de segurança energética
03:13e o mercado livre, durante muito tempo, e as fontes incentivadas,
03:18pagavam uma parcela muito pequena dessa conta.
03:21Se eu quero abrir um mercado para ter cada vez mais mercado livre,
03:25para ficar talvez 50 a 50,
03:27ou até um mercado livre maior do que o mercado regulado,
03:31é justo ele passar a pagar pela segurança energética.
03:35Então, só que isso, obviamente, pensando no cliente industrial,
03:39no consumidor eletrointensivo,
03:41faltou uma análise de impacto regulatório,
03:44de novo, voltando, como você colocou muito bem,
03:47a questão do curto-frazismo,
03:50populismo, visão oportunista de curto-frazo.
03:53A gente tem uma estimativa que,
03:55ao o mercado livre pagar por todos esses encargos,
03:58que hoje é concentrado no mercado regulado,
04:01o preço no mercado livre pode subir até 52%.
04:06Nossa!
04:0751,9% para ser mais exato.
04:10Então, se imagina a indústria, o consumidor eletrointensivo,
04:13que, do custo do produto vendido dele,
04:16ou seja, o insumo de produção,
04:18energia pode ser de 30 a 40%,
04:20que nos próximos anos, no médio fraso,
04:23pode ter um aumento do preço de energia,
04:26que era do mercado livre,
04:28passando de, hoje, 180 reais megawatt-hora
04:31para 276 reais megawatt-hora,
04:35sem falar do efeito da inflação ao longo do tempo.
04:38Então, assim, esse impacto
04:40é um impacto que deveria ser estudado,
04:43porque vai impactar diretamente no bolso,
04:45de quem gera emprego no Brasil
04:50e produz renda,
04:52ou seja, os grandes investidores,
04:53a indústria, o comércio,
04:55o setor de serviços.
04:56Então, vai impactar quem?
04:57Padaria, restaurante, comércio.
05:00Então, eu acho que faltou essa visão,
05:04ficou muito focada na baixa renda,
05:08e que é completamente justa.
05:09Eu acho que você subsidiar
05:11política social para baixa renda
05:14são justas e devem ser realizadas.
05:16Agora, eu cobrar
05:18de quem gera emprego e renda no país
05:21e quem já não consegue mais pagar
05:22a conta de luz,
05:24por essa política e esse rateio dos custos,
05:27faltou uma análise mais profunda,
05:30uma visão de médio e longo prazo,
05:32um pouco mais bem estruturada.
05:34Então, é difícil até chamar
05:35de uma reforma do setor elétrico.
05:37A gente acabou ficando muito tímida,
05:40face os desafios de segurança energética,
05:42que a gente vai conviver nos próximos anos.
05:45E vai correr um enorme risco
05:47de aumentar a inflação na outra ponta.
05:49Então, você dá energia barata aqui,
05:51mas você está aumentando o preço do serviço,
05:53dos alimentos e de tudo que você compra
05:54por causa desse encarecimento da conta de energia.
05:57Então, isso é que é demagogia.
05:58Energia aqui por um preço maior na ponta
06:01que impacta a vida de todo mundo.
06:03É isso que é curioso,
06:04que parece que a ficha não cai
06:05para o agente público.
06:08Se eu aumento a minha conta de eletricidade,
06:10e eu estou eletrificando economias,
06:13se eu aumento o meu custo de produzir combustível,
06:16e eu tenho uma parcela enorme do setor energético
06:19que usa combustível,
06:20é inexorável que o alimento vai subir.
06:23Porque, como eu falei,
06:24de 30% a 40% do custo produtivo do alimento,
06:28do transporte pode ser ainda mais.
06:30Ele é de venda de combustíveis.
06:32Ou é molécula ou elétron,
06:34não tem como fugir.
06:36Entendeu?
06:36Então, se eu estou aumentando a minha conta de luz,
06:39minha conta de combustível,
06:41e eu estou refaçando isso para o consumidor,
06:44esse tipo de consumidor,
06:46não tem como ele não refaçar isso
06:48para o custo da produção de alimento.
06:50E aí você socializa o impacto negativo da inflação
06:55porque todo mundo come.
06:56Então, é a inflação mais alta,
06:58a inflação de alimentos mais alta,
07:00pegando todas as camadas da população,
07:03e é por isso que o Brasil convive com um juro tão alto.
07:07E a gente vê que uma série de medidas curto-frazistas
07:09não estão resolvendo os principais problemas,
07:12como o problema fiscal do país,
07:15o gagalo de infraestrutura no país.
07:17Então, parece que a gente está sempre querendo
07:19estancar uma hemorragia,
07:21colocando um Van Dade.
07:22O Van Dade pode resolver durante alguns meses
07:26ou com o viés eleitoreiro na próxima eleição.
07:29Mas pensando em projeto de Estado,
07:32pensando em país,
07:33qual que é o projeto para o Brasil?
07:35Assim, isso não é a solução.
07:36Pelo contrário, você acaba trazendo
07:38mais colcha de retalho,
07:40mais impacto negativo,
07:42sem uma visão de uma construção,
07:44de um planejamento que olhasse
07:46aquilo que a gente tem de melhor
07:48e que o mundo inteiro estuda a gente,
07:50que é o setor de biocombustível,
07:52e a Embrafa, que faz um trabalho excepcional.
07:54Por que não trazer o resíduo,
07:57esse que a gente tem de potencial,
08:00e fazer um planejamento
08:01que resolva o gagalo da infraestrutura,
08:04aproxime a geração de energia ao consumo,
08:08que isso é fundamental.
08:09Se parar de construir só no mesmo lugar,
08:12e aí construindo linhas de até 2 mil quilômetros
08:14para entregar no outro mercado
08:17que tem a carga de energia.
08:19Ou seja, a gente voltar a ter um planejamento
08:20de país que resolva esses problemas
08:24de forma estrutural.
08:25Se não, a cada ciclo de 4 anos,
08:28a gente vai trazer alguma solução populista
08:30que vai resolver o problema de hoje,
08:32mas vai criar um problema de amanhã,
08:35e a gente vai sempre estar dando
08:36um passo para frente,
08:38três para trás.
08:39Um para frente, sabe?
08:41Aí a gente não sai do lugar.
08:42E o Brasil, o que vários países sonhariam em ter,
08:46que são fontes primárias de energia,
08:48um potencial de biodiversidade,
08:51de bioenergia enorme e área.
08:54O Brasil, como eu falei,
08:55100 milhões de hectares de pastéis degradados.
08:58Por que não utilizar isso em prol
09:00da segurança energética e da segurança alimentar
09:03no segundo momento,
09:05criando emprego e renda em todas as unidades federativas
09:08do Brasil central,
09:10que é tão carente de infraestrutura,
09:12de gasoduto, como eu falei,
09:14de ferrovia.
09:16E isso daria um choque de crescimento econômico
09:18no país e resolvendo questões
09:21que a gente não resolve,
09:23acho que desde que o Brasil
09:24foi reencontrado pelos portugueses.
09:28que o Brasil
09:47peligro.
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