00:00O mundo respira aliviado. Será, ao confronto Israel e Irã, que ganhou contornos preocupantes
00:13com a participação dos Estados Unidos, parece ter chegado a um termo de calmaria.
00:19Tomás Tomás, cientista político, o Irã fez jogo de cena para o mundo exterior e para
00:27o consumo interno? Olha, Luciano, se estamos falando dessa última retaliação por parte
00:34do Irã em relação a uma base americana que fica no Catar, sim, foi uma jogada para a
00:40construção de narrativa do regime de Teherã e também uma resposta para o mundo, uma
00:46resposta pontual, muito bem arranjada, ou seja, a diplomacia iraniana ligou para a diplomacia
00:56a Catar e avisou que iria fazer essa operação militar, mas que teve impacto quase próximo
01:04a zero em relação a danos a essa base americana que fica no Catar. Mas vale dizer que o regime
01:12de Teherã vive muito da construção de narrativas. Vou corrigir o que eu estou falando. O mundo
01:17hoje também vive uma guerra de narrativas, muito por conta do nível de conectividade
01:23que a gente tem no planeta Terra. A humanidade tem a experiência atual, vivido troca de informação
01:33muito rápida, veloz e em grande quantidade.
01:36Esse momento militar que a gente viveu no Oriente Médio, que muitas pessoas ficaram com o temor
01:43de que se transformasse em uma guerra longa e duradoura, ela acabou se tornando uma operação
01:49militar localizada, onde Israel decepou a cabeça de alguns líderes importantes do regime dos
01:58ayatollahs. O governo de Teherã conseguiu afrontar o domo de ferro, por mais que a gente não veja
02:07tantos impactos em Israel, como Israel teve a capacidade de fazer com o Irã, a gente percebeu
02:17uma estratégia dos iranianos de saturação do domo de ferro, num dado momento da campanha
02:23militar. Depois que esse domo estava saturado, eles jogavam bombas muito mais fortes e que
02:31acabavam, a gente teve o caso, por exemplo, de um hospital que foi atingido e que causou
02:38danos a civis. Agora, o que ficou importante nesse processo foi o tamanho do domínio que
02:45Israel tem na região, muito por conta do Irã ter perdido a ajuda imediata de alguns dos
02:54seus grandes apoiadores, como grupos terroristas, como Hamas, Hezbollah e também não ter a capacidade
03:07da Rússia de responder rapidamente também a uma possível agressão ao Irã. O Irã teve
03:18seu espaço aéreo dominado por Israel. E na última ofensiva mais pontual que houve, que
03:27veio por parte dos americanos, dos Estados Unidos, e aí ficou a grande dúvida, os Estados Unidos
03:33entraram no conflito ou eles simplesmente fizeram uma operação militar pontual? E ficou provado,
03:40e Donald Trump quis dizer isso claramente, que era uma operação militar pontual, única
03:49ali, muito localizada, para poder destruir equipamentos estratégicos dentro do programa
03:55nuclear iraniano.
03:56O senso comum diz o seguinte, os Estados Unidos é uma potência militar que se quisesse
04:03não encontraria opositores. Mas por que os Estados Unidos, Tomás, se limitaram a um
04:10ataque, vamos dizer, quase cirúrgico às instalações militares do Irã, às instalações
04:16de energia atômica do Irã, que poderiam levar a uma arma nuclear, e não foram mais longe
04:22nesse apoio ao Israel? Como é que você analisa isso?
04:25Olha, em primeiro lugar, é importante entender que a operação tinha por objetivo ou atrasar
04:32significativamente ou parar o programa nuclear iraniano, ou seja, a capacidade do Irã de
04:40produzir uma bomba atômica. Vale dizer, só um asterisco, um detalhe, que produzir uma
04:45ogiva nuclear é muito diferente de você colocar isso no míssel balístico e ter a capacidade
04:51de fazer um ataque nuclear. Mas os Estados Unidos e Israel, começou a ofensiva, procuraram
04:59abalar o programa nuclear iraniano. Mas a grande avaliação, e essa estratégia veio nesse
05:07momento, porque o regime dos ayatollahs tem estado muito fragilizado internamente e internacionalmente
05:16com seus apoiadores praticamente aniquilados. Internamente, algumas pesquisas dizem que mais
05:24de 70% da população iraniana não apoia o atual regime dos ayatollahs. Qual foi o cálculo
05:31que foi feito por parte das grandes lideranças mundiais? Que não se tornasse no Irã, com a
05:40derrubada do regime dos ayatollahs? Um novo Iraque, uma nova Líbia, um novo Iêmen, que tinham
05:48ditaduras cruéis, mas que ao serem derrubadas também houve um derramamento de armas. Por exemplo,
05:55na Líbia, a gente vê que houve, a gente constata que houve um derramamento de armas na África
06:02subsaariana, inclusive armas essas, Luciano, que municiaram e que trouxeram capacidade militar
06:10e força para o Estado Islâmico, para o ISIS. Houve um tempo que o Estado Islâmico, o ISIS,
06:18teve caça, bombardeio, porque pegou do que restou de Muammar Gaddafi do investimento que
06:28ele tinha no campo militar. Então, o Iêmen também é um outro, é uma guerra civil muito dura.
06:37Tanto Líbia quanto Iêmen são lugares que a gente tem que ter um olhar especial, porque
06:43são dois Estados que podemos considerar, tecnicamente falando, Estados falhados. Estados falhados
06:49na ciência política são aqueles Estados que não há governança, que um governo paralelo funciona.
07:02Então, ali você tem tráfico humano, escravidão, guerra, violência contra a mulher, crianças, idosos,
07:09de maneira institucionalizada. A Líbia tem vários governos.
07:12Quer dizer, na ausência de um governo que funcione, os senhores da guerra regionais
07:17tomam o poder e assumem o crime e tudo mais.
07:21Perfeito, você sintetizou muito bem, é exatamente isso.
07:24A Líbia é um caso especial, o Iraque também, com a queda de Saddam Hussein, também foi isso.
07:31Então, eu particularmente com minha família cheguei a brincar.
07:36Será que Kamenei é o próximo Saddam que foi enforcado na frente de todos nós, tem as imagens,
07:44quem buscar aí na internet, do julgamento dele sendo humilhado perante a mídia do mundo inteiro.
07:53Muammar Gaddafi, Luciano, foi esquartejado no meio da rua, na Líbia, quando no fim do seu regime,
08:03durante a primavera árabe, ele buscou a sua cidade achando que ele teria apoio popular
08:09e a população esquartejou Muammar Gaddafi, um líder que ficou por quase 30 anos à frente do seu país,
08:18um ditador cruel, sanguinário, mas que efetivamente conseguia concentrar as energias do país
08:26e não permitir que aquela região tivesse um derramamento de armas e de sangue.
08:32Após a queda de Muammar Gaddafi, a gente teve uma série de outros golpes de estados
08:39ocorrendo na África subsaariana ali, muito por conta do derramamento de muitas armas.
08:45Então, Estados Unidos e outros grandes líderes mundiais fizeram esse cálculo.
08:52Vale a pena derrubar o regime de Kamenei ou vale a pena fazer uma ameaça contundente?
09:00Também acredito que Kamenei, por fim, fez um cálculo.
09:05Ou é a minha morte, a morte do regime e a queda do regime,
09:09ou eu finjo uma narrativa, esse ataque na base americana no Catar,
09:14e eles optaram por fingir.
09:16É mais impressionante, você está com o jornal A Tribuna aberta aqui,
09:20onde tem uma reportagem que mostra que Donald Trump anuncia cessar fogo entre Israel e Irã.
09:29Ou seja, um chefe de estado que vai interferir na diplomacia de dois outros estados.
09:37Então, por que o Trump foi o personagem que encerrou essa guerra,
09:43sendo que, na verdade, era uma disputa entre Irã e Israel?
09:45Fantástica análise, Tomás Tomasi.
09:48Isso foi mais uma opinião internacional, analisando o conflito no Oriente Médio.
09:53Até a próxima.
09:54Transcrição e Legendas Pedro Negri
Comentários