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O professor de Política Internacional da UERJ, Paulo Velasco, fala sobre os desdobramentos da guerra após Israel alertar para uma campanha prolongada contra o Irã. A bancada do Linha de Frente, coordenada por David de Tarso, com comentários de Thais Cremasco, Tulio Nassa, Renato Dorgan e Rodolfo Mariz, analisa os desdobramentos do cenário internacional.

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00:00E agora nós conversamos com o Paulo Velasco, professor de Política Internacional da UERJ,
00:04sobre esse conflito, porque Israel alerta para a campanha prolongada contra Irã.
00:09E eu já gostaria de começar, então, debatendo com o nosso entrevistado sobre essa questão, né?
00:15Muito boa tarde.
00:16Muito boa tarde, prazer sempre falar com vocês.
00:19Bom, vou passar aqui pra Thais Cremasco, que não pôde fazer a pergunta pro Luca, mas pode fazer pro Velasco.
00:24Velasco, boa tarde.
00:25Bom, Israel descumpre reiteradamente determinações da ONU, especialmente determinações da Corte Internacional.
00:36E eu queria ver como você enxerga se tem alguma solução pra que isso não continue dessa forma,
00:42no sentido da gente conseguir avançar com uma intervenção mais justa e que ouça o mundo inteiro e não apenas os mais poderosos.
00:53Essa é uma questão sempre muito sensível, né?
00:55Quando a gente pensa nas organizações internacionais, no multilateralismo, né?
00:59Acabamos vendo que existem, sim, regras amplas.
01:02O mundo está melhor, né?
01:04Certamente, no posto da Segunda Guerra Mundial, graças a uma ONU, né?
01:06Seria a pior senhela.
01:08Mas a ONU tem falhado, né?
01:09Ao lado também de outras organizações, justamente porque em questões muito sensíveis, né?
01:13Em temas muito críticos, acaba prevalecendo quase que invariavelmente a vontade dos mais fortes, né?
01:19No caso da ONU, especialmente, os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança, né?
01:23Estados Unidos, a Rússia, a França, Reino Unido e China.
01:27O caso de Israel é muito flagrante, né?
01:29Israel, como a gente sabe, né?
01:30Ele cometeu, ao longo das últimas décadas, uma série de abusos do ponto de vista do direito nacional, né?
01:36Anexou, por exemplo, o território das Colinas de Golã, que pertencia à Síria, né?
01:40Mesmo contra, né?
01:41A comunidade internacional, né?
01:43E mantém o controle do território.
01:45Israel vem praticando, né?
01:47Na contra-ofensiva ali em Gaza, uma série de excessos, né?
01:50Reconhecidos por autoridades variadas, que chegam a falar, né?
01:53Inclusive, na possibilidade ali de genocídio, né?
01:56Crimes de guerra e tudo mais.
01:58Mas a gente sabe que Israel, né?
01:59Acaba ficando muitas vezes longe do alcance, né?
02:02De qualquer tipo de medida mais clara ou contundente, né?
02:05Por ser apadrinhado pelos Estados Unidos, né?
02:08Que é um ator que tem poder de veto no Conselho de Segurança, né?
02:11E que naturalmente acaba influenciando também os espaços de debates multilaterais mais amplos, né?
02:16É difícil a gente imaginar, por exemplo, que a ordem de prisão contra o Netanyahu, né?
02:23Expedida pelo Tribunal Penal Internacional por conta justamente de abusos praticados ali na faixa de Gaza
02:29venha a ser cumprida, né?
02:30A certa altura, como improvável, né?
02:32Que a ordem de prisão contra o Vladimir Putin, né?
02:34Por abusos praticados na Ucrânia venha a ser cumprida, né?
02:37Então, né?
02:38Existem as regras, existem as normas, existe o multilateralismo, né?
02:42O direito internacional, ele evoluiu bastante, né?
02:45Ao longo aí, especialmente, né?
02:46Das últimas décadas, desde o posto de Segunda Guerra Mundial, né?
02:50Mas continuamos vendo, né?
02:51Que a dinâmica internacional, né?
02:53Ela sempre aponta, né?
02:54Para a prevalência do interesse dos mais fortes, né?
02:57Que acabam ficando longe do alcance, né?
03:00De medidas mais impositivas ou coercitivas, né?
03:03E acabam sempre levando adiante os seus interesses, né?
03:06No caso, o Israel é, evidentemente, um ator protegido em qualquer esfera multilateral
03:11pelos Estados Unidos, né?
03:13Por isso é difícil, né?
03:14Imaginarmos, pelo menos no curto e médio prazo, que haverá qualquer tipo de mudança
03:18mais concreta nesse sentido, né?
03:19Eu, particularmente, sou bastante cético nesse sentido.
03:22Professor Paulo Velasco, boa tarde, obrigado pela sua presença aqui no Linha de Frente.
03:28Essa questão não é uma questão de uma ótica, ou ver por um outro prisma, o Israel
03:33sendo o vilão dessa guerra e falando de abusos do Estado de Israel, uma vez que ele estava
03:40ali, quieto na dele, até 2023, e veio o Hamas, o grupo paramilitar Hamas, que hoje
03:47é tido como um grupo terrorista, tentar invadir e matar pessoas inocentes.
03:51Mas essa retaliação de Israel não foi mais uma resposta e o Centro de Inteligência
03:55de Israel comprovou que o Irã estava enriquecendo o seu urânio em 60%.
04:00O que diz a ONU em relação ao Irã?
04:03Porque, da boca do senhor, das palavras, eu já escutei que Israel está cometendo, talvez,
04:08ali, algo a mais sobre essa guerra, se responsabilizando.
04:13Mas, talvez, Israel e todo o seu Estado não seriam uma vítima de tudo isso também?
04:16Esse ponto também é bem importante de ser colocado.
04:21A gente sabe, claro, que todo e qualquer país que é atacado no seu território, Israel
04:24foi covardemente atacado no seu território no dia 7 de outubro de 2023, com um ato terrorista.
04:30Não há outra maneira de classificar o que o Hamas fez ali em território israelense,
04:34provocando um número muito importante de vítimas.
04:36Acima de mil israelenses morreram naquele ataque em um único dia.
04:39Então, evidentemente que é um ato terrorista.
04:41O Hamas é reconhecido, sim, não pela ONU propriamente, mas por muitos atores de peso,
04:45União Europeia, Estados Unidos, como um grupo terrorista, assim como o Hezbollah e tantos outros.
04:51E, evidentemente, que a partir dali, Israel tinha o direito de se defender.
04:55E a contra-ofensiva lançada ali na faixa de Gaza encaixa-se, sim, nessa lógica de um direito
05:01de legítima defesa, embora o Hamas não seja um ator estatal.
05:06Então, a gente está também um pouquinho fora do que o direito nacional previa.
05:10O que o direito nacional prevê?
05:11Direitos de resposta e de defesa contra atores estatais.
05:14O Hamas é um ator não estatal e a gente não pode confundir, isso é importante, a Palestina
05:18com o Hamas.
05:20O Hamas não tem o apoio dos palestinos, não goza de amplo apoio sequer no território que
05:26controla, que é a faixa de Gaza.
05:28Só que qualquer resposta, em qualquer conflito, existem limites que têm que ser observados.
05:33É o chamado direito internacional humanitário, ou os direitos humanos em tempos de guerra.
05:38Isso é consagrado já desde o século XIX.
05:41E, no posto de Segunda Guerra Mundial, temos as convenções de Genebra, que consagraram
05:45uma série de obrigações ou orientações para estados em guerra, que têm que ser cumpridas.
05:49Então, não atacar civis, uma série de importantes limites a serem observados.
05:56E é sabido, claro, que seja a Rússia ali na Ucrânia, ou a Ucrânia na Rússia também,
06:00os dois lados têm violado o direito nacional humanitário, seja Israel com a sua campanha
06:05ali na faixa de Gaza, também tem ultrapassado limites previstos no direito nacional.
06:10Então, o direito de resposta está garantido a Israel, não há menor dúvida, mas essa
06:14resposta deveria observar limites.
06:16Não é razoável, por exemplo, que Israel impeça a entrada de caminhões com ajuda
06:21humanitária, que Israel utilize a fome como arma de guerra dentro da faixa de Gaza, provocando
06:27ali uma mortandade brutal de pessoas inocentes, crianças e por aí vai.
06:32Então, aí os equívocos de Israel.
06:34Mas quando pensamos do lado inariano, e é muito importante olhar para o Irã também
06:38nesse sentido, o Irã também viola preceitos internacionais já há bastante tempo.
06:43O Irã é membro do TNP, é parte do Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares,
06:49e é sabido que o Irã, em vários momentos, falha com suas obrigações junto a esse tratado,
06:53por não agir de maneira transparente, por não cooperar com os técnicos da Agência
06:58Internacional de Energia Atômica, que tem a sua sede em Viena, e que cuida, fazendo
07:03inspeções dos seus países membros, dos países que são parte do tratado, para verificar se
07:08eles estão ou não agindo em consonância com as obrigações do texto.
07:12E em vários momentos, inclusive muito recentemente, técnicos da agência disseram que o Irã
07:17tinha parado de cooperar, que não estava prestando as informações necessárias, estava
07:22escondendo, digamos assim, algum tipo de atividade.
07:26Inclusive as instalações nucleares iranianas, as mais famosas, Natans, Pordow, eram instalações
07:33clandestinas, que foram descobertas a partir de uma denúncia feita por cientistas iranianos
07:39no exílio.
07:40Então, o Irã mantinha aquelas instalações subterrâneas sem revelá-las ao mundo,
07:45no que já é claramente uma prova de falta de cooperação com organismos internacionais
07:50e com o tratado de que o Irã faz parte.
07:52Então, claro que também há equívocos muito graves do Irã, além do que o Irã é
07:56historicamente, pelo menos desde o regime dos Ayatollahs, instalado em 49, em 79, perdão,
08:02um país que patrocina o terrorismo mundo afora.
08:05A gente pensa no Hamas, a gente pensa no Hezbollah, como movimentos também de caráter
08:10terrorista, que são financiados e apoiados muito diretamente pelo Irã.
08:14Então, eu diria que é um embate em que os dois lados transgridem de maneira muito clara
08:19e flagrante normas internacionais, mas dificilmente serão alcançados por algum tipo de medida
08:26mais contundente, porque do lado israelense, como eu falei, há o apadrinhamento e proteção
08:31dos Estados Unidos, e do lado iraniano, muito reiteradamente, há a posição de bloqueio
08:36da Rússia e até da China contra medidas mais duras.
08:39É verdade que o Irã já teve sanções internacionais aplicadas pelo Conselho de Segurança,
08:44sanções econômicas, sobretudo, nem é mais qualquer medida mais contundente de alguma
08:48aprovação de intervenção militar no Irã, isso não passaria pelo Conselho, porque
08:52Rússia e China não permitiriam.
08:56Professor, o regime do Irã, a gente sabe como que ele é, ele é um regime ditatorial,
09:03uma teocracia, direitos de mulheres, e a gente sabe que a oposição iraniana, mesmo
09:09calada, existe, não é uma coisa unânime o regime, o regime tem problemas internos
09:14de oposição, e no mundo árabe hoje se tem, ali resolveria a mudança do regime dos
09:20Ayatollahs, resolveria vários problemas, o Hezbollah, no Líbano secaria, já que a
09:26questão da Síria não existe mais para financiar o próprio Hezbollah, a Arábia Saudita e os
09:32Emirados Árabes ali têm problemas com o Irã, históricos ali de relacionamento, por causa
09:37do petróleo principalmente.
09:39O Trump, muitos falam ali nos Estados Unidos que o Trump está pensando duas vezes se deve
09:45entrar ou não, porque o Benjamin Netanyahu convenceu ele e ele vê, por uma parte ali
09:52da estratégia americana, que dá para derrubar o regime.
09:56O senhor acha possível derrubar o regime?
09:58O regime, claro, tem uma turbulência interna real no Irã, principalmente a questão das
10:05mulheres, dos direitos civis, humanos ali.
10:08O mundo árabe também não vê com maus olhos ali, claro, nunca vai admitir, mas tirando
10:13o Líbano hoje, a parte do Hezbollah, o resto ali tem reticências com o Irã.
10:18Será que, qual a possibilidade, você acha, da derrubada do regime?
10:21Algo estranho também está acontecendo na CNN, essa semana internacional já apareceu
10:27duas vezes o filho do Shah falando ali na televisão, ninguém nem conhecia a cara dele,
10:34ele parece que já está sendo colocado ali estrategicamente, tipo, olha, existe uma
10:38família real ali, a gente pode começar por aqui a conversa, entendeu?
10:42Tem o filho do Shah ainda vivo.
10:45Como o senhor vê a possibilidade disso?
10:46Claro, a China não vai gostar, porque ali é uma rota real ali, e o Irã é muito
10:51estratégico, principalmente para a China e para a Rússia, mas mais até para a China.
10:56É, é um ponto fundamental, né, e acho que são muitas variáveis, né, que a gente tem
11:02que abordar nessa sua pergunta.
11:04A primeira delas, claro, né, e nesses 46 anos de regime dos Ayatollahs, não há dúvida
11:10que é o momento mais difícil para o Irã, por uma combinação de fatores, quase que
11:14uma tempestade perfeita que a gente vê no país persa, em primeiro lugar, você colocou
11:18muito bem, né, existe uma satisfação interna, intestina, já de muito tempo, né, que não
11:23começa agora, né, uma série de protestos, né, a sociedade tomando as ruas, apesar do
11:28caráter repressivo e violento, né, do regime, apesar de uma polícia da moralidade,
11:34né, que age de maneira muito firme, a população não se exime, né, de cumprir o seu papel,
11:39de ir às ruas, de protestar, de questionar o regime, isso tem sido reiterado, tivemos
11:45alguns anos a dramática morte da Macha Amini, né, por se recusar a usar o veu, né, do
11:49modo como o regime impõe e acabou morta sob custódia policial, aquilo levou a massivas
11:55manifestações dentro do Irã, então é uma população, né, uma sociedade em parte,
12:00né, muito crítica, né, ao que o regime representa, a toda opressão, a toda violência, ao silenciamento,
12:06né, de qualquer forma de divergência ou de contraditório, né, esse é um ponto importante.
12:11Some-se a isso a crise econômica ou socioeconômica, né, o Irã, né, por força muito das sanções
12:16internacionais que enfrenta, é um país em crise e uma crise crescente, né, então, né,
12:22vemos um crescimento muito pequeno, vemos uma população jovem com dificuldade, né, de
12:27inserção laboral, então há um certo desalento do ponto de vista econômico dentro do Irã,
12:32né, o que também, claro, amplia o desagrado da própria sociedade civil iraniana.
12:37Do ponto de vista geopolítico, o momento é muito ruim para o Irã, né, o Irã conseguiu,
12:41né, aí ao longo dos últimos 20 anos, estender tentáculos importantes no Oriente Medio, mas
12:46que se vêem hoje muito enfraquecidos, né, o Resmolá muito enfraquecido no Líbano por
12:50quantas ações militares israelenses no ano passado, o Hamas muito enfraquecido na faixa
12:55de Gaza, os Uts, né, sofrendo, né, ataques norte-americanos também enfraquecidos no
12:59Iêmen, tivemos a queda em dezembro do regime de Bashar al-Assad na Síria, né, então o
13:04Irã que em termos geopolíticos também se vê mais frágil e a própria capacidade militar
13:09do Irã também, né, revela vulnerabilidades muito concretas, né, pelas ações levadas
13:13a cabo por Israel, né, ao longo de todo o ano passado, a capacidade de defesa antiaérea
13:18iraniana está muito comprometida, né, parte do espaço aéreo iraniano foi controlada por
13:22Israel muito facilmente nos primeiros dias de guerra, sobretudo a parte ocidental do
13:26Irã foi controlada muito facilmente pela força aérea israelense, né, então há uma
13:30vulnerabilidade em termos militares também, né, muito clara pro Irã.
13:35Então tudo isso, claro, combinado, né, demonstra que o momento é um momento crítico, né, pro
13:39regime e que em termos de pressão, né, se a guerra se prolongar, poderia haver, assim,
13:44a ruína, o colapso do regime de Ayatollahs, né, isso é uma possibilidade que existe, né,
13:48não tô dizendo que é fácil, né, que vai ser pra amanhã, mas ela existe, né, o regime
13:52se mostra muito frágil. O problema, né, é que os Estados Unidos, né, ou Israel não
13:56parecem ter um plano pro day after, pro dia seguinte, né, então eu tenho insistido que
14:02não se trataria propriamente de uma ação de regime change, de mudança de regime, como
14:07foi no Iraque em 2003. No Iraque havia soldados americanos em solo, boots on the ground, né,
14:12havia um plano, né, para o Iraque, né, embora depois a coisa tenha desandado, né, os
14:17siítas tenham tomado poder, né, e a coisa complicou no Iraque, né, inclusive com milícias
14:21siítas apoiadas pelo Irã, mas havia um plano de mudança de regime mesmo, né, e havia
14:26dezenas de milhares de soldados americanos ali na área, né, uma parte significativa dentro
14:30do Iraque, né, o que a gente chama de boots on the ground, né, as botas em solo. Para
14:34o Irã não há nada disso, né, então o risco é de que o que poderia acontecer no
14:38Irã seria mais do que aconteceu com a Líbia em 2011 do que aconteceu com o Iraque em
14:422003, né, a Líbia virou um estado falido, né, entregue ali a grupos divididos, né,
14:47nas duas partes do país, oriental e ocidental, né, um failed state, um quase state, como se
14:52fala, né, no termo técnico, né, o Irã poderia vir a isso, é muito improvável que a monarquia
14:57pudesse voltar, né, se fala aí, né, dos herdeiros dos charles da Parleva, isso é uma possibilidade
15:01mais do que remota, né, porque não é uma figura, não são figuras conhecidas, né, dentro
15:06do Irã, então derrubar o regime é uma possibilidade, mas o que fazer depois com o Irã,
15:11né, que é um país grande com uma população gigantesca, né, só Teherã, tem quase 10
15:17milhões de habitantes, né, só perde pro Cairo, né, e se a gente considerar o entorno
15:20são 16, 17 milhões de habitantes, então é um país qualquer, né, não é a faixa
15:25de Gaza que tem 2 milhões, né, é um país imenso, né, com quase 100 milhões de habitantes,
15:29né, é difícil a gente imaginar, né, qualquer articulação ali improvisada, né, não há
15:35um plano nos Estados Unidos, não há um plano em Israel sobre o que fazer, né, com esse
15:39território tão importante, então, né, o que poderia acontecer de pior seria o colapso
15:42do regime, né, sem um plano do que fazer no dia seguinte, né, uma coisa é mudança de
15:47regime, você tem algum plano pra depois, outra coisa é o colapso do regime, sem haver
15:51um plano, então, a situação seria muito dramática.
15:53E só pra completar, pra fechar, né, com relação às monarquias árabes do Golfo, a
15:58posição delas tem mudado nos últimos tempos, né, você tem toda a razão de entender
16:02que havia uma rivalidade histórica, o relacionamento, a Arábia Saudita e a Irã é um relacionamento
16:06muito ruim do ponto de vista histórico, não há dúvida disso, né, mas são monarquias
16:10árabes no Golfo absolutamente coordenadas na condenação a Israel, né, então a gente
16:17encontra uma postura uníssona ali, muito clara contra Israel, né, contra o que Israel
16:22tá fazendo ali na faixa de Gaza, né, contra essas ações de Israel ao Irã, por
16:26entendê-las abusivas também, né, e o próprio diálogo dessas monarquias com o Irã
16:31melhorou nos últimos tempos, a Arábia Saudita reatou relações diplomáticas com o Irã
16:35depois de sete anos de relações cortadas, né, então, não são mais aqui, embora
16:40dialoguem bem com os Estados Unidos, né, o Bahrein tem base americana, o Qatar também,
16:44a Arábia Saudita é um grande aleato dos Estados Unidos, no que tange a Israel, né,
16:47esses atores estão juntos contra Israel, né, censurando Israel, né, não sei se eles
16:52apolham tão claramente, né, um fortalecimento de Israel, né, o fim do regime no Irã,
16:56apesar de rivalidades históricas, repito, nos últimos tempos a relação deles, né,
17:01desses países com o Irã melhorou e melhorou muito, né, exatamente porque Israel se tornou
17:04quase que um inimigo comum para todos eles, para o mundo árabe e para o país perso.
17:10Professor Paulo Velasco, boa tarde, é um prazer novamente estar com o senhor aqui na
17:14Jovem Pan. Professor, eu queria explorar ainda um pouquinho mais a possibilidade de
17:19ingresso ou não dos Estados Unidos nesse conflito, porque evidentemente o ingresso
17:22dos Estados Unidos pode elevar aí o risco de uma escalada maior dessa guerra.
17:28Nós já sabemos que a Rússia vem advertindo os Estados Unidos de tempo em tempo para que
17:33os Estados Unidos não ingressem nesse conflito. No entanto, também sabemos que Israel conclama
17:38os Estados Unidos, especialmente por causa da instalação de Ferdow, né, essa instalação
17:43que fica 90 metros abaixo do solo e somente os Estados Unidos teriam o armamento capaz
17:47de penetrar e explodir essa instalação. De outro lado também, Donald Trump enfrenta
17:52um problema político, né, tanto pelos seus assessores como pela população norte-americana
17:57que não aguenta mais gastos com guerra e as consequências que nós sabemos que ainda
18:02são ruins politicamente para Trump. Então me parece que falta ainda um outro motivo para
18:07os Estados Unidos entrar nesse conflito. Não seria o fechamento do Estreito de Hormuz?
18:13O senhor acredita que é possível que Irã parta para esse caminho como um gato acuado,
18:18que não há mais o que fazer, parta para esse caminho? Não parece que seria um erro estratégico
18:22do Irã? Daria motivo, aí sim, econômico, que é o que Donald Trump gosta, dele realmente
18:27ingressar nesse conflito? E caso ingresse os Estados Unidos, o senhor vê algum risco
18:33efetivamente de uma retaliação da Rússia ou de a Rússia entrar ao lado do Irã?
18:38Como é que o senhor enxerga esses próximos passos?
18:40Mais uma vez, pontos excelentes para a gente conversar. Bom, em primeiro lugar, eu acho
18:47que a entrada na guerra não é uma prioridade, não é o primeiro ponto da lista para o Trump.
18:52O Trump está acompanhando de perto o que está acontecendo, está gostando de testemunhar
18:55a vulnerabilidade do regime iraniano, entende que o Irã tão vulnerável talvez aceite o
19:01acordo nuclear que venha a ser imposto por Washington, um acordo que vinha sendo rejeitado
19:06pelo Irã, um acordo em que o Trump exige, por exemplo, a renúncia em definitivo de
19:11qualquer forma de enriquecimento de urânio dentro do Irã, no importo percentual, mesmo
19:15em percentual baixo, o Irã teria que renunciar a qualquer forma de enriquecimento de urânio.
19:20O acordo que o Trump quer impor inclui não só a questão nuclear, mas também o programa
19:24de mísseis e drones, e o Irã também se recusava a aceitar negociar esses temas.
19:28O Irã tem uma capacidade importante nesse segmento, inclusive exporta mísseis e drones
19:33para a Rússia, que a Rússia usa na guerra ali na Ucrânia.
19:36Então o Irã muito vulnerável, à mercê de um colapso, poderia talvez aceitar um acordo
19:42duro, como o que o Trump quer impor, muito mais duro do que aquele acordo que o Obama
19:45negociou e que o Trump denunciou em 2018.
19:49Essa é a prioridade do Trump, mas se ele perceber que eventualmente, pressionando um pouco
19:54mais, apoiando mais diretamente Israel e se engajando no conflito, ele pode
19:58provocar o colapso do regime ou a queda do regime, talvez seja um caminho a ser seguido.
20:03Embora, reitero, colapsar um regime num país do tamanho do Irã, talvez não seja a decisão
20:08mais acertada, porque o follow-up do segmento pode ser muito gravoso, pode ser muito dramático
20:13pelo peso geopolítico que o Irã tem.
20:16Com relação a uma eventual entrada à Rússia, eu acho muito improvável.
20:20A Rússia tem uma relação próxima com o Irã, como tinha também com a Síria.
20:25E o Putin não mexeu dois dedos para tentar manter o Bachar Al-Assad no poder, quando no
20:30final do ano passado o HTS avançou em direção ao Damasco e derrubou o governo.
20:35A Rússia apoiou a Síria enquanto deu na Guerra Civil, mas quando se viu ali o regime
20:39do Assad na iminência de cair, Moscou não fez nada, porque simplesmente Moscou tem coisas
20:45mais urgentes para cuidar, uma guerra ali na Ucrânia em curso, dura, o país vem conseguindo
20:50alguns avanços na Ucrânia, mas não pode descuidar.
20:53A Rússia não tem condições de se engajar numa segunda frente tão distante, por mais
20:57que o Irã seja um parceiro estratégico e é, inclusive, oficialmente reconhecido em
21:02documento como parceiro estratégico.
21:04É difícil a gente imaginar que essa coordenação, que é até em militar e até em defesa, como
21:09eu falei, o Irã vende armas importantes para a Rússia e vice-versa, mas é difícil
21:13se imaginar a Rússia entrando no conflito.
21:16Isso é muito improvável e a China mais ainda, porque a China é muito pragmática, ela sabe
21:20que quem vier assumir o comando em Teheran, na eventualidade de uma queda do regime, vai
21:26continuar vendendo petróleo, vendendo gás, que é o que interessa a China.
21:29Com relação ao Estreito de Hormuz, esse é um ponto bem delicado, porque é um dos poucos
21:35assets, um dos poucos ativos que o Irã ainda tem.
21:40O Irã está com o poder de Bargalha muito reduzido para negociar o que quer que seja,
21:44muito enfraquecido, como já comentamos, e pode, eventualmente, ali se quiser, de maneira
21:49muito fácil, fechar o Estreito.
21:51E um terço do petróleo que passa ali daquela região produtora para o mundo, tem que passar
21:57um terço de todo o petróleo daquela área, tem que passar pelo Estreito de Hormuz.
22:01Então, claro que seria uma medida desesperada levada a cabo pelo Irã, um último poder de
22:07Bargalha, uma última cartada, mas que poderia ter consequências dramáticas, porque isso
22:10criaria um caos econômico internacional e, evidentemente, poderia haver algum tipo de
22:15reação muito dura, aí sim, por parte dos Estados Unidos.
22:17Mas, reitero, não é a primeira opção de Washington se engajar nessa guerra.
22:22O Trump está observando, por isso, as posições erráticas do presidente americano.
22:25Às vezes parece que vai se engajar, outras vezes parece descolar e se distanciar um pouco
22:30do tema, porque ele sabe que internamente é uma questão muito controversa.
22:34Há um núcleo forte de trumpistas que não querem um engajamento na guerra e são, evidentemente,
22:39aqueles que defendem o America First, que querem olhar para os Estados Unidos primeiro
22:43e querem um desengajamento do país nas questões internacionais mais sensíveis.
22:47Isso é muito claro.
22:49De outro lado, há aqueles, os falcões, que querem, sim, uma postura mais contundente,
22:54Estados Unidos como polícia do mundo.
22:55Então, ele sabe que há uma base dividida hoje em dia.
22:59E, dependendo da decisão, isso pode comprometer o apoio ao seu governo e pode ter impactos,
23:03inclusive, nas eleições legislativas de meio de mandato no ano que vem.
23:09Então, ele tem que calcular de maneira cuidadosa.
23:11Acho que a grande preocupação dele é o âmbito doméstico, é olhar para esse jogo
23:15de forças trampistas que se divide muito quando se fala em um possível engajamento
23:19norte-americano no conflito.
23:21Bom, nós conversamos com o professor internacional da UERJ, o Paulo Velasco,
23:26que eu agradeço demais a presença aqui no Linha de Frente.
23:30Um prazer falar com vocês, fico à disposição.
23:31Até a próxima.
23:32Tchau, tchau.

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