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Transcrição
00:00Olá, antagonistas! A gente está aqui com o Flávio Morgenstern na TV Antagonista.
00:07Ele é autor do livro Por Trás da Máscara, é o editor do sensoincomum.org
00:14e eu trouxe este homem aqui, que é um analista de passeata e de passeateiro,
00:21que escreveu um livro deste tamanho, para falar com a gente do que acontece agora com as mobilizações.
00:29A última mobilização de rua foi menor do que esperavam os organizadores.
00:34E eu conversei com os diversos movimentos que têm dito que a mobilização nas redes sociais
00:40está hoje na medida de mais ou menos um terço do que era em março do ano passado.
00:47Flávio, é normal o que está acontecendo ou o brasileiro cansou?
00:52É a coisa mais normal do mundo. Você vai para a rua quando você tem um grande problema.
00:57Eu nunca vou para a rua quando eu estou feliz. Quando eu estou feliz, eu vou para a praia.
01:01Quando eu estou feliz, eu vou tirar férias. Quando eu vou entupir a rua de gente é quando eu estou com um grande problema.
01:06Você tem um problema maior do que Dilma Rousseff? Você tem um problema maior do que o presidente?
01:11Então você compara. Você tem presidente ou você tem votação ilícita. Qual vai ser maior?
01:16É incomparável. Não tem nenhum motivo no mundo que vai encher tanto a rua de gente quanto o impeachment de uma presidente.
01:26Sem contar, obviamente, os movimentos de rua não tiveram o número desejado pelos organizadores.
01:33Os organizadores vão ter o número desejado só quando a rua estiver tão apinhada que você não consegue mais ver o asfalto de cima.
01:39Isso aconteceu diversas vezes no impeachment. Não aconteceu uma vez, duas vezes.
01:43Aconteceu diversas vezes na época do impeachment.
01:46Agora você vai sempre ter um número mais enxuto, assim como as do PT também.
01:53Só que do PT nunca ninguém vai falar, olha, o número foi menor do que o esperado pelos organizadores.
01:58É tudo mortadela.
01:59Mas também tem o fato de que eles mobilizam de uma forma diferente do que esses outros movimentos.
02:06Claro, um tem mortadela, o outro não tem.
02:08Se eu tivesse pão com mortadela, talvez eu fosse para a rua com muito mais facilidade do que eu iria para a praia, por exemplo.
02:15Agora, uma mobilização petista, ela é verticalizada.
02:20Ou seja, você tem um sindicato, você tem professores, você tem categorias ali organizando o negócio.
02:26Falando assim, a ordem vem de cima, vai para a rua agora ou você vai para a rua ou você não tem dinheiro.
02:30MST. O que o MST faz da vida?
02:32O MST vai para a rua.
02:34É, que são movimentos que estão organizados, que vivem disso.
02:37Que é diferente de você pegar e convencer uma série de pessoas que tem ali o seu dia a dia, a sua profissão,
02:44de que naquele dia, em vez de ter o seu lazer, elas vão para a rua.
02:47São situações muito diferentes.
02:48Completamente diferentes.
02:49Você pode, então, colocar, sei lá, no topo do seu carro, falar fora Dilma,
02:53coloca todo mundo no topo do carro fora Dilma, você vai para a marginal Tietê e fala, pronto.
02:57Então é o maior protesto que eu já vi na vida, entendeu?
03:01Porque, na prática, o protesto serve para isso.
03:03Ele cria trânsito.
03:05O protesto serve para encher o saco.
03:07Se você não encher o saco de ninguém, contra o que você está protestando?
03:11O que você está fazendo de fato?
03:13Você não faz protesto na calçada, entendeu?
03:15Então, a ideia do protesto, você já está vendo que é uma ideia bem diferente do que as pessoas noticiam, né?
03:22Mas, na política, a análise é o quê?
03:25As pessoas vão para a rua só quando tem o quê?
03:28Um inimigo comum?
03:29Porque é muito fácil, e isso a gente vê no mundo todo, quando se quer apear um governante do poder,
03:36isso em todas as culturas, a gente vê em todos os países, quando o objetivo é esse,
03:44nada segura a pessoa dentro de casa.
03:46Mas a gente teve essas manifestações sobre as quais você fez o livro, que não tinham esse objetivo e o povo ia para a rua todo dia.
03:54Não, tinha esse objetivo vírgula, né?
03:57Aquelas manifestações, ninguém entendeu 2013 até o presente momento, certo?
04:02Querem fazer um comparativo com 2015, que sempre é falho, e aquilo ali tinha um objetivo político,
04:08tinha um objetivo de tomada de poder político, não só de tomada do poder, como de tomada das instituições.
04:13Ou seja, você não queria, em 2013, quem organizou aquele negócio, MPL, aquela turma toda, sabe?
04:20Só PCO, sabe? Gente que você lembra menos do que a Marina Silva, na sua vida, eles têm um objetivo revolucionário.
04:30Eles conseguiram ali com a pauta dos transportes.
04:34Foi um objetivo extremamente estudado, né?
04:35Eu deixei os documentos no meu livro, por isso que ele ficou tão grande, né?
04:38Sempre que quando vocês falam assim, é reclamação, né? Tipo, é desse tamanho e tal.
04:41E agora, neste momento, foi uma frase que eu acho que eu deixei no meu livro mais de uma vez, do Eric Hofer.
04:48Ele foi um grande especialista em movimentos de massa.
04:51Ele fala, o grande movimento de massa, ele não surge por causa de um grande deus.
04:55Ele surge por causa de um grande demônio.
04:57Você tem ali um grande problema na sua frente.
04:59Quando eu tô muito feliz, eu não vou fazer passeata.
05:02Se eu tiver um grande problema na minha vida, que ele tá...
05:05Por exemplo, uma crise econômica, que ela até atrapalha a minha vida normal.
05:08Tipo, ah, perdi o emprego, perdi minha budega aqui, não consigo mais fazer meus afazeres normais.
05:16Beleza, aí eu vou pra rua.
05:18Então, ele precisa ter um grande demônio.
05:20O impeachment, ele conseguiu lograr êxito por conta disso.
05:24Sem contar o grande demônio ali, no caso, ele era personificado.
05:29Você conseguia ver, você conseguia ouvir o grande demônio falando ali de cachorro atrás, esse tipo de coisa.
05:35Quando você vai falar, vota em lista fechada, esse grande demônio já ficou mais abstrato, já ficou mais confuso.
05:41Tenta falar pro seu Zé ali da padaria, sabe?
05:44Tenta falar pra dona Neide.
05:45Você já tem que explicar.
05:47Pois é, como é que você vai fazer uma grande mobilização com um troço desse?
05:52Os políticos dizem, como uma máxima, que em política, quando você sai tendo que explicar, você já começa perdendo.
06:02Você já perdeu.
06:03É, o povão, ele gosta de explicações fáceis, né?
06:06Por isso que o povão não gosta da minha, não vai com a minha cara.
06:08Mas não sei se é isso também.
06:10No embate, se você começa explicando, você já gasta a sua energia ali.
06:15Claro, né?
06:15Você não tem como ir pro embate.
06:17A grande ideia é que você não pode ter uma justificativa.
06:19Você não pode estar se justificando, falando assim, ó, desculpa, eu tô vindo aqui.
06:22Olha, veja bem, veja bem, sabe?
06:24Cria uma desconfiança.
06:25Óbvio.
06:26Imagina alguém vender um carro pra você e vai falar assim, olha, mas veja bem esse carro.
06:30Ó, então, tem que entender que eu já não quero comprar aquela coisa.
06:35Mesmo que seja uma Ferrari, entendeu?
06:37Vou ver algum problema ali, vou pelo menos sentir que tem um problema, mesmo que eu não o veja.
06:42Mas eu não acho que esses movimentos atualmente estejam na defensiva.
06:48Eu só acho que, assim, a gente teve um grande espetáculo midiático político agora.
06:51Tá todo mundo de saco cheio, sabe?
06:53Eu mesmo, sabe?
06:54Eu fui pra rua, fui...
06:57Discursei na Paulista ali várias vezes a favor do impeachment.
07:03Mas não é uma coisa que, sabe, eu esteja lá com o meu ânimo o tempo todo.
07:07Tipo, olha, cada problema político eu vou pra rua.
07:10Não dá.
07:11Mas você não acha que os políticos só estão respondendo aqui no Brasil com ações, vamos dizer,
07:20que representam os votos dados a eles quando as pessoas vão pra rua?
07:25Eu acho que o político não representa o povo nunca.
07:27A grande verdade é essa.
07:28O político não está interessado no que o povo tem a dizer.
07:30Está interessado no que o povo tem a dizer de quatro em quatro anos.
07:32Só.
07:34A gente chama o político de representante, mas você vai realmente pra...
07:40Procura quem é que vota nesse político.
07:43A maior parte da população brasileira, ela não está interessada em política e ela não tem uma educação formal muito avançada.
07:50Você procura nos grandes políticos que sempre tem aquele nome repetido, os coronéis do Nordeste.
07:57Tem coronel aqui em São Paulo também, sabe, coronel regional ali em cada bairro e tal.
08:02Vai ver se o público que vota nele religiosamente fala assim, eu não quero nem saber o que ele fez nesses últimos quatro anos, mas eu vou votar nele.
08:09Vai ver se o público está realmente interessado e fala assim, vamos ver que projeto que esse cara votou na Câmara.
08:12Não tem isso.
08:14O político representa uma ideia.
08:16Ele não representa o povo.
08:19Então o político não vai ter medo do povo.
08:22Obviamente, quando ele faz uma coisa errada, muito grandiosa, e aí Lula e Dilma são óbvios, o povo vai pra rua.
08:32E é com isso que você tira um presidente que tem um poder quase plenipotente na nação.
08:37Ele é a pessoa mais poderosa da nação, ele só vai ter medo do povo quando você vai pra rua.
08:42Agora, isso não funciona o tempo todo.
08:45O político não age pelo sentimento de medo.
08:48O político age pelo sentimento de falar assim, olha, o povo não está vendo o que eu estou fazendo.
08:53Não importa que, ah, mas a imprensa é livre, ah, mas agora tem internet.
08:56O povo não está vendo, ponto.
08:59Isso aí não mudou.
09:00Desde a antiguidade até hoje é a mesma coisa.
09:02Não teve progresso nenhum nessa área.
09:04Mas você não vê nenhuma expectativa de progresso?
09:09Você não vê nenhuma mudança?
09:11Eu acho que o otimismo dá câncer.
09:14Sempre que você tem um otimista, se você tiver uma empresa, imagina, você tem uma sua empresa de análise de risco.
09:20Você está querendo fazer um investimento.
09:23Olha pro otimista da sala, tipo, pergunta assim, olha, quem acha que isso aqui vai dar certo?
09:28Primeiro que levantar a mão, demita.
09:29Entendeu?
09:30Porque você não vai lá ter uma solução muito qualificada com o pensamento daquele cara.
09:37Depois de você demitir, você fala, agora sim, me fala onde que eu vou investir, etc.
09:42E meu investimento definitivamente é um político.
09:45A população brasileira melhorou muito.
09:48A população brasileira melhorou muito nos dois últimos anos, certo?
09:52Nosso nível intelectual, a conscientização, etc.
09:58Todas aquelas coisas melhoraram muito.
10:00Mas os políticos, a gente conseguiu colocar umas cinco caras novas ali e pronto.
10:06A maioria, se a gente pensar, são as pessoas que desde antes da gente nascer, são ou os mesmos caras, eles...
10:13Ou o mesmo sobrenome.
10:14Ou a mesma família.
10:15É impressionante.
10:17Tudo farinha da mesma carreira.
10:18O Brasil, tenho que lembrar da frase do Roberto Campos, né?
10:22O Brasil tem duas saídas, galeão e cumbica.
10:26Isso é a análise que eu posso fazer do Brasil hoje.
10:30Mas eu acho que as pessoas estão se interessando mais por política.
10:34Não, mas assim, a gente tem que entender que o impeachment deixou a gente no auge.
10:38Sim.
10:38No auge.
10:39Então você tem que entender que quando você está no auge, dali pra frente você só vai pra baixo.
10:44Entendeu?
10:44No auge você não tem como subir.
10:46Então o nível de conscientização, mobilização, interesse e até de saber qual é o lado certo da história,
10:54estava no auge ali.
10:56Você pode reparar, passou um mês, já está todo mundo se fragmentando de novo,
10:59todo mundo lá querendo pegar uma carcaça do outro, essa coisa toda.
11:04Então no presente momento eu acho que a gente está começando a sentir um pouco a decadência.
11:09Eu não vejo os políticos também melhorando nesse entremeio.
11:13Bom, o que pode mudar esse cenário?
11:18Você vai precisar ter novas lideranças, óbvio, mas eu detesto essa palavra lideranças, né?
11:22Liderança, Lula é uma grande liderança, por exemplo.
11:24É, liderança é quem lidera.
11:26Não quer dizer que é bom.
11:27Liderança é um imã, assim.
11:28Você vai ver quem é que...
11:29Quanto mais ferro ali eu pego, pronto, beleza.
11:31Mas você precisa ter uma mudança cultural.
11:35A mudança do Brasil não é estrutural, política, institucional.
11:39Ela é cultural.
11:39Na hora que você tiver uma mudança cultural, ela já está acontecendo.
11:44Teve projetos de lei aí que geraram muita discussão na sociedade a respeito, por exemplo,
11:49de doutrinação na escola.
11:51Ele não precisa nem passar.
11:53Simplesmente o fato de você falar assim, olha, então agora o adolescente tem que ter
11:58a noção de que ele está sendo doutrinado, de que aquilo que o professor de geografia
12:01fale para ele talvez seja uma bobagem.
12:04Minha geração não teve isso, entendeu?
12:06Tanto que a minha geração só pensa bobagem.
12:08O jovem de hoje, por mais que o jovem necessariamente só pense bobagem, pelo menos ele está tendo
12:14uma consciência maior do tipo assim, ah, então eu penso uma bobagem.
12:18Agora o problema é quando ele pensa bobagem e ele não tem essa consciência.
12:21Então esse nível de autoconsciência de que a gente está no buraco realmente melhorou,
12:25mas a gente continua no buraco.
12:28Uau, hein, gente?
12:30Sem espaço para otimismos, esse é o Flávio Morgenstern, que é o editor do Senso em Comum,
12:38fazendo uma visita para a gente aqui na TV Antagonista.
12:42Flávio, valeu, muito obrigada.
12:43Muito obrigado.
12:44Eu, olha, sou um grande fã do Antagonista, leio todo dia, assim, sabe, é coisa necessária,
12:50é uma honra enorme estar aqui de novo falando com vocês.
12:55Sei lá, sabe quando você é um grande fã da banda, assim, você fala assim,
13:00nossa, agora eu tive a oportunidade de tocar com a banda, isso aí é meu sentimento nesse momento.
13:06E é um amigo muito querido também.
13:08É isso, pessoal, valeu, Flávio.
13:10Muito obrigado.
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