O interesse por endometriose nunca foi tão alto — e o Brasil lidera as buscas no Google sobre a doença. A Sala Digital analisa os dados do Trends e mostra como a falta de diagnóstico atinge milhões de mulheres.
00:10Essas são algumas das perguntas mais feitas no Google sobre endometriose nos últimos 5 anos.
00:17Dor pélvica, menstruação que paralisa a rotina, dificuldade pra engravidar.
00:21Durante anos, mulheres ouviram que era frescura, coisa da cabeça ou um normal sentidor.
00:27Mas os dados contam outra história.
00:29Somos o país com o maior interesse no mundo pela doença.
00:32Em 2025, com dados ainda parciais, já batemos o pico histórico.
00:37Ou seja, a dor que por muito tempo foi silenciada desperta muita dúvida no Google.
00:42Mesmo assim, quando a gente compara com outras condições ginecológicas no Google,
00:47a endometriose ainda está atrás de temas como corrimento vaginal e candidíase.
00:52O que mostra que o tabu ainda existe e que o acesso à informação ainda precisa melhorar.
00:57Lembrando que o Google não é nenhum médico.
00:59Por isso, se você se identificou com esses sintomas, procure um ginecologista.
01:04Falar sobre isso é um ato de autocuidado e de resistência.
01:07E a sala digital está aqui para transformar essas buscas em informação de verdade.
01:11Aqui com a gente, doutor Jean Gorenstein, nosso colunista do Bora Brasil.
01:21Hoje tem três assuntos quentes.
01:23É, um montão de assuntos.
01:24E se a gente tivesse mais espaço, teria muito mais assuntos.
01:26Falaríamos um pouco mais assuntos, com certeza.
01:29Obrigada, doutor, por estar aqui com a gente.
01:30Eu que agradeço.
01:30É importante o tema que eu acho importante destacar.
01:34A Cíntia quis trazer aqui o tema da endometriose.
01:36Confesso a minha total ignorância.
01:38Aliás, mais um motivo para ser importante.
01:41Até mulheres que não têm, que não sofrem, que é o meu caso,
01:44também desconhecem as particularidades de algo que às vezes começa de forma muito silenciosa.
01:50Exatamente.
01:50Obrigada, doutor, por estar aqui com a gente.
01:52Eu relatava para os meus colegas quando o programa começou.
01:55A gente ouve muito falar das dores, dores fortes, dores incapacitantes.
01:59Mas no meu caso, eu não senti absolutamente nada.
02:01Eu fui fazer exame de rotina depois de um bom tempo e o ovário direito estava desse tamanho.
02:05Não podia nem fazer exercício porque eu corri o risco de estourar, andar de bicicleta, nada disso.
02:09Então, eu queria que o senhor falasse um pouco desses dois opostos, né?
02:12Das mulheres que sentem muitas dores e vão para o hospital mensalmente,
02:15dessas que podem não sentir nada, que é mais raro também, né?
02:17Pois é, o mais comum é que a gente tenha uma dor, principalmente no período menstrual,
02:25muito intensa.
02:27Uma dor encólica, incapacitante, que faz com que, mesmo com as medicações comuns,
02:32eu tenha uma melhora do grau de dor, mas ainda a dor se persiste.
02:38Só para esclarecer, comum já em casos com endometriose.
02:41Com endometriose.
02:42Então, o que chama atenção e o que faz com que essas mulheres falem assim,
02:46puxa vida, tem algo errado.
02:49Porque sentir dor no período pré-menstrual às vezes é normal.
02:52A gente fala assim, uma cólica é normal, mas uma dor tão intensa que não me permite
02:57trabalhar, que não me permite ir para a escola.
03:00E o pior, todo mundo, para de frescura, todo mundo tem menstruação, só para.
03:04É só uma cólica.
03:05É uma cólica.
03:06Toma um remedinho, vai para a escola, vai trabalhar e as pessoas no entorno não sentem.
03:10Mas existem outros comemorativos dessas mulheres, principalmente mulheres sexualmente ativas.
03:16Elas têm dor na relação.
03:19Além de dor na relação, algumas alterações, principalmente intestinais.
03:24O abdômen fica mais distendido, ele fica mais volumoso.
03:28Ao mesmo tempo, diminui o período de evacuação.
03:33Então, aquelas mulheres que tinham evacuação todos os dias,
03:37começam a ter a cada dois ou três dias.
03:41E algumas delas, sintomas urinários.
03:44Doutor, a gente separou agora algumas ilustrações que vão mostrar para a gente aqui no telão
03:48os números da endometriose aqui no Brasil.
03:52Olha, em três anos, um aumento de mais de 76%.
03:56Você vê que em 2022, 82.693 casos.
04:02E no último ano, isso já saltou para mais de 145.744.
04:08Alguma explicação para esse aumento realmente impressionante, muito alto?
04:13Na verdade, a gente está fazendo mais diagnóstico.
04:16As pessoas estão entendendo que o que elas sentem realmente existe,
04:20que não é algo da cabeça delas e que elas são pessoas enlouquecidas,
04:26porque é o que acontece.
04:28Eu recebi, por coincidência, há duas semanas,
04:31uma mãe que dizia que não acreditava nos sintomas da filha.
04:36Então, quer dizer, se a própria mãe não acredita,
04:38então ela forçava a menina ir para a escola e a menina ia com dores,
04:42a professora chamava e falava, não, pode deixar ela aí.
04:44Agora, imagine o que...
04:45E ela tinha?
04:46E ela tinha endometriose.
04:47É caso de atestado médico.
04:48É caso de atestado.
04:49Então, eu acho que à medida que a gente está trazendo nos programas,
04:52à medida que a gente está falando mais,
04:55a gente está fazendo com que as pessoas reconheçam os seus sintomas como anormal
04:58e estão procurando os seus médicos.
05:00Só vamos esclarecer o que é a endometriose em si.
05:04É uma questão no útero.
05:06Então, vamos lá.
05:07O que acontece?
05:08Nós temos a parte interna do útero, endo, interna, endométrio, que é essa parte.
05:15Esse endométrio, ele pode estar presente em alguma outra porção fora do útero.
05:21Então, ela pode estar mais para cima na trompa, no ovário.
05:26Eventualmente, ela pode cair na cavidade abdominal de forma retrógrada.
05:31Ou seja, a menstruação acontece e ela, por algum motivo, cai na cavidade abdominal.
05:38Moral da história, se eu tenho esse tecido, além do próprio endométrio,
05:43em outras porções, no período menstrual, ela vai sofrer ação de hormônios
05:50que vão fazer com que essas partes também sangrem, descolem, destaquem.
05:56E como é que se identifica isso?
05:59Pelos sintomas.
06:00Essa é a primeira grande definição.
06:03Esses sintomas que levam a dor na relação, dor encólica importante,
06:09períodos de sangramento muitas vezes mais prolongados,
06:13alterações abdominais, intestinais, urinárias e infertilidade.
06:19Muitas vezes, essas mulheres não têm tanto sintoma, como a própria Cíntia comentou,
06:24mas elas têm dificuldade em engravidar.
06:28Então, essas pessoas são pesquisadas.
06:30A gente tem como fazer diagnóstico.
06:32Diagnóstico, ele pode acontecer, primeiro, com um ultrassom,
06:37mas é um ultrassom específico, com preparo intestinal.
06:40A gente dá medicações para que esse intestino esvazie e aí eu consigo enxergar bem esse útero
06:49e também o intestino que está grudadinho aí.
06:52Porque a presença desse tecido de endométrio fora promove uma inflamação.
06:57E é essa inflamação que gera muita dor e muito desconforto.
07:02E lembrando que não é o fato de eu ter muitos implantes em outros lugares
07:08que gera mais ou menos dor.
07:10A gente tem mulheres que têm muito mais implantes em outras regiões desse endométrio.
07:16O senhor quer dizer esse sangue indo para outros lugares?
07:20Esse endométrio sendo implantado.
07:21Ele gruda em outras regiões.
07:23E aí o que acontece?
07:26Ele pode ter um sangramento mais tenso e é isso que vai dar a inflamação.
07:32Quanto mais inflamação, mais dor.
07:34O senhor falou da infertilidade.
07:36A gente preparou também uma arte para a gente mostrar esses dados da infertilidade.
07:40Vamos colocar aí na tela para a gente ver que uma em cada 10 mulheres sofre com endometriose.
07:47É um número alto.
07:4857% das pacientes que têm endometriose têm dores crônicas.
07:52Também um número altíssimo, quase 60%.
07:54E mais de 30% dos casos levam à infertilidade.
07:57E a gente comentava aqui que no meu caso eu não sentia dor.
08:01Tive um filho de formas naturais sem nenhuma tentativa.
08:04Antes de operar?
08:05Depois de operar.
08:06Eu operei em 2017.
08:08Meu bebê nasceu em 2024.
08:09Não estava tentando.
08:10Não tinha tido nenhum susto anteriormente.
08:13E a importância da gente ressaltar aqui então que as pessoas façam exames periódicos.
08:17Porque foi como eu descobri, né, doutora?
08:19E além dessa dor da questão do útero, você pode sentir também em outras áreas.
08:23E eu já vi relatos de pessoas que encontraram partes do endométrio no cérebro.
08:27Isso procede?
08:28Isso pode acontecer principalmente porque esse tecido pode cair nos vasos linfáticos e ir para outras regiões.
08:35Isso não é comum.
08:37É importante lembrar.
08:38Mas da mesma forma, sangramentos podem acontecer em outras porções que não obrigatoriamente na cavidade abdominal.
08:47Isso é muito mais comum ainda dentro da cavidade abdominal.
08:51Mas é importante a gente estar falando do diagnóstico.
08:53Além do clínico, além do ultrassom, a gente pode fazer uma outra questão que é a laparoscopia.
08:59São aqueles buraquinhos que são feitos na barriga e são colocados numa câmera para olhar, investigar a cavidade abdominal.
09:08Isso como exame?
09:09Porque a laparoscopia foi o procedimento pelo qual eu fiz a cirurgia.
09:12A laparoscopia também pode ser um exame?
09:14Ela pode ser porque muitas vezes eu não consigo fazer um diagnóstico muito claro.
09:19E aí eu posso pesquisar e aproveitar esse mesmo procedimento que é diagnóstico, ou seja, para identificar a presença da endometriose, para retirar eventuais pontos.
09:33Um exame que é muito efetivo acaba sendo a ressonância.
09:37A ressonância consegue identificar onde são os implantes e aí ela também acaba sendo um auxílio para a laparoscopia, como eu disse, para identificar alguns pontinhos que estão muito mais escondidinhos e que precisam de um tratamento específico.
09:56Doutora, acho que só vale a gente encerrar esse assunto citando que tem a cirurgia, as mulheres podem fazer a cirurgia, ela é bem assertiva, rapidamente, só para a gente encerrar.
10:05E para complementar a Patrícia, é importante dizer também que não tem cura, né?
10:08Então, ela não tem cura, mas o que nós temos?
10:10A gente tem o tratamento, tanto de tratamento de sintomas, para aquelas que não melhoram com sintomas de medicações anti-inflamatórias, analgésicas, hormonais.
10:20Muitas vezes os hormônios ajudam nisso, quer dizer, passou essa barreira, olha, não conseguiu resolver, vamos para a cirurgia.
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