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Roberto Motta recebe Leonardo Severini, presidente da Associação Brasileira de Atacadistas e Distribuidores de Produtos Industrializados (ABAD) e Eduardo Terra, co-fundador da BTR-Varese e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo. No programa, eles analisam os perigos da alta inflação no país e de que maneira o comércio varejista e atacadista brasileiros enfrentam os desafios da volatilidade econômica.

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Transcrição
00:00Conexão Mota Vivemos em um mundo complexo e em constante
00:11mudança.
00:12No Conexão Mota eu recebo convidados especiais para falar de temas que afetam sua vida e
00:18seu futuro, sempre em linguagem clara e buscando a verdade.
00:23Hoje nosso assunto é inflação.
00:27Além dos preços elevados, quais são os perigos da alta inflacionária para a nossa
00:32economia?
00:33E quais decisões do governo contribuem para a estabilidade do Brasil e o orçamento das
00:39famílias?
00:40Para responder essas questões que fazem parte do dia a dia de todo cidadão, temos conosco
00:46os economistas Leonardo Severini, presidente da Associação Brasileira de Atacadistas
00:54e Distribuidores de Produtos Industrializados, e Eduardo Terra, cofundador da BTR Varese
01:02e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo.
01:07Severini, Eduardo, é um prazer receber vocês aqui.
01:10E para começar o nosso papo, o comércio é uma das atividades mais antigas da humanidade,
01:16uma atividade promotora de civilização, intercâmbio cultural.
01:20Como é que está a atividade comercial no Brasil?
01:23A atividade comercial está, de uma certa forma, crescendo, não é, Mota?
01:27A gente vê números expressivos em termos de economia, a gente está bem calçado pela
01:36balança comercial, que tem tido movimentos de superávites durante os últimos anos que
01:43nos favorecem demais.
01:44A gente tem tido um problema grande do endividamento das famílias, e esse endividamento tem prejudicado
01:51um pouquinho as trocas, o comércio em si.
01:58Mas basicamente a gente tem visto com um movimento econômico forte um crescimento na atividade
02:05comercial.
02:06Perfeito.
02:07Eduardo.
02:08Obrigado, Mota.
02:09A gente teve um ano de 2024 muito bom, na média, eu costumo dizer, o indicador que
02:15mostra isso, que é a PMC do IBGE, que saiu aí até algumas semanas atrás, mostra um
02:23crescimento do varejo, que é a ponta do comércio, que agrega um pouco o atacado por trás, de
02:304,7% real.
02:33Quer dizer, se a gente somar isso à inflação, mostra de fato um ano muito bom, foi o maior
02:37crescimento nos últimos 12, isso motivado um pouco por uma renda do brasileiro em 2024,
02:47que foi satisfatória.
02:49Claro que a gente teve fatores importantes, como a taxa de juros, que tirou um pouco do
02:54poder do brasileiro de comprar, principalmente produtos que demandem crédito, que virou
02:59um detrator.
03:00Mas, de uma maneira geral, a média do comércio em 2024 foi importante, que explica um pouco
03:08o tema central da nossa conversa hoje, que é a inflação, motivada um pouco por essa
03:13demanda que virou o ano um pouco turbinada, vamos dizer assim.
03:17Mas, de uma maneira geral, o comércio, o varejo, na média, foi bem, tem um outro fenômeno
03:23que a gente pode depois avançar, que a gente tem hoje um desvio padrão na performance
03:28que é alto.
03:29O que isso quer dizer na prática para a audiência que nos acompanha aqui?
03:34A gente tem hoje empresas que vão muito bem, empresas que vão muito mal.
03:38Historicamente, quando a gente falava 20 anos atrás, como é que o comércio está indo?
03:42Se estava indo bem, todos vão bem, se estava indo mal, todos vão mal.
03:47Hoje no mundo esse fenômeno é um pouco diferente, hoje por conta da digitalização, da transformação,
03:53hoje é comum a gente ver empresas indo mal e empresas indo bem, o que eu estou chamando
03:58desse desvio padrão maior na economia como um todo e no comércio como um todo.
04:03E qual é a causa disso?
04:05O processo de transformação da economia como um todo, o jeito de se fazer negócio
04:12muda muito e não são todas as empresas que acompanham essa transformação.
04:16Então, hoje a gente tem uma digitalização muito grande dos negócios, um jeito de atender
04:23o consumidor muito diferente, desde a pandemia que completa cinco anos, o jeito de se vender,
04:30que é o que o comércio faz, é muito diferente.
04:33Eu, você, Leonardo, a gente compra hoje de um jeito distinto do que a gente comprava
04:38lá em 2019.
04:39É um jeito mais digital, é um jeito que tem mais influência de aplicativos, de redes
04:45sociais, de uma série de coisas, nem todas as empresas se adaptaram a isso, então muitas
04:51foram ficando para trás, outras emergiram.
04:54Então, esse processo transformou não só, estou falando de comércio, mas isso aconteceu
04:59com os bancos, isso aconteceu com o setor de turismo, isso aconteceu com todos os setores.
05:04Então, isso no comércio é importante, a fotografia do comércio brasileiro, hoje ela
05:09é diferente da fotografia de cinco anos atrás e dez anos atrás.
05:14Isso é uma coisa que nós, como consumidores, notamos.
05:19Há lugares em que nós somos melhor atendidos, há lugares onde o atendimento é ruim.
05:24Eu morei um tempo nos Estados Unidos e quando eu me mudei para lá, uma das coisas que me
05:30chamou a atenção é que eu entrava nas lojas e o vendedor vinha sorridente, bom dia, como
05:36vai você, o que eu posso ser útil?
05:39Essa era a minha experiência lá e eu me lembro que quando eu voltei para o Brasil,
05:42uma das primeiras vezes que eu fui em uma loja, eu entrei, a balconista estava lixando
05:47as unhas, ela não levantou nem o olhar para ver quem estava ali, ela continuou lixando
05:52as unhas esperando que eu falasse alguma coisa.
05:54Então, essa diferença de atendimento tem impacto?
05:58Sim, sim.
05:59Essa é uma diferença cultural, em primeiro lugar.
06:01O Brasil tem um déficit cultural, déficit de produtividade em relação aos Estados
06:08Unidos e que tem crescido muito ao longo desse tempo, essa diferença entre um e outro.
06:14E cabe a nós estarmos agindo em termos de capacitação, a gente vê diversas entidades
06:19que estão dispostas a esses programas de capacitação, a gente tem se adentrado nesse
06:26tema também, principalmente nas nossas entidades.
06:29A Abade, que é a Associação Brasileira dos Atacadistas e Distribuidores, tem passado
06:35por um processo de transformação digital e trazido à luz aos associados com relação
06:41a este tema.
06:42O Atacado tem três pontos de contato com o cliente, que é o pequeno e médio varejo
06:47alimentar, a conveniência.
06:49É justamente o momento do cadastro e o crédito, depois o segundo momento é o momento da
06:53venda efetiva e o terceiro momento é o momento da entrega.
06:56Em termos desses três pontos de contato, a gente já supriu dois.
07:00O primeiro ponto, que é o cadastro e o crédito, a gente já se modernizou demais, de uma forma
07:05muito exponencial.
07:07A gente hoje tem tecnologia semelhante aos dos bancos mesmo.
07:11Hoje eu consigo rodar um cadastro nas empresas, em média, no setor, em dias, coisa que a
07:16gente demoraria meses para estabelecer um ritmo de análise de crédito.
07:21A área de vendas também é uma área que tem se modernizado.
07:25A gente pega hoje as ferramentas que a gente tem de vendas, as vendas intuitivas, as vendas
07:33responsivas.
07:34A gente tem exercido de uma forma a trazer um conhecimento por parte do nosso cliente,
07:40o varejo alimentar, a loja de bairro, que faz com que ele consiga entender as mensagens
07:45que ele recebe, não no sentido apenas da venda, mas no sentido de oportunidades de
07:50abastecimento e de precificação também.
07:52Ou seja, o sujeito tem um pequeno supermercado, um pequeno armazém, e aí você ajuda ele
08:00a decidir que produtos ele deve, qual é a combinação do produto.
08:04As ferramentas inteligentes, da própria inteligência artificial, que tem trazido
08:09muitas soluções para nós, a gente compara isso aos sites de passagem de avião.
08:17Antigamente, que você comprava a passagem na agência de turismo, era uma coisa extremamente
08:25mecânica.
08:26Hoje em dia, até o movimento de oscilação e de precificação das passagens de avião
08:32ocorre de acordo com a inteligência artificial, e esse sistema está se popularizando cada
08:37vez mais e hoje em dia a gente já tem condição de, nos nossos mercados, estar podendo oferecer
08:43esse tipo de inteligência para o nosso cliente, o nosso parceiro varejista, que faz com que
08:48ele entenda um pouco também de tendências, de categorias, de lançamentos da indústria.
08:55Hoje o varejista tem, no atacar do distribuidor, uma parceria muito grande na questão do entendimento
09:04do que é para ser trazido, para ele ofertar, no momento de consumo do cidadão que vai
09:11na loja dele.
09:12A loja dele é uma loja de conveniência.
09:14Essa loja de conveniência que a gente opta, a gente quer ver determinadas características
09:19nessa loja de conveniência que faz com que a gente volte, que faz com que nos atenda
09:23naquela necessidade momentânea que a gente está.
09:26E essa é a oferta que a gente tem procurado fazer para o nosso cliente.
09:30Perfeito.
09:31E eu acho que o que o Leonardo está colocando, acho que é importante quem está nos acompanhando
09:36entender que existe toda uma cadeia por trás daquilo que o consumidor compra.
09:41Que é completamente invisível, você vai na lojinha da esquina, você vai comprar um
09:47pacote de alguma coisa para comer, você acha que aquilo ali nasceu ali naquela loja.
09:53Então, seja o consumidor comprando em uma loja de conveniência, em um supermercado
09:58de bairro, em um grande atacarejo, em um grande supermercado ou até da internet, você pode
10:04comprar uma verdura, você pode comprar um pacote de arroz, você pode comprar um xampu.
10:10Existe uma cadeia por trás daquilo que começa, o que a gente enxerga é a loja, mas por trás
10:16da loja tem muitas vezes um atacado distribuidor que levou aquilo até a loja, depois tem uma
10:22cadeia, por trás daquela indústria tem todo um conjunto de empresas de matéria-prima.
10:29O que o Leonardo está trazendo que é importante, a tecnologia, a inteligência artificial,
10:35a digitalização, está tornando toda essa cadeia mais inteligente, mais eficiente.
10:41Isso traz inclusive uma agenda hoje de menos desperdício, de mais sustentabilidade.
10:47Se a gente voltar 10, 15, 20 anos no tempo, você imagina a quantidade de produtos que
10:53eram colocados que não precisava colocar, porque não vendiam.
10:57Imagina a quantidade de coisas que a gente não sabia que a gente estava fazendo errado.
11:01Então, quando a gente fala de inteligência artificial, de tecnologia desde a matéria-prima,
11:06de uma coisa que não era para ser fabricada, que não era nem para ser plantada, hoje tem
11:11uma orquestração que vai da agricultura até a loja acontecendo, e eu acompanho muito
11:19isso, eu sou apaixonado por esse tema, para que de fato a gente compre as coisas que de
11:24fato a gente quer comprar.
11:26Acho que a pior coisa que existe para o consumidor é a gente chegar na loja que a gente prefere,
11:31seja ela qual for a loja, e não encontrar o que a gente quer.
11:35Então, a falta ou a sobra é a pior coisa que existe para o consumidor, para o varejista,
11:42para o distribuidor ou para a indústria.
11:44Então, essa orquestração de não ter sobra ou de não ter falta está se resolvendo muito
11:49com inteligência artificial, que no fundo é a inteligência e a tecnologia trabalhando
11:54juntas.
11:55E esse é o papel fundamental do atacado distribuidor, é justamente trazer para a indústria essa
12:02possibilidade de estar fazendo o atendimento capilar do pequeno e médio varejo, coisa
12:07que é difícil.
12:08A minha empresa especificamente, ela atende o estado de São Paulo e Minas Gerais, eu
12:11tenho quase 40 mil clientes.
12:13É uma coisa assim, é complicada para a indústria fazer todo esse atendimento diretamente dela,
12:20então essa inteligência a gente oferece para a indústria e essa logística a gente
12:24disponibiliza para que esses produtos cheguem na forma correta e basicamente ela faça as
12:30experiências delas de lançamentos de produtos e categoria e no fim diminua as perdas.
12:37Hoje a gente está vendo diversos movimentos, que ainda tem oportunidades para serem tratadas
12:42no varejo alimentar, como grandes possibilidades de evicção de perda.
12:48A gente vê alguns temas, alguns ainda polêmicos, por exemplo, a Abras recentemente num fórum
12:54da cadeia alimentar adotou a ideia do Best Before, que é justamente adotado por vários
13:00países lá fora, onde você, tirando determinados produtos que são preocupantes, como carne,
13:06como produtos que são altamente perecíveis e não podem entrar nesse voo de possibilidade,
13:10laticínios, carne, mas alguns produtos, por exemplo, que existe uma diminuição de crocância,
13:15mas que não estão estragados, você tem a sugestão de consumo até aquela data.
13:20Depois daquela data o produto não estragou, mas ele pode ser consumido sim, ele pode ser
13:25inclusive adquirido, e muitas dessas ocasiões podem gerar ofertas, oportunidades e até
13:32diminuição de preço para consumidores, seria até uma oportunidade de contenção
13:38da inflação, de uma forma mínima, de uma forma menor, mas possibilidade real.
13:43Leonardo, é interessante isso que você falou, porque muita gente tem a percepção de distribuidor
13:51como se fosse uma espécie de atravessador, de intermediário, que não adiciona valor nenhum,
13:57que só faz com que o preço aumente.
13:58Ele tem uma função essencial no canal alimentar, principalmente, em outros canais também,
14:05eu arrisco dizer no canal farma, no canal de bazar, tem diversos outros ecos, tem material de
14:11construção também, mas ele tem dois papéis fundamentais.
14:14Em primeiro lugar, ele é um cliente fiel e assíduo da indústria, paga bonitinho,
14:20e isso é valorizado também em uma relação comercial.
14:23Mas ele tem dois pontos que são muito importantes, o primeiro deles é, através de um exército
14:30de representantes comerciais e de vendedores, chegar em todos estes clientes que a indústria
14:37gostaria de chegar, que é justamente tido como canal indireto.
14:40Essa força de vendas que é exercida pelo atacado distribuidor é muito valorizada pela
14:46indústria.
14:47Em segundo lugar, essa questão logística também, tanto do armazenamento quanto do
14:53transporte capilar, a gente faz também com que a mercadoria chegue no seu devido tempo
14:58e faça a sua devida oferta neste canal que para o fornecedor é muito importante.
15:03Hoje os momentos de consumo no canal alimentar são dois, primeiro é o abastecimento que
15:08em períodos e épocas de inflação faz com que nós pensemos em uma forma mais inteligente
15:14de comprar se abastecendo, isso teve principalmente antes do plano real, onde a inflação era
15:20galopante e durante o intramês, isso fazia com que a gente se abastecesse logo no começo
15:26do mês.
15:27Você recebia o salário e ia do supermercado encher a mala de chevete.
15:30É esse aí, esse é o momento do abastecimento e o momento que nós atacado distribuidor
15:36mais performamos é no momento da conveniência, onde nós, eu, você, o Edu vamos naquela
15:42loja do lado de casa e compramos aquela necessidade do momento nosso e a gente faz isso recorrentemente.
15:49No abastecimento a gente faz, costuma fazer uma vez a cada mês, uma vez a cada 15 dias,
15:54na conveniência a gente costuma ser mais recorrente, é uma compra mais rápida.
15:58Eu para me deslocar para abastecer eu tenho que pegar meu carro, eu tenho que enfrentar
16:02um momento de abastecimento que são duas a três horas escolhendo, passando pela fila,
16:07me abastecendo no carro, tirando o produto do carro, levando para minha casa, para minha
16:13dispensa e o momento da conveniência é muito rápido e você vai naquele impulso e é isso
16:18que faz com que a nossa conveniência no Brasil seja tão fortalecida.
16:23E nós temos uma outra característica no Brasil também, no canal alimentar, no varejo
16:28alimentar, que é a descentralização.
16:31Você pega alguns setores no Brasil, como o setor bancário, que é extremamente concentrado,
16:36você deixa de ter mobilidade e voz como consumidor e como cliente.
16:41No momento em que você tem uma economia em determinados ramos econômicos descentralizados,
16:47você tem uma voz um pouquinho maior, um pouquinho mais de oportunidade de dizer a
16:53tua percepção, o que você quer de fato.
16:56Então essa descentralização favorece muito essa liberdade econômica nossa e a opção
17:01também por parte do consumidor.
17:04E Malta, acho que para dar um ângulo complementar ao que o Leonardo trouxe, acho que essa tua
17:09pergunta, essa tua provocação, acho que ela é muito interessante e a gente muitas
17:13vezes se depara com ela.
17:14Minha vida toda eu trabalhei com comércio, com distribuição e eu gosto muito de juntar
17:21economia com história.
17:22Se a gente for pegar, voltar um pouquinho no tempo, o mundo passou por um desafio nos
17:29últimos dois séculos, que de fato era de gerar produção, de gerar industrialização.
17:36Desde a Revolução Industrial, acho que as pessoas lembram, a gente sentiu o desafio
17:42de industrializar e produzir em escala.
17:44Isso está superado.
17:45Não tinha produto suficiente para todo mundo.
17:48Exatamente.
17:49Então o nosso desafio era de oferta, certo?
17:52Eu diria que desde os anos 80, generalizando, a gente estabilizou a oferta no mundo.
17:59Então de uma maneira geral, localizado, a gente tem oferta suficiente, eu diria que
18:04até abundante, de oferta de produtos, certo?
18:09O desafio passou a ser então, desde os anos 90, fazer o que se produzia chegar nas pessoas.
18:17Isso passa a ter, inclusive, o desafio de gerar aqueles produtos que eram produzidos
18:23ou são produzidos nos lugares certos.
18:26E aí o mundo passou a ter um desafio de distribuição, de fazer aquilo que era produzido chegar.
18:32O problema que existe hoje no mundo da fome não é ter o alimento, é fazer o alimento
18:37chegar nas pessoas.
18:39Hoje o desafio de ter o produto não é ele ser produzido, é fazer o produto chegar.
18:44Quando eu falo chegar, não é chegar literalmente, é chegar com custo viável.
18:50Hoje um alimento chega, às vezes ele não chega com custo que é viável, um automóvel
18:55chega, ele não chega com custo viável.
18:57Então desde os anos 90, a gente passou a ter um desafio no mundo que é um desafio
19:02de logística, de tecnologia, de transporte, de malha, e é aí que estamos.
19:08Por isso que essa atividade de distribuição, atacado, varejo, ganhou um protagonismo muito
19:14grande, que é fazer tudo isso com o menor custo possível, porque não adianta eu agregar
19:19nesta atividade muito custo e aquilo chegar no último elo que é o consumidor num valor
19:26muito alto.
19:27Então esse é o desafio no mundo, eu diria, nos últimos 50 anos, que é fazer essa última
19:33etapa com o menor custo possível.
19:37Esse custo da distribuição que o nosso setor tem, se a indústria quisesse apropriar,
19:44ela teria o mesmo custo, ou se o varejo quisesse apropriar, ele teria o mesmo custo.
19:49Por que não fazer com alguém que já tem uma inteligência de pulverização e de compartimentação?
19:55Não se fala hoje em compartilhar?
19:57Não se fala hoje em co-work, co-live, colaborar?
20:00Não, mas mesmo morar, viver, trabalhar, fazer junto, o atacado faz esse papel, porque ele...
20:07Então, deixa eu dar um exemplo aqui concreto, pra ver se eu estou entendendo.
20:12Se eu resolvo abrir uma fábrica de biscoito, ou uma fábrica de iogurte, se não existisse
20:20o distribuidor, eu na minha fábrica teria que ter lá um monte de vendedores que iam
20:27ter que ir de loja em loja, o senhor gostaria de comprar o meu iogurte, fazer essa negociação,
20:33eu teria que me preocupar com o transporte de levar o iogurte ou a bolacha pra que não
20:39passe do prazo.
20:41E muitas vezes, pra chegar numa determinada região, o teu caminhão não sairia cheio,
20:46isso é desperdício, entendeu?
20:48Desperdício de gasolina, desperdício de tempo, desperdício de rota, e isso tem que
20:53ser muito valorizado também até na questão ambiental, você está jogando fumaça.
20:58Que o distribuidor consolida.
21:00Pegando o teu exemplo, você fabrica o iogurte, o outro fabrica qualquer outra coisa, o distribuidor
21:08vai pegar o que você fabrica, mas o que o outro fabrica, mas o que o outro fabrica,
21:12vai pegar cinco, seis fábricas, vai consolidar e vai otimizar a armazenagem, a venda, a entrega
21:20de cinco, seis pessoas e vai ganhar escala pra vender numa determinada região.
21:26E pelo que vocês estão falando, o distribuidor também tem hoje a inteligência de saber
21:33que nesta cidade, neste bairro, olha, não vou vender esse tipo de iogurte porque o pessoal
21:40lá não compra.
21:41Você tem rotas inteligentes, características e culturas regionais, isso tudo é obedecida
21:46dentro da inteligência de distribuição do atacado distribuidor.
21:50Que eu vou visitar uma vez por semana, que ali é tal tipo de caminhão, ali é tal frequência,
21:57essa é a tal inteligência da distribuição.
22:00Qual é o maior desafio nessa atividade, qual é o maior desafio de uma forma geral
22:07e aqui no Brasil, pra exercer essa atividade aqui no Brasil, qual é o aspecto mais desafiador
22:16hoje?
22:17Hoje a questão regulatória aí é muito desafiadora pra nós.
22:22Eu falo em termos assim dos vários entes que acompanham e fiscalizam o varejo alimentar.
22:30Você tem diversos entes aí, você tem determinados gargalos de equidade, de isonomia que a gente
22:36tem que superar, isso é um gargalo muito grande, mas tecnicamente falando, Roberto,
22:41eu vejo assim, até como uma oportunidade e não um desafio, tá?
22:46O atacado distribuidor ao longo dos últimos cinco anos se modernizou em termos de transformação
22:52digital e inteligência artificial também, sabe?
22:55E o desafio nosso, eu falo agora como entidade, como abade, é trazer essa luz pro pequeno
23:02e médio varejo.
23:03Nós já estamos numa movimentação robusta pra que a gente consiga passar esse conceito
23:10também pro varejo alimentar, no sentido dele estar se digitalizando, uma vez que o filho
23:16dele já tá online, ele também já tá online.
23:19Hoje em dia, a facilidade de acesso, os iPhones, todo o aparato tecnológico aí existente
23:29faz com que as pessoas estejam online.
23:32Agora, por que não transformar o seu dia-a-dia de uma forma digitalizada também e usar esse
23:38benefício a seu favor em termos de modernidade, de tendências e de otimização da sua estrutura
23:45de custo também e sua estrutura de oferta dos produtos pro consumidor, né?
23:49Então eu vejo uma grande oportunidade nossa de estar implementando nos próximos anos,
23:55sabe, Roberto?
23:56É isso mesmo.
23:57Acho que o desafio, tem um conjunto de desafios que são conjunturais, que têm a ver com
24:04a reforma tributária, que a partir do ano que vem começa a ser implementada aos pouquinhos,
24:09em 26 a gente já começa a ter alguns primeiros capítulos, que mexe um pouco com essa dinâmica
24:16e depois você tem desafios técnicos, como o Leonardo colocou, o principal deles tem
24:22a ver com tecnologia, que ela, tecnologia naturalmente, ela vai do grande pro pequeno,
24:28né?
24:29Então, e como eu já coloquei anteriormente, acho que a tecnologia teve uma aceleração
24:34na pandemia, que a gente tem, eu tenho mencionado que a pandemia acelerou anos em alguns meses,
24:42então a pandemia trouxe uma aceleração muito grande nessa transformação digital
24:47de todos os elos da cadeia, a indústria, o atacado, a distribuição e o varejo, mas
24:52a gente ainda tem muita coisa que pode ser feita.
24:55Eu quando vou fazer compras, eu vejo no meu bairro, tem supermercados grandes, tem supermercados
25:05médios, tem aqueles supermercados pequenininhos, que são duas portinhas, que eu não consigo
25:11ver nenhuma tecnologia ali dentro.
25:13É isso mesmo o cenário, tem essa diferença?
25:16Essa é a oportunidade que nós estamos dizendo, essa é a oportunidade de categorização
25:20das lojas, de colocação das tendências dos lançamentos e otimização dos espaços.
25:29Existe uma ciência por trás desses espaços alocados do varejo alimentar.
25:34Por isso que as fileiras do supermercado estão toda hora mudando.
25:37É isso aí.
25:38Mas já tem um pouco, eu diria.
25:41Existe supermercado pequeno, que você está relatando a verdade, mas ele já tem uma nota
25:45fiscal que é eletrônica, não é mais possível que ela seja analógica, então isso exige
25:51que ele tenha os checkouts que a gente faça, que são eletrônicos.
25:56Ele provavelmente, com algumas indústrias barra distribuidores, se indústrias hoje
26:01cooperam com os distribuidores atacadistas, ele tem alguns pedidos que são eletrônicos
26:07através de aplicativo, porque o dono desse pequeno supermercado provavelmente tem um
26:11smartphone e há todo um conjunto de incentivos para que ele faça o pedido com apoio de aplicativos.
26:20Então há uma agenda, como o Leonardo colocou, da cadeia para que ele se digitalize, apesar
26:25de aparentemente a gente olhar para o ambiente analógico, tem uma onda para que ele se digitalize
26:32e a eficiência possa trazer mais produtividade.
26:37Deixa eu perguntar uma coisa para vocês, tem uma coisa nesse supermercado que eu gosto
26:42mais de ver, eles colocaram, que é o check out, você faz o check out, self check out.
26:51Eu olho para aquilo ali, às vezes eu vejo vantagem quando as filas estão grandes nos
26:56caixas, mas aí eu ainda acho um troço que me dá mais trabalho do que eu gostaria.
27:02Funciona isso?
27:03Funciona bastante.
27:04Tem sido uma solução para as nossas operações, não sei se você se lembra, nós estivemos
27:09em novembro lá com o presidente da república e uma das falas nossas foi justamente a carência
27:14nossa de mão de obra, e justamente em razão de tudo o que está acontecendo do início
27:21do programa que nós falamos, está tendo um movimento muito positivo de entrada de
27:24capital no Brasil, advindo da balança comercial, e também da distribuição dos BPCs, do
27:30benefício de prestação continuada, Bolsa Família.
27:34Isso faz com que a taxa de desemprego diminua sobremaneira, e a taxa de desemprego, todo
27:40mundo aqui sabe que não é o índice de, é justamente o índice de procura de emprego
27:47que diminuiu e não a pessoa que está desocupada na totalidade.
27:51Então nós estamos nos níveis aí de 6%, isso é quase um pleno emprego, isso faz
27:56com que a gente tenha dificuldade de contratar, viu Roberto?
27:59E especialmente aí no varejo alimentar, a rotina nossa é segunda a domingo, é 24
28:04por 7, muitos aí varam o dia, trabalham.
28:09Que é uma das coisas que eu não valorizava até quando veio a pandemia e começaram a
28:13restringir os horários de supermercado, isso é uma das coisas que a maioria das pessoas
28:17não valoriza.
28:18Qualquer hora do dia, até tarde da noite, você quer comprar uma comida, tem lá a comida
28:25que você quer, é um preço razoável.
28:27Mas aí eu vou chegar no ponto do self-checkout para te responder e falando sobre a questão
28:31do emprego, né Roberto?
28:34Muitos que vão nas entrevistas de emprego hoje perguntam, mas escuta, eu vou ter que
28:38trabalhar no fim de semana?
28:39Eu vou ter que trabalhar depois das 6?
28:42Isso é um fator inibidor, e para que o varejo alimentar esteja disponível e ofertando
28:47ele tem que estar com o check-out também disponível e não provocando filas, que isso
28:52prejudica demais o consumidor.
28:54Então o self-checkout tem se mostrado uma alternativa muito positiva para esta solução.
29:00Mas aquilo aí não deve ser um equipamento barato, deve ter manutenção, compensa do
29:05ponto de vista...
29:06Você consegue operar hoje em um regime de 4 para 1, quer dizer, 4 self-checkouts para
29:111 colaborador supervisional.
29:13É verdade, fica uma pessoa lá.
29:15Fica sempre uma pessoa.
29:16Ele tem tecnologias como uma balança que cruza o peso daquilo que foi escaneado, sem
29:22querer complicar, mas ele tem soluções que dão segurança para a loja, de que aquilo,
29:29a perda do self-checkout não é maior do que seria.
29:34E as pesquisas mostram, como o Leonardo colocou, que existem consumidores que até preferem
29:39uma jornada com menos contato.
29:42A gente brinca que tem consumidor de todos os tipos e formas.
29:46Tem gente que gosta de uma conversa e tem gente que prefere não falar com ninguém.
29:50Deixa eu pegar aqui minhas coisas e passar rápido sem falar com ninguém.
29:55Então as pesquisas mostram que tem gente que prefere uma jornada de compra, mas sem
30:01conversar com ninguém.
30:02Então tem funcionado bem, tem aumentado a participação nas lojas que têm o self-checkout.
30:09A participação é grande.
30:10Lembrando que ele funciona naquela jornada de menos itens.
30:13Ninguém vai passar com o carrinho cheio ali.
30:16A compra que a gente chama de abastecimento, ela não passa por ali, ela tem que passar
30:21por um colaborador.
30:23Mas ela tem ganhado bastante espaço no Brasil, sim.
30:26Ele custa mais caro, sim, que um check-out normal, mas a conta dele é bastante positiva.
30:32Você fala um para quatro.
30:34Esses quatro teria que cada hora, teria que ter mais um, mais um, mais um, mais um.
30:39Você estava falando da questão do treinamento.
30:42Eu estava me lembrando aqui.
30:44Tem dias que eu chego no mercado, pego as coisas e fico horas na fila, porque tem uma
30:53pessoa lá que parece que está funcionando em câmera lenta.
30:58Tem outros dias que você pega uma pessoa que ela vai a fila.
31:03É um problema sério.
31:04É uma questão da produtividade que a gente fala.
31:08Agora, deixa eu trazer um assunto aqui complicado, que é o aumento do preço dos alimentos.
31:16É um assunto sobre o qual se fala muito, mas não se esclarece.
31:23Eu queria perguntar para vocês.
31:25Primeiro, qual é a causa real do aumento do preço dos alimentos?
31:30E segundo, qual é o impacto disso na indústria, no varejo?
31:36Bom, a gente não pode considerar pontualmente alguns alimentos que tiveram problemas de
31:42safra ou, caso fortuito, força maior, que fizeram com que o preço disparasse.
31:47Por exemplo, o chocolate, por exemplo, o ovo ou, por exemplo, a carne.
31:51O café também.
31:52O café.
31:53Questão de safra, questão de quebra de safra.
31:56Isso atrapalha demais.
31:57É oferta e demanda na veia.
31:59Isso aí não é inflação.
32:00Não.
32:01Isso é variação.
32:02Agora, o que tensionou muito o final do ano passado, que inclusive provocou uma ida de
32:08todo o setor alimentar para conversar com o presidente da república, foi justamente
32:16a pressão inflacionária geral, generalizada no canal alimentar.
32:21E isso adveio de uma disparidade que houve no final do ano do real para o dólar.
32:28Isso faz com que todos tenham que repor seus preços.
32:31Vamos lembrar.
32:32A indústria, grande parte da indústria são multinacionais.
32:37Ela tem os seus resultados aqui medidos em dólar.
32:41Grande parte das embalagens são medidas no mercado internacional.
32:46Você pega o papel ondulado, cresceu nos últimos 12 meses aí, 12%.
32:50Você pega a folha de Flandres, você pega o alumínio, agora está com uma pressão
32:55inflacionária muito grande, o plástico também.
32:59Isso faz com que o preço dos produtos esteja pressionado para subirem pela paridade dólar
33:06real.
33:07Quando o dólar baixou de 6,20 para 5,70, deu uma arrefecida.
33:11Tanto é que se falou menos de inflação ao longo dos três primeiros meses.
33:17Houve um ruído aí por parte do fornecedor, principalmente do agro, com relação ao
33:23varejo alimentar, quanto a baixa, a rebaixa do preço, que cresceu e depois voltou.
33:29Mas tem que se lembrar também que existe no varejo, quando ele compra os produtos,
33:34o preço médio.
33:35O que eu quero dizer com isso?
33:36O varejo quando compra determinado produto, se o fornecedor fala, virou tabela agora.
33:40Essa virada de tabela não imediatamente o varejo pratica, porque ele tem já um estoque
33:45daquele produto, então ele pega o preço novo com o preço velho e faz um preço médio.
33:49Na hora que desce é a mesma coisa.
33:51O fornecedor ofereceu um preço mais baixo, ele ainda está com o estoque naquele preço
33:55mais alto.
33:56Para efeito de precificação automática, porque é um computador, é uma inteligência
34:02que está por trás ali, ele pratica o preço médio, então essa redução do valor vai
34:10acontecer no período de um mês a dois meses, entendeu?
34:14E aí vai tudo naturalmente caminhar para que ocorra de fato aquela redução do preço
34:19por parte do fornecedor.
34:21O que a gente está vendo agora é um problema pontual, esta semana, da questão do Trump,
34:27dos tarifaços lá, que fez com que o dólar explodisse ontem.
34:31Haverá outra pressão inflacionária e que a gente tem que tomar o cuidado, o devido
34:36cuidado.
34:37Ontem mesmo ele anunciou um arrefecimento de 90 dias nessa proposta dele de tarifaço.
34:43Isso já fez com que os 6,3 virassem 5,80 mais ou menos e o dólar beirando 5,70, 5,80
34:51dá uma tranquilidade para o varejo alimentar e para efeito de precificação geral, não
34:57pontual.
34:58Isso não segura café, isso não segura ovo, isso não segura determinados produtos que
35:04têm um problema de oferta.
35:07Perfeito.
35:08Eu costumo dizer que o efeito inflação nunca é motivado por um único fenômeno.
35:18A gente tem que olhar um conjunto que gera essa potência que a gente viu.
35:24Lembrando que, como o Leonardo colocou, isso foi muito forte no primeiro trimestre de 2025.
35:32Então agora, no segundo trimestre de 2025, a gente já tem um arrefecimento importante
35:38que deve nos dar um pouco de folga para o ano como um todo.
35:43Eu gosto de olhar três principais fenômenos, um deles bem típico do primeiro trimestre
35:50que é o efeito climático, que a gente tem de safra, tem euninho, que não é muito diferente
35:57do que a gente vê em outros anos, mas não é o mais importante.
36:00E aí, se for pegar os principais economistas que olharam, não dá para a gente colocar,
36:05atribuir a ele a culpa do que aconteceu com essa inflação de alimentos.
36:10Um principal, e eu diria que acho que é o grande, se a gente pode atribuir um vilão,
36:15é esse pico de inflação de alimentos que acaba contaminando o nosso índice principal
36:20que é o IPCA, é o dólar.
36:23Só que tem várias formas a gente olhar o efeito dólar.
36:28Um que não foi tão colocado é, o Brasil tem a vocação de exportação de alguns itens.
36:36Quando o dólar vai nesse patamar que a gente viu, é natural que a gente exporte mais as coisas.
36:41O Brasil fica mais desejado para exportar uma série de coisas.
36:48E os preços se reposicionam, aquilo que eu consigo de preços internacionais
36:53vai ser mais ou menos o preço que eu vou querer no mercado doméstico.
36:56Então houve um reposicionamento de preços de uma série de itens
37:01a partir daquilo que eu começo a vender lá fora.
37:04Então o Brasil começou a ficar mais desejado para exportar coisas
37:08e naturalmente isso corrigiu preços aqui.
37:11Um outro ponto importante é que, eu já mencionei no começo da nossa conversa,
37:17que tudo isso aconteceu com o mercado, a demanda, o mercado de varejo aquecido.
37:24Se tudo isso que a gente falou, isso é um princípio básico da economia, oferta e demanda.
37:29A oferta passa a ter algumas questões e a demanda aqui aquecida.
37:35Então com a demanda aquecida há espaço para correção de preços.
37:40Então a gente virou o ano de 24 para 25 com a demanda aquecida.
37:46Então isso permitiu que essa virada de preços acontecesse de uma certa forma.
37:51Mas acho que a boa notícia é que a gente já percebe em vários desses itens
37:56que foram os maiores detratores um arrefecimento.
38:00Então acho que passou o pior.
38:02Se a gente fosse falar de uma grande turbulência, a gente saiu da turbulência.
38:06Agora como o Leonardo colocou, estamos agora vivendo o grande momento Trump.
38:11É importante entender aonde isso vai dar, que movimento isso vai ter,
38:16tanto nas tarifas quanto no câmbio,
38:18para entender se estamos diante de uma outra nuvem
38:21que pode trazer um outro efeito sobre a questão da inflação.
38:25Essa ia ser a minha próxima pergunta.
38:28Como é que vocês veem...
38:30Eu sei que é uma pergunta complicada,
38:32porque a gente não sabe em termos dessas medidas do Trump o que vai acontecer amanhã.
38:39Mas como é que vocês como indústria, como associação, como empresa estão enxergando isso?
38:46No primeiro momento a gente tenta enxergar que ele é muito inteligente, o que ele está fazendo.
38:51Mas no segundo momento, com as decorrências e consequências,
38:54a gente começa a ficar um pouquinho apreensivo.
38:57Porque a gente vê que ele está mexendo com tudo a economia mundial.
39:03E como consequência você está vendo diversos atos de governos também.
39:09O ato lá do governo japonês de sair vendendo os títulos americanos também.
39:15Isso faz com que a gente fique um pouquinho apreensivo.
39:19Mas mostrou uma certa liderança por parte dele em retomar o protagonismo.
39:27E eu acredito que ele vá, no decorrer do tempo, corrigir a rota.
39:31Se determinadas situações que ele implementou não surtirem o efeito positivo desejado,
39:37eu acredito que ele vá corrigir as rotas dele.
39:40Ele vem com uma proposta de defesa da economia americana,
39:45mas ao mesmo tempo uma proposta de economia liberal.
39:52Coisa que a gente defende aqui muito no Brasil também, liberalismo econômico.
39:56Então, respondendo a tua pergunta, Mota, com apreensão a gente vê essas medidas que ele está tomando.
40:04Mas acreditando que no médio e longo prazo isso vai se acomodar. Basicamente isso.
40:14Eu acho que tem duas análises aí, Mota.
40:17Acho que assim, do ponto de vista de balança comercial, de comércio global,
40:23por enquanto com as informações que a gente tem, o Brasil se mostra numa situação privilegiada.
40:29Seja pelas alíquotas, seja pelas relações e seja pelo que os outros países vão dar de mais protagonismo pra gente.
40:38Então, o Brasil, do ponto de vista de comércio internacional, parece estar numa posição positiva.
40:45Isso do ponto de vista de Brasil.
40:47Agora, pelo que eu coloquei na minha análise anterior, isso pode gerar um pouco mais de pressão inflacionária.
40:56Então, imagina que o conjunto dos produtos que a gente produz, fabrica, vão ter mais demanda por exportação
41:05e, portanto, menos espaço na economia doméstica.
41:09O que, por princípio, pode trazer um pouco mais de inflação interna.
41:13Então, aqui tem um ponto de atenção num cenário que a gente acabou de falar de inflação Brasil.
41:21Então, aqui fica um aspecto de cuidado.
41:24A outra questão que é ainda muito difícil de prever é uma potencial recessão americana que começa a se colocar,
41:34ainda muito incerta, eu não gosto muito desses, tem x% de chance, enfim, muito difícil de calcular.
41:41Aí vira aposta.
41:42É, vira aposta.
41:43Mas essa potencial recessão americana que acaba respingando em outras economias,
41:50com efeito sobre taxa de juros, com efeito sobre investimentos,
41:54mas que eu acho que é uma agenda mais para 26 do que para 25
41:58e aí, consequentemente, tem uma série de impactos para a economia brasileira.
42:03Mas eu acho que isso é uma agenda mais para o ano que vem do que para esse ano.
42:07Eu fico pensando, se essa disputa entre a China e os Estados Unidos progredir,
42:16pode chegar a um ponto em que a China não compre mais produtos dos Estados Unidos,
42:21vai precisar de outro fornecedor.
42:24E aí é o cenário que eu imaginei, é esse, a China...
42:27E aí vai precisar de outro cliente.
42:29Aí vai arrebentar a balança comercial nossa.
42:32Que é o nosso pilar hoje de sustentação.
42:36Na ocasião que eu tive com o presidente, eu lembrei ele,
42:40que no primeiro mandato dele, ele colocou três políticas que foram defendidas
42:46até para quem apoiou ele na primeira eleição,
42:49que foi a banda livre do dólar, coisa que está acontecendo hoje,
42:53uma balança comercial favorável, que também está acontecendo hoje,
42:57e a questão do superávit primário.
42:59Hoje o governo está pecando um pouco na questão do superávit primário,
43:03que poderia ser um pouco mais robusto.
43:06Ele tem algumas situações que impedem ele de exercer uma austeridade maior,
43:13sejam próprias e partidárias, sejam da próprio arranjo político que a gente tem hoje,
43:19mas a gente não pode perder essa força que a gente adquiriu ao longo dos últimos anos,
43:26que fez com que a gente exportasse mais do que importasse.
43:30Isso favorece muito a nossa economia com a entrada de divisa.
43:33E abrir um espaço, talvez, para um fundamento econômico
43:37que está impedindo a economia brasileira de andar a passos maiores que a taxa de juros.
43:42Mas me ajudem aqui, porque tem gente que inclusive tem a ideia
43:49que a exportação prejudica o consumidor brasileiro,
43:52que quando você exporta comida, falta comida aqui dentro,
43:56tem até gente que defende essa ideia de taxar as exportações,
44:00até proibir as exportações.
44:02Eu acredito que seja meio narrativa, viu, Roberto?
44:05A pessoa sabe o que está falando e...
44:07Não, eu não duvido que ela saiba o que está falando.
44:09Eu estou dizendo que ela usa isso como...
44:11Claro, como narrativa.
44:12Coloca isso...
44:13Está faltando um pedaço aí, se me permitiu.
44:15Na economia, a gente tem sempre que olhar as coisas de forma sistêmica.
44:20O problema hoje é, você abre uma avenida de crescimento das exportações
44:26por conta dessa agenda global que a gente colocou, por conta do câmbio.
44:30E, ao mesmo tempo, não tem a alavanca de permitir investimentos,
44:35que é a taxa de juros.
44:37Então, se você tem uma taxa de juros hoje
44:40que incentiva aquela agenda rentista,
44:43rentista é o dinheiro no banco.
44:45O poupador.
44:46Não tem o investimento produtivo,
44:49que é você colocar e investir em fábrica...
44:51Em vez de fazer uma fábrica, eu compro um CDB.
44:54Então, o Brasil hoje não consegue aumentar a agenda produtiva
44:59por conta de uma taxa de juros que inibe.
45:02Então, na minha visão, eu acho que exportação é uma agenda absolutamente
45:06produtiva e inteligente, desde que ela ande junto com uma avenida
45:11que nos permitisse ter investimentos produtivos e diretos.
45:15A combinação das duas coisas não acontecendo é que ela é perigosa.
45:20Aí gera o desequilíbrio.
45:22Que desequilíbrio é esse?
45:23Quer dizer, eu cresço muito as exportações,
45:26não aumento a capacidade produtiva, aí eu gero inflação.
45:31E a inflação vai gerar o quê? Mais taxa de juros.
45:34E aí, tudo que em economia gera desequilíbrio não é legal.
45:39E agora, assumindo a Unex, eu represento também o comércio de serviços.
45:43A gente tem mais de...
45:46A CACB, a CNDL, que são entidades com federações nacionais
45:50e que têm a sua capilaridade municipal,
45:54a gente tem visto o crescimento do endividamento principalmente empresarial.
46:01O que acontece?
46:04No governo anterior, a gente chegou a ter taxas de juros anuais básicas
46:09de 2% ao ano.
46:11Isso foi, para a gente, o equivalente a quando veio o plano real.
46:15Acabou a inflação.
46:16Nossa, não temos mais juros aqui no Brasil, vamos investir.
46:19Muita gente tomou A2, mas tomou pós-fixado.
46:23A2 mais os prédios bancários.
46:25CDI mais.
46:26CDI mais, tomou pós-fixado.
46:28E outros fizeram planejamento de crescimento, até os grandes.
46:32Fazem um planejamento de crescimento que é como um transatlântico.
46:35O cara não consegue guinar o transatlântico igual você guina uma lancha, um jet ski.
46:41Então, o cara continua naquele plano de investimento.
46:44Isso envolve compra de máquina, construção.
46:46Isso envolve equipe, envolve tudo.
46:47Contratação de pessoas.
46:48É um plano de guerra.
46:49Um plano de investimento é um plano de guerra.
46:51Você faz isso, aquele faz aquilo, depois nós vamos trazer.
46:54É tal prazo, vamos fazer acontecer.
46:57E aí você tomou com esse horizonte de 2,
47:00em que nem o setor bancário achou que fosse passar de 6.
47:03Vamos lembrar, a 2% também foram os dois anos que mais houve fuga
47:07e evasão de divisas também do Brasil.
47:09Então, 2% não era sadio também para o Brasil.
47:12A gente teve que voltar um pouquinho.
47:15Era pra 6, de repente vai pra 9, 10 e agora 14, 15.
47:19Tem alguns que brincam aí na internet que vai aparecer corpo boiano.
47:22E não está errado.
47:24Muita gente está altamente endividada.
47:26Eu falo grandes, médias e pequenas empresas.
47:30Vamos lá, investidor odeia pensar em tradar varejo, está certo, Edu?
47:34Por quê?
47:35Porque o EBITDA do varejo, principalmente o alimentar,
47:38é 4% do resultado do faturamento.
47:424%.
47:43Eu pego uma empresa que está faturando seus 10...
47:48Vamos dar um número tranquilo aqui, médio.
47:5010 milhões anuais, está bom?
47:52Está faturando 10 milhões.
47:54Ele está endividado em cerca de 2 milhões, 20% do faturamento dele.
48:00Se ele tem um EBITDA de 3 a 4, ele vai ganhar 300 milhões.
48:06Em quantos anos ele vai pagar esse endividamento de 2 milhões?
48:09Será que o banco vai reescalonar a dívida dele?
48:13Será que o banco vai rolar essa dívida dele como rola de um país?
48:17Então, como dizem os brincalhões, tem hora, num determinado momento,
48:21se continuar dessa forma, vai aparecer corpo boiando.
48:24Acho que a melhor maneira, até de quem está nos acompanhando entender,
48:29a gente está numa situação que é...
48:31Imagina as empresas olhando.
48:33Eu tenho demanda, eu tenho gente querendo comprar mais,
48:36seja lá qual for a atividade.
48:38Uma indústria, uma distribuição, um varejo.
48:40A perspectiva é que isso até cresça, só que eu não consigo investir.
48:46Porque, na média eu estou falando,
48:49as empresas estão endividadas por conta do juro nos últimos anos.
48:53Então, eu não consigo buscar dinheiro, porque ele está muito caro.
48:58Eu não consigo abrir capital, porque não existe abertura de capital.
49:02Então, apesar da economia estar aquecida em termos de venda,
49:06não existe investimento possível por conta da estrutura que a gente vê.
49:12Então, é isso que a gente precisa ajustar.
49:15Eu precisaria dar um pouco mais de saúde para que o investimento voltasse
49:21e eu permitisse que a economia voltasse a rodar.
49:24E aí, em cima desse cenário que você desenhou,
49:26você ainda tem a instabilidade gerada pelas medidas do governo Trump
49:30e a perspectiva de vir uma demanda enorme externa por parte da China.
49:35Exatamente.
49:36E que essa instabilidade também é detratora, de uma certa forma,
49:40deste investimento externo.
49:43Então, existe um investimento externo, um investimento interno que está...
49:48Existe uma frase no mercado financeiro, o capital é covarde.
49:52Ele está escondido nesse momento, esperando o temporal passar.
49:58Taxa de juros alta, instabilidade.
50:01E, ao mesmo tempo, economias aquecidas em demanda.
50:06Então, é um cenário que a gente tem que saber jogar esse xadrez,
50:10mas que, no fundo, inflação com capacidade produtiva travada
50:15não é um cenário bacana de se ver, que é o que a gente está vendo hoje.
50:19A gente deveria estar aumentando produção,
50:22ou produção de indústria, produção de comércio,
50:25produção de distribuição, para sustentar essa demanda que continua crescendo.
50:33E aí eu tenho que perguntar, você tocou nesse assunto de passagem,
50:37mas eu queria que vocês, se possível, falassem um pouco sobre isso,
50:43de uma forma bem direta.
50:46Qual é a visão de vocês sobre a reforma tributária?
50:49A reforma tributária vai entregar o que ela está prometendo?
50:52É essa a reforma que a gente precisava?
50:54Eu vejo como positiva.
50:58As incertezas trazidas com o Pacto Federativo lá da década de 70,
51:03onde se privilegiava determinadas operações interestaduais,
51:08hoje em dia está sendo sanada com a reforma tributária.
51:12Você está tendo um pagamento justo em cima do que está sendo consumido
51:20e uma trazida do consumo e do investimento para, de fato,
51:25onde há concentração populacional e onde há demanda.
51:29Eu não posso ser certeiro com relação à alíquota,
51:34mas o que eu vejo foi um ganho que o setor de varejo alimentar conquistou,
51:41que foi a isenção dos produtos de cesta básica.
51:45Então, a isenção dos produtos de cesta básica
51:48vai fazer com que o varejo alimentar consiga exercer preços justos
51:54para os produtos de cesta básica de forma federal, estadual e municipal.
52:01Todos os tributos que envolvem o consumo desses produtos de cesta básica,
52:06todos os elementos que envolvem o consumo desses produtos de cesta básica
52:10vão ser zerados ou beneficiados.
52:13Alguns produtos vão entrar na faixa de beneficiamento
52:16e vão fazer com que as famílias tenham melhores condições de aquisição,
52:21principalmente da cesta básica.
52:24E a matriz tributária do Brasil sempre foi em cima do consumo.
52:29A gente, em primeiro lugar, está criando uma ótica
52:32para a tributação onde está.
52:34É um primeiro passo.
52:36Olha onde está carregado aqui a arrecadação do Brasil.
52:40Em outros países a tributação sobre o consumo é menor
52:44e existem outras formas de tributação, propriedade, renda e por aí vai.
52:50Mas criando esse holofote sobre a tributação do consumo
52:55faz com que a gente exerça um pouquinho de inteligência
53:01para efeito de diminuir, para efeito de melhorar.
53:04Ou seja, você está tornando visível para o consumidor o imposto.
53:08Num primeiro momento.
53:10Para depois se discutir melhor o que fazer com essa líquida
53:14e que jeito que vai ser direcionada essa matriz.
53:17É tipo nos Estados Unidos. Você compra um troço,
53:19vem lá o preço do produto e aí embaixo imposto.
53:22E agora vai ser geral, 28, na faixa de 28.
53:26Com os beneficiados, os impostos dos produtos tidos
53:30como produtos de pecado um pouco majorados.
53:33Então vai ficar muito claro a tributação sobre esses produtos.
53:36Está certo, Edu?
53:37Certíssimo. Eu acho que de uma maneira geral é uma agenda bastante positiva
53:41que tem tudo para trazer no médio prazo uma vantagem competitiva
53:47da ineficiência que era o nosso sistema tributário.
53:52O que eu tenho dito é, vamos lembrar que a partir de janeiro de 2026,
53:57que é daqui a muito pouco tempo,
53:59a gente já começa a implementação da reforma.
54:02Então a partir de janeiro de 2026,
54:04as empresas já começam a recolher dois impostos novos que não existiam,
54:08que é o CBS e o IBS, ainda junto com os que existem.
54:13Então a gente passa a ter uma agenda que não existia.
54:17A gente estava na agenda da discussão, do debate.
54:20A partir de janeiro de 2026, a gente passa para a execução.
54:25Então acho que aí as coisas começam.
54:27Ainda tem algumas questões regulatórias para serem feitas, mas eu estou animado.
54:33Acho que dentro do que se espera, todos vão pagar, o que acho que é importante.
54:39O Brasil ainda tem alguns desafios de formalização, que eu espero que a reforma avance.
54:45E eu acho que no médio prazo a gente tem, de fato, coisas muito positivas para colher.
54:51Tem que ter uma atenção especial sobre a tributação, sobre o simples, Roberto.
54:56O simples é um benefício que as empresas brasileiras conquistaram na década de 90,
55:04que faz com que determinados comércios...
55:06Isso alavanca o crescimento do pequeno comércio.
55:11Isso tem que ser analisado sobre uma ótica mais delicada.
55:15Pegar esta tributação, da forma como está sendo colocada essa forma nova,
55:21ela não está contemplando ainda o simples.
55:24E a gente vê que ele tem que ser contemplado de uma forma benéfica,
55:28de uma forma que estimule o crescimento desse pequeno empreendedor.
55:32Perfeito.
55:33Olha, Leonardo, Eduardo, muito obrigado. Nós chegamos ao fim, o tempo voa aqui.
55:38E o Conexão Mota fica por aqui.
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