00:00Seis horas, 14 minutos, nesse dia de alívio nos mercados, as ações das empresas de tecnologia dispararam nos Estados Unidos.
00:09Essas estão entre as companhias mais afetadas pelo tarifácio iniciado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump,
00:16por causa, por exemplo, da dependência de componentes importados.
00:20Sobre o setor de tecnologia e as perspectivas com esse alívio no tarifácio,
00:25eu falo agora com o Rafael Coimbra, editor executivo da MIT Technology Review Brasil.
00:31Rafael, boa tarde para você. Obrigado mais uma vez pela gentileza em conversar com a gente aqui ao vivo.
00:37Rafael, em que medida essa pausa no tarifácio já pode ser comemorada pelo setor de tecnologia
00:43ou ainda é preciso esperar, vamos dizer assim, uma paz duradoura?
00:48Boa tarde, torce a todos. É um prazer estar aqui novamente com vocês.
00:52Eu acho que é um momento de alívio, como vocês bem colocaram, torce, mas ainda de espera,
00:56porque o que aconteceu agora foi uma pausa.
00:59Essa pausa é muito importante, ela dá uma sinalização grande de que provavelmente a gente não vai chegar
01:06àqueles níveis muito altos de tarifa, 125%, 145%.
01:11Talvez a gente tenha algo muito mais baixo do que isso,
01:15o que vai obviamente ser levado ali como uma vitória por parte do governo americano,
01:19vai dizer que conseguiu impor tarifas mais elevadas para a China, por exemplo,
01:23que é a principal batalha aqui, e a China, por sua vez, também vai dizer que não se dobrou
01:28a essa taxa muito elevada dos Estados Unidos.
01:31Para as empresas e para os consumidores, o que importa é que esses dois gigantes se entendam.
01:36E esse primeiro momento parece que está sendo desenhado.
01:39Então, provavelmente, a gente não vai voltar ao que era anteriormente,
01:43a esse início de escalada tarifária.
01:45Mas, por outro lado, a gente já entendeu que não é bom para nenhum dos dois competidores
01:50tarifas muito elevadas.
01:52Os dois países perderiam muito com essa guerra do jeito que estavam.
01:56Então, por isso, a gente viu hoje as ações das grandes empresas de tecnologia aumentando muito.
02:01Isso foi percebido pelos investidores como um caminho viável, digamos assim.
02:06Mas, novamente, o que a gente viu nesse início de nova administração Trump
02:10foi uma volatilidade, foi um momento de insegurança, algo que a gente não via até então.
02:16Então, esse momento ainda é visto como um ponto de interrogação.
02:21Será que isso vai continuar?
02:23Ou mesmo que a gente tenha tarifas mais palatáveis?
02:27Independentemente disso, quais serão os movimentos que as big techs vão fazer?
02:31A gente sabe que essas cadeias globais para algumas empresas são muito importantes,
02:36elas estão intimamente entranhadas ali, desmontar e montar essas cadeias.
02:41É algo que leva tempo, que custa dinheiro.
02:44Então, eu acho que muitas dessas grandes empresas agora vão esperar.
02:47Já estavam ali pensando em se remanejar, em passar parte da sua produção para outros países.
02:53Esse movimento, eu acho que vai continuar, só que agora não de maneira tão acelerada,
02:57tão radical quanto parecia alguns dias atrás.
03:00Esse é um ponto interessante em que eu queria pedir para você se deter um pouco mais, Rafael,
03:04porque a gente estava acompanhando esse movimento das empresas,
03:07buscando alternativas para o fornecimento desses insumos, desses componentes.
03:12Aí vem agora essa trégua de 90 dias.
03:15Por uma questão até de estratégia e de sobrevivência do negócio,
03:19não dá para essas empresas pararem completamente isso agora e falar
03:22bom, vamos esperar daqui a três meses para ver o que acontece.
03:24Quer dizer, inevitavelmente, algum ajuste, alguma mudança de rota de fornecimento de insumo
03:31vai acabar se estabelecendo mesmo, ainda que a gente chegue daqui a 90 dias
03:36numa trégua ampla, num cenário muito mais tranquilo.
03:39Mas daqui até lá, essas empresas devem continuar, em alguma medida, se movimentando.
03:45É, o que elas estão enfrentando nesse momento, Torce,
03:48é um dilema eficiência-segurança.
03:51Quando a gente viu nos últimos anos esse processo para algumas empresas
03:55de grande globalização, de cadeias muito complexas montadas,
04:00com peças sendo fabricadas, importadas de todos os lados e montadas,
04:04eventualmente, na Índia, na China ou aqui no Brasil,
04:07o que a gente viu é que os preços se mantiveram muito bem.
04:11Se a gente pegar um exemplo concreto aqui, preços de smartphones, esses de ponta,
04:15eles evoluíram absurdamente nos últimos anos e, descontada a inflação,
04:19os preços estão mais ou menos estáveis.
04:21Então, essa cadeia é muito eficiente, porém, como a gente viu agora,
04:24ela é extremamente insegura quando há um choque como esse.
04:28Então, algumas empresas já estavam fazendo esse movimento de tentar não depender
04:33tanto de um país, de descentralizar um pouco a sua cadeia,
04:36passar parte da produção para aqui, outra para ali.
04:39Mas, novamente, isso tem um custo e isso não é feito da noite para o dia.
04:42Então, o drama era como você desarma ou remonta essa cadeia global da noite para o dia.
04:48Você não constrói uma fábrica de um chip de ponta ou de uma câmera, de um celular em dias.
04:53Você vai precisar de algum tempo e de muito dinheiro.
04:56Esse ajuste, desarmar a bomba por um lado e remontar esse parque industrial do outro
05:00é que estava causando esse drama todo.
05:03Agora, pelo menos, dá para ter um respiro novamente.
05:05Eu acho que ficou como uma sinalização, olha, a gente não quer ser pego de novo
05:09num choque como esse, precisamos nos reorganizar.
05:13Provavelmente, isso vai ter um custo, inclusive, adicional para o consumidor final,
05:18mas talvez a gente não tenha o que fazer, pensando do ponto de vista das BPEX,
05:21isso de uma maneira tão rápida, tão atabalhada,
05:25que pudesse significar, inclusive, um prejuízo financeiro
05:28ou a perda da reputação de uma dessas marcas.
05:30Bom, Rafael, e nesse processo, então, de ir pensando em alternativas
05:35e pensando em caminhos alternativos, dá para antecipar, dá para imaginar
05:40que países poderiam sair na frente como sede de investimentos
05:44que saísse um pouco desse foco Estados Unidos e China, né?
05:48É, eu acho que um grande parceiro potencial, tanto pelo mercado,
05:54quanto pela mão de obra e um movimento que tem sendo feito nos últimos anos,
05:58é a Índia, né? A Índia é um grande produtor, tem investido muito em tecnologias,
06:04algumas companhias norte-americanas já estavam transferindo parte para a Índia,
06:08a mão de obra também se especializou muito, se tornou muito qualificada nos últimos anos,
06:13eu vejo como hoje o grande potencial sucessor de, pelo menos, parte dessa produção
06:19que vinha da Índia.
06:21A gente tem outros países ali da Ásia, como o Vietnã,
06:25a própria Coreia do Sul produz muita coisa, mas eu hoje, se eu pudesse colocar as fichas,
06:31eu colocaria na Índia.
06:33Rafael, você acha que pode haver uma corrida aí das grandes empresas de tecnologia
06:38para aproveitar essa janela de 90 dias e fazer estoques de componentes?
06:44A gente viu, inclusive, isso acontecendo em alguma medida antes de o tarifácio entrar em vigor, né?
06:49Já que Trump vinha anunciando semanas antes que 2 de abril seria o dia da libertação,
06:56quer dizer, foi amplamente anunciado que começaria alguma coisa naquele momento.
06:59Você acha que isso pode se repetir agora, uma janela de 90 dias em que muita gente vai correr atrás de componentes?
07:05Eu acho que não, Cúrcio. Eu acho que esse movimento foi feito e realmente tinha ali um pavor, um temor,
07:11tinha muito mais incerteza do que hoje.
07:13Eu acho que hoje mostra ali um ponto de inflexão.
07:16Novamente, eu não estou dizendo que tudo vai ficar às mil maravilhas,
07:20a gente não tem essa certeza,
07:22mas pelo que a gente ouviu dos representantes de ambas as partes,
07:26o secretário do Tesouro Americano, os representantes chineses,
07:28há uma intenção, né?
07:30Antes a gente estava vendo um discurso beligerante,
07:32agora a gente está vendo um discurso convergente.
07:35Esse movimento vai dar agora uma trégua
07:39e essas grandes empresas vão repensar esse planejamento,
07:42porque, novamente, isso tem um custo, um custo altíssimo.
07:46Você fazer estoque, você sair comprando, importando,
07:49isso, obviamente, muda completamente o planejamento estratégico de uma grande empresa dessas.
07:54Eles têm tudo muito, uma escala muito preditiva,
07:58eles têm uma estimativa de quanto eles vão vender, para que mercado,
08:02quanto eles têm que importar, quanto eles têm que montar.
08:05No momento em que você já antecipa e se faz algum tipo de estoque,
08:08seja o produto já acabado ou de parte desses equipamentos, desses componentes,
08:13isso já foi antecipado.
08:16Eu diria assim, fazer isso agora de novo não me parece algo racional,
08:22ainda que para algumas empresas possa fazer sentido,
08:24mas agora eu acho que eles vão ter um tempo para pensar e fazer esse ajuste fino.
08:28Eu acho que os próximos dias vão ser muito importantes.
08:32Quem está acompanhando ali de perto, passo a passo,
08:34o que ambos os governos estão falando, as declarações do próprio presidente Trump,
08:38essas sinalizações mais, eu vou chamar aqui de ajuste fino,
08:42vão dar o tom se daqui a pouco vai ter um novo tipo de incerteza
08:47e eles vão repetir esse movimento, ou se não, a coisa vai abrandando
08:51e aí a estratégia vai se estabilizando num cenário de mais médio e longo prazo.
08:57Rafael Coimbra, editor executivo da MIT Technology Review Brasil.
09:01Valeu, Rafael. Obrigado pela sua participação mais uma vez.
09:04Boa semana.
09:05Para vocês também.
09:06Valeu.
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