00:00Bom dia, mãe.
00:09Oi, filha, bom dia.
00:10Ué, o café ainda não tá pronto?
00:12Não, mas se quiser eu faço um instantinho.
00:13Não, não precisa, mãe.
00:14Faz com calma, eu tomo no hospital.
00:16Tem certeza?
00:17Minha filha, eu faço rápido.
00:19Tem, não precisa mesmo.
00:22E apaga essa ruguinha da sua testa.
00:26Tchau, vai com Deus.
00:30Trinta milhões de dólares.
00:39Toca pra frente, Valdir.
00:40O tempo ruge, a sapuca é grande.
00:43E o percurso pode nos reservar muitas surpresas.
00:47Sim, senhor.
00:48O café da manhã dava supim pra gente.
00:51Posso dizer mais uma coisa?
00:53É uma benção de Deus, sabe?
00:54Tu e a família em torno da mesa farta.
00:56Ah, é verdade.
00:57É verdade, minha querida, é verdade.
00:59Mas, infelizmente, nem todos têm a nossa sorte.
01:02O que nos obriga a ajudar os mais necessitados sempre que possível.
01:06Ah, como eu, né?
01:08Eu sou muito necessitada dos carinhos do meu paizinho.
01:10Pena que ele não tá aqui pra poder ir.
01:12Eu não estava, mas agora estou porque cheguei.
01:14Eu, Giovanni, em Prota, primeiro e único.
01:16Ah, mas chegou a tempo de ganhar um beijinho.
01:19Hum, já sou a filha que já tá indo pra aula.
01:21Não, não, não, peraí, peraí, peraí.
01:23Vem comigo no bar.
01:24Quero falar com você.
01:25É uma consulta, é rápido.
01:27Logo, logo você pode ir, tá?
01:29Vamos?
01:29Vamos.
01:29Mara, o que será?
01:38Se for o que eu tô pensando...
01:40Escuta aqui, João Manuel.
01:41Está acontecendo alguma coisa que eu não saiba?
01:45É, vó, se a senhora não sabe, não vou ser eu que vou falar.
01:48Não é?
01:50Eu se sinto, se sinto, se sinto.
01:53Eu podia...
01:54Vou citar.
01:56Eu podia lhe dizer que sim, que não.
02:00Eu podia lhe dizer que...
02:02Que talvez que antes, porém, muito antes pelo contrário.
02:05Mas como eu não sou, assim, um homem de meias palavras, eu vou direto ao ponto.
02:12É, o senhor disse que quer me fazer uma pergunta.
02:14É, é, sobre você e a Eleonora.
02:21Essa sua amizade com a doutora vem a ser exatamente o quê?
02:27Ai, mas que pergunta, pai.
02:29A amizade que eu tenho com a doutora vem a ser aquilo que é, ou seja, uma grande amizade.
02:36Eu adoro a Eleonora.
02:38Eu quero estar o tempo todo com ela.
02:40A gente sempre tem assunto pra conversar e se diverte demais quando a gente tá junto.
02:46Nós somos amigonas.
02:47Quer dizer que você...
02:49Você gosta muito dela, assim, como...
02:53Como amiga, né?
02:55Claro, meu pai.
02:57E...
02:57E de que outra maneira poderia ser?
03:00E a doutora, como é que...
03:05Como é que ela gosta de você?
03:11O senhor disse que...
03:13Quer me fazer uma pergunta, mas...
03:16Eu já fiz várias.
03:17Eu...
03:18Eu não tô conseguindo entender o motivo de nenhuma delas, pai.
03:22Esse interrogatório todo aí sobre a minha amizade com a Eleonora...
03:26Por quê?
03:26Sabe o que que é?
03:27É que, às vezes, assim, uma amizade entre duas criaturas pode se tornar muito mais do que isso, entendeu?
03:45Talvez você...
03:48Porque você é uma meninazinha, assim, inocente.
03:49Você não tenha percebido ainda o alcance do apego que há entre vocês duas, entende?
03:56Não...
03:59Não...
04:02Não...
04:03Isso não, eu...
04:06Eu não acredito, pai.
04:10Não pode ser.
04:12Eu tava falando da Eleonora.
04:14A Eleonora, minha grande querida amiga.
04:17É praticamente a única que eu tenho.
04:20É, sim.
04:21Mas o senhor tá insinuando aí que eu posso...
04:23Não, não, não tô insinuando absolutamente nada.
04:27Eu não estou insinuando porque eu não sou um homem de insinuações, imagina.
04:33Você me desculpa, mas eu tô afirmando que deve haver um mal-entendido entre vocês duas.
04:40Um mal-entendido esse que eu acho que você, minha filhinha, devia tratar de esclarecer.
04:44Porque você entende que...
04:47Escuta, escute, Jérife, escute, venha cá.
04:50Escuta.
04:52Presta atenção.
04:54Eu sou um homem bastante experiente, bastante vivido, alcalejado até.
05:02E olha, qualquer coisa que aconteça aqui dentro da minha casa, a menos que...
05:12Que, sei lá, que eu seja assim, incendiado, deitado na minha própria cama.
05:17Qualquer coisa, eu vou tentar entender.
05:23Tá?
05:23Tá?
05:32Eu acho que eu por hoje.
05:41E aí?
05:43Posso saber o motivo da conversa?
05:52João Manuel.
05:55O que você acha da minha amizade com a Eleonora?
06:00Eu prefiro não opinar sem respeito, não.
06:02Mas se você quiser, eu posso repetir o que...
06:06O que eu ando comentando aí na rua.
06:09Então, Andon, comentando sobre nós duas?
06:12E, já tinha que dar uns calabouco aí no sujeito por causa disso.
06:16Afinal, você é minha irmã querida, eu te amo e não admito que falem mal de você.
06:20Mas falaram o quê?
06:23Imagina lá, aquele dia você estava andando na praça com a...
06:25Com a doutora, né?
06:27Estava lá aí, dois sujeitos, um olhou pro outro e falou,
06:29Olha lá, lá vão as duas sapatonas, aí não!
06:32Não, eu sou do falso, isso!
06:35Isso é uma grande mentira!
06:36Ninguém pode dizer uma coisa dessa de mim, eu não fiz nada!
06:40Mas o que é isso que morreu nesse que se espela, é esse, Jennifer?
06:43Ai, não...
06:44Espera aí, calma, gente.
06:45Jennifer, onde é que você vai?
06:46Espera aí, vem cá!
06:47Você não pode, segue assim.
06:48Jennifer, volta aqui.
06:49Essa é a avó que está sentindo.
06:50Jennifer, volta!
06:52Mas o que é que a senhora vai desse jeito, meu Deus do céu?
06:55Você perguntou isso a ela?
07:05Perguntei?
07:06Eu perguntei sim, dona Flaviana, porque eu me senti-me na obrigação de fazê-lo.
07:11Eu tenho certeza de que nessa história toda, a Jennifer está...
07:15Inocente, inocente.
07:17Mas a outra não.
07:18A doutora está cercando a minha filha e, por isso mesmo, eu acho que a Jennifer tem
07:26o direito de ficar sabendo para quando chegar a ocasião, se for o caso, se for o caso,
07:33se defender.
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