00:00Errar é o Mano
00:02Quem é?
00:10Eu, a Chiquinha
00:11Pode entrar
00:13Não, não, não, não, não, não, não, não, não
00:16Espera, é melhor eu sair
00:18Está tudo desarrumado
00:20O que você quer?
00:24Olha, chavinho, e se a gente brincasse de ir à festa?
00:28Como se brinca disso?
00:30Olha, faz de conta que vamos a uma festa, né?
00:32E que eu estou com um vestido novo e que a festa vai...
00:35E que na festa tinha muita comida, que tinha muita gente e muita comida,
00:42que tinha muita dança e muita comida, música e muita comida, e muita comida, e muita comida...
00:48Para, para, para, para!
00:50A única coisa que sabe pensar é em comida.
00:53Não é verdade. Também penso em comer a comida.
00:55Ora, Chaves, está praticamente no mesmo.
01:01E você estava pensando no quê?
01:04Que eu ia para a festa e que estava muito bonita.
01:08Então, cada um pensa naquilo que lhe faz falta.
01:15Você vai ver, vou contar tudo para o meu pai, que me chamou de feia, logo eu, que sou tão bonita!
01:25O Chaves, por que o Chiquinha está chorando?
01:28Só porque eu disse que cada um pensa naquilo que lhe faz falta.
01:32Cada um pensa naquilo que lhe faz falta?
01:35Claro que sim.
01:37É por isso que eu não penso em nada.
01:42Que terrível!
01:43É, não dá para comprar mais nada.
01:47Tesouro?
01:48Sim, mamãe?
01:49Sabe no que eu estava pensando?
01:50No professor Girafales!
01:54É que cada um pensa naquilo que lhe faz falta.
01:58Ai, Kiko, por favor, o que a dona Clotilde vai pensar?
02:01Ah, era no seu Madruga.
02:04Ai, sim.
02:08Olha, seu moleque, desapareça daqui.
02:12Então, no que a senhora estava pensando?
02:16Bom, na minha vassoura.
02:18Não me lembro se a deixei aqui ou no outro pátio.
02:21Não há muita diferença entre o seu Madruga e uma vassoura.
02:27O que disse?
02:28Ah, esqueça.
02:29Ah, tesouro, o que eu estava pensando é que seria bom se você fosse procurar o encanador
02:34para saber se ele já tem o cano que eu encomendei.
02:37Sim, mamãe.
02:40Dessa vez eu vou sair pelo cano.
02:47Por favor, dona Florinda, quero lhe dizer uma coisa.
02:50Diga.
02:51Que o Kiko tinha razão.
02:52A senhora estava pensando no professor Girafales.
02:56E como sabe?
02:57Foi por isso que se lembrou do cano de encanamento.
03:02Cano de encanamento?
03:04Ensinou que o professor Girafales parece cano de encanamento.
03:07E a senhora ensinou que seu Madruga parece uma vassoura?
03:12Não.
03:13Seu Madruga não parece.
03:14Ele é uma vassoura com patas.
03:17Olha só quem fala.
03:19Eu, e daí?
03:21Não, não, não.
03:21Não, não, com licencinha.
03:22Eu vou entrar para tomar um cafezinho.
03:24Mas, de qualquer maneira, o professor Girafales é um cano de encanamento.
03:36Me desculpe, dona Clotilde, eu não ouvi bem.
03:39Ah, não?
03:40Pois então, devia lavar os ouvidos.
03:43Dona Florina.
03:51Professor encanamento.
03:54Não, não, não.
03:56Professor Girafales.
03:57Que milagre aparecer por aqui.
03:59Vi lhe trazer este humilde presente.
04:02Ai, muito obrigada.
04:04Ah, mas não gostaria de entrar por um cano de encanamento.
04:09Não, não, digo, não gostaria de entrar para tomar um cafezinho.
04:13Não seria muito encanamento.
04:15Digo, não seria muito sacanamento.
04:18Digo, o cano de encanamento já chegou, mamãe.
04:22E me trouxe flores.
04:25Como?
04:25Não, não.
04:28Tesouro, como podes me fazer dizer isto ao professor Girafales?
04:31Dizer o quê?
04:33Que ele parece um cano de encanamento.
04:36Mamãe, eu nunca disse isso.
04:38Não será ideia sua?
04:41O quê?
04:44Espera um momento.
04:45Do que você estava falando, tesouro?
04:48Bom, mamãe, é que o encanador disse que já chegou ao cano do encanamento que você tinha encomendado.
04:52E que amanhã vai fazer a instalação.
04:55Ah, bom, é que...
04:58Como você chegou assim, sem cumprimentar, e...
05:02Primeiro, a gente cumprimenta, tesouro.
05:04Ah, sim.
05:05Como vai, mamãe?
05:07Não a mim.
05:08Então quem?
05:09Ora, o cano de encanamento.
05:11O quê?
05:12Oh, digo, o professor Girafales.
05:15Não está vendo o professor Girafales?
05:17Bom, era preciso ser cego para não ver uma coisona grandona dessa aí, né?
05:22Tá, tá, tá, tá, tá.
05:25O que a sua mãe quer dizer é que a primeira coisa que devia fazer ao chegar era me dizer bom dia, criatura.
05:34Bom dia, criatura.
05:36Não seria melhor dizer bom dia, professor Girafales?
05:43Dona Florinda, sabe, eu estava pensando...
05:47Naturalmente em alguma coisa linda.
05:50Sim, porque cada um pensa naquilo que lhe faz falta.
05:53Ah, tesouro, por favor, por que você não vai brincar no outro pátio?
05:58Isso é uma boa ideia.
06:00Com licença, mamãe.
06:02Com licença, criatura.
06:08Me dizia que estava pensando numa coisa.
06:11Ah, sim, é que...
06:12Hoje não me será possível ficar para o cafezinho.
06:17Tenho que preparar minhas aulas.
06:20Sim, entendo.
06:23Mas amanhã eu virei.
06:26Ai, que bom.
06:27Então, até amanhã.
06:29Até amanhã, dona Flor...
06:30O acompanho até a esquina.
06:53Não, não, não é preciso.
06:54Ao contrário, é preciso sim.
07:00Sabe, papai, o Chaves disse, que o Kiko disse,
07:06que dona Florinda disse,
07:08que o senhor parecia uma vassoura de patas.
07:10Pois é, pois é, pois é.
07:12Não ligue para isso, filhinha.
07:14Lembre-se de que ela é uma mulher.
07:17Olha, o que tem de mal em ser mulher?
07:19Tudo, filhinha.
07:20A mulher é fingida, a mulher é briguenta,
07:23a mulher é intrigante, a mulher é falsa, a mulher é...
07:27Não, não, não, a mulher...
07:29Vamos lá, continue.
07:33Que coisa é a mulher?
07:34Que outra coisa é a mulher?
07:36A mulher é divina.
07:39A mulher é bonita.
07:41É o quê?
07:43A mulher é adorável.
07:48A mulher é angelical.
07:50Pois tem razão, papai.
07:59A mulher é a coisa mais maléfica do mundo.
08:03E também...
08:04Papai, estou falando com o senhor.
08:11Papai!
08:12Sim, filhinha, você falava do quê?
08:18É, que o senhor tinha razão.
08:20A mulher é a coisa mais maléfica do mundo.
08:23Não, filhinha, ao contrário.
08:25Você tinha toda a razão, filhinha.
08:27A mulher é a coisa mais...
08:28mais formosa do mundo.
08:30A mulher é...
08:31Repito, a mulher é a coisa mais maravilhosa do universo.
08:52Por fim!
08:54Por que demorou tanto tempo para me dizer isso?
08:57Não, dona Clotilde, não permita.
08:59Não, não, não, não, não diga nada, seu Madruga.
09:01Quando duas almas gêmeas se encontram no labirinto da vida,
09:05as palavras nada dizem.
09:09Espera, dona Clotilde, espera.
09:10Por favor, seu Madruga.
09:13Em momentos como este,
09:15o encanto pode se romper com apenas uma palavra.
09:18Por isso eu queria ter um dicionário todo para...
09:21O que disse?
09:23Digo, digo, digo, digo.
09:24Olha, seu Madruga,
09:26eu vou lhe preparar um bolo para comemorar o acontecimento.
09:30Obrigado.
09:32Escuta, mas que acontecimento?
09:33É que eu saiba não ouvi nada.
09:35Bom dia.
09:37Muito bom dia.
09:39Me diga, o senhor mora aqui na vila?
09:41Sim, no 72.
09:42Quer entrar, entra.
09:43Não, não, não, eu perguntei por quê.
09:45Estou procurando lugar para morar.
09:49Sabe de algum desocupado por aqui?
09:51Eu?
09:52Eu?
09:53Ah, não.
09:55Eu me refiro a moradia.
09:57Ah, uma moradia.
09:58Sim.
09:58Ah, sim, sim, sabe?
09:59Eu acho que está para alugar o apartamento ali de cima.
10:03Mas não sei dizer se já foi alugado.
10:05Mas se quiser, eu posso alugar um quartinho, com muito prazer.
10:08Sei.
10:09Não, não, não, obrigada.
10:10Eu prefiro que me ajude a procurar alguém
10:12que possa me dar informações desse apartamento.
10:15Ah, bom, então a portaria é logo ali.
10:17Se quiser, eu posso perguntar.
10:18Muito obrigada.
10:19Não faça cerimônia.
10:23Que beleza, que docinho.
10:30Coisinha linda.
10:31O que foi?
10:38O que é o quê?
10:39Isso é maneira de responder, Chaves.
10:42Por isso alguém sempre te bate.
10:44Alguém?
10:44Todos me batem.
10:46E por que todos te batem?
10:47Porque sempre mete o nariz onde não deve.
10:50Aprenda comigo que nunca meto o nariz onde não devo.
10:53É nada.
10:54Não...
10:54E o que é o que é?
10:55O que é o que é?
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