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O podcast do Pensar deste sábado (10) analisa a trajetória e a obra do poeta e músico afro-brasileiro Domingos Caldas Barbosa com a participação da escritora mineira Bruna Kalil Otero, professora, pesquisadora e mestre em literatura brasileira pela UFMG; e o professor Filipe Dias Vieira, doutor em artes cênicas pela UFBA.


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#Pensar #Literatura #Podcast

Transcrição
00:00Olá, eu sou o Carlos Marcelo e esse é o podcast do Pensar.
00:04E hoje a gente tem um convite muito especial para vocês.
00:07A gente quer chamar vocês para fazer uma viagem no tempo e em dois continentes
00:11para conhecer a obra de um poeta, músico, dramaturgo, padre e outras coisas mais
00:17que a gente vai descobrir no papo com a Bruna Calioltero e Felipe Dias Vieira
00:21sobre Domingos Caldas Barbosa.
00:23Eles vão apresentar esse personagem para a gente, fascinante,
00:26e para isso a gente vai ter a ajuda luxuosa do nosso especialista em história,
00:32Gustavo Werneck, repórter especial do Estado de Minas.
00:35Gente, muito bem-vindos, sejam muito bem-vindos aqui ao Estado de Minas
00:38e é um prazer ter vocês para compartilhar essa história com a gente.
00:42Carlos, muito, muito obrigada pelo convite.
00:45Para a gente é uma honra estar aqui enquanto mineiros, enquanto leitores do Estado de Minas
00:49e muito felizes, né, Felipe Dias?
00:50Sim, sim. Muito obrigado pelo espaço.
00:52Dá para escutar o Caldas Barbosa.
00:55Pois é, antes de mais nada, vou fazer uma brevíssima apresentação da Bruna e do Felipe.
00:59São pesquisadores e professores, fazem pós-graduação em literatura luso-afro-brasileira
01:05na Universidade Indiana, nos Estados Unidos.
01:08A Bruna é escritora muito conhecida aqui em BH, fez várias performances muito elogiadas
01:13no projeto Letra em Cena, entre outras atividades.
01:17Ela está escrevendo a biografia da Ilda Yusch, mas isso a gente vai falar em um outro podcast,
01:21em um outro momento, senão a gente não vai esgotar isso agora.
01:25Mas eu queria saber, primeiro, é a pergunta mais óbvia, que é essa curiosidade que,
01:29né, Gustavo, eu e você temos, que é, por que pesquisar Domingos Caldas Barbosa?
01:34Como é que ele surge na vida de vocês?
01:39Então, o Domingos Caldas, ele é um poeta que eu fiz letras, graduação, mestrado,
01:45e eu não tinha ouvido falar antes da gente ir nos Estados Unidos para estudar, fazer o doutorado lá.
01:50E foi tudo, começou por causa do professor Heitor Martins, que é um mineiro também,
01:53um grande escritor, professor, ensaísta, pesquisador, que nasceu em Belo Horizonte,
01:58fez aqui o FMG e migrou para os Estados Unidos nos anos 60 para ser professor de português,
02:03ensinar para os gringos os charmes da nossa cultura.
02:07E o Heitor, ele fundou o programa de português onde nós fazemos pós-graduação na Universidade
02:11Indiana e foi lá que a gente se conheceu.
02:13Ele já aposentado, professor emérito, e a gente, chegando, nos unimos por conta de
02:18Minas Gerais, e começamos a conversar, e aí ele falou,
02:20Bruna, Felipe, vocês precisam ler o Domingos Caldas Barbosa.
02:23E aí...
02:23Sim, porque o professor Heitor já pesquisa o Caldas há décadas, né?
02:28Ou assim, quase 50, 70 anos aí.
02:30E ele apontava sempre para a gente como o Caldas Barbosa, um grande precursor do Brasil,
02:38só que não... esquecido, e esse era uma... inclusive, era uma ânsia dele.
02:43E aí ele falou assim, gente, ele nos incentivava muito a procurar saber mais.
02:48Inclusive, ele foi uma pessoa que ele deu umas orientações sobre...
02:52Acreditava em ter ainda muitos arquivos sobre o Caldas, porque ele falou assim,
02:57isso não produziu muito e foi pouco publicado, pouco divulgado.
03:00É, e aí ele ficou incentivando a gente, nos dando dicas, e nós ganhamos uma bolsa
03:05da Fundação Luso-Americana de Desenvolvimento, que é uma instituição que patrocina estudos
03:10em Portugal, feitos por estudantes dos Estados Unidos.
03:13Fomos para Portugal em 2022, e aí fomos seguir os passos que o Caldas Barbosa fez durante
03:19a sua vida, né?
03:20Ele nasceu no Rio de Janeiro, imigrou para Portugal, estudou em Coimbra.
03:23E aí falamos, vamos ver então os arquivos em Lisboa, em Coimbra e...
03:27Só para o nosso espectador saber, de que período histórico a gente está falando...
03:32Sim, claro, claro.
03:33Nós estamos no século XVIII, ele nasceu em 1742, faleceu em 1800, então a gente está
03:39falando de...
03:40Passado...
03:41Muito tempo.
03:42Isso, já é o século.
03:43Mais dois séculos.
03:44E ele é contemporâneo de que poetas e que circunstâncias ele começa a virar um personagem,
03:52um ator dessa cena?
03:53Bom, ele está ali nesse período do arcadismo, então em Portugal quem está muito famoso
03:59na época é o Manuel Maria Barbosa do Bocage, que é conhecido como um grande poeta português
04:05herdeiro de Camões, e o Bocage não gostava muito dele, eles brigavam, porque ele tinha
04:11inveja desse sucesso que o Caldas Barbosa tinha na corte.
04:15Esse período também aqui no Brasil, nós temos o período do arcadismo, principalmente
04:19o mineiro aqui, puxado pelos Inconfidentes, e também outros, só para situar em questão
04:24de mundo, um pouco antes ali, em 1140, morre Mozart, também não tem essa importância,
04:30e também Marquês de Sade também, na França, é contemporâneo do Caldas, então ali...
04:36Ótimas companhias.
04:38É o período que a gente mostra ali...
04:40Ótimas, más companhias.
04:43Bem pessoas... Grandes, ali é um momento de grandes, relevância de pessoas para...
04:46Mas tem um componente que é fundamental para se conhecer a obra do Caldas, pelo que vocês
04:51estavam contando para a gente antes dessa entrevista, que é a própria origem dele,
04:56assim, ao contrário desses nomes que vocês citaram, ele queria que vocês falassem então
05:00da origem do Caldas.
05:02A origem é que era um problema conturbado até agora, porque não se sabia, assim, os pesquisadores
05:09apostavam em 1738, 1140, sempre muito nebuloso.
05:14Ele é filho de uma escravizada?
05:16Isso, uma mulher escravizada africana, e com um funcionário da corte portuguesa, então...
05:23E a gente está praticamente um século antes da abolição da escravatura no Brasil, né?
05:28Sim, sim.
05:28140 anos.
05:29140 anos, é bem...
05:30Então, o pai dele era um funcionário real da coroa em Angola, e o que a gente sabia
05:38até agora, que ele engravidou essa mulher, a Antônia de Jesus, e eles foram para o Brasil,
05:44né?
05:44E aí, o que ficava nesse mistério, que eu acho muito interessante, que aumenta a sedução
05:49do personagem Caldas Barbosa, é que talvez ele tenha nascido no oceano da viagem de África
05:56para o Brasil, então, assim, um cidadão do mar, um cidadão...
06:00Do entre-lugar, né?
06:01Do entre-lugar, uma pátria, né?
06:03Mas tem outras versões que falam que, assim, que eles atracaram, aí a mãe dele deu à luz
06:07e ele nasceu.
06:08O certo...
06:08Mas aí vocês conseguiram uma descoberta absolutamente inédita, né?
06:16Queria que vocês contassem um pouco dessa descoberta, que muda o próprio conhecimento
06:19da história do Caldas, né?
06:21Exatamente, então isso era o que se sabia até agora, não sabíamos a data do nascimento
06:25nada, e aí descobrimos um arquivo...
06:28Na Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro, nós tivemos alguma indicação e falamos
06:33assim, gente, acho que pode ter uma coisa em documento de nascimento, e nós ficamos
06:38procurando os documentos lá, com o auxílio dos trabalhadores da Cúria, nos auxiliaram
06:44muito.
06:44As arquivistas.
06:45As arquivistas não achamos esse material de primeiramente, porque nós somos as pessoas
06:48libertas, como os pesquisadores indicavam, e não achamos.
06:52E aí, por demoritações dessas moças que falaram assim, gente, você não quer dar
06:57uma olhada...
06:57A gente contou a história, você não quer dar uma olhada nas pessoas escravizadas?
07:00Então, a gente tomamos esse choque e fomos procurar nesse arquivo e achamos em 4 de agosto
07:10de 1742, está lá o nascimento do Domingos.
07:14Então, a gente acha aí, falando da mãe dele, tem o nascimento dele registrado, batizado
07:21dele, porque está falado que ele é batizado em 9 de setembro do mesmo ano, e ele nasce
07:26um mês antes.
07:27E, posteriormente, a gente acha, já no livro dos libertos, uma ratificação em 1745,
07:35três anos depois do nascimento dele, o pai reconhecendo e a elforreando ele e a mãe.
07:40Então, esse primeiro brasileiro, assim que, como o Manuel Bandeira chama, esse primeiro
07:46grande poeta negro, ele nasce escravizado depois da liberta.
07:51Então, algo similar a que a gente vê com o Luís Gama depois, né?
07:54Essa documentação toda ficava com a igreja, né?
07:56Isso.
07:56Tudo isso, batistério, tudo isso.
07:58E vocês tiveram acesso a outros documentos, além desse primeiro aí?
08:04Não, acho que o mais antigo que a gente tem, por enquanto, são desses, hein?
08:09E, em Coimbra, como a gente foi reviver os passos dele, né?
08:12Além desse caderno com os poemas inéditos, que a gente pode falar mais daqui a pouco,
08:17também encontramos a assinatura dele no livro de matrículas.
08:21Então, ele chegou a ser estudante da Universidade de Coimbra, então tem lá a assinatura dele
08:26enquanto estudante, que são fontes primárias importantíssimas, que a gente também gosta
08:31sempre de ressaltar a importância do trabalho das arquivistas, das pessoas que preservam
08:36esses documentos, para que eles possam chegar às nossas mãos.
08:38E como é que foi?
08:39Onde foram os recursos para estudar, para viajar?
08:44Como é que foi isso, essa história dele?
08:46Em mantinha?
08:47Então, aqui no Brasil, quando esse pai dele assume ele, ele vai estudando no colégio
08:53dos padres jesuítas, então ele já fica entre esse...
08:56Ele tem acesso à educação formal, a praia de francês, latim, para a época, assim,
09:03para as condições dele, e já é uma coisa bem diferente, bem usual.
09:08E só que aí ele começa a...
09:10Algo entre os batuques, a questão da rua e a formação formal.
09:15E ele começa a fazer muitos poemas satíricos, então ele é punido.
09:19Ele vai para o exército, ele é condenado a meio que...
09:21Ele vai ser condenado a ir para a guerra, a batalha, a colônia do Sacramento, né?
09:25Hoje eu estico com o Uruguai.
09:28E só que ele volta, volta vivo.
09:30Porque ele vai fazer poemas satíricos criticando os poderosos.
09:33E no que ele volta, o pai dele, ele recomenda ele ir para Coimbra.
09:38Sim, para estudar.
09:39E aí ele chega, então, faz esse processo de imigração, se matricula.
09:43Só que assim que ele começa a estudar, o pai dele morre.
09:46E aí ele fica meio que sem recursos e começa a tocar a viola dele nas ruas
09:50como recurso de sobrevivência.
09:53E aí começa a chamar a atenção, os nobres vêm, ficam apaixonados com aquilo.
09:57Falam, meu Deus, a gente precisa te levar para Lisboa para você tocar para o rei, para a corte.
10:01Então ele vai subindo e chega até tocar para o rei de Portugal.
10:05Porque esses moços que vêem eles são marqueses e condes.
10:09Então eles ficam abismados como assim.
10:10O que esse moço está tocando na rua?
10:13Porque o que ele produziu na época ali, a modinha, é bem diferente do que os tempos...
10:19Ele pega essa experiência, essa estética europeia, mas ele mistura com o que ele sabe,
10:24com o que ele aprendeu no Brasil.
10:26Então ele faz a fusão disso, desse gênero europeu e brasileiro.
10:31Claro, o brasileiro com influências afro-brasileiras.
10:34E cria uma coisa nova.
10:35Então essa galera fica abismada com o que...
10:38Era performático também.
10:39Isso, isso, a viola, a poema...
10:42Quer dizer, pelo menos no nosso tempo, Gustavo, de agitador cultural.
10:45Sim, ele seria um total...
10:47E esses nomes ficam maravilhados e levam ele, como o Bruno comentou, levam ele para o rei,
10:52Dom José.
10:54Ele fica chocado, abismado.
10:55Caem as graças dele.
10:57Sim.
10:57Exatamente.
10:58E aí vira poeta oficial da coroa.
10:59Então as primeiras publicações dele já são nesse contexto de homenagem ao rei.
11:03E o interessante é que são textos que, mesmo super elogiosos à monarquia, nas entrelinhas
11:09ele tem sutis críticas à vaidade europeia, às violências coloniais e ao próprio racismo.
11:15E aí, como que a gente sabe de tudo isso?
11:17Porque ele mesmo nos contou em um poema épico, autoficcional, em que ele narra a própria história
11:22desde a periferia, na colônia, até o centro do poder, na metrópole, narrando esses seus
11:29feitos como um grande herói, seguindo a fórmula épica dos Lusíadas.
11:34Por exemplo, ele faz o próprio poema autoépico, contando sobre a própria vida.
11:41Então é bem interessante isso também.
11:42Quando você fala que ele faz o poema contando a própria vida, significa que ele inclui o
11:46próprio nome no poema?
11:47O próprio nome, exatamente.
11:48Então, assim, de fato...
11:50É um precursor da autoficção.
11:51É um precursor da autoficção, no sentido da autoficção que depois o Dobrovski vai
11:55colocar, que precisa ter o próprio nome, o personagem precisa ter o nome do autor e
11:59tudo mais, ele cumpre todos os requisitos, 1777.
12:02O caso eu acho interessante que o olho brilha, né?
12:05Parece que eles se apaixonaram pelo personagem, né?
12:09Eu queria saber o que vocês acharam mais fascinante na história dessa caudalosa vida do
12:19Domingos.
12:20Não, e que tem vários aspectos fascinantes.
12:22Então eu queria realmente também entender isso.
12:24Dentro de tantos aspectos que tornam, pelo que eu percebo, o Caldas Barbosa um personagem
12:32absolutamente singular na história brasileira.
12:34Não estamos falando sobre a história da cultura brasileira, né?
12:37Porque ele já faz uma fusão ou ele já consegue pegar duas, digamos assim, duas áreas da
12:45cultura brasileira muito fortes, que são a música popular e a poesia.
12:49E ele é forte em ambas, né?
12:51Sem contar o fato de buscar uma fusão aí, sim, da cultura europeia com o berço dele,
12:58brasileiro, já trazendo as matrizes africanas.
13:01As matrizes africanas.
13:02Então, eu acho que é um personagem absolutamente singular, né?
13:06Acho que talvez isso seja, ajudando a responder, mas acho que talvez isso seja o que há de
13:11mais fascinante, né?
13:11São vários fascínios dentro do mesmo personagem.
13:14É isso, Bruna?
13:15Com certeza.
13:15Acho que ele é muito caleidoscópico, assim, né?
13:18Ele, cada vez que ele mostra uma camada, ele mostra outra.
13:21E esses novos poemas também iluminaram algumas facetas dele que são ainda mais interessantes.
13:26Então, assim, eu acho que cada um de nós tem um interesse pessoal nele, né?
13:30Nós temos as nossas próprias pesquisas e o Carlos Barbosa é um momento de convergência,
13:33mas, no meu caso, o que muito me fascina nele, são principalmente duas coisas.
13:37Primeiro, essa faceta dele de intérprete do Brasil, assim, e eu acho interessante porque
13:43ao mesmo tempo é um intérprete, mas é também um criador do que a gente entende como uma
13:47imagem de Brasil, como uma brasilidade, como uma identidade nacional que vai ser divulgada
13:52mundialmente.
13:53Então, assim, ele se reconhece como brasileiro justamente porque ele sai do Brasil, vai
13:57para Portugal, o sotaque o denuncia e, de outra maneira, também, ele se coloca ali como
14:03um brasileiro antes mesmo da independência.
14:06Então, isso me fascina.
14:07E a segunda coisa é o fato dele ser um padre escrevendo poemas eróticos, o que eu acho,
14:12assim, absolutamente maravilhoso.
14:14Ele teve algum grande amor, assim?
14:17Alguns, né?
14:18Se a gente for considerar os textos...
14:20Mas ele tinha musas, tinha...
14:22Isso, tem...
14:23Tem nomes.
14:24No livro tem, parece, Lilia...
14:26Lilia, Marília, Arminda, Lucília, são muitas mulheres que ele canta...
14:32Assim, de novo, o eu lírico, eu não estou dizendo nada, eu lírico, eu lírico de caudas
14:37adorava cantar para várias mulheres, sendo padre.
14:39E o registro de filho, descendente, irmão, irmão...
14:43Irmão, sim.
14:43Então, irmão, temos irmão e sobrinho, mas a gente não...
14:46Mas não muito além disso.
14:48Na Colônia ou lá?
14:49Não.
14:50Aqui, na Colônia.
14:51Porque fica...
14:52É, porque tem um meio-irmão dele.
14:54Mas, continuando, isso que eu estou falando de parte do Brasil, que eu acho que...
14:57Porque ele usa o brasileiro como gentílico, bem antes, né?
15:02A gente tem a nação Brasil.
15:03E ele fala muito disso em várias partes, em vários poemas.
15:06Tem o brasileiro, a doçura brasileira, a ternura brasileira.
15:10Então, ele...
15:10Ele fala do jeitinho brasileiro também?
15:12Sim, e em uma das passagens, ele fala isso.
15:14Ah, o jeitinho...
15:15Ele usa...
15:16Jeitinho é brasileiro.
15:17Então, um dos primeiros registros que a gente tem da expressão jeitinho brasileiro,
15:21bem antes do que a gente...
15:23Antes do jeitinho mineiro.
15:24Sim?
15:25Possível...
15:26Não sei.
15:27Possivelmente, na mesma época ali.
15:28É, um proto-malandro ali, né?
15:30Assim.
15:31Ah, sim.
15:32Agora, a gente tem que responder...
15:34A gente tem que saciar a curiosidade do Gustavo, que também era minha, mas eu já sei a resposta.
15:37Mas agora, eu vou saciar a curiosidade do Gustavo, que é o título do livro, né?
15:41Porque vocês estão condensando todo este material da pesquisa num livro que está saindo
15:47pela coleção Penguin, da Companhia das Letras, já na coleção Clássicos.
15:51Então, a gente até brinca que é um lançamento de mais de dois séculos, né?
15:56Com poemas inéditos, e acho que está o momento de a gente falar um pouco desses poemas inéditos também.
16:00E a gente vai pedir, vai abusar da Bruna, vai pedir para que ela cite alguns trechos,
16:04declame alguns trechos do poema.
16:05Mas, antes disso, a gente tem que esclarecer esse título da edição brasileira,
16:10dessa primeira edição de antologia,
16:12Papagaio de Açúcar.
16:13Por que Domingos Caldas Barbosa é o Papagaio de Açúcar?
16:18Olha, essa é a nossa humilde contribuição, né?
16:20Assim como uma introdução que a gente fez para apresentar o poeta para os leitores contemporâneos,
16:25que é esse título, essa imagem, né?
16:26Que é muito poética, muito instigante,
16:29e reúne dois signos que são muito caros para o poeta, né?
16:32Então, primeiro, o papagaio, que é, primeiro, é uma ave brasileira,
16:37tipicamente associada ao Brasil, nos primeiros mapas do Brasil,
16:41era lá a terra dos papagaios, né?
16:42Então, é um bicho exótico, diferente, colorido, divertido, imitador, né?
16:48Ou seja, é esse bicho que imita o que ele ouve.
16:51E eu leio isso como uma ideia precursora da antropofagia,
16:57do canibalismo, do Oswald de Andrade e dos modernistas,
17:00porque ele está comendo a estrutura europeia,
17:04falando com a sua voz de papagaio, né?
17:07Imitando, entre aspas, a forma europeia,
17:09mas colocando o seu tempero brasileiro do seu sotaque,
17:12tem esse humor, porque ele é muito divertido,
17:15tem uma ironia aí nessa voz do papagaio,
17:18uma subjetivação, porque ele é um animal que ele está
17:20se colocando como um personagem ativo,
17:24a natureza, o exotismo e o açúcar.
17:27E também o papagaio, só antes,
17:29vários poemas, ele se coloca como papagaio,
17:32ele fala, eu sou papagaio, papagaio real,
17:34assim que ele pude clamar, fui para Portugal.
17:37Então ele usa a figura do papagaio até para falar de si.
17:40Então é interessante que ele já toma...
17:43Ele se coloca como papagaio.
17:44Como papagaio.
17:45É, não é do tamizão cisne que vai soltar doce canto
17:49brasileiro papagaio de arremedo a voz levanto.
17:52Então ele recusa o cisne branco neoclássico dos europeus,
17:57abraça o papagaio brasileiro e assume o arremedo,
18:00a cópia, como uma ferramenta subversiva
18:02de construção poética, o que eu acho brilhante.
18:05E o açúcar, que eu acho que é uma outra coisa importante,
18:09a gente lembrava que açúcar é um dos produtos
18:11mais importantes da exploração colonial.
18:14A gente exporta muito o açúcar.
18:15E o açúcar tem a questão da doçura,
18:18exportar também a doçura do falar brasileiro,
18:22um pouco dessa malemolência.
18:23Ele usa muito também a figura do açúcar,
18:25porque caldas, caldas de açúcar,
18:29uma coisa meio, uma doçura pessoal,
18:31um jeito dele.
18:33E é importante lembrar também que o açúcar nesse momento
18:37tem uma questão racial, porque o açúcar é marrom,
18:40ele não é branco, como a gente conhece.
18:41É uma ascava.
18:42Uma ascava, é tipo uma rapadura.
18:43Então ele usa o açúcar como essa figura de doçura,
18:47mas também com questão racial.
18:48Então o papagaio de açúcar,
18:50queria essa imagem dessas duas figuras que ele adora utilizar,
18:54e ainda queria essa curiosidade,
18:56o que seria um papagaio de açúcar.
18:58E tem essa ambiguidade também do açúcar,
19:00que ao mesmo tempo que é doce, é gostoso,
19:02é erótico, é sensual,
19:04ele também é um fruto de um trabalho colonial,
19:06da exposição, da escravidão.
19:10E aí tem um verso também que ele fala isso,
19:12que também tem autoficção também,
19:14porque ele fala,
19:19Então, o Caldas de Açúcar também usa o próprio nome
19:27como uma ferramenta de humor,
19:29de diversão e também de se impor.
19:31Eu sou o Caldas de Açúcar e ele apenas mel do tanque.
19:34E vocês encontraram algum desenho,
19:36alguma gravura dele para a gente?
19:40O que tem hoje vivo é uma representação de um desenho,
19:44mas parece que é póstumo,
19:46então não temos uma imagem certeira.
19:50Uma iconografia.
19:51Uma iconografia, é.
19:51Mas temos uma imagem do Caldas,
19:56meio bufão com aquelas vestes.
19:58A gente acrescenta na edição depois?
20:00É, a piruquinha, a pena na mão,
20:03uma casaca bem elegante,
20:05bem rechochundinho,
20:06que ele disse que gostava de bons jantares,
20:09apreciava muito os bons jantares.
20:12E com uma cara de brasileiro mesmo.
20:14Você vê e você sabe que ele...
20:16Era um homem mestiço, né?
20:17Sim.
20:18Ele sofreu algum tipo de preconceito na época?
20:21Muitos.
20:22Infelizmente, muito.
20:23Você acha que os poetas brancos portugueses
20:26gostaram de ver um poeta negro brasileiro da colônia
20:29com o sotaque em Portugal no século XVIII?
20:33Não, né?
20:34Então...
20:35Então ele sofreu muito preconceito.
20:37Tem várias críticas,
20:38vários poemas registrados aí do Borcá,
20:41de Finito Elísio
20:42e várias outras pessoas desse momento do arcadismo
20:45criticando o Caldas,
20:46de uma forma bem racista.
20:47Não criticando, né?
20:49Assim, chamando ele de bode,
20:51de orangotango,
20:53de coisas assim horríveis,
20:54animalizando mesmo.
20:56E é por isso que quando...
20:57Sim, infelizmente.
20:58Ele usa o papagaio,
21:00ele está subvertendo essa animalização, né?
21:03Então ele fala,
21:03não é isso que eu sou,
21:04eu sou o papagaio,
21:05não me chame dessas outras coisas.
21:07Bruno,
21:08a gente já falou de uma das descobertas mais importantes de vocês,
21:11que foi a certidão de nascimento,
21:13podemos falar isso,
21:13o comprovante de nascimento dele,
21:16o registro, né?
21:18Que ele era escravizado.
21:19Mas outra descoberta muito importante
21:21que vocês também conseguiram foi...
21:22Foram poemas inéditos, né?
21:24Então eu queria que vocês falassem
21:25um pouco desses poemas inéditos,
21:27mas antes,
21:28acho que a gente pode falar então um pouco mais agora
21:30sobre a obra dele,
21:31a importância da obra dele
21:32e como esses poemas inéditos
21:34se inserem na obra dele.
21:36Porque o que a gente estava conversando antes também,
21:39o que se conhecia,
21:41especialmente no Brasil, né?
21:43De Domingos, Caldas e Barbosa,
21:44antes do trabalho de vocês,
21:46era muito mais ligado à música popular,
21:48ao trabalho de pesquisadores
21:50que foram atrás de informações dele
21:53como um dos pioneiros da viola,
21:54inclusive o Tinhorão,
21:56tem uma biografia dele.
21:58Então esse é o lado mais documentado,
22:00era o lado musical,
22:02da contribuição dele para a própria música popular.
22:06Mas esse lado do poeta,
22:08como é que foi...
22:10Eu queria que você contextualizasse então
22:12quem é ele neste contexto
22:14e esses poemas inéditos,
22:16como ele se insere na própria obra dele também.
22:18Por favor.
22:19Bom, então ele começa publicando
22:21essas primeiras publicações
22:23no momento da inauguração da estátua equestre
22:26do rei Dom José I,
22:27então é uma situação solene,
22:29ele é um poeta oficial,
22:30e aqueles que eu disse que ele vai colocando
22:32nas entrelinhas sutis críticas, né?
22:34A colonialidade,
22:36principalmente no poema da África,
22:38que é um desfile que o rei faz
22:41para meio que comemorar o seu poder
22:43entre todos os continentes,
22:45e aí o Caldas faz um poema para cada continente.
22:47E no poema da África, que é o último,
22:49ele usa a voz da África como um eu lírico,
22:52e ele termina falando,
22:54ofereço, te ofereço dons muito mais humanos,
22:58aceito o coração dos africanos.
22:59Então é o Caldas dando ali voz
23:03para esse continente que é tão abusado pela coroa.
23:07Depois ele publica a recompilação
23:09dos sucessos principais da história sagrada em versos,
23:12então essa aproximação dele para a igreja,
23:15e depois a doença,
23:16que é esse poema autoficcional,
23:18e depois o almanac das musas.
23:21Sim.
23:21Pode continuar.
23:22Pode continuar.
23:23Por favor.
23:24Pode continuar, por favor.
23:25O almanac das musas, então,
23:27é uma reunião de poemas da Nova Arcádia,
23:31que foi esse grupo que ele combina
23:33com os outros poetas ali do momento.
23:36Depois ele publica teatros,
23:39A Saló e a Namorada e a Vingança da Cigana,
23:42e aí que entra entre esses teatros
23:45e a Viola de Lereno,
23:46que é o livro dele mais famoso,
23:47aí que entra esse caderno inédito,
23:49com os poemas manuscritos.
23:52Como é que foi a sua besta, Felipe, desses cadernos?
23:54Então, a gente tentou,
23:55nós remontamos,
23:56como comentou,
23:57os passos do Caldas Barbosa em Portugal.
24:00Nós começamos por Lisboa,
24:02fomos onde que ele morou,
24:04que hoje,
24:05que era no Palacete dos seus benfeitores,
24:09hoje é a Embaixada da Itália.
24:11Então, está preservada até hoje a estrutura lá.
24:15E toda quarta-feira ele fazia as partas do Lereno,
24:18então ele já era,
24:19toda quarta-feira ele puxava.
24:19E, posteriormente,
24:20nós fomos em Setúbal, em Coimbra,
24:23rodamos Portugal,
24:24vários arquivos.
24:25E, quando a gente chega em Coimbra,
24:26nosso objetivo inicial era confirmar
24:29que ele tinha estudado na Universidade de Coimbra,
24:31porque, assim,
24:33em 1763,
24:35é uma coisa para poucos.
24:37Se você quisesse,
24:37não tinha universidade no Brasil,
24:38se você quisesse fazer universidade,
24:40você tinha ido para Portugal.
24:41Era uma coisa que para...
24:42E havia alguns pesquisadores,
24:45pessoas que questionavam isso.
24:46Então, a gente foi lá para esse registro.
24:47Na hora que a gente encontra a matrícula,
24:49já é um alívio.
24:50Confirmamos que ele está.
24:51E a parte boa é que temos a assinatura dele.
24:54Então, temos duas assinaturas dele.
24:55Então, a gente consegue conferir a letra dele
24:57em outros documentos.
24:59Isso facilita a nossa vida tremendamente.
25:02E, quando a gente vai checar nos...
25:07Já que estamos aqui,
25:08vamos olhar os manuscritos,
25:09coisas que temos no...
25:10A biblioteca de Coimbra é magnífica.
25:13É uma das bibliotecas mais importantes
25:16de Portugal até hoje,
25:17porque foi uma das primeiras universidades do país.
25:21E começamos a deparar assim.
25:22Olhamos vários documentos
25:25sem identificação de autoria.
25:27E esse nos chamou a nossa atenção,
25:29porque está com o nome
25:30Celereno e Celunotino,
25:31que é o apelido dele na Novarkadia.
25:33Esse é o pseudônimo dele.
25:35Então, cada um tinha ali.
25:36O Boccage tinha.
25:37E o Manu...
25:39E o Manu Sardino.
25:40Então, a gente foi assim,
25:41olha, esse aqui conhecemos.
25:43Só que...
25:44E vamos olhar os poemas.
25:48Alguns poemas ele assina,
25:49principalmente no final,
25:50Domingos Carlos Barbosa.
25:51Então, ele assina alguns poemas.
25:53Então, foram sete poemas,
25:55se não me engano.
25:56Então, a gente...
25:56Opa!
25:57E a gente tem até a assinatura
26:00dele,
26:00do Registro Matríguez,
26:01a mesma coisa.
26:02Até a letra e tudo mais.
26:04E o arquivo é de 1794,
26:08que coincide na época
26:09em que ele está vivo ainda,
26:10em Portugal.
26:11E esses poemas
26:11nunca tinham sido publicados.
26:13Não.
26:13Aí que foi o nosso...
26:15Nossa surpresa.
26:17Nós olhamos primeiro assim,
26:17com aquela letra do século XVIII,
26:18muito bonita,
26:19mas difícil de ler.
26:21E fomos identificando,
26:22transcrevendo,
26:23identificando assim,
26:24a gente não conhecemos,
26:25reconhecemos o poema.
26:26Bruna,
26:27muito boa de memória.
26:28E eu estava olhando lá
26:28as obras dele,
26:30a Viola de Leireno,
26:31e nada.
26:32Primeiro não,
26:33segundo,
26:33e a gente foi assim,
26:34é...
26:35A gente começou
26:36a suar frio,
26:37assim,
26:37meu Deus,
26:38o que nós encontramos,
26:40esses poemas,
26:40não existem.
26:41É,
26:42a gente fica um pouco na ética,
26:43porque a gente achou,
26:44inicialmente,
26:44que era o manuscrito
26:45da Viola de Leireno,
26:47do livro dele já conhecido.
26:48Porque tem outros,
26:49tem um manuscrito no Rio,
26:50que são modinhas
26:51da Viola de Leireno,
26:52então a gente pensou,
26:53pode ser que seja
26:53uma cópia.
26:54Algum texto rascunho
26:56que já foi publicado,
26:57mas não,
26:57eram textos realmente inéditos,
26:59e a última vez,
27:00na verdade,
27:01a única vez
27:01que eles tinham sido publicados,
27:02só dois tinham sido publicados,
27:04uma antologia do professor Heitor,
27:06que foi uma antologia
27:06que ele fez muito pequena,
27:08em 1982,
27:09não circulou,
27:10as pessoas não leram,
27:11e aí quando a gente
27:12voltou de Portugal,
27:13eu falei com ele,
27:13Heitor,
27:14a gente achou um livro
27:14de poemas inéditas,
27:15e ele disse,
27:16ah, é mesmo,
27:17tinha isso, né?
27:18E eu falei,
27:19Heitor,
27:19por que você não disse?
27:20Ah, enfim,
27:21então é uma coisa
27:22muito interessante.
27:22O Flávio estava na pesquisa também.
27:24Sim, sim, sim.
27:25É o outro facinho, né?
27:26Exatamente.
27:27Mas o que chama atenção
27:27nesses poemas inéditas?
27:29Olha,
27:30muitas coisas, né?
27:31É, porque assim,
27:31a gente estranhou
27:32por que que eles,
27:33assim,
27:34A Viola de Lereno,
27:36em 1798,
27:37e depois tem
27:38um póstumo,
27:38em 1826,
27:39e a gente achou,
27:40por que que esses poemas
27:42não entraram?
27:43e Lereno,
27:45a gente talvez
27:45entenda um pouco mais,
27:46porque sim,
27:47Caldas é muito famoso
27:48por falar de assuntos
27:51delicados,
27:51introduzir
27:52de questões raciais,
27:53coloniais críticas,
27:55dentro dos poemas,
27:57dentro das modinhas,
27:59bem a Machado de Assis,
28:00só que esses
28:02são um pouco mais explícitos,
28:03ele está criticando já,
28:04são poemas de ocasiões,
28:06homenagens,
28:08aniversários,
28:09e mais,
28:10ele sempre vai colocando ali
28:12críticas ao colonialismo,
28:14críticas à questão racial,
28:16então,
28:16eles são mais,
28:18você tem...
28:18Patrônicas do cotidiano,
28:20do tempo que ele vivia.
28:21Sim.
28:21Tem exemplos, Bruno,
28:22desses poemas?
28:23Temos.
28:24E uma coisa interessante deles
28:26é que, como o Felipe disse,
28:27ele usa o próprio nome
28:28como verso,
28:29porque o nome dele,
28:30Domingos Caldas Barbosa,
28:32tem exatamente sete sílabas,
28:34que é a métrica
28:35da Redondilha Maior,
28:36que depois, no futuro,
28:37vira a métrica
28:37da música popular, né?
28:38Então, ele já também
28:39está fazendo uma...
28:42Precursionando isso, né?
28:43E aí, um desses exemplos
28:44que eu acho muito bom,
28:45porque mostra essa crítica dele
28:46a farpas europeias,
28:49é...
28:49Aprenda a gente orgulhosa
28:51a ser grato
28:52como é grato
28:53Domingos Caldas Barbosa.
28:56E um outro que a gente...
28:57Que vai ser até...
28:58Ele está na quarta capa do livro,
29:00que é exatamente
29:01essa exaltação, né?
29:03Da...
29:04Exaltação racial.
29:05Maravilhoso que ele diz.
29:06Não há tal.
29:07Eu sou o mesmo,
29:09enquanto assim vivo for.
29:10Não mudarei de caráter,
29:12como não mudo de cor.
29:15O mais interessante,
29:17Bruna e Felipe,
29:18é que quando você traz os poemas
29:20da forma que você lê,
29:22é que eu não deixo de vir
29:24ao nosso presente.
29:25Parece uma batalha, né?
29:27Parece uma batalha de rap,
29:28parece que a gente está
29:29vendo um slam, né?
29:31Você está vendo algo muito,
29:32sabe, desafiador de provocação
29:35para um outro poeta
29:36e para as próprias circunstâncias também.
29:38Então, isso eu queria,
29:39para a gente estar caminhando
29:39para a reta final,
29:41eu acho que de nada adiantaria,
29:43claro,
29:43teria todo o esforço histórico,
29:46quase arqueológico, né?
29:47De descoberta que vocês fizeram,
29:49mas isso teria,
29:51digamos,
29:52pouca relevância cultural
29:56se não tivesse
29:57um grandecíssimo poeta, né?
29:59Que está emergindo
30:01com o trabalho de vocês, né?
30:03Então, eu queria saber
30:05como a poesia, especialmente,
30:08de Caldas Barbosa
30:09conversa com o século XXI.
30:12Uma coisa que eu acho sensacional
30:14é que o próprio Manuel Bandeira
30:15já responde isso para a gente.
30:17Porque ele fala que
30:18Carlos é o nosso primeiro
30:21brasileiro,
30:22a gente encontra uma poesia
30:23sabor inteiramente nosso,
30:24e ele mesmo fala
30:25que várias partes
30:27da Viola de Lereno
30:28que ele lê
30:29já parece poesia de hoje.
30:31Isso aqui não é uma coisa
30:32do século XVIII,
30:34isso aqui não é atual,
30:36isso parece coisa
30:36que a gente está
30:36escutando na rua.
30:37E o Bandeira está falando
30:38no início do século XX.
30:39Do século XX.
30:40Então, tipo assim,
30:41claro, já temos um tempo aí,
30:43mas isso é uma coisa bem,
30:44ele fala assim,
30:45não, ele fala,
30:46é, 1987,
30:47uma coisa assim.
30:48Não, 1940.
30:49Bandeira?
30:50Bandeira?
30:51Então, assim,
30:54a poesia do Carlos
30:55já tinha atravessado
30:56o primeiro século,
30:57digamos assim,
30:57e agora,
30:58mas para o nosso século,
30:59o que ela tem a dizer?
31:01Quais são as questões
31:02que vem,
31:03que emergem junto
31:04com essas descobertas
31:05de vocês?
31:05Acho que ele é um poeta
31:07excelente para a gente
31:08falar nas escolas,
31:09enfim,
31:10em todos os círculos
31:11de debate,
31:12para falar sobre imigração,
31:14sobre questão racial,
31:15sobre decolonialidade,
31:17sobre contracolonialidade,
31:18assim,
31:18que a gente vê
31:19que é um poeta
31:19que já está criticando
31:21a monarquia,
31:21a estrutura de dominação,
31:23a estrutura escravocrata,
31:24que ainda são temas
31:26que eu acho
31:26que o Brasil ainda precisa,
31:27o Brasil e Portugal também,
31:29principalmente,
31:31falar dessas feridas
31:32coloniais
31:33que ainda seguem
31:34com consequências
31:35muito grandes
31:36no nosso cotidiano,
31:37e eu gosto muito,
31:38Carlos,
31:39da imagem do Islã,
31:40porque, para mim,
31:41as quartas-feiras de Lerê
31:42não eram isso,
31:43eram batalhas poéticas
31:44em que os homens
31:45de pompas e perucas,
31:46tomando seu chazinho,
31:48ficavam fazendo batalhas,
31:50inclusive,
31:50tem um trecho da doença
31:51em que ele diz exatamente,
31:53nos sertames poéticos temido,
31:55eu fazia calar-se arrependido
31:58aquele que soberbo
31:59se me opunha,
32:01e disto é muita gente testemunha.
32:03Então, assim,
32:04eu destruo os meus oponentes
32:05com a minha rima,
32:06e eu acho que isso diz muito
32:08sobre a cultura popular,
32:09sobre a música brasileira,
32:11sobre a força
32:12de tantos projetos poéticos,
32:14artísticos,
32:15afro-brasileiros,
32:16que misturam raízes africanas
32:18com raízes indígenas,
32:19com raízes europeias,
32:20que é o que o Carlos Barbosa faz,
32:22ele também usa palavras
32:23de línguas indígenas e africanas
32:25nos seus poemas,
32:26antecipando o pretuguês
32:28da Lélia Gonzalez,
32:29que é outra mineira maravilhosa
32:30que cria esse termo
32:32da fala brasileira
32:33na boca negra,
32:34como que é realmente
32:36muito diferente
32:37da de Portugal,
32:38e então eu acho
32:39que ele é um grande poeta
32:40do século XXI,
32:41é um poeta do século XVIII,
32:43assim,
32:43é um poeta que nos ajuda muito
32:44a ter outra visão também
32:46do que era esse século,
32:47porque a gente pensa
32:48que não tinha resistência,
32:50a gente pensa que as coisas
32:51eram, né,
32:52mas era assim,
32:52não era,
32:53a gente tinha pessoas
32:54que estavam ali,
32:55ó,
32:56inovando e com consciência
32:57de que no futuro
32:58viriam outras,
32:59né,
32:59inclusive,
33:01exatamente,
33:01tudo que se diz hoje,
33:04ele já era,
33:04ele já dizia,
33:06exatamente,
33:06e ele tinha essa consciência
33:08de que ele tinha uma,
33:10uma barreira também
33:11do próprio tempo,
33:12da própria linguagem,
33:13mas é muito bonito
33:14que ele diz,
33:15virá quem destas coisas
33:16melhor trate,
33:18crescem ao novo mundo
33:19novas penas,
33:21sempre que há um herói
33:22ele nasce um vate,
33:23então é muito bonito,
33:24porque ele sabe
33:25que ele terá herdeiros,
33:26ele sabe que outros
33:27escritores negros,
33:29artistas negros no futuro
33:30poderão falar com mais liberdade,
33:32mas ele abre a porta
33:33para todos eles,
33:34o próprio Mário de Andrade,
33:35né,
33:35falei essa situação do Mário.
33:37O próprio Mário de Andrade,
33:37ele fala que ele não passa
33:39de um,
33:39o Mário se fala
33:40que ele não passa
33:41de um elo,
33:42entre outros elos
33:43em que começa
33:43em Caldas Barbosa,
33:44um Alencar,
33:45um Catullo,
33:46então o próprio Mário
33:47fala que já cria
33:49essa herança,
33:50já cria essa genealogia,
33:51essa linhagem,
33:52que ele faz parte disso,
33:53então ele começa
33:54com Caldas o próprio,
33:55então assim é...
33:57Mas infelizmente
33:58Caldas faz parte também
33:59de um processo
34:02de apagamento,
34:04de ausência mesmo,
34:06nos nossos cânones,
34:08das nossas letras,
34:11com o trabalho de vocês,
34:12claro,
34:13vai se tornar mais fácil
34:13essa redescoberta,
34:15mas infelizmente
34:16isso ocorreu
34:16com diversos nomes,
34:18especialmente
34:18de origem africana.
34:21Como é que
34:22esse trabalho de vocês
34:23pode contribuir
34:24para a gente reverter
34:27esse apagamento histórico?
34:29A gente acha
34:30que o texto dele,
34:31assim,
34:32ele já é um texto
34:33tão forte,
34:33que atravessou tantos séculos
34:35e que ainda está
34:35tão fresco,
34:36que ele sozinho
34:38ele consegue,
34:39o problema é que
34:39as instituições
34:40e as estruturas racistas
34:42vão colocando barreiras,
34:44então a gente fica brincando
34:45que a gente quer usar
34:46o nosso privilégio
34:47de estar vivo
34:48para trazer a voz
34:49de um poeta
34:50que já está morto,
34:51mas os textos dele
34:52estão vivos
34:53e a gente merece ouvir.
34:54Então acho que
34:55esse livro é um passo,
34:56a gente sonha
34:58em ver esse papagaio
34:59voando nas escolas,
35:00esse papagaio voando
35:02para as crianças lerem,
35:04já crescerem
35:04com essa ideia
35:05de um poeta afro-brasileiro
35:06no século XVIII,
35:08e eu acho que
35:09esse é só o primeiro passo,
35:10a gente precisa
35:10que realmente tenha
35:12uma coletividade,
35:14porque isso é um patrimônio
35:16histórico nosso,
35:16é um patrimônio histórico nosso
35:18que nos foi negado,
35:19nos foi apagado,
35:21e todos os brasileiros
35:22merecem saber
35:23quem foi o Carlos Barbosa
35:25e o espaço
35:26que ele abriu
35:27para nós.
35:28Então nós também
35:28somos professores,
35:29levamos para a sala de aula,
35:30fazemos palestra,
35:31apresentamos em eventos acadêmicos,
35:34mas o texto sozinho
35:36ele vai.
35:37Felipe,
35:37exatamente sobre isso
35:38para a gente fechar,
35:39queria que você
35:41enfatizasse esse aspecto
35:43mesmo didático,
35:44não no sentido rançoso,
35:45mas no sentido de ensino mesmo,
35:46que esse trabalho de vocês
35:48e outros trabalhos
35:48podem trazer
35:49para que os brasileiros
35:50conheçam esse brasileiro.
35:52Sim, sim,
35:52eu acho que,
35:52como o Bruno estava comentando,
35:53acho muito importante
35:54nós conhecermos,
35:56é importante conhecer
35:56nossa história,
35:57para a gente saber,
35:58repetir os mesmos erros,
35:59saber de onde que
36:00parte do estudo do Brasil
36:01não cria esses mitos
36:03de criação.
36:05Então eu acho
36:05que o Carlos Barbosa,
36:06como você comentou,
36:07eu acho que seja
36:07um começo,
36:09espero que venha
36:09outros nossos,
36:10nesses arquivos
36:11existe muita coisa
36:12ainda a ser descoberta,
36:14o Brasil,
36:14principalmente muitos
36:15arquivos nossos,
36:16estão em Portugal
36:16e outros arquivos
36:17fora do país,
36:18então acho que
36:18essa recuperação
36:19de memória,
36:20seja no Caldas
36:21e em outras pessoas,
36:21acho que a gente precisa
36:22recontar nossa história,
36:23nós precisamos
36:24nos apossar,
36:26porque isso é nosso,
36:28nós brasileiros,
36:29acho que a gente,
36:29essas informações,
36:31essas personalidades,
36:32para saber
36:33como surgiu
36:34o próprio país,
36:35isso é um lugar,
36:36sim,
36:38a gente sabe muito
36:39da coincidência mineira,
36:40então,
36:41e é uma pessoa contemporânea
36:42aos nossos grandes poetas,
36:44então,
36:44o importante é saber
36:45como,
36:45não só o que aconteceu aqui,
36:47mas também o que aconteceu
36:48na estrutura como um todo.
36:50Então a gente tem que aproveitar,
36:51vocês dois são pesquisadores mineiros,
36:54morando no exterior agora,
36:55nos Estados Unidos,
36:56mas que fizeram
36:56essa imensa pesquisa em Portugal,
36:59para saber,
37:01vamos fugir um pouco do tema,
37:03se fosse o Enem,
37:03a gente ia perder ponto na prova,
37:05mas eu acho que é importante
37:06trazer com esse olhar
37:08de pesquisadores
37:08e de quem está nessa atividade
37:10há tanto tempo,
37:12que nomes mineiros
37:15mereciam uma atenção,
37:16como vocês estão dando agora
37:17para a Caldas Barbosa,
37:18que merecem uma pesquisa,
37:20merecem descobertas
37:21e merecem no nosso cânone
37:23serem mais valorizados.
37:25Eu acho que essa é
37:25uma excelente pergunta
37:27e algo que todos nós,
37:28pesquisadores,
37:29devemos sempre nos questionar,
37:30e é uma coisa que eu sempre falo
37:31para os meus amigos,
37:32sim, o século XX é muito interessante,
37:34o XXI também,
37:35mas vamos também para trás
37:36para a gente não deixar
37:37esses outros serem engolidos
37:38pela história.
37:40Então, nós dois somos professores,
37:42o Jefferson Tenório,
37:43que também fez o posto fácil
37:44desse livro,
37:45também é professor
37:45e a gente conversou muito
37:46sobre isso,
37:47que outros nomes
37:49a gente pode também lembrar.
37:51E eu penso que,
37:53claro, no século XVIII,
37:54no século XVII,
37:56a gente já tem escritores
37:57que estão ali,
37:58seja os Inconfidentes,
38:00o Cláudio Manuel da Costa
38:01ou o Tomás Antônio Gonzaga,
38:02que estão ali escrevendo
38:03nesse momento,
38:04nós também temos,
38:06por exemplo,
38:07muitos anônimos,
38:08uma legião de anônimos
38:09que podem ser mulheres,
38:11podem ser pessoas
38:11que eram escravizadas,
38:13que publicavam nos jornais,
38:14que publicavam nos folhetos
38:16de resistência.
38:17Então, eu acho que
38:17valeria uma pesquisa também,
38:20lendo esses materiais,
38:21para tentar tirar
38:22esses nomes
38:23do ostracismo.
38:25Em Vila Rica,
38:26nós temos vários
38:29músicos ali,
38:30percussores,
38:32mas estão muito no...
38:33Tem arquivos no IFAM,
38:35tem as coisas
38:35nas igrejas de Ouro Preto,
38:37hoje.
38:38Então, isso tem...
38:39Minas Gerais,
38:40é importante lembrar
38:41que Vila Rica
38:42é uma das cidades
38:42mais importantes
38:44para o império
38:45em português.
38:46Então, há grandes nomes,
38:48isso é o que a gente
38:48precisa pesquisar,
38:50recuperar esses outros nomes,
38:51mas a história do Brasil,
38:53os arquivos,
38:54estão para aí
38:55para a gente explorarmos.
38:56E com o teatro,
38:57que é o mais antigo
38:58em funcionamento
38:59na América.
38:59Isso.
39:00E, curiosamente,
39:02o que a gente falou,
39:03o Carlos,
39:03hoje a gente trabalha
39:04com duas óperas dele,
39:05que é a Salão e o Namorado,
39:07O Remédio é Casar,
39:08de 1793,
39:10e a Vingança da Cigana,
39:12de 1794.
39:14São, assim,
39:15eles são muitos percussores
39:16da ópera,
39:16também em português.
39:17Mas só que,
39:18temos óperas antes portuguesas,
39:19mas elas são um pouco
39:20diferentes,
39:20porque elas já são um pouco
39:21meio brasileiradas,
39:24já têm alguns trejeitos,
39:26brasileiros,
39:26alguns jargões.
39:27E a Vingança da Cigana,
39:29em 1796,
39:31ela passa por Ouro Preto,
39:33pelo teatro da ópera.
39:35Então, a gente tem
39:35até essa troca.
39:38Caldas influencia também
39:41nesse teatro mineiro.
39:42Então, é uma...
39:46Então, ele é uma ponte,
39:47talvez em Minas Gerais,
39:49Portugal, Rio,
39:50então, tem essa transição.
39:52É, e é importante dizer
39:53que nessa ópera,
39:54é uma das primeiras óperas
39:55que tem personagens negros
39:57já denunciando o racismo
39:58e exigindo serem respeitados
40:00pela própria cor de pele,
40:02o que é fascinante.
40:03E uma outra ligação
40:04que eu vejo também
40:05do Caldas com Minas
40:06é que, em 1826,
40:07quando o Viola de Lerano,
40:09volume 2, é publicado,
40:10ele já tinha morrido,
40:11mas é muito vendido
40:13no Brasil esse livro.
40:14A gente achou
40:15em jornais do século XIX,
40:18a Viola de Lerano está esgotada,
40:19está esgotada,
40:20reimpressão, reimpressão,
40:21em um momento
40:22que a maioria das pessoas
40:23não tinha acesso
40:24à educação formal,
40:25à leitura,
40:26isso é muito significativo.
40:27e o Silvio Romero,
40:29que é um crítico do século XIX,
40:30ele fez viagens
40:32no interior de Minas,
40:33no interior de vários estados,
40:35coletando essas falas,
40:37ditados populares,
40:39e vários desses ditados
40:41que ele recolheu,
40:42as pessoas falando
40:42que eram anônimos,
40:43eram do Caldas Barbosa.
40:45Então...
40:45Ou seja,
40:45o domínio popular,
40:46na verdade,
40:47era o domínio
40:47do Caldas Barbosa.
40:48Exato.
40:49Gente,
40:50é um prazer ter vocês aqui,
40:51acho que a gente ficaria
40:52mais dois séculos,
40:54ouvindo as histórias
40:55do Papagaio de Açúcar,
40:57histórias que estão
40:58no livro
40:58Melhor da Poesia,
40:59de Domingos Caldas Barbosa,
41:00essa antologia,
41:01como a gente conversou,
41:03num lançamento
41:03de mais de dois séculos,
41:04está chegando agora
41:05nas livrarias,
41:06o lançamento da coleção
41:06Penguin,
41:07da Companhia das Letras.
41:08A gente tem que parabenizar
41:09vocês por esse trabalho
41:10incrível,
41:11como destacou o Gustavo.
41:14É contagiante
41:15o entusiasmo de vocês
41:16com essas descobertas,
41:17e isso,
41:18certamente,
41:19esse fascínio
41:19que vocês têm
41:20por esse personagem
41:21vai contagiar também
41:22o leitor
41:23ao ter contato
41:24com esse
41:25com essa figura
41:26absolutamente singular,
41:27na história
41:28da cultura brasileira,
41:29dramaturgo,
41:30poeta,
41:31agitador cultural,
41:33padre,
41:34enfim,
41:34tudo isso,
41:35tudo ao mesmo tempo agora,
41:36muito antes do Arnaldo Antunes,
41:37dos Titãs,
41:38ele já era
41:38tudo ao mesmo tempo agora.
41:40E, para encerrar, Bruno,
41:41a gente vai abusar
41:41um pouquinho de você novamente,
41:42porque a gente gostaria
41:43que você lesse mais um poema
41:44de Domingos Caldas Barbosa,
41:46para que você escolhe
41:47para a gente encerrar
41:48esse nosso bate-papo,
41:50e convidando todos vocês
41:51a ler,
41:52todo sábado,
41:53no Estado de Minas,
41:53a edição impressa do Pensar,
41:55e no nosso site,
41:56sempre atualizado,
41:57no em.com.br.
41:58Bom, muito obrigada.
42:00A gente também tem que agradecer
42:01demais a vocês dois
42:02pela excelente companhia,
42:03ótimas perguntas
42:04e pelo interesse
42:05também a quem nos está escutando,
42:07que possa ouvir também
42:08o canto do nosso papagaio.
42:10Então, eu vou falar
42:12o começo do primeiro poema
42:13que abre a antologia,
42:15que é um convite
42:16que o Caso Barbosa faz
42:18para o príncipe de Portugal,
42:19e que, para a gente,
42:21ele também faz esse convite
42:22para o leitor.
42:23E ele diz,
42:24Eia, príncipe Augusto,
42:26ouviste o canto
42:28de alvos cisnes
42:29que o fulvo
42:30tejo a ninha?
42:32Diverte um pouco
42:33o seu meliflo encanto
42:35ouvindo a rude voz,
42:37a voz mesquinha
42:38de ave atrevida
42:40que alto voo ergueira
42:42do ninho americano
42:43onde nascera.
42:45Então, eu gosto muito,
42:47a gente quis abrir o livro
42:48com esse convite,
42:49que é o Caldas falando,
42:50você está cansado
42:51de ouvir os alvos cisnes
42:54do tejo,
42:54pois agora ouça
42:55a minha voz
42:56de ave atrevida.
42:57Mas é interessante
42:58pelos poemas
42:59que você leu
42:59para a gente aqui,
43:00que não são só convites,
43:02mas também são provocações.
43:04Provocações, muitas.
43:05E aí, mais um trechinho
43:07que é já de um desses poemas
43:08em que ele faz
43:09esse erotismo
43:10com a mulher branca
43:12colonizadora,
43:13em que ele vai seduzindo ela
43:15e dizendo,
43:16Se não tens mais
43:17quem te sirva,
43:18o teu moleque sou eu.
43:20Chegadinho do Brasil,
43:21aqui está,
43:22que é todo teu.
43:24Que maravilha.
43:25Com as palavras
43:26cada vez mais vivas
43:27de Domingos Caldas Barbosa,
43:29a gente agradece
43:30ao Gustavo Werneck,
43:31a gente agradece
43:32a Bruna Calioltero,
43:33Felipe Dias Vieira
43:33por esse bate-papo
43:34no Pensar
43:35e convido a vocês,
43:36novamente,
43:37a estar aqui com a gente
43:38no nosso canal,
43:39no podcast,
43:40seguir o Pensar
43:40nas redes sociais,
43:42prestigiar nossa edição
43:43impressa,
43:44todo sábado,
43:44na edição de fim de semana
43:45do Estado de Minas
43:46e no em.com.br.
43:48Obrigado mais uma vez,
43:49gente,
43:49foi um prazer
43:49ter vocês com a gente
43:50e viva Domingos Caldas Barbosa.
43:53Viva!
43:54Viva!
43:54Viva!
43:54Viva!
43:55Viva!
43:56Viva!
43:56Viva!

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