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No podcast do caderno Pensar, do jornal Estado de Minas, recebemos o escritor Leobêncio Nossa, que está lançando "João Guimarães Rosa: uma biografia".

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Transcrição
00:00Olá, eu sou Carlos Marcelo e este é o podcast do Pensar, do Estado de Minas.
00:04O seu espaço de ideias e livros na edição impressa, toda semana, na edição de fim de semana do Estado
00:10de Minas
00:10e na nossa versão digital do nosso site em.com.br.
00:15A gente tem o prazer de receber hoje, na nossa edição do podcast, o Leonêncio Nossa.
00:21O Leonêncio é autor de um dos maiores livros, literalmente os maiores livros lançados deste ano,
00:26mas já é um dos acontecimentos do mercado editorial de 2026.
00:30Nós estamos falando de João Guimarães Rosa, biografia, e para conversar com o Leonêncio,
00:35eu tenho a companhia, ilustre também, do Paulo Nogueira, grande editor e grande leitor,
00:41que vai pontuar essa conversa sobre esse trabalho monumental do Leonêncio.
00:45O Leonêncio I, é um prazer ter você aqui no Estado de Minas, no Estado de Minas Gerais e no
00:50Estado de Minas
00:50para falar de um personagem que tem a mineridade, a flor da pele em todas as páginas.
00:56Obrigado aí pela oportunidade, Carlos Marcelo. Obrigado, Paulo.
01:00Falar de Guimarães Rosa é bom demais, né?
01:03E nesses anos todos eu tentei entender a mineridade, mas eu acho que algum minerista eu adquiri ao longo da
01:11vida.
01:11O Leonêncio, para quem não sabe, é capixaba, jornalista, autor de livros e reportagens de grande destaque,
01:18como O Rio, Uma Viagem pela Alma do Amazonas, Mata, o Major Curió e as Guerrilhas do Araguaia,
01:24jornalista premiado com prêmios como essa, Vladimir Zog, e autor também dos dois volumes da biografia de Roberto Marinho.
01:31A gente vai até comparar um pouco esses trabalhos lá na frente.
01:33O Leonêncio está lançando a biografia do Guimarães Rosa por duas editoras, Nova Fronteira e Top Books,
01:40e, como eu falei, é um acontecimento, porque ele faz um trabalho impecável nessa reconstituição da vida
01:49de um dos maiores brasileiros de todos os tempos.
01:51Eu queria começar, Leonêncio, perguntando exatamente sobre esse seu trabalho,
01:56porque no prólogo você afirma que Guimarães Rosa rejeitava entrevistas
02:00e tinha a obsessão de controlar a difusão da própria imagem.
02:03A ponto de formar uma espécie de redoma em volta dele,
02:07e que isso acabou consolidando, de certa forma, um mito em torno do próprio Guimarães Rosa.
02:12Como é que foi remover essa redoma?
02:13Quais os aspectos mitológicos você acredita que conseguiu esclarecer ou retirar com o seu trabalho?
02:21O caso, eu tentei fugir da obra, da complexidade da obra, do labirinto, que é a obra do Guimarães Rosa,
02:29e me ater ao perfil do homem que a escreveu.
02:33Era o que eu podia também fazer, porque eu sou jornalista e o que eu tinha condições de apresentar
02:39era um perfil de um escritor que fez uma obra densa, mas que não necessariamente eu tinha que entrar nessa
02:46obra,
02:46mesmo porque eu não sou crítico literário, não sou filósofo, não sou historiador,
02:50eu não sou um monte de coisas que facilitaria a compreensão de uma obra tão monumental, com tantos ângulos.
02:59Então, eu me senti mais leve para enfrentar esse desafio, de certa forma, com certa irresponsabilidade de fazer essa biografia.
03:09Mas eu também, desde o primeiro momento, eu tive essa consciência que seria mais um trabalho jornalístico da minha parte.
03:18Isso me deixou livre, livre para entrar nesse mundo, nesse universo tão complexo, mas, ao mesmo tempo, tão adorado.
03:29Pais afora, mundo afora, que é a obra do Guimarães Rosa.
03:32Mas ele tinha essa, você, na sua pesquisa, identificou essa certa obsessão de controle das próprias palavras,
03:40da exposição delas, tanto em entrevistas como também da própria imagem?
03:44Muito, muito.
03:46Tem uma escritora mineira fantástica, que é a Rute Guimarães, que este ano também está fazendo 80 anos da Água
03:55Funda,
03:56que ela foi entrevistar a Guimarães Rosa, em São Paulo, e ela meio que ironizou.
04:02Ah, você não gosta da entrevista, não?
04:05Porque, então, ele teve essa fama muito forte.
04:09Agora, nos arquivos, o que eu percebi?
04:13Havia percebido, não, estava muito claro em cartas, cartas de família, etc.
04:18Como que ele deixou mensagens ali, sugestões para qual o rumo que a obra dele deveria tomar, a publicação das
04:26obras.
04:27Eu acho, inclusive, que a decisão das filhas, por exemplo, da família, de evitar publicações de alguns originais,
04:39tem muito a ver com as orientações dele.
04:42Ele, mesmo depois de morto, eu acho que ele procurou controlar a apresentação da obra dele.
04:49Do ponto de vista editorial, deu super certo, porque muita coisa não foi publicada,
04:55coisas que ele achava que não tinha valor literário.
04:58É o caso do Diário de Guerra, que está aqui em Minas, está no FMG, uma cópia.
05:04E ele achava que, em uma carta, ele disse para a Vilma que achava que ele não tinha valor literário.
05:12A gente sabe que tem, até mesmo porque é escrito pelo próprio Guimarães Rosa,
05:16então tem um valor, no mínimo, documental.
05:20Mas, então, ele, porque antes de ser alguém, eu diria que ele se sentia um escritor.
05:27Então, essa consciência literária dele, consciência de autor, estava muito presente desde a infância dele.
05:36Paulo, o que te chamou a atenção na leitura dessa biografia do Guimarães Rosa?
05:40Uai, são muitos pontos, que eu acho que é um trabalho profundo de pesquisa.
05:45Mas eu já queria começar com uma polêmica, Machado de Assis.
05:51A gente já sabe que há muitos anos há uma discussão, pesquisas, enquetes,
05:55quem é o maior escritor brasileiro, Machado de Assis ou Guimarães Rosa.
06:00E que, num trecho aqui, você fala que o Guimarães Rosa tinha uma rivalidade literária com Machado de Assis.
06:10Eu gostaria até de ler um trecho aqui, na página 148, que ele, simplesmente, do diário dele,
06:16que ele destrói Machado de Assis, né? Se ele diz aqui...
06:20Não pretendo ler mais Machado de Assis, a não ser nos seus afamados contos.
06:26Talvez também o começo do Dom Casmurro, do qual já li crítica que me despertou curiosidade.
06:31Não pretendo mais lê-lo, por vários motivos.
06:34Acho antipático de estilo, cheio de atitudes para embasbacar o indígena.
06:40Lança mão de artifícios baratos, querendo forçar a nota da originalidade.
06:45Anda sempre no mesmo trote pernóstico, o que torna tediosa a sua leitura.
06:50Há trechos bons, mas, mesmo assim, inferiores ao dos autores ingleses que lhe serviram de modelo.
06:56Quantas ideias, nada mais do que uma desoladora dissecação do egoísmo.
07:00E o que é pior, da mais desprezível forma do egoísmo.
07:04O egoísmo dos introvertidos inteligentes.
07:07Bem, basta, chega de Machado de Assis.
07:10Arrobo de juventude, né?
07:12Pois é, isso seria o quê? Um ciúme? Ele alimentar uma rivalidade?
07:18Ele enxergou no Machado, Paulo, um gênio que ele queria superar.
07:23Ele não fazia isso com escritores menores.
07:25Ele fazia isso porque era Machado de Assis.
07:31Você lê um trecho de juventude, mas, na maturidade, ele reclamaria.
07:36Ele costumava dizer que as pessoas davam valor para o Machado, porque o Machado era um escritor do Rio de
07:42Janeiro.
07:43E ele falava do sertão.
07:45Ele falava do sertão do interior, do Brasil, etc.
07:49Não vou entrar na polêmica dele, eu acho que os dois são gênios.
07:53E se você disser para mim que o Machado é melhor, o Paulo disser que o Machado é melhor e
07:58o Carlos, o Marcelo, dizer que é o Guimarães,
08:01eu vou dizer que os dois estão certos porque a literatura é o que a gente enxerga e lê.
08:05A nossa sorte que temos os dois para ler.
08:07Só que, no caso, o Carlos, o Marcelo, o Rosa teve a chance de ler Machado.
08:13E o Machado morreu antes.
08:15Não pôde se defender dessa crítica feroz.
08:18E não pôde aproveitar a obra do Rosa para ser maior.
08:22E, de certa forma, quando o Rosa diz que Machado se aproveitou do romance inglês e francês,
08:28de fato, o Machado era o personagem, era o autor de um mercado incipiente.
08:32que, se o cara escrevesse para as senhoras da sociedade, estava bom demais.
08:39Guimarães Rosa não, já era de um Brasil industrial, que podia ter revolucionários na literatura.
08:48Machado, se você colocar do ponto de vista técnico, aí o Antônio Carlos Sequin coloca isso,
08:56Machado seguiu o modelo do romance inglês e francês.
09:00Ele não inova como Guimarães Rosa.
09:03E o próprio Sequin fala aqui na biografia também, na sua biografia,
09:06que o maior espector brasileiro é o Guimarães Rosa pela inovação.
09:10Pela inovação.
09:12E, agora, se você disser, às vezes, por exemplo, hoje nós precisamos de autores inovadores?
09:20Talvez não.
09:20Talvez a gente precise de autores que as pessoas possam ler e que a gente possa atingir uma massa de
09:25leitores maior.
09:25Agora, do ponto de vista técnico, Guimarães Rosa é o maior escritor do Brasil, de todos os tempos.
09:36E parece que não haverá outro desse nível.
09:39Não, talvez não tenha necessidade.
09:40Eu acho que, só colocando mais um elemento nessa discussão, Milton Ratum tem dito, falou inclusive para a gente,
09:49já que quando ele leu O Grande Sertão de Veredas, ele disse que teve a sensação de ter enxergado uma
09:56cordilheira,
09:56que seria intransponível.
09:58Ele acha que um dos grandes problemas da literatura brasileira durante muito tempo foi tentar emular,
10:04ou, às vezes, até imitar mesmo o estilo do Guimarães Rosa, quando o Guimarães já colocou ali aquela cordilheira,
10:09aquela montanha, aquelas montanhas, apesar de ser um livro do Sertão, mas um cume.
10:14E que ele fala aqui, humildemente, ele fala que ele tentou contornar e não enfrentar, não tentar fazer.
10:22Até porque a literatura do próprio Milton é muito mais filiada, digamos, à literatura de Machado de Assis do que
10:28a do próprio Guimarães.
10:29Por isso que ele diz, porque ele não é um escritor da invenção, e sim um escritor mais baseado nessa
10:34escola,
10:36digamos assim, escola literária da Europa, que vem da França e da Inglaterra.
10:40Mas, por outro lado, eu acho que, como você pontuou muito bem, Ernesto, o Machado não...
10:46São dois Brasis, eles vivem em dois momentos muito diferentes do país.
10:50E eu acho que talvez uma das grandes insurgências que o Guimarães faz é que o momento que o Brasil
10:56está se urbanizando,
10:57está indo para as cidades, e é um movimento que o Juscelino Kubitschek faz também com a criação de Brasília,
11:02ele volta para o Sertão, e ele vai trazer uma outra dimensão, dar uma outra dimensão para o que era
11:09considerado literatura regionalista,
11:11que falava do interior, mas de uma forma que Graciliano já tinha trazido também.
11:16Mas, enfim, são digressões que são sempre muito estimulantes quando a gente lê um trabalho como o seu.
11:23E aí eu queria voltar à questão jornalística, porque também me chamou muita atenção o fato de que você...
11:29Uma das virtudes da tua biografia, do teu trabalho, é um exaustivo trabalho de pesquisa que você faz em relação
11:37à família do Guimarães Rosa.
11:39Você traça a árvore genealógica do Guimarães desde, inclusive, graficamente na edição,
11:44e você investiga as raízes dessa família a ponto de estabelecer possíveis conexões entre pessoas da família e personagens da
11:56obra do Guimarães.
11:58Eu queria que você falasse um pouco sobre isso, como foi esse trabalho de investigação da família de Guimarães Rosa
12:03e quais foram as descobertas que te surpreenderam nesse processo.
12:08Sabe o que é que a obra do Rosa chegou a tal ponto de reconhecimento, no Brasil e no mundo,
12:16do ponto de vista da sua universalidade, que teve um efeito, eu vejo, como um efeito colateral.
12:23Por mais que se ressalde sempre a importância de Minas, desse espaço geográfico que nós estamos falando,
12:29do espaço cultural, é como se esse espaço tivesse desaparecido e nada significasse.
12:36É uma leitura que eu tenho.
12:39E, às vezes, eu busquei muitas coisas lá fora, mantive uma correspondência muito grande,
12:44gente do México, gente da Europa, gente do quanto é lugar, em busca de elementos,
12:48das passagens de Rosa, que é um diplomata pelo mundo,
12:52mesmo porque todo mundo sabe das referências literárias dele.
12:55Ele foi beber água de todo quanto é rio, e o Baldo fala isso, não é, Paulo?
12:59Agora, quando a gente bota o pé no interior de Minas, aqui em Minas, em Belo Horizonte,
13:09ali que vem o personagem, o biografado.
13:17Eu estou falando do ponto de vista jornalístico.
13:20E entender essa família foi muito...
13:24Porque ele levou em conta uma colocação que ele fez em uma entrevista, nos anos 60,
13:31para um escritor austríaco, o Gunter Loris,
13:35que ele disse que a minha biografia está dentro da minha obra.
13:40Então, eu comecei a pensar se a biografia dele está dentro da obra dele.
13:43Então, de certa forma, ele segue o modelo de quase todos os escritores,
13:47de se inspirar em pessoas, da vida real, família, para escrever seus personagens.
13:51Era meio esquisito pensar nisso, com o Guimarães Osso,
13:54porque os personagens dele são todos muito esquisitos e doidões.
13:58Ele tinha cadernetinha de todo lugar, ele anotava isso aí.
14:02É verdade.
14:03Mas, do ponto de vista da família, encontrar personagens da família na obra dele,
14:07eu achava complicado.
14:08Mas eu fui procurar os Guimarães, especialmente o pessoal do interior ainda.
14:13Aí eu tive a sorte de encontrar um primo de 103 anos,
14:17que ele tinha 103 anos na época, o doutor Ellison Guimarães,
14:21gente mais próxima,
14:24que foi me levar para alguns lugares, contar casos,
14:28dizer, olha, aquele personagem lá, nosso avô, nosso bisavô.
14:33Então, o máximo também que eu fiz é sugerir comparações de personagens com familiares.
14:41É o caso do Reubaldo, que tudo aponta para o avô materno,
14:47que é o grande personagem da vida dele,
14:51porque é o homem que tirou ele de Gordesburgo.
14:54Porque ele fica muito abalado, inclusive, quando morre, como você conta aqui.
14:57É, porque ele era um menino ali que estava em Gordesburgo,
15:01um pai bruto, um comerciante, que achava que o filho tinha que ser comerciante,
15:06e achava esquisito o menino estar lá, brincando lá no quintal sozinho, etc e tal,
15:11naquele isolamento.
15:13E, de repente, o avô materno tira ele de Gordesburgo e traz para Belo Horizonte.
15:17O avô materno é justamente o médico,
15:20embora o doutor José Alonso tenha existido,
15:23mas o personagem principal do campo geral da novela do Migrim
15:28é o médico que abre os olhos do menino a partir do momento que bota os óculos,
15:32é o avô.
15:33Traz para Belo Horizonte e em Belo Horizonte que ele vai enxergar o mundo.
15:37Então, agora, claro, que eu sabia que essas comparações tinham limites,
15:42porque é uma obra criadora que parte daquela personagem,
15:47mas depois transforma tudo.
15:48Pois é, mas não podemos dizer também que tem os alter-egos do Guimarães,
15:53os personagens, começando pelo Miguelim,
15:56e o próprio Reobaldo, um jagunço perturbado também,
15:59não tem um quê do próprio Rosa?
16:01Tem, o próprio Jadurim.
16:02Ele está em tudo, não é?
16:06A obra dele é sempre um autorretrato.
16:09Eu concordo com você.
16:11E você falou de Belo Horizonte.
16:12O Paulo estava chamando a atenção, antes da nossa conversa,
16:14de que a sua biografia, a biografia que você escreve do Guimarães,
16:19não é apenas a biografia de um escritor.
16:20Ele também é a biografia de uma cidade,
16:22que é a biografia de um tempo.
16:23O que me impressionou é isso, sim,
16:24porque você cria todo aquele contexto,
16:27que é, primeiro, que vem lá de Vila Velha,
16:30tem Coresburgo, obviamente, Vila Velha,
16:32e quando chega Belo Horizonte, você conta a história de Vila Velha,
16:35do Ciclo do Ouro,
16:36e a história de Belo Horizonte e da fundação de Belo Horizonte,
16:40para colocar Guimarães dentro desse contexto,
16:42que eu acho que você fez,
16:43é quase um passeio turístico histórico para o Belo Horizonte.
16:47Aí a questão da Igreja de São José,
16:48que eu acho que, pelo que está na biografia,
16:50eu acho que te impressionou pelas cores e tal.
16:52Muito, muita cor.
16:53E, além do mais, a família se mudou para a casa em frente,
16:57na Rua Espírito Santo.
16:58Sim, que não existe mais.
16:59Então, como é que foi esse processo?
17:01Você fez uma imersão na história de Belo Horizonte e de Minas,
17:05para contar a história do Guimarães Rosa.
17:07Você nasceu em que cidade, no Espírito Santo?
17:09Eu sou de Vitória.
17:10Vitória.
17:11Mas, depois dessa biografia, você é um pouco mineiro também.
17:14A gente aprende um pouco,
17:16de ficar em silêncio,
17:18desses comportamentos.
17:19Isso a gente absorve,
17:22não tenha dúvida que absorve.
17:25Agora, é porque a obra do Rosa sempre está característica
17:27com essa coisa do sertão.
17:29Ele se coloca como sertanejo.
17:33É, aquela história.
17:34O homem sai do sertão,
17:35mas o sertão não sai do homem.
17:36Ele está em Hamburgo,
17:37está morrendo de saudade do sertão.
17:40Então, ele tem...
17:40Tanto é para o grande sertão,
17:42ele teve essa volta.
17:43Ele fez aquela inscrição.
17:44Mas, a gente tem que definir esse sertão.
17:47Se ele criou esse sertão,
17:49ou se esse sertão, Paulo,
17:51é algo que, às vezes,
17:53a gente não consegue enxergar.
17:54Eu falo algo que o biólogo não consegue enxergar
17:58e que o Guimarães Rosa enxergou.
18:00Que Minas era essa?
18:02Ah, essa Minas, Pastorio,
18:04Minas do Gado?
18:06Não.
18:07Ali, o Guimarães Rosa,
18:08família de pecuaristas,
18:09mas, nessa época,
18:11já, para o Pebo,
18:12já tinha fábrica de tecido
18:14e a família dele estava toda envolvida
18:15nessa fábrica.
18:18e Minas é uma...
18:20São várias camadas históricas.
18:23Então, eu acho que,
18:24mais do que inventar um sertão,
18:28ele enxergou,
18:30enxergou de forma profunda.
18:31Ele mesmo não era um sertanejo
18:34propriamente dito,
18:35porque ele saiu pequeno.
18:38Para quem não conhecia ele,
18:40a obra,
18:40sempre com aquela gravatinha,
18:42com alguma coisa...
18:42Sim.
18:44Quando ele ia para o campo,
18:45ia para o sertão,
18:46que ele vestia aquela...
18:48Cortesburgo não é sertão,
18:50tecnicamente.
18:51É a boca,
18:51é o iniciozinho do sertão.
18:54Então,
18:55ele é um menino criado em Belo Horizonte.
18:57Ele é de Belo Horizonte.
18:58Foi onde ele leu os grandes autores,
19:01onde ele começa a ter o prazer das línguas,
19:04onde ele começa a enxergar
19:06o norte de Minas,
19:07com as matérias que saíram
19:08nos jornais de Belo Horizonte
19:09sobre os cangaceiros da Bahia,
19:12os cangaceiros do norte mineiro.
19:14E o que mais interessava a ele
19:15eram as suas histórias.
19:16Onde ele lia,
19:17ele notava,
19:17ele queria pedir,
19:19inclusive pedir para o pai dele
19:20mandar para ele,
19:20mandar para ele histórias de causas
19:23para ele fomentar.
19:24Isso daí me chamou a atenção também,
19:26isso é muito interessante.
19:27Isso me chama a atenção,
19:28e até queria aproveitar
19:29para mostrar para quem está nos vendo,
19:33o material iconográfico do livro.
19:34A edição,
19:36além de ser um livro que para em pé,
19:39são 736 páginas,
19:41mas há muitas,
19:42há dezenas de fotos preciosas,
19:44a recuperação de material de arquivo
19:45impressionante,
19:46e particularmente
19:48o que me chamou ainda mais a atenção
19:49foram as reproduções
19:50de manuscritos do Guimarães,
19:52tanto de cartas,
19:53de dedicatórios dos livros
19:55para a família,
19:56para familiares,
19:57como mensagens, cartas.
20:01Essa dedicatória que ele faz,
20:02por exemplo,
20:03do volume do Grande Sertão
20:04para o Roberto Assunção de Araújo
20:05é quase uma carta,
20:05mais do que uma dedicatória,
20:07ilustrada por ele.
20:08Então,
20:09eu acho esse material,
20:10eu considero esse material
20:11de imenso valor
20:13para quem quer conhecer,
20:14não apenas,
20:15como você falou,
20:17o escritor,
20:18mas o homem.
20:19Acho que o livro expõe
20:21muito desse lado
20:22menos conhecido
20:24do escritor
20:25João Guimarães Rosa.
20:26E dentro disso,
20:27eu queria te perguntar
20:28sobre esse contato
20:30com a família,
20:31porque a gente sabe
20:33que desde que foi promulgada
20:35a lei das biografias,
20:36então,
20:38atualmente,
20:39é possível escrever
20:41uma biografia
20:41sem autorização
20:42de familiares,
20:43sem o consentimento.
20:44Mas,
20:44pelo que a gente viu
20:45da edição do livro,
20:46você teve um apoio,
20:47me parece,
20:48quase restrito da família,
20:49porque eles cedem muitas...
20:50Eles também,
20:51por mais que você quisesse
20:52escrever um livro,
20:53eles poderiam não ceder
20:53o material para o livro,
20:54mas há muitas fotos
20:55de família.
20:56Como é que foi,
20:57então,
20:57o seu relacionamento
20:58com a família
20:59de Guimarães Rosa
21:00para a produção do livro?
21:02É porque a questão
21:04hoje é liberada
21:05de escrever
21:05sem autorização da família,
21:07mas sem a família
21:08é difícil escrever
21:08a biografia,
21:09porque é a família
21:10que guarda
21:11todas as fragilidades
21:13e todos os êxitos
21:14de um personagem.
21:17Mas, sabe,
21:18eu posso dizer assim,
21:20eu não tive dificuldades,
21:22eu tive apoios
21:23muito fortes.
21:24José Mário Pereira,
21:25que é um dos editores,
21:26que esse livro
21:26está saindo por duas casas,
21:27a Top Books,
21:28do José Mário Pereira,
21:29e a Nova Fronteira,
21:31do Jorge Carneiro.
21:32Então,
21:33o José Mário,
21:34ele fez um contato
21:36com pessoas
21:36que ele conhecia
21:37da família
21:38e aí eu comecei
21:39a entrar ali,
21:42especialmente
21:42com o João Emílio,
21:45a filha da Vilma,
21:46a Buse,
21:47a filha da Agnes,
21:48depois procurei também
21:49os testes
21:50do outro lado.
21:51Então,
21:51foi aos poucos
21:52e biografia
21:52é uma questão
21:53muito de confiança,
21:54você vai entrando
21:55e a base
21:56tem que ser muito boa,
21:58você não pode chegar
21:59a prometer.
22:00Você chegou chegando
22:01assim,
22:01se apresentando?
22:03É, fui.
22:03E deixando claro
22:04que eu ia fazer
22:05alguma coisa independente,
22:06porque se você fizer
22:07uma base
22:08cheia de promessas,
22:09não,
22:10vou fazer um negócio
22:11aqui sempre a favor
22:13do personagem,
22:14etc.
22:14você está construindo
22:15uma base ruim.
22:16Eles fizeram
22:16a leitura prévia
22:17da Buse?
22:18Não,
22:18não fizeram,
22:19mas eles foram
22:20muito presentes
22:21de enviar material,
22:24isso,
22:25porque às vezes
22:25a relação se dá assim,
22:27você começa a conversar,
22:28conversa,
22:29e é como se fosse
22:31um jogo,
22:31as pessoas começam
22:33a passar.
22:33É uma conquista,
22:34na verdade.
22:34É uma conquista
22:35de confiança.
22:35Eu acho que também
22:36havia uma necessidade
22:37talvez de fazer,
22:39sabe,
22:39e por parte deles
22:40também eles queriam
22:41ver algo,
22:43o início,
22:44né,
22:44de um trabalho
22:45de biografia,
22:46porque eu tenho certeza
22:46que vão vir outros projetos
22:47muito bons também
22:49e que,
22:50e a Guimarães Rosa,
22:51então,
22:52é um personagem infinito.
22:54E essa foi a minha
22:55relação com a família.
22:56Eu acho que
22:59as filhas do Guimarães Rosa,
23:01Vilma e Agnes,
23:02e Aracy,
23:03também da outra parte,
23:05elas atuaram muito
23:06como guardiãs
23:07de memórias.
23:09e a gente pode dizer,
23:12foram obstáculos,
23:13muitos da própria família
23:14acham que podem ter sido,
23:16mas,
23:17por outro lado,
23:18eles também
23:19não banalizaram
23:20uma obra
23:20que poderia ser banalizada,
23:22poderia ser mal construída.
23:24A obra do Guimarães Rosa
23:25está aí.
23:26Então,
23:26eu acho que a,
23:27então,
23:28a minha relação com eles
23:29foi tranquila.
23:29Teve bases ali,
23:31claro que,
23:31quando se coloca bases
23:32de muita transparência,
23:35a relação fica mais longa,
23:37né,
23:37porque é mais,
23:38a gente não chega,
23:39eu falei,
23:40ah,
23:40eu quero fazer uma,
23:41eu falei,
23:41bacana,
23:41não,
23:42eu quero fazer uma biografia
23:43independente.
23:44Então,
23:44foi,
23:46foi muito boa,
23:47foi uma experiência
23:47bem boa,
23:48a relação com eles.
23:48Era assim,
23:49eu,
23:50103 anos,
23:50felizmente também,
23:51quer dizer,
23:51um arquivo vivo,
23:53né?
23:53Um arquivo vivo,
23:54com uma história própria,
23:55né?
23:56É,
23:56pois é,
23:57foi um pouco ofuscada,
23:58pelo,
23:58diria assim,
23:59entre aço,
23:59pelo Guimarães,
24:01mas,
24:01teve o seu reconhecimento,
24:02pela importância dela,
24:03de dar,
24:03dar,
24:05ela foi assim,
24:05uma espécie de dona de casa,
24:07dos anos 50,
24:08se chamam,
24:08essa figura de dona de casa.
24:10E o papel dela,
24:11contra a Liano Getúlio,
24:12para dar fuga para os judeus,
24:14é uma coisa luta.
24:15Só que ela,
24:16ela,
24:16eu acho que ela entra para a história,
24:18independentemente do Guimarães Rosa.
24:19Sim.
24:20Ela,
24:21ela teve uma vida própria,
24:22de relação ao Guimarães Rosa.
24:23Assim como a Lígia,
24:24a primeira mulher também,
24:26depois de separação,
24:27foi tocar a vida,
24:28virou até amiga pessoal dele,
24:30até o final da vida,
24:31então...
24:32Inclusive,
24:32ele pedia,
24:33chegou a pedir conselho,
24:35para a ex-mulher,
24:35sobre o casamento dele,
24:36que ela falou,
24:37quando está aqui no livro,
24:38ela falou,
24:38não,
24:39aí é problema seu,
24:40nisso aí,
24:41eu não vou me meter.
24:42Exatamente.
24:43As mulheres dele,
24:44sempre foram muito,
24:45com vida própria.
24:46Quando o casamento dele estava em crise,
24:48com o Aracir,
24:49ele ia se aconselhar com a ex-mulher,
24:51que é uma coisa,
24:51exatamente,
24:53surpreendente.
24:54Leonel,
24:55qual é,
24:57você,
24:58desde o início dessa nossa conversa,
24:59está destacando,
25:00que você é um repórter,
25:01você é um jornalista,
25:02então você não tem,
25:03com a sua biografia,
25:05você até elencou alguns não,
25:06que você não é,
25:07mas o que você é,
25:08que é um jornalista.
25:09Então,
25:09como jornalista,
25:10você sabe muito bem disso,
25:11tanto no trabalho,
25:12num jornal diário,
25:13como um projeto de grande folio,
25:15como esse,
25:16que um dos maiores prazeres de nossa profissão,
25:19é quando a gente encontra algo,
25:20que a gente nem imaginava que estava procurando,
25:23ou que não sabia que ia encontrar.
25:25Qual foi a descoberta,
25:26que te deu uma grande realização,
25:28as descobertas,
25:29você falou,
25:29olha,
25:30está valendo a pena esse trabalho,
25:32e ter acesso a isso aí,
25:33foi um,
25:35está sendo uma grande realização.
25:37algumas,
25:37algumas foram até simples,
25:38se eu disser assim,
25:39você ia falar,
25:39poxa,
25:39isso não é nem uma grande descoberta,
25:42mas para mim,
25:43representou muito,
25:43como por exemplo,
25:44encontrar a dona Graciana,
25:46que é a bisavó materna dele,
25:48na história dele.
25:49É uma mulher que é citada,
25:52no discurso de posse da academia,
25:55três dias antes da morte dele,
25:56então quer dizer,
25:56que foi uma mulher importante na vida dele,
25:58e que muitos outros parentes
26:00não foram citados.
26:01E essa mulher era uma mulher negra,
26:03possivelmente uma escravizada,
26:05que teve um filho bastardo,
26:08e esse filho bastardo era o avô dele.
26:10Então, para mim,
26:11isso foi legal,
26:11porque trouxe um personagem
26:15que é o Brasil.
26:17E ele fala isso,
26:18Guimarães Rosa fala isso,
26:19Riobaldo é o Brasil.
26:21E a origem do Guimarães Rosa
26:24é esse cruzamento de etnias,
26:28de gente,
26:29não necessariamente de forma pacífica,
26:31às vezes de forma violenta.
26:33Então, encontrar a figura dela,
26:36importante,
26:36muito importante na vida dele,
26:39nessas pesquisas,
26:40foi interessante.
26:42Outra coisa que também,
26:43do ponto de vista pessoal,
26:45me marcou muito,
26:46que eu achei importante,
26:47eu acho que
26:48é uma série de áudios
26:52que eu consegui
26:52de um encontro que ocorreu em 1964,
26:55em Berlim,
26:56de encontro de escritores
26:58latino-americanos e alemães.
27:00E ali estava Guimarães Rosa,
27:03Jorge Luiz Borges,
27:04Miguel Anjo Astúrias,
27:05Gunter Graz,
27:07Rua Bastos.
27:09Então,
27:10figuras que fizeram a história
27:12da literatura
27:14no século XX.
27:16Encontrar áudios
27:19do encontro
27:19dessas figuras
27:20tão importantes,
27:21eu acho que
27:22deu um prazer imenso,
27:24porque ali
27:25eles estavam
27:26se revelando
27:27com a visão deles
27:29em relação à literatura,
27:30em relação ao mundo,
27:31no mundo polarizado,
27:33na época,
27:34e se a gente olhar para hoje,
27:36então,
27:36é um retrato também
27:37do mundo de hoje,
27:38então, para mim,
27:38esse foi outro momento
27:40interessante,
27:41para citar dois,
27:43assim.
27:44Bom,
27:44outra questão polêmica,
27:45de Adorim,
27:47voltando ao
27:48Grande Sertão,
27:49como está no livro,
27:52Grande Sertão,
27:53já causou estranhamento,
27:54começando pelo nome,
27:56Grande Sertão,
27:57Dois Pontos Veredas.
27:58Teve gente que falou assim,
27:59mas Dois Pontos Veredas
28:00quer dizer que vai ter
28:00uma continuação,
28:01Grande Sertão...
28:02Lúcio Cardoso,
28:03ficava na expectativa
28:05que haveria...
28:05Eu queria lembrar
28:06quem é Lúcio Cardoso.
28:07É, Lúcio Cardoso.
28:08Então,
28:09além desse estranhamento
28:11pela linguagem,
28:12pela inovação,
28:13me parece que
28:14um dos pontos mais polêmicos,
28:16ou talvez o mais polêmico,
28:17é a questão do Diadorim,
28:18que ele vem,
28:19aí você não sabe
28:20se foi o que,
28:21usando a palavra de hoje,
28:23foi uma pegadinha
28:24que ele quis fazer
28:25ou o que estaria por trás,
28:26que ele vem
28:27com aquela relação
28:29aparentemente
28:30homoafetiva,
28:31usando o termo de hoje.
28:33Anacrônico.
28:33É,
28:34e depois revela-se
28:35que Diadorim,
28:37ele revela no livro
28:38que Diadorim
28:38era uma mulher.
28:40Isso aí causou
28:41muitas reações,
28:42inclusive,
28:42como você cita também,
28:44a questão de homofobia,
28:45misoginia,
28:46isso,
28:47além do estranhamento
28:48da linguagem,
28:49esse estranhamento
28:50da questão
28:50do Diadorim,
28:51incomodou demais
28:52a crítica
28:53de todo mundo,
28:54porque já tinha resistência
28:55do Ferreira Goulart,
28:56da turma do Jatabê,
28:58que já não aceitava.
28:59Quando vem,
29:00então,
29:00com essa história
29:01de Diadorim,
29:02primeiro a relação
29:04de dois homens,
29:05depois uma mulher,
29:06como é que você
29:07viu esse estranhamento?
29:10Porque foi assim,
29:11ou odiava,
29:12ou amava,
29:13parece que não tinha
29:14meio termo
29:14com o Grande Sertão.
29:15Eu pego a pergunta,
29:17pego o ponto
29:18do Paulo
29:18e amplio
29:19para você comentar
29:20um pouco
29:20dessa,
29:21que está muito bem
29:22reproduzido no livro,
29:25dessa reação
29:26que hoje
29:26parece para a gente
29:27impensável
29:28ao Grande Sertão
29:28Veredas,
29:29que é considerado
29:31talvez,
29:32provavelmente,
29:33certamente,
29:33o grande romance,
29:34se há dúvida,
29:35sejam que Guimarães Rosa
29:36e Machado de Assis
29:37é o maior escritor brasileiro,
29:38mas parece,
29:39não há dúvidas
29:40que o Grande Sertão
29:40Veredas é o maior romance
29:41da história
29:42da literatura brasileira.
29:43Para evitar polêmicas,
29:44vamos dizer que é o maior romance
29:45da literatura brasileira
29:46do século XX,
29:47porque aí a gente
29:47deixa o dono
29:49casu no século XIX.
29:50Machado merece.
29:51Exatamente,
29:52e podemos ir dessa forma.
29:54Mas,
29:54o que é muito bem documentado
29:56no seu livro,
29:57Leoneste,
29:58é que o livro
30:00provocou reações divisivas,
30:01não foi unanimidade.
30:05Então,
30:05eu queria que você
30:05comentasse um pouco
30:06sobre isso
30:06e algumas críticas
30:07eram muito ferozes.
30:08Muito,
30:08é.
30:09Nós estamos falando
30:10de um universozinho
30:12intelectual
30:13de gente de cabeça
30:14muito aberta.
30:15Pois é.
30:18Mas,
30:19para deixar muito claro,
30:20porque às vezes
30:20as leituras anacrônicas
30:22são complicadas,
30:23a gente enxergar
30:24e tal,
30:25olhar.
30:25É claro que a literatura
30:26é aberta e penitiva.
30:28permite a gente ter
30:28esse olhar de hoje.
30:30Que hoje é um discurso
30:32de gênero,
30:32um discurso que está aí,
30:33etc e tal.
30:35Só uma parte
30:36do nome,
30:36que foi de Ciro dos Anjos,
30:37do amanuense Belmiro,
30:39que fez a piadinha
30:40sobre a suposta
30:42homossexualidade.
30:42que você conta no livro.
30:43Foi,
30:44e Jorge Amado bateu nele.
30:45É,
30:45e Jorge Amado
30:46não gostou.
30:47Mas, assim,
30:48vamos olhar o tempo.
30:49Aquele momento,
30:50um homem,
30:53Guimarães Jorge,
30:54tinha os seus quase
30:5450 anos ali,
30:57tinha uma boa posição
30:58política,
30:59porque ele tinha
30:59um cargo importante
31:00no Itamaraty,
31:01um homem
31:02com boa
31:04circulação
31:05no meio cultural,
31:06respeitado,
31:07entre aspas,
31:08por todo mundo.
31:10E, no Brasil
31:11dos anos 50,
31:13faz um romance
31:14longo,
31:15longo,
31:16longo,
31:16longo,
31:16e que,
31:17até o final,
31:18é um romance
31:19da história
31:20de um amor
31:21entre dois jagunços.
31:22Pois é.
31:23Aí vem a surpresa.
31:25No final,
31:26vira outra coisa,
31:27igual aquele filme
31:27de Rambo.
31:28Rambo apanha,
31:29apanha,
31:29apanha,
31:29até o final,
31:30no final,
31:30ele bate,
31:31ganha.
31:32Então,
31:33no final,
31:34vira um amor
31:34de um homem
31:35e de uma mulher.
31:36Mas,
31:37até o final,
31:38a maior parte
31:39do livro
31:39era um amor
31:40entre dois jagunços.
31:42Foi um ato corajoso.
31:44Sim.
31:44Por que foi um ato corajoso?
31:46E a gente tem como medir
31:47essa coragem do Rosa.
31:49Porque,
31:50nos anos 60,
31:51fizeram a primeira versão
31:53do Grande Sertão Vereza
31:54para o cinema.
31:56E, de cara,
31:58de Adorim se revela a mulher.
32:00É revelado
32:00que é de Adorim a mulher.
32:02Nos anos 80,
32:04a TV Globo
32:05faz o que,
32:05para mim,
32:06é uma das obras
32:07primas
32:08da televisão brasileira.
32:10Talvez,
32:11junto com
32:12a série
32:13O Tempo e o Vento,
32:14a grande obra
32:15que a TV brasileira
32:17produziu,
32:17que é a série
32:19Grande Sertão Veredas.
32:21Mas que tem um spoiler
32:22na escalação do elenco.
32:23Pois é.
32:25E aquela
32:25da beleza
32:26da Bruna Lombardi,
32:29será que
32:29enganou alguém
32:30que não seria mulher?
32:32Mas acho que mais do que a beleza dela,
32:33mas é que a Bruna Lombardi
32:34já estava consagrada
32:35como uma atriz
32:36de rara beleza
32:38na TV.
32:38Então,
32:39não era uma desconhecida.
32:40não havia...
32:41Por isso que eu falei,
32:42já era um spoiler,
32:42a presença dela...
32:44Desde o início
32:44já entrega.
32:45O que você está querendo destacar,
32:46Leonício,
32:46é que mesmo as adaptações
32:48que vieram muito tempo depois
32:50não bancaram
32:52esse mistério
32:53até a última página.
32:55E hoje,
32:56bancaria também?
32:57Com esse Brasil polarizado,
33:00com essas taxas
33:01de matança
33:02por questões
33:03de gênero,
33:04etc e tal,
33:06é difícil aceitar isso,
33:08mas nós
33:10ainda temos dificuldade
33:11de ler
33:13Um Grande Sertão
33:14de uma forma
33:15que está aí,
33:16está colocada.
33:17Nesse sentido,
33:17ainda causa estranheza.
33:19Causa estranheza.
33:20Agora,
33:20o que eu acho
33:20mais fantástico,
33:21sabe o que que é?
33:23É que o Guimarães Rosa,
33:24ele tinha muitas relações,
33:27era um mulherengo ali,
33:29de mulheres
33:29com as mulheres e tal,
33:31mas quando vinha
33:31essa discussão,
33:32ele estava em outro patamar.
33:35Ele, como escritor,
33:36ele escreveu essa obra,
33:38entendeu?
33:38Para ele,
33:39é importante,
33:40importante não era ser
33:41o ser humano,
33:42importante,
33:43eu volto a falar
33:43aquilo que eu falei antes,
33:44era ser o escritor.
33:46É,
33:46ele era muito vaidoso,
33:47assim,
33:48a decepção,
33:49primeiro,
33:50o que você conta,
33:51que os casos
33:51de segundo lugar
33:52que ele ficou,
33:53né?
33:55Na ABL,
33:56nos concursos,
33:57a história do Maria Perigosa,
33:59do livro,
34:00e ele fazia questão
34:02de entrar para a vida.
34:02Fazia questão,
34:03mas só que nessa questão,
34:04por exemplo,
34:04para ele,
34:05o mais importante
34:05era ter uma obra forte,
34:08que era essa relação
34:09entre os dois jaguns,
34:10isso que era o mais importante.
34:11curioso.
34:11Ele escrevia,
34:12desculpa te interromper,
34:13ele escrevia para o futuro,
34:15Guimarães Rosa.
34:16Curioso,
34:16gente,
34:16que ele não gostava,
34:17como diziam,
34:18que era uma obra difícil,
34:19que o livro dele é difícil,
34:21Tinha um pavor,
34:21ficava.
34:23Teve uma piada
34:24que o pessoal fazia,
34:25que não bastava traduzir
34:29para o alemão
34:31a obra dele,
34:32mas também para o português.
34:34Ele ficava
34:35virado.
34:37Guimarães Rosa,
34:37ele mesmo falava
34:38de que a própria literatura dele
34:41e o próprio fazer
34:42do Grande Sertão,
34:44ele,
34:45de certa forma,
34:45atribuía a um transcendental,
34:47que teve um momento
34:48que ele foi tomado
34:49pela escrita do livro.
34:51E ele fazia
34:52uma conexão
34:53entre esses mistérios
34:54e a própria religiosidade,
34:55que você também
34:56esmiúça muito,
34:57de uma forma muito detalhada
34:58no livro,
34:59a questão da religiosidade
35:00da religião católica,
35:01mas também
35:02de outras influências.
35:04O próprio Paulo
35:05está com a camisa
35:05do Fausto.
35:06Olha essa camisa aí.
35:08A camisa que é considerada
35:09do Fausto sertanejo.
35:11Uma das esperanças.
35:12Me parece que
35:13nessa entrevista
35:14de jornalizar o livro
35:15ele fala
35:15que o Grande Sertão
35:17seria uma espécie
35:18de Fausto sertanejo,
35:19não é isso?
35:20Isso.
35:21Que você revela
35:22no livro que ele leu
35:23em BH,
35:23se não me engano.
35:24Que ele leu em BH
35:25a primeira versão.
35:26Primeira vez.
35:27Mas, assim,
35:28diante de tudo isso,
35:30qual é o mistério
35:32de Guimarães Rosa
35:33que você não conseguiu
35:34esclarecer?
35:36O que você gostaria
35:39de perguntar para ele
35:40que você não conseguiu
35:41esclarecer no livro?
35:42Você sabe que...
35:43Buscar a resposta
35:44no livro.
35:44Você sabe que
35:45nessa relação biófila
35:47e biografada
35:48você sempre está diante
35:48do seu personagem ali.
35:51Eu acho que eu pude fazer
35:53várias perguntas
35:54para ele.
35:55Claro,
35:56ele...
35:57Imaginários.
35:58Muitas vezes
35:59ele não se apresentou,
36:01não se colocou,
36:02não respondeu,
36:03não é?
36:04Mesmo encantado.
36:05É, mesmo encantado.
36:06Mas eu acho que
36:07a essência,
36:10assim,
36:10o que me chama
36:11muita atenção,
36:12não sei se é o mistério
36:14em si,
36:15mas como que
36:17esse homem
36:20transformou
36:20a violência brasileira,
36:22a brutalidade brasileira,
36:24e vocês dois
36:24são os dois jornalistas,
36:25vocês sabem
36:26que a violência
36:27está nas nossas
36:28grandes cidades,
36:29está no interior,
36:30está no Brasil inteiro,
36:31nós somos uma...
36:32temos uma formação
36:33sangrenta.
36:35Como ele transformou
36:36isso em poesia?
36:37Poesia,
36:38arte,
36:38de uma forma
36:40surpreendente.
36:40Surpreendente.
36:41E, às vezes,
36:42e essa crítica a ele,
36:43que ele faz uma obra,
36:45a obra dele é difícil,
36:47eu procurei fazer
36:48um exercício,
36:49dar alguns contos
36:51nos cursinhos
36:52que eu dava
36:52para jovens indígenas
36:54para ver o que eles achavam
36:56e tinha uma conexão
36:57muito forte
36:59em contos
37:00como, por exemplo,
37:00a Terceira Margem
37:01do Rio,
37:02não com os trechos,
37:05não com a sequência
37:05de trechos,
37:06mas com aquele universo
37:07que o Guimarães Rosa
37:08soltava.
37:09Talvez por palavras
37:11que eram as palavras
37:12desses indígenas,
37:13que eram as mesmas palavras
37:14que ele usava,
37:16ou pelo cenário.
37:18Eu acho que o Rosa
37:20tem uma conexão
37:21muito forte
37:22com a vida brasileira,
37:23com os brasileiros,
37:24de uma forma geral.
37:25Eu não falo só mineiro,
37:26não.
37:26Eu falo pantaneiro,
37:27falo pessoal dos amazônicos.
37:28E parece que ele fazia
37:29questão disso.
37:30Fazia, ele trazia,
37:32ele reunia essas linguagens todas.
37:34E, no primeiro momento,
37:35claro, a leitura
37:36está cada vez mais difícil,
37:38é cada vez mais difícil ler.
37:39Eu estava comentando
37:40com os colegas,
37:41antes eu lia muito à noite,
37:42hoje estou lendo menos.
37:44O computador está aí,
37:45o celular está aí,
37:46a gente lê menos.
37:47Abrir um livro do Rosa,
37:48é difícil,
37:49claro que é.
37:50Todos nós sabemos,
37:51eu acho difícil.
37:52Só que quando você
37:54faz esse exercício,
37:56se joga ali,
37:57fala,
37:57não, eu vou passar
37:58da primeira página,
37:59da segunda,
38:00quando você entra
38:01na arena dele,
38:02que ele quer jogar,
38:04ali você começa
38:05a se conectar
38:07ao mundo mágico,
38:09que é o mundo
38:10da literatura.
38:11Eu não falo
38:12não só Guimarães Rosa,
38:13como o Garcia Marques,
38:14como o Vargas Roça,
38:15como outros grandes autores,
38:16mas no caso do Rosa,
38:18especialmente,
38:19porque fica fácil.
38:22E, às vezes,
38:22o problema da leitura,
38:24e também a gente aprende
38:25muito isso na nossa escola,
38:27isso tem um efeito colateral
38:29da escola,
38:30tem que ter uma razão,
38:31tem que ter uma explicação,
38:32tem que ter uma compreensão,
38:34e nem sempre a literatura
38:35tem explicação,
38:37tem razão.
38:37A gente não lê um livro,
38:39não aprende que a leitura
38:40é uma forma de você
38:43estar com os olhos
38:45no papel
38:46e criando
38:47sua própria realidade,
38:49sua própria história,
38:50independente até
38:51da história do autor.
38:52Isso é literatura.
38:54E, às vezes,
38:55se a gente aprendesse
38:57isso desde cedo,
38:58a gente não ia entender
38:58que isso é algo difícil.
39:00Entendeu?
39:00Então, se a gente lê
39:02essa literatura com mais calma.
39:04Só que,
39:04quando você vai mergulhar
39:05na obra do Rosa,
39:06você encontra o Brasil.
39:08Leonêncio,
39:09a gente poderia ficar horas
39:11conversando sobre
39:12sua biografia,
39:13sobre o seu trabalho.
39:14E acho que todos nós
39:16somos fãs,
39:18não só da obra
39:20de Guimarães Rosa,
39:21mas de um trabalho
39:22de excelência,
39:23como você faz
39:24nessa biografia.
39:25A gente,
39:25por experiência,
39:27conhece o trabalho
39:28que dá
39:29se dedicar
39:30praticamente a uma vida,
39:32a uma outra vida.
39:33E eu acho que é o momento
39:34da gente agradecer
39:35a você por ter feito
39:36esse trabalho.
39:38E dizer que
39:41como você falou,
39:42tem muitas minas
39:42aqui dentro,
39:43mas tem muitas pessoas
39:44também aqui dentro
39:45desse livro.
39:45Então, volto a dizer,
39:46para quem ainda
39:47não teve o acesso,
39:49esta é a biografia
39:51João Guimarães Rosa,
39:52mais de 700 páginas,
39:54736 páginas,
39:55lançamento das editoras
39:56Nova Fronteira
39:57e Top Books.
39:58É um dos grandes
39:59acontecimentos editoriais
40:01do ano e é um livro
40:02que vai ficar
40:03como ficou entre nós
40:05a obra de João Guimarães Rosa.
40:07E para isso,
40:07queria agradecer
40:08a presença do Paulo
40:09aqui com a gente
40:10nessa conversa
40:10e terminar
40:12com a seguinte frase
40:14do Guimarães,
40:15que é uma das mais célebres dele
40:16e a partir dela
40:17fazer uma última pergunta
40:18para você.
40:19As pessoas não morrem,
40:21ficam encantadas,
40:23disse o autor
40:24de Grande Sertão Veredas.
40:25Qual é,
40:26na sua opinião,
40:27o maior encanto
40:28de João Guimarães Rosa?
40:31O maior encanto
40:33é que ele
40:35ensina
40:36que a gente tem que
40:38contemplar mais o outro,
40:41ouvir mais o outro
40:42e não apenas
40:45dialogar,
40:46não apenas
40:47impor,
40:48não apenas pedir.
40:50Todo dia
40:51a gente está pedindo
40:52muitas pessoas,
40:52as pessoas mais próximas
40:54e às vezes a gente esquece
40:55de contemplar.
40:56E o Guimarães Rosa,
40:59a essência da obra dele
41:01é a contemplação do outro,
41:02seja o jagunço,
41:03seja a moça do inferninho,
41:04seja o menino do interior,
41:06seja a pessoa mais simples
41:07ou a pessoa mais graduada,
41:09o coronel,
41:10ele sempre está
41:11colocando o outro
41:12como um ser
41:13para ser admirado
41:14e respeitado,
41:16a ponto
41:16de enxergar
41:19vocabulários
41:19tão
41:21complicados,
41:21tão arcaicos,
41:23tão difíceis,
41:25entre aspas,
41:26tão ruins,
41:28palavras maravilhosas
41:29que vão encantar,
41:30encantam até hoje
41:31críticos do mundo afora
41:33e leitores do mundo afora
41:34que estão
41:35nas bocas
41:36dos seus personagens.
41:37Isso ele encontrou
41:39contemplando as pessoas,
41:41das mais simples
41:42às mais graduadas.
41:42Isso é atemporal,
41:44isso vai e vem
41:44para ficar.
41:45É, vai e vai ficar.
41:47E, por fim,
41:47eu só queria agradecer
41:48a oportunidade de vocês
41:50e dizer que
41:51esse livro aí,
41:52como você bem
41:53ressaltou,
41:54faz parte dessa
41:55tradição nossa
41:55do dia a dia
41:56do jornalismo,
41:57não mais do que isso.
41:59É uma leitura
42:00prévia de Guimarães Rosa,
42:01que é um autor
42:01muito profundo,
42:02mas todo dia
42:03a gente constrói
42:04a história,
42:05nós jornalistas,
42:06e é isso aqui.
42:08A gente agradece
42:09então a presença
42:10do Leonencio Nossa,
42:12biógrafo de Guimarães Rosa,
42:13neste espaço
42:15do podcast
42:15O Pensar,
42:16que é o espaço
42:16de livros e ideias
42:18que está toda semana
42:19na edição de fim de semana
42:20do Estado de Minas,
42:21na edição impressa,
42:22e no nosso site
42:23atualizado diariamente
42:24no em.com.br
42:26e no portal UI.
42:27Queria agradecer
42:28ao Paulo Nogueira
42:28pela presença,
42:29agradecer novamente
42:30ao Leonencio Nossa
42:31e agradecer a presença
42:33do nosso anfitrião
42:35aqui dessa nossa conversa,
42:36que guiou o nosso papo,
42:37espero que ele tenha
42:38ficado satisfeito
42:39com o nosso papo,
42:40com a nossa prosa,
42:41João Guimarães Rosa,
42:43e é para ele
42:43que foi essa nossa conversa,
42:45essa nossa entrevista.
42:46Até a próxima oportunidade,
42:48um grande abraço.
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