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  • há 2 semanas
Famílias de Vitória, que perderam seus filhos nas décadas de 1960, enfrentam um drama doloroso ao não aceitarem as mortes, acreditando que as crianças foram levadas. Muitas mães relatam que seus filhos, internados com sintomas leves, faleceram sem que fossem fornecidos atestados de óbito ou corpos para sepultamento, sendo enterrados como indigentes em valas comuns. […]

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Transcrição
00:05O drama de famílias que não acreditam na morte dos filhos.
00:09Eu não creio que ela morreu. Nas condições que ela estava bem, eu acredito que ela foi levada. Não só
00:17ela, não só ela.
00:22Mães que receberam a notícia da morte de seus filhos, mas nunca enterraram as crianças.
00:28Então não teve certidão de óbito, não teve documentação nenhuma entregue pelo hospital.
00:35Eu quero muito encontrar se ele estiver vivo, né?
00:39Eles procuraram dentro do hospital todo a criança e não acharam.
00:46Eles falaram que o menino tinha morrido no mesmo dia que eu internei.
00:51E eles enterraram a criança no sábado.
00:54E simplesmente falaram pra ela, a criança morreu e já foi enterrada.
01:11Na segunda reportagem da série Cadê Meu Bebê, você vai conhecer tudo o que a nossa investigação jornalística descobriu
01:20sobre o que de fato acontecia no Hospital Infantil de Vitória na década de 1960.
01:25A partir de agora, você vai entender ponto a ponto, porque novas informações obtidas por nossa reportagem
01:34reforçam a desconfiança dos familiares sobre o real destino de seus filhos.
01:47Todos os bebês mostrados nesta série são do interior do estado, de famílias simples.
01:53Bebês brancos, loiros, dos olhos claros.
01:57Segundo as mães, eles eram levados ao hospital com sintomas leves, mas mesmo assim, acabavam internados.
02:04Poucos dias depois, as famílias recebiam a notícia da morte.
02:09Não havia corpo, atestado de óbito, nem ao menos enterro.
02:14E assim, é uma gracinha ele, branquinho, olho clarinho e lindo, na verdade, loirinho.
02:26Todos nós somos branquinhos, né?
02:29De criança, bem loirinho, de cabelo bem clarinho.
02:32Ele era clarinho, dos olhos verdes.
02:41Durante meses, nossa produção vasculhou o arquivo público da Prefeitura de Vitória.
02:47Dezenas de livros civis com registros de óbitos da década de 60 foram analisados.
02:53O número de morte de bebês com poucos dias ou meses de vida impressiona.
02:59Em um único dia, em um mesmo cemitério, 13 bebês foram enterrados.
03:04Por mês, 90.
03:07E em um ano, 783.
03:17Ao receberem a notícia da morte de seus filhos, as famílias alegam a falta do básico.
03:23Não havia laudo da morte ou atestado de óbito.
03:27Mas o que chama mais atenção é que, oficialmente, mesmo com família, os bebês eram enterrados como indigentes em valas
03:35comuns.
03:36Os familiares sequer viram os corpos ou visitaram um túmulo.
03:41A nossa investigação no Arquivo Morto mostrou novos números intrigantes.
03:45Somente no ano de 1965, 15 bebês foram enterrados como indigentes na capital em um único dia.
03:54E 508 naquele mesmo ano.
03:57Não tem como enterrar uma criança como indigente.
04:01Eu acho que ninguém pode enterrar uma criança com três dias de falecido sem a ordem de pai e mãe
04:10e dizer que está enterrando como indigente.
04:13Se ele tivesse morrido, podia falar onde enterrou, ter uma certidão de óbito, levar até o cemitério, alguma coisa.
04:28O nome Milton Gomes de Amorim é um mistério e peça-chave nessa história.
04:34Embora completamente desconhecido da família, foi declarante de óbito de Angélica Ollunder e de outras centenas de crianças enterradas no
04:44cemitério de Maruípe na década de 60.
04:48As investigações apontam que Milton seria motorista do hospital infantil naquela época e moraria de favor num quartinho nos fundos
04:57da instituição.
04:58Segundo o nosso levantamento, Milton declarou 30 mortes de bebês em média por mês em 1966 e chegou a declarar
05:09279 no mesmo ano.
05:12Esse Milton foi declarante em 279 certidão só no ano de 66.
05:22Eu pude ver no arquivo morto, tinha crianças lá que eram falecidas a uma hora da tarde e às quatro
05:29horas estavam enterradas.
05:39Depois de uma incansável batalha por respostas, somente após ordem judicial, as famílias conseguiram 20 anos depois os atestados de
05:48óbito dos bebês.
05:49Foi então que uma informação gerou surpresa.
05:52O médico que assinou as mortes das crianças desta reportagem era o mesmo, Carlos de Faria, que segundo as famílias,
06:00assinou um atestado que nem sequer a data da morte estava correta.
06:05No óbito fala assim que ela morreu no dia 15 de setembro de 66, 15 de setembro de 66.
06:13No dia 16, eles lá foram fazer, registrar o óbito.
06:18Um declarante que a gente não sabe quem é, até então a gente não sabia nem quem era a pessoa,
06:22totalmente desconhecida a família.
06:24Eu imaginava comigo que 15, 16, 17 seria sábado, domingo e segunda.
06:30Eu pensando comigo, né?
06:32Aí eu conversei com meu pai, que horas no sábado você viu a menina viva?
06:36Ele falou lá para as 10 horas.
06:38Eu falei, peraí, tá começando a ficar errado esse negócio.
06:40Então meu pai já devia ter visto ela morta.
06:43Pedi alguém para bater as datas.
06:45Esse dia 15 de setembro de 66 é um dia de quinta-feira.
06:49Então não existe a possibilidade dela ter morrido numa quinta-feira.
06:52Se meu pai viu ela no sábado viva, bem, bem, domingo não foi, então segunda-feira já estava enterrada.
07:02Então aí foi cada vez na minha cabeça, peraí, tem alguma coisa errada.
07:12Somente mais de 30 anos após os acontecimentos, a polícia entrou no caso.
07:17Por isso, informações apuradas pela nossa reportagem deixam claro que ações externas
07:23atrapalharam os trabalhos dos investigadores da Delegacia de Pessoas Desaparecidas da Polícia Civil na época dos registros.
07:32Dificuldades, como o desaparecimento de certidões de óbito,
07:36falta de empenho e interesse de delegados em investigar e o fato das histórias serem antigas.
07:45O que se tem hoje ainda está muito longe de oferecer respostas às famílias.
07:52A gente conseguiu ouvir uma pessoa envolvida, que trabalhava no hospital, na Santa Casa,
08:01identificar quem era o médico e com algumas informações também de colaboradores,
08:08a gente vai atrás, identificar sobre a quantidade de óbitos referente àquele ano,
08:15que chamou muita atenção.
08:16Então a gente precisa avançar com os cartórios, ouvir outras pessoas, procurar outras pessoas,
08:21porque o caso é muito antigo, então precisa identificar os endereços das pessoas ainda que são vivas,
08:26devido ao espaço temporal.
08:28Nós estamos falando aí de 30, 40 anos, 50 anos.
08:32É muito mais complicado.
09:01É muito mais complicado.
09:30E na repórter,
09:33reportagem de amanhã, as buscas e respostas dos principais personagens dessa história.
09:39O que diz o Estado a essas famílias?

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