00:00No primeiro episódio da série Cadê Meu Bebê, você conheceu a história de três famílias que não acreditam na morte
00:07dos próprios filhos e irmãos.
00:09Na reportagem de hoje, a gente vai mostrar porque é tão difícil acreditar na versão oficial dada a essas famílias.
00:18E a gente vai descobrir juntos que as evidências assustam.
00:21É a parte do trabalho dos jornalistas, né?
00:24Tiago Brunieira, Natália Munhão e Maíra Bandeira.
00:27Você vai ver. Veja, vem comigo. Vem, bora lá.
00:36O drama de famílias que não acreditam na morte dos filhos.
00:40Porque eu não creio que ela morreu. Nas condições que ela estava bem, eu acredito que ela foi levada.
00:47Não só ela, não só ela.
00:53Mães que receberam a notícia da morte de seus filhos, mas nunca enterraram as crianças.
01:00Então, não teve certidão de óbito, não teve documentação nenhuma entregue pelo hospital.
01:06Eu quero muito encontrar se ele estiver vivo, né?
01:09Eles procuraram dentro do hospital todo a criança e não acharam.
01:16Eles falaram que o menino tinha morrido no mesmo dia que eu internei.
01:22E eles enterraram a criança no sábado.
01:25E simplesmente falaram pra ela, a criança morreu e já foi enterrada.
01:42Na segunda reportagem da série Cadê Meu Bebê, você vai conhecer tudo o que a nossa investigação jornalística descobriu
01:51sobre o que de fato acontecia no Hospital Infantil de Vitória na década de 1960.
01:56A partir de agora, você vai entender ponto a ponto porque novas informações obtidas por nossa reportagem
02:05reforçam a desconfiança dos familiares sobre o real destino de seus filhos.
02:18Todos os bebês mostrados nesta série são do interior do estado, de famílias simples.
02:24Bebês brancos, loiros, dos olhos claros.
02:28Segundo as mães, eles eram levados ao hospital com sintomas leves, mas mesmo assim, acabavam internados.
02:36Poucos dias depois, as famílias recebiam a notícia da morte.
02:40Não havia corpo, atestado de óbito, nem ao menos enterro.
02:45E assim, é uma gracinha ele.
02:49Branquinho, olho clarinho e lindo, na verdade.
02:55Loirinho, todos nós somos branquinhos, né?
02:59De criança, bem loirinho, de cabelo bem clarinho.
03:02Ele era clarinho, dos olhos verdes.
03:12Durante meses, nossa produção vasculhou o arquivo público da Prefeitura de Vitória.
03:18Dezenas de livros civis com registros de óbitos da década de 60 foram analisados.
03:24O número de morte de bebês com poucos dias ou meses de vida impressiona.
03:29Em um único dia, em um mesmo cemitério, 13 bebês foram enterrados.
03:35Por mês, 90.
03:37E em um ano, 783.
03:48Ao receberem a notícia da morte de seus filhos, as famílias alegam a falta do básico.
03:54Não havia laudo da morte ou atestado de óbito.
03:57Mas o que chama mais atenção é que, oficialmente, mesmo com família, os bebês eram enterrados como indigentes em valas
04:06comuns.
04:07Os familiares sequer viram os corpos ou visitaram um túmulo.
04:11A nossa investigação no arquivo público mostrou novos números intrigantes.
04:16Somente no ano de 1965, 15 bebês foram enterrados como indigentes na capital em um único dia.
04:24E 508 naquele mesmo ano.
04:28Não tem como enterrar uma criança como indigente.
04:31Eu acho que ninguém pode enterrar uma criança com três dias de falecido sem a ordem de pai e mãe
04:41e dizer que está enterrando como indigente.
04:43Se ele tivesse morrido, podia falar de enterrou, ter uma certidão de óbito, levar até o cemitério, alguma coisa.
04:59O nome Milton Gomes de Amorim é um mistério e peça-chave nessa história.
05:04Embora completamente desconhecido da família, foi declarante de óbito de Angélica Ollunder e de outras centenas de crianças enterradas no
05:15cemitério de Maruípe na década de 60.
05:18As investigações apontam que Milton seria motorista do hospital infantil naquela época e moraria de favor num quartinho nos fundos
05:28da instituição.
05:29Segundo o nosso levantamento, Milton declarou 30 mortes de bebês em média por mês em 1966 e chegou a declarar
05:40279 no mesmo ano.
05:43Esse Milton foi declarante em 279 certidão só no ano de 66.
05:52Eu pude ver no arquivo morto, tinha crianças lá que eram falecidas a uma hora da tarde, às quatro horas
06:00estavam enterradas.
06:10Depois de uma incansável batalha por respostas, somente após ordem judicial, as famílias conseguiram 20 anos depois os atestados de
06:19óbito dos bebês.
06:20Foi então que uma informação gerou surpresa.
06:23O médico que assinou as mortes das crianças desta reportagem era o mesmo, Carlos de Faria, que segundo as famílias,
06:31assinou um atestado que nem sequer a data da morte estava correta.
06:36No óbito fala assim que ela morreu no dia 15 de setembro de 66, 15 de setembro de 66.
06:44No dia 16, eles lá foram fazer, registrar o óbito, um declarante que a gente não sabe quem é, até
06:51então a gente não sabia nem quem era a pessoa, totalmente desconhecida a família.
06:54Eu imaginava comigo que 15, 16, 17 seria sábado, domingo e segunda.
07:01Eu pensando comigo, né?
07:03Aí eu conversei com meu pai, que horas no sábado você viu a menina viva?
07:07Falei, olá para as 10 horas.
07:08Falei, peraí, está começando a ficar errado esse negócio.
07:11Então meu pai já devia ter visto ela morta.
07:14Pedi alguém para bater as datas.
07:15Esse dia 15 de setembro de 66 é um dia de quinta-feira.
07:20Então não existe a possibilidade dela ter morrido numa quinta-feira.
07:23Se meu pai viu ela no sábado viva, bem, bem, domingo não foi, então segunda-feira já estava enterrada.
07:33Então aí foi cada vez na minha cabeça, peraí, tem alguma coisa errada.
07:43Somente mais de 30 anos após os acontecimentos, a polícia entrou no caso.
07:48Informações apuradas pela nossa reportagem deixam claro que ações externas atrapalharam os trabalhos dos investigadores da delegacia de pessoas desaparecidas
08:00da Polícia Civil na época dos registros.
08:02Dificuldades, como o desaparecimento de certidões de óbito, falta de empenho e interesse de delegados em investigar e o fato
08:12das histórias serem antigas.
08:15O que se tem hoje ainda está muito longe de oferecer respostas às famílias.
08:22Então a gente conseguiu ouvir uma pessoa envolvida, que trabalhava no hospital, na Santa Casa,
08:32identificar quem era o médico e com algumas informações também de colaboradores, a gente vai atrás,
08:41identificar sobre a quantidade de óbitos referente àquele ano que chamou muita atenção.
08:46Então a gente precisa avançar com os cartórios, ouvir outras pessoas, procurar outras pessoas,
08:52porque o caso é muito antigo, então precisa identificar os endereços, as pessoas ainda que são vivas, devido ao espaço
08:58temporal.
08:59Nós estamos falando aí de 30, 40 anos, 50 anos. É muito mais complicado.
09:27E a gente precisa avançar com os cartórios, a gente precisa avançar com os cartórios,
10:00E a gente precisa avançar com os cartórios, a gente precisa avançar com os cartórios,
10:03Portagem de amanhã, as buscas e respostas dos principais personagens dessa história.
10:10O que diz o Estado a essas famílias?