00:00Agora nossa reportagem especial numa das regiões mais pobres do país.
00:04Crianças e adolescentes são aliciadas sexualmente em troca de dinheiro, comida e até óleo diesel.
00:11O combustível tem tanto valor no arquipélago do Marajó que é chamado de ouro negro pelas autoridades.
00:18O preço é tão alto que muitas famílias têm que escolher entre comprar diesel ou comida.
00:30O barco que avança pelo rio Tajapuru tem cinco canoas amarradas na lateral.
00:37Reparem na primeira, perto da proa.
00:41Duas crianças descem com o barco em movimento.
00:46Vão fazer uma manobra arriscada, afastar-se usando apenas o arranque do pequeno motor.
00:56As meninas demonstram grande perícia.
01:03O entra e sai das embarcações que navegam na região do Marajó é constante.
01:12Vídeos de passageiros mostram o perigo visto de dentro dos barcos.
01:17As crianças querem fazer comércio com passageiros e tripulantes na base da troca.
01:27Vejam que impressionante.
01:29Com um gancho, são cinco tentativas até que o menino consegue fisgar um pneu.
01:44Neste ouro flagrante...
01:46Te segura, te segura!
01:48A luta é ainda maior, mas a água começa a encher o barco, assustando o menorzinho.
01:58O que acontece?
02:00Puxa mais pra lá!
02:02Puxa mais pra lá!
02:06Ele perdeu grande parte da mercadoria, mas sobreviveu.
02:14Depois de uma grande batalha, um dos meninos finalmente consegue subir no barco.
02:21Ele vai vender palmito.
02:30Navegando pelo rio Tajapuru, encontramos dois meninos remando.
02:35Eles têm 9 e 11 anos de idade e estavam seguindo as balsas.
02:40Quem te deu essa bolacha?
02:41Foi aí nessa bolacha que tá encostada aí.
02:44Essa balsa aqui?
02:45Eles te deram?
02:46O que eles dão mais pra vocês?
02:48Dão comida.
02:50E mais o que é?
02:52Comida, vou lá.
02:53Café e açúcar.
02:54Café e açúcar.
02:56O que eles pedem?
02:57Camarão.
02:59Balsas carregadas de caminhões.
03:02Contêineres são comuns nessa rota entre Manaus e Belém.
03:06Capitais que não são ligadas por rodovia.
03:10Este vídeo foi feito durante uma investigação policial.
03:15Cinco meninas perseguem uma balsa carregada de caminhões.
03:22Uma das menores se equilibra até subir na balsa.
03:27O Ministério Público do Pará proibiu esse tipo de visita por causa do risco de exploração sexual.
03:35O depoimento que nós já ouvimos é de que as próprias famílias, por questões financeiras, induzem essas crianças a irem
03:45aos rios.
03:46E é algo feito que meio de improviso.
03:50Qualquer pessoa que ali estiver passando, as meninas ofereceriam então em troca de dinheiro ou em troca de óleo.
03:59Na região do Marajor, no Pará, a exploração sexual de crianças e adolescentes é um problema tão grave que foi
04:08investigado por uma comissão parlamentar de inquérito.
04:11Ela concluiu que entre 2005 e 2009, 100 mil crianças paraenses sofreram violência, abuso ou exploração sexual.
04:2418% delas entre os 6 e os 10 anos de idade.
04:29Então a CPI teve seus resultados inegáveis, mas os problemas continuam ainda muito graves no Pará.
04:36O Pará é um estado rico, grande exportador de minérios, de energia, sementes e frutas.
04:45Mas pouco desta riqueza fica para a população local.
04:50Perto de Belém, a família Ribeirinha garante a renda, transformando o cacau em chocolate orgânico.
04:58Um grande sucesso entre os turistas.
05:08Mas é impossível fazer o mesmo nas regiões mais isoladas, como o arquipélago do Marajó.
05:18À margem do rio Tajapuru, Vanderlei mora numa comunidade que tem apenas 5 casas.
05:24As fontes de renda são poucas.
05:27Por que vive o povo que mora por aqui, hein?
05:30Olha aqui, o que não trabalha com açaí, outros trabalham com madeira aí.
05:37Açaí, madeira?
05:38Açaí, madeira.
05:39Outros pesco, camarão.
05:42É o caso dele.
05:43O babassu é usado como uísca, para atrair os camarões para dentro das armadilhas.
05:49Camarão entra aqui.
05:5010 o quilo, mais ou menos, gente.
05:53Sai o camarão, se quiser comprar aqui.
05:56O problema é que o mercado mais próximo fica a 4 horas de navegação.
06:02O preço do combustível ameaça acabar com um pouco da renda.
06:08Diesel e gasolina são a moeda local.
06:12A tranquila vida de quem vive num igarapé no interior do Pará.
06:16Aqui a pessoa pode produzir praticamente boa parte da alimentação que consome.
06:24Vida simples.
06:25O guarda-roupa, uma única lâmpada, uma geladeira.
06:30Tem que tirar proveito de um gerador, as panelas.
06:35Mas quem não tem uma renda fixa sofre muito no orçamento por causa do preço do combustível.
06:43De volta ao rio, encontramos esta mulher se afastando de uma balsa.
06:48Na canoa, um galão de óleo diesel.
06:51Conseguiu fazer algum bom negócio no porto ou não?
06:54Não, eu só vendo camarão.
06:56Ah, você vendeu camarão?
06:57Vendo.
06:58Quanto que custa?
06:5910 reais.
07:0010 reais.
07:01E você vende óleo também?
07:03Não, porque eles trocam com óleo.
07:04Ah, eles trocaram com óleo.
07:06Na região, não há postos fluviais, como este de Belém do Pará.
07:12Agora comparem.
07:13Na bomba, a gasolina custa 3 reais e 70 centavos.
07:18No Marajó, 6 reais.
07:21O óleo diesel sai a 2,97 em Belém e a 4,50 no Marajó.
07:29Diesel aqui, você tem que ir para onde para conseguir?
07:31Não, não, tem que ir na cidade, está na cidade.
07:32Só na cidade?
07:34Aí essa galerazinha, essas molecadas, conseguem nos barcos aí.
07:38E às vezes em troca de...
07:41Do seu corpo mesmo, até, é.
07:44Ligar o gerador para ter acesso à eletricidade é um luxo, limitado a duas horas por dia.
07:51Esses dias eu estava até sem óleo, nem rodando, não está aqui, não tem.
07:54É mesmo?
07:54Não tem combustível.
07:55Mas aí a comunidade reúne, vão dar um real, tu dá 12, tu dá 50 centavos, aí a junta toda.
08:03O orgulho de Vanderlei é contar que os filhos dele nunca correram atrás das balsas para ajudar na renda da
08:11família.
08:12Eu não deixo eles irem para isso, não.
08:14A falta de perspectiva faz as meninas trocarem a escola pela rotina do Rio.
08:20Quase sempre com a irmã, a vizinha, a prima.
08:24Tem meninas que vão para a balsa e o retorno do que elas fizeram lá é um litro de alho
08:31diesel.
08:32Mas a família não é culpada.
08:34Quem é culpada é o sistema.
08:36Quem é culpada é o Estado, que é omisso e ausente de uma região extremamente pobre, carente, abandonada.
08:44As denúncias de exploração sexual raramente partem das próprias crianças.
08:52Elas não contam e elas nunca vão contar.
08:55Porque elas estão defendendo o quê?
08:58Elas estão defendendo o trabalho delas.
09:01Elas estão defendendo o quê?
09:03A perspectiva de vida delas.
09:05E quando a criança denuncia, é quase sempre um crime sem testemunhas.
09:10Num Estado onde nem toda cidade tem perícia científica.
09:16A dificuldade para se conseguir a prova é muito grande.
09:20E às vezes fica reduzida a palavra da vítima, que é uma criança.
09:25E há uma insegurança muito grande em se proceder a uma condenação baseada única e exclusivamente na palavra da vítima.
09:35Nessa gravação, as crianças, nas canoas, são parte da atração turística.
09:41Os passageiros tiram fotos, aceram, enquanto as meninas e meninos esperam algum agrado.
09:52Esse outro vídeo, gravado por caminhoneiros que viajavam numa balsa, resume bem a relação de quem passa levando riquezas com
10:02quem mora há várias gerações.
10:04No abandono e na miséria, um homem joga uma caixa de leite no rio.
10:13Mais adiante, outro passageiro faz a mesma coisa.
10:19Ah, mas não joga ruim, viu?
10:20Na canoa, uma criança, enfrentando sozinha a força do rio, na luta pela sobrevivência.