- há 4 semanas
Para identificar e combater o bullying é necessário ouvir com atenção as queixas dos alunos e filhos. No estúdio recebemos Caroline Gomes, que tem um filho de 3 anos, Marcilene Pontes que tem uma menina e o psicólogo Alexandre Brito.
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NotíciasTranscrição
00:00Agora a gente fala de um assunto sério, um problema que pode estar acontecendo com seu filho, seu neto, seu
00:06sobrinho.
00:07Talvez a senhora nem saiba.
00:09Nós estamos falando do bullying.
00:11Os novos dados do Anuário de Segurança Pública mostram que o Espírito Santo é o sexto estado do país
00:18com o maior número de casos de bullying nas escolas, de acordo com o questionário respondido pelos diretores das instituições
00:26de ensino.
00:26Essa é a violência mais relatada pelos estudantes.
00:31Em 47% das instituições de ensino do Espírito Santo, o problema acontece.
00:37Um número bem próximo da média nacional, que foi de 57%.
00:42Pois é, vamos aproveitar que parte da criançada ainda está de férias, outros retornaram para a aula hoje e conversar
00:50sobre isso.
00:51Não deixar que os casos se tornem um problema na vida dessa criança, quando ela crescer, do adolescente, quando ele
00:57ficar adulto.
00:58Pergunta mesmo, filho, filha, neto, neto, isso já aconteceu com você?
01:03Você já fez bullying com alguém?
01:05Conhece algum coleguinha que está precisando de ajuda?
01:08Vamos conversar sobre isso.
01:09Aqui no estúdio, eu recebo a Caroline Gomes, que tem um filho de 3 anos, a Marcilene Pontes, que tem
01:18uma menina, e eles conversam sobre essa questão, sobre bullying, e o psicólogo Alexandre Brito.
01:26Boa tarde, pessoal.
01:27Boa tarde.
01:27Eu queria começar conversando com a Caroline, seu filho tem 3 anos, né, Carol?
01:34Ele já passou por alguma situação de bullying?
01:36Ele já te contou alguma coisa?
01:37É, por ele ser um menino pequeno, né, de 3 anos, ele ainda não reconhece o bullying, mas assim, a
01:43gente já passou sim por situações, expormecado, parquinho, de bullying, e assim, não converse com ele ainda, porque pequeno, acho
01:52que ele ainda não identifica, né, mas assim, é muito difícil pra gente, o adulto, saber lidar com essa situação.
01:58E como que você conversa com ele sobre isso?
02:01É, assim, a gente explica pra ele que ele é uma criança especial, mas que ele é muito amado, que
02:06todo mundo gosta dele, que ele pode brincar, se sentir à vontade, né, com as outras crianças, mas ainda é
02:13uma coisa que a gente trata com o psicólogo também, né, pra ele não se sentir tão assim, porque eu
02:17acho que ele ainda não reconhece que ele é uma criança especial.
02:21Muito pequenininho, 3 anos, né?
02:23Ele ainda tá começando, ele fica olhando pra mãozinha dele, ele tá começando a entender agora que é diferente da
02:27gente, entendeu?
02:28Ah, sim, olha, já a Marcilene Pontes, a filha dela é maiorzinha, tem 6 anos, né, Marcilene?
02:33Isso, filha, ela tem 6 anos.
02:35E como é que você conversa sobre isso com ela?
02:37Na verdade, eu nem uso a palavra bullying, né, com a Vitória.
02:43Geralmente eu falo com ela, filha, aquilo que você não quer que façam com você, não façam com os outros.
02:49Então, não rotula, né, a outras crianças, outras pessoas, né, porque da mesma forma que você colocar um apelido, né,
03:00por causa de algum probleminha ou alguma deficiência, né,
03:09essa pessoa também, ela pode, né, sofrer as mesmas consequências, de forma diferente, mas as consequências elas vêm.
03:19Então, isso eu sempre comento com ela.
03:22Qual a importância, na sua opinião, de conversar com ela desde pequenininha sobre esse assunto?
03:28Que é delicado, né?
03:28Sim, é um assunto delicado, mas eu acho que isso vem de casa, né?
03:35Na verdade, eles são inocentes, são crianças.
03:38Então, se nós, pais, nós conscientizarmos os nossos filhos dentro de casa para que eles não façam com outras crianças,
03:45né,
03:46isso vai virar uma corrente do bem.
03:48Eu falo assim, esses dias ela chegou em casa, aí ela tinha colocado, os alunos da salinha dela tinham colocado
03:54um apelido
03:55num determinado professor.
03:57Aí eu falei para ela bem assim, uma que ele é seu professor, outra que você tem que respeitar, e
04:02outra que você não é todo mundo.
04:04E deixar bem claro para você que você não pode pegar alguma coisa, um defeito de uma pessoa e rotular
04:13ela.
04:14Por que isso pode acontecer com você também?
04:16Você vai gostar?
04:18Perguntei ela, ela falou que não.
04:20Então, eu sempre faço com que ela se coloque no lugar da outra pessoa, da outra criança ou de um
04:25adulto que seja, né,
04:28para que, como que ela se sentiria se ela fosse rotulada daquela forma que ela está falando.
04:34E graças a Deus eu tenho visto um retorno bem positivo.
04:39Que bom, é muito importante conversar sobre isso, gente.
04:43Vou até aproveitar e fazer um relato meu, porque eu sofri muito bullying na escola, muito, muito.
04:48Não tinha nem esse nome, tá?
04:50Eu era muito gordinho e aí sofria bullying na escola, mas eu não falava com ninguém, não falava com a
04:54minha família,
04:56porque eu queria ser aceito naquele grupo, era adolescente, e eu levava tudo na esportiva.
05:02Mas isso me levou a alguns traumas que eu precisei cuidar com terapia, né?
05:08Não é fácil, não é bobeira, não é frescura.
05:11Alexandre, são situações que a criança e o adolescente vive na escola e que podem repercutir na vida toda, né?
05:21A gente precisa entender que a infância e a adolescência é uma etapa do desenvolvimento.
05:28Então, veja bem, se a gente entender que a infância e a adolescência é uma etapa do desenvolvimento,
05:33a gente se preocuparia ainda mais com essa etapa da vida,
05:37porque muitas coisas que acontecem nessa idade são levadas para a vida adulta.
05:43E nós não temos, Lucas, isso que você trouxe sobre você mesmo,
05:48nós não temos uma espécie de, vamos dizer assim, cronologia igual às outras coisas.
05:56Exemplo do que eu estou querendo dizer, que eu vivo algo que eu passei há 5, 10 anos atrás como
06:01se fosse ontem.
06:03O inconsciente, ele preserva as coisas.
06:05Então, você vive coisas da infância e da adolescência como se tivesse acontecido ontem,
06:09e elas continuam exercendo influência na vida adulta.
06:15Então, autoestima mexe com autoestima, você pode cair sua autoestima,
06:19sua insegurança nos relacionamentos, sua insegurança no trabalho,
06:22querer sempre estar agradando, desconfiar de todo mundo.
06:26São sinais de quê?
06:29De traumas, efeitos, coisas que acontecem na nossa vida por descuido.
06:34Descuido dos pais, às vezes, que acontece por falta até mesmo de conhecimento.
06:39Descuido da escola, como você falou na sua época, não tinha esse nome.
06:42Então, como é que eu ia categorizar o bullying, saber qual era a forma de eu tratar esse assunto,
06:48criar mecanismos na escola para saber etapas de como lidar com isso, não existia.
06:54Então, tudo isso, a gente vai percebendo que é importante uma educação para o bullying,
06:59e lidar, sim, com os efeitos do bullying que acontecem na infância e adolescência,
07:05na adolescência, na vida adulta também, e na própria adolescência, enquanto está acontecendo o bullying.
07:11A Sônia Adame, que está acompanhando a gente pelas redes sociais, disse o seguinte,
07:16o meu filho do coração já sofreu bullying na escola.
07:20Muito triste mesmo.
07:22Carol, você também é professora, né?
07:24Sim.
07:24Como é que você administra esse tipo de situação na sala de aula?
07:29É, na sala de aula, eu sou professora do maternal, né?
07:32E, assim, existem crianças com uma dificuldade maior do que as outras,
07:36até mesmo também o autismo, né? O TOD.
07:40Então, assim, a gente tenta fazer o melhor possível para nós, adultos, e para as crianças.
07:45Senta, explica que não pode, né?
07:48Olha, amiguinha tal, está fazendo assim porque ela é assim, assim, assim, tá bom?
07:53Então, não pode fazer assim, senão outro dia fica triste, papai do céu também.
07:56E a gente vai levando nessa, porque como são muito pequenos,
07:59da mesma faixa etária do meu filho, tem que ser tratado todo dia,
08:03porque eles não vão aprender igual a gente, você falar hoje, né?
08:06Então, todo dia a gente está lá explicando que não pode fazer assim, né?
08:11E até mesmo explicando também para eles sobre outras crianças com deficiência.
08:15De vez em quando, meu filho faz uma visita na escola e tem muitas perguntas, né?
08:20Então, a gente tenta caminhar da melhor forma possível para eles, tão pequenos, tentarem entender.
08:25Com certeza.
08:26Bem, Marcilene, você conversa com a sua filha sobre esse assunto.
08:31Também busca, assim, informações com a escola, porque é importante a participação da família
08:37e não deixar só por conta da escola isso, né?
08:40Sim.
08:42Quando ela ainda estava num maternal mesmo, num pré-1 ou num pré-2, não lembro bem,
08:49ela era uma das alunas, a maior da turma, né?
08:53Ela era a maior e a mais fortinha, porque hoje ela tem 6 anos e ela tem a estatura
08:59e o peso de uma criança de 9 anos.
09:03E ela era chamada como uma grandona.
09:06Você não pode entrar no parquinho porque você é grandona.
09:08Você não pode ir ali porque você é grandona.
09:10Aí teve uma vez que ela chegou triste em casa e ela começou a rejeitar as cadeirinhas infantis.
09:17Aí eu falei, filha, por quê?
09:18Aí ela falou, mamãe, é porque eu sou grandona.
09:21Eu falei, não, mas você tem a mesma idade que eles.
09:25Você não tem o mesmo padrão de estatura, tamanho, mas a idade é a mesma, entendeu?
09:32Então, eu trato isso em casa com ela, né?
09:35Que ela, por ela ser grande, né?
09:40Mas a faixa etária é a mesma, os amiguinhos têm a mesma idade que ela.
09:44Graças a Deus, hoje os amiguinhos dela têm até uns mais altinhos que ela, né?
09:47Já ajuda um pouco.
09:48E se algum dia, Marcelene, ela sofrer bullying, como ela já conversou com você sobre isso,
09:54ela vai estar mais amparada, já vai estar mais preparada para lidar com essa situação, né?
09:58Sim, ela tem a questão do Todd também, né?
10:01Que isso pode ser um agravante, né?
10:05No caso dela.
10:07Porque uma vez que ela recebeu uma agressão verbal,
10:12ela pode não querer mais frequentar determinado lugar.
10:16Então, eu converso bastante com ela e, graças a Deus, é igual eu falei,
10:22a família, ela tem que se conscientizar junto com a escola,
10:26que a escola sozinha não faz milagre, né?
10:29A educação vem de casa, a criança não nasce com preconceito,
10:35a criança, na verdade, eles são assim, totalmente inocentes, entendeu?
10:39Então, a maldade está no coração dos adultos.
10:42Então, se você conscientizar seu filho em casa,
10:45quando ele chegar na escola, eles vão estar preparados, até mesmo para defender o amiguinho.
10:49Pois é.
10:49Não dá, né, Alexandre, para terceirizar tudo na mão da escola.
10:54É, com certeza.
10:54A escola, ela escolariza, ela não educa.
10:58Então, a escola tem um processo estruturado de escolarização,
11:03em séries, professores contratados para isso, né?
11:06Ela tem toda uma construção de escolarização.
11:09É claro que tem momentos em que são educativos, né?
11:13Na relação, inclusive, da criança com outras crianças da mesma idade.
11:16Eu sempre falo que a criança se desenvolve na relação com outras crianças.
11:20É nesse momento que ela ali tem mais um pleno desenvolvimento.
11:24Mas não dá para terceirizar realmente a educação.
11:29Você não pode colocar na mão, por exemplo, do celular, né?
11:34Muitas vezes até o celular, o smartphone entra ali nessa terceirização, né?
11:40Na educação dos filhos.
11:41Ou mesmo o tio ou a tia do transporte, ou a professora da escola.
11:47Você não pode perguntar para a professora da escola como que você, pai e mãe,
11:51pode ajudá-la na educação do filho.
11:53Porque é o contrário.
11:55Como eu que posso contribuir, né?
11:58A escola dizendo para os pais, como eu que posso contribuir para a educação do seu filho.
12:02Então, de fato, é preciso haver essa responsabilização.
12:05Por que, Lucas?
12:06Porque, principalmente, uma das coisas principais que a gente não pode esquecer de modo algum,
12:10que a criança, ela não aprende por meio de conselho.
12:13Ela aprende por meio de exemplo.
12:15Ela vê, ela tem você como um espelho, como referência.
12:19E você, inclusive, a educando de forma direta e não terceirizando, ela entende isso.
12:25Então, ela entende a quem recorrer e entende qual que é a palavra que ela tem ali que levar a
12:30um certo peso.
12:32Então, é a sua palavra família que tem um peso maior para a criança e isso não pode mudar.
12:38Muito bom.
12:38Não basta aconselhar, tem que dar o exemplo.
12:41Olha, o Eugênio Fernandes é psicopedagogo e há 20 anos pesquisa o problema do bullying.
12:48Para ele, as escolas precisam abrir canais de comunicação para que as crianças e adolescentes possam denunciar.
12:55Muitos ainda encontram dificuldade.
13:03É muito simples falarmos de diálogo, mas é muito importante dizer que muitas vezes alguns estabelecimentos de educação
13:12ou espaços onde há um convívio social, muitas vezes façam pequenos planos de ação ou dia de ação sobre o
13:22anti-bullying.
13:22Só que o bullying, ele acontece todos os dias no cotidiano, inclusive de forma horizontal e vertical, né?
13:29Entre alunos, entre até mesmo professor-aluno, aluno-professor, aluno-aluno-aluno.
13:38E essas formas de bullying acabam fazendo com que o aluno se sinta constrangido.
13:44É de fundamental importância abrirmos então esses canais de comunicação.
13:47A comunicação precisa ser rápida, a comunicação precisa de alguma forma fazer com que essa pessoa que sofre vítima seja
13:56protegida,
13:57porque ela não quer se expor ainda mais.
13:59Então acredito que pequenas caixas onde você possa estar relatando algum tipo de sofrimento
14:08para que alguém possa ler e possa de alguma forma estar investigando isso dentro de uma sala de aula,
14:13dentro de um grupo específico de alunos, possa contribuir para minimizar o sofrimento de quem sofre bullying.
14:22Acho importante então um diálogo dentro de casa, acho importante esse espaço de diálogo dentro da escola
14:28e acho muito importante esse espaço de diálogo em qualquer ambiente social.
14:33Seja até um clube, né?
14:34Um clube, uma atividade, por exemplo, uma academia, um lugar onde você pratica esporte,
14:40onde tem a coletividade de pessoas, é sempre muito importante que a gente abra um espaço
14:45para diálogos, para a aceitação das diferenças.
14:50Estamos aqui para isso, para dialogar, para debater.
14:53O bullying é um termo em inglês, gente, que quer dizer nada mais nada menos que alguém,
14:58seja em qualquer idade, que age para te colocar para baixo, para fazer chacota desrespeitosa.
15:03Alexandre, o que falta para as escolas melhorarem esse canal de comunicação que o pesquisador nos disse
15:10para que as crianças se sintam mais à vontade de denunciar?
15:13Eu acredito que as escolas têm que se organizar de um modo a criar um fluxo de situações de bullying.
15:21Então, estruturar algo em reunião entre profissionais, o que fazer em situações de bullying,
15:27quando o bullying já aconteceu e o que fazer como forma de prevenção.
15:32Então, esse fluxo, o que seria um fluxo?
15:35Seria algo que demonstraria passo a passo, beabá, o que acontece quando tem uma situação de bullying.
15:41Até para que, por exemplo, as crianças e adolescentes saibam quem procurar dentro da escola,
15:46que vai ser talvez aquele profissional responsável, ou referência, ou profissionais referência.
15:52Orientar os alunos, às vezes, ele não necessariamente tem essa referência,
15:56mas qual professor que ele pode entrar em contato.
15:58Então, a escola cria um canal de comunicação, de conhecimento sobre o bullying, ou seja, explicar o que é isso,
16:07para que as pessoas saibam identificar que o bullying é algo repetitivo, é algo intencional, é algo que faz mal
16:13ao outro.
16:15Então, tendo esse canal de comunicação, explicando o que é o bullying, mostrando passo a passo,
16:20só você vai fazer isso, isso e isso, vai procurar tal pessoa, incluir a família, mostrar os canais de denúncia,
16:29e pode também fazer momentos que são não necessariamente uma coisa direta e pessoal.
16:37Porque tem adolescentes que têm vergonha.
16:40Infelizmente, às vezes, nós sentimos vergonha pelo mal que o outro faz com a gente.
16:44Veja bem, tem momentos que a gente sente vergonha pelo mal que o outro faz com a gente e não
16:48consegue falar.
16:50Você se sente até envergonhado de dizer que passou por isso.
16:53Então, às vezes, você pode fazer, as escolas podem fazer, inclusive, canais anônimos,
16:58ou caixinhas, espaços, em que a pessoa coloca um texto, um bilhete, uma denúncia,
17:04alguma coisa ali que ela se sinta também, de alguma forma, se expressando e resguardada.
17:09Então, a escola pode criar esse fluxo, essa organização, junto com os pais,
17:13junto com outras profissionais e outras entidades, se precisar também.
17:17A Marina Penicha diz que já aconteceu com a filha dela, por ser uma menina grande.
17:22A Ruth Holmes diz que as filhas dela não querem estudar, porque os colegas fazem bullying com ela.
17:29Tem que acabar isso. Algo precisa ser feito. O debate está posto.
17:32Gente, muito obrigado, viu, Carol, a Marcelene. Obrigado.
17:36Que bom que vocês conversem sobre isso com os seus filhos.
17:39Obrigado também, Alexandre, pela participação conosco aqui no Fala Espírito Santo.