00:00Eu me chamo Ana Júlia Moreira, psicóloga, atuante na área da infância e adolescência
00:06e trago hoje uma reflexão sobre a temática bullying, mais especificamente bullying nas escolas.
00:14Bom, o que temos a dizer sobre isso?
00:16A maior característica do bullying encontrado nas escolas, ele tem duas bases, tá?
00:21A primeira base é a violência psicológica, onde aquele bullying, ele fere,
00:26ele desqualifica as características psicológicas, afetivas, o formato que a pessoa se comporta, a postura.
00:36Isso vai influenciar na autoestima, na autoconfiança e também no desenvolvimento do cognitivo
00:42de cada criança e adolescente, por ela não achar que ela tem habilidade.
00:47O bullying, ele também está tendo, em se tratando da pré-adolescência
00:53ou idades mais próximas da pré-adolescência, ele está nos indicando um caráter de base de violência de gênero.
01:02O que é uma violência de gênero?
01:05É quando você tem um grupo, meninos ou meninas, que tentam se sobrepor ao outro grupo.
01:11Por exemplo, as meninas não conseguem fazer essa atividade que os meninos conseguem fazer melhor.
01:18Isso é violência de gênero como base, tentando despontar na infância e para depois se consolidar um pouquinho mais na
01:28adolescência.
01:29Então, são temáticas que nós temos que observar na infância para que sejam tratadas e não consolidadas na idade adulta.
01:36Então, esses são os principais tipos de bullying presentes nas escolas.
01:40É o bullying por violência psicológica, o bullying com bases no preconceito ou na violência e diferença de gênero.
01:50Vamos pensar um pouquinho nas diferenças entre bullying e brincadeiras.
01:56Em se tratando de uma brincadeira entre crianças e adolescentes, não existem pessoas feridas em suas emoções.
02:03Não existem pessoas desqualificadas em suas posturas ou em suas aparências físicas.
02:09Você percebe que se trata de bullying quando você vê que existe a presença de sofrimento, de dor
02:15ou de alguns sintomas psicológicos de adoecimento, como depressão, ansiedade, isolamento, resistência a ir para a escola e mudanças de
02:25humor.
02:25Aí você faz a diferença e percebe que não é uma brincadeira, e sim um sofrimento.
02:30Eu costumo explicar que dentro de um ambiente escolar, na sala de aula ou nas aulas de educação física, de
02:35esportivas,
02:39você precisa, às vezes, começar a perceber como é que as brincadeiras estão ocorrendo.
02:45Porque muitas vezes os educadores, eles podem, não exatamente por uma falta de atenção,
02:54mas por não estarem percebendo o caráter de desqualificação que está envolvendo as brincadeiras.
03:01Quando a brincadeira envolve a desqualificação de alguém, esse é o sinal de que está ocorrendo bullying.
03:07Quando ele fala de características, desqualificando tanto a postura, quanto a autoimagem de alguém,
03:15aí nós estamos falando de bullying.
03:17Quando isso envolve uma temática de diferença de gênero, os meninos só que sabem jogar,
03:23ou então as meninas só que sabem cantar, aí está havendo um preconceito de gênero.
03:28Quando um grupo está falando de raça, quando um grupo está falando de cor, de tamanho,
03:35quando um grupo está sinalizando algo que você tem de diferente na sua aparência física,
03:41então isso significa que pode estar, podemos estar falando de bullying.
03:45Então devemos ficar bem atentos.
03:47Existem indicadores que nos mostram, que nos sinalizam,
03:52que uma criança ou adolescente está sendo vítima de bullying.
03:55É quando você percebe alguns sintomas clássicos envolvidos nessa vivência,
04:03como por exemplo sintomas depressivos, baixa produtividade escolar, alterações de sono,
04:10isolamento do contato social, alterações intensas de humor, transtornos de ansiedade,
04:17alterações no apetite e alteração também na maneira que aquela criança ou adolescente
04:23se motiva, se envolve, investe nas suas tarefas que antes eram tão prazerosas.
04:30Então esses são sintomas clássicos que você observa,
04:34inclusive ansiedade no ato de se alimentar,
04:38inclusive sintomas depressivos no ato de dormir,
04:40ou você dorme demais com uma fuga da escola e da realidade,
04:45ou então você adquire um processo de insônia.
04:49Então esses são sintomas clássicos e indicadores.
04:51Os maiores impactos da recorrência do bullying, do bullying feito e não identificado,
05:00e onde a vítima sofre por anos, às vezes por meses,
05:05o maior impacto do bullying é no psicológico mesmo,
05:08é na saúde mental, na estrutura psicológica,
05:11é na sua construção da autoimagem, da autoconfiança,
05:15é na sua sensação de que você tem habilidades e capacidades,
05:19e o bullying pode lhe tornar uma pessoa negacionista sobre a vida,
05:24que nega um pouquinho aquilo que você tem dificuldade.
05:28Existe um processo de defesa psicológica sobre isso,
05:32onde às vezes as pessoas até negam que sofreram bullying,
05:35mas guardam marcas profundas, onde você se isola,
05:38onde você tem dificuldade em falar em público,
05:40isso afeta a sua habilidade nas relações,
05:45onde você tem dificuldades às vezes para se relacionar de forma afetiva e romântica,
05:49então muitas vezes as pessoas até dizem,
05:52eu sofri brincadeiras na infância,
05:55brincadeiras de mau gosto,
05:56muitas vezes isso foi bullying,
05:58mas as pessoas têm dificuldade em reconhecer e tratar,
06:01então precisam reconhecer para não terem mecanismos de defesa
06:06negando essa situação e poderem ficar bem mais resolvidos sobre isso em suas línguas.
06:11Diante da suspeita de que seu filho está sofrendo bullying,
06:17os pais devem imediatamente acessar a escola
06:20e solicitar que essa escola acesse os responsáveis de quem está cometendo bullying,
06:25porque trata-se de um adolescente que está sendo o agressor, o dominador,
06:31e de outro adolescente ou criança que está sendo o dominado e o agredido,
06:38então é preciso acessar os dois lados,
06:40porque tanto uma criança está em sofrimento
06:44e a outra está entrando em um processo de adoecimento.
06:47Quando o agressor faz o bullying,
06:50ele também não está se desenvolvendo de forma saudável,
06:53existe uma quebra, uma fragmentação da sua personalidade aí sendo construída.
07:00E quando uma pessoa se torna o autor do bullying,
07:04ela está em um processo de adoecimento,
07:06então a família precisa ser informada imediatamente
07:09para que busque tratamento, inclusive para o agressor.
07:13Diante da hipótese e identificação de uma situação de bullying,
07:17a escola precisa, coordenação, corpo técnico, professores,
07:21precisam atuar nas salas de aula junto às crianças,
07:25explicando exatamente o que é ética,
07:27explicando o que é dor,
07:29explicando o que é sofrimento psicológico,
07:31explicando o que é bullying, o que é desqualificação,
07:34o que é preconceito.
07:35Precisamos trabalhar todas essas temáticas
07:38exatamente sinalizando para as crianças
07:40que existe o desenvolvimento psicológico e social.
07:43Esse desenvolvimento psicológico e social vai ter a ver
07:47com a sensação de pertencimento que cada ser humano vai ter,
07:50de se sentir aceito ou não pelo grupo.
07:52Então, quando isso não ocorre, você entra em sofrimento.
07:56Então, as crianças precisam, inclusive,
07:58adolescentes se colocarem de forma muito empática
08:01no lugar dos outros que, hipoteticamente, estão sofrendo bullying,
08:06para que possam reconhecer as consequências dessa dor,
08:11o impacto dessa atitude que, às vezes, você pensa que é uma brincadeira.
08:15E pode, na verdade, ir se tornando um bullying ao longo do tempo.
08:20Por quê?
08:21Porque ele vai se tornando intenso, corriqueiro, recorrente,
08:26e aí vai gerando sintomas.
08:28Sim, esses sintomas, eles podem,
08:31eles podem, inclusive, aparecer na vida somente do adulto.
08:35Por quê?
08:36Porque muitas vezes ficam guardados,
08:37o adulto não fala disso na infância e adolescência,
08:40e esse sintoma que ficou guardado,
08:42em algum momento ele vai precisar se manifestar.
08:44Ele vai precisar pedir socorro para que essa pessoa trate disso.
08:48Então, a longo prazo, existem sintomas que muitas vezes não aparecem
08:52no momento do bullying acontecendo.
08:55E sim, são sintomas guardados,
08:57que viram adoecimento psicológico no futuro.
09:01Cada situação de bullying,
09:02cada criança e cada família,
09:04cada adolescente, cada suporte familiar,
09:07vai ter as suas características individuais.
09:10No caso de uma criança que sofre bullying,
09:13se vocês perguntarem para a área da psicologia,
09:16para mim, se ela deve ser retirada da escola,
09:19eu vou lhe dizer que precisamos, primeiro,
09:21ouvir essa criança que sofreu bullying.
09:23Por quê?
09:24Porque devemos ter o cuidado de não construir na ideia dessa criança
09:30de que ela foi culpada,
09:32de que ela pode estar sofrendo uma punição,
09:34sendo retirada de um ambiente escolar,
09:36dos amigos que ela gostava.
09:38Então, essa decisão,
09:39ela depende de retirar ou não da escola,
09:42depende muito dos sentimentos da criança.
09:44Depende muito dessa criança sinalizar para os pais
09:48se ela ficará bem,
09:49exatamente por ser afastada do agressor,
09:52porém, se existe um conflito,
09:53se ela gosta também dos amigos da escola,
09:55do ambiente escolar,
09:56se ela tem uma história nessa escola.
09:58Então, nós temos que avaliar tudo isso.
10:01Quando a criança determina que aquela escola
10:03se transformou um gatilho para a ansiedade,
10:06nós devemos retirar.
10:07Quando a criança sinaliza que está em conflito,
10:10ela deve ir para a psicoterapia,
10:11ela deve ir para tratamento,
10:13tá certo?
10:14Para que possamos descobrir
10:15qual é o melhor caminho,
10:17a melhor estratégia para cuidar dessa criança.
10:20Se você me pergunta
10:22o que os pais devem fazer
10:24diante da percepção do bullying,
10:26eles devem buscar psicoterapia para essa criança,
10:30para podermos entender juntos,
10:32em equipe, família e psicólogo,
10:34e outros profissionais que possam estar envolvidos,
10:37inclusive a escola,
10:38para podermos esclarecer quais são as estratégias
10:41mais favoráveis para essa vítima do bullying,
10:45e para que os pais do agressor
10:47também consigam identificar
10:50quais as melhores estratégias
10:52para conduzir essa pessoa
10:55que está com uma fragmentação da sua personalidade,
10:58desenvolvendo um caráter agressivo,
11:01violento, dominador,
11:03exclusivo,
11:05então todos precisam estar
11:08dentro desse processo de avaliação,
11:10tá bem?
11:11Tchau, tchau, tchau.
11:15Tchau, tchau.
11:16Tchau, tchau.
11:17Tchau, tchau.
11:18Tchau, tchau.
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