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Poder e ostentação ilusórios sugam os adolescentes para a criminalidade cada vez mais cedo. Nossa conversa é com o delegado Fabio Pedroto, da Delegacia Especializada do Adolescente em conflito com a lei , a psicóloga Luana Marochio e a Verônica, que perdeu o filho de 18 anos que tinha envolvimento com o tráfico de drogas.
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NotíciasTranscrição
00:00Em menos de 24 horas, e a gente fica assustado com uma notícia como essa, né?
00:04Vamos lá, primeira idade do menino, 17 anos envolvido dessa forma com o tráfico de drogas.
00:11Vamos bater um papo sobre esse assunto?
00:12Aqui no nosso estúdio eu recebo o delegado, o doutor Fábio Pedrotto, muito obrigada pela sua participação.
00:18Ele é delegado, né, da Delegacia Especializada do Adolescente em Conflito com a Lei.
00:23Muito obrigada, viu, doutor, pela sua presença.
00:25E a gente também recebe aqui a Verônica.
00:28A Verônica, gente, há poucos meses, no dia 18 de abril, mais precisamente, ela perdeu o filho.
00:35Jovem também, apenas 18 anos, que ele também tinha envolvimento com o tráfico.
00:40Já, já ela vai contar pra gente como tem sido.
00:42E todas as tentativas de mãe pra tentar tirar o filho dessa vida.
00:47Mas antes, doutor, eu queria repercutir com o senhor essa fala que a gente ouviu agora desse policial na reportagem.
00:54É mais comum do que a gente imagina.
00:57A gente vê um jovem, na verdade, um adolescente, um menor, envolvido com o mundo do crime.
01:03E aí é apreendido e depois é apreendido novamente, são reincidentes.
01:08Boa tarde a todas e todos.
01:10Obrigado pelo convite.
01:11Importante tratarmos desse tema.
01:12O que se refere especificamente a esse caso, é muito comum, de fato, que ocorram reiterações infracionais por parte de
01:20adolescentes.
01:21Na medida em que hoje a legislação determina a apreensão do adolescente somente em casos de crimes ou atos infracionais
01:28específicos praticados com violência ou grave ameaça,
01:32e o tráfico de drogas, via de regra, é um crime que não se pratica com violência ou grave ameaça,
01:37a internação de adolescentes nessas circunstâncias é excepcional.
01:41De maneira que um adolescente conduzido uma ou duas vezes pra unidade de polícia judiciária pela prática de tráfico de
01:49drogas,
01:50desprovido de violência ou ameaça grave, ele tenderá a ser colocado em liberdade, reintegrado à sua família,
01:57para que o procedimento de apuração de ato infracional siga normalmente com ele acolhido.
02:04Que foi exatamente o que aconteceu com o seu filho, né, quando ainda era mais novo, Verônica.
02:10Sim, ele se envolveu com 14 anos, né, na época eu tomei um susto, fiz de tudo pra tirar ele,
02:17bati, não nego, briguei, corri atrás dele até poder, pra poder tirar, mas não teve como, entendeu?
02:24Eu tive que pagar drogas, né, tentei, eu acho que como qualquer outra mãe, né, assim, no meu lugar faria,
02:31até o impossível eu acho que eu fiz, mas não teve jeito.
02:34Ele chegou a ser apreendido também, né?
02:36Sim, ele foi preso três vezes, mas assim, naquela prisão rápida, né, ele era levado, me ligava e eu tirava.
02:44Não ficava nem duas horas preso, né, porque o menor, ele...
02:48Ele não é nem preso, ele é apreendido, né, até outro termo.
02:51Isso, até a mãe ou o pai chegar, o responsável chegar, ele é de novo reentregado à família, né?
02:58E é isso que aconteceu.
03:00Doutor, qual é a reação desses adolescentes, desses jovens, quando eles são apreendidos?
03:07O que que isso faz tremer a base deles, eles sentem medo?
03:12Inicialmente, é interessante nós identificarmos as causas desses atos de violência juvenil.
03:19Vejam, se nós buscarmos na origem, nós vamos verificar que esse adolescente passou por diversas privações,
03:26ausência de atuação do Estado, oferecendo serviços públicos como educação, saúde, cultura, lazer.
03:32E o que é pior, esse menino, já muito jovem, com 8, 10, 12 anos,
03:39ele é, de certa forma, absorvido pela mão de obra do tráfico.
03:43Na medida em que o tráfico é a pior forma de exploração de trabalho infantil.
03:48Isso, há estudos desenvolvidos sobre o tema, isso é um problema muito sério,
03:52que muitas das vezes não tem a devida atenção.
03:54E esse processo, ele não se inicia quando o menino já está atuando no tráfico.
03:59É um processo causal, que demanda uma atenção específica do município, do Estado e da própria União,
04:05com projetos e políticas que atendam esse menino,
04:07de maneira a emancipá-lo, para que ele não venha a atuar no tráfico.
04:12De certa forma, ele acaba sendo vítima também de trabalho infantil,
04:17explorado justamente porque ele está numa situação socioeconômica muito vulnerável
04:22e acaba, por si só, entrando na venda de drogas ilícitas.
04:27E aí, naquele momento que ele vê que a bomba vai explodir na mão dele,
04:31que ele está sendo usado ali pelo tráfico, de alguma forma,
04:34mas, opa, a casa caiu para ele, a bomba vai explodir na mão dele,
04:38vai para a delegacia, vai chamar o pai e a mãe, os responsáveis.
04:42O que eles expressam nessas horas?
04:45Muitas das vezes, de fato, expressam o sentimento de que não serão responsabilizados.
04:50Mas não culparia a legislação por isso, eu culparia políticas públicas estruturais.
04:55Por exemplo, na DEAC, a Delegacia Especializada de Adolescentes em Conflito com a Lei,
04:59estamos pensando um projeto junto com a Chefia de Polícia Civil,
05:02no sentido de dar um atendimento preliminar para esse adolescente que pratica um ato infracional,
05:07entendendo quais são suas necessidades, antes mesmo da autuação.
05:10Um atendimento em que uma psicóloga e uma assistente social vão pesquisar a vida daquele menino
05:15e compreender o que levou ele a praticar.
05:17Porque se eu só atuo na repressão, eu não identifico as causas e não evito uma reiteração da conduta.
05:24Então, acolher esse menino e emancipá-lo com políticas públicas de base estruturais é o caminho.
05:30A repressão por si só não resolve o problema pior, ela agrava.
05:34Quanto mais repressão, mais eu estimulo o processo vingativo que se dá entre gangues.
05:40E esse foi o exemplo da mãe que está aqui, que até manifesta meus sentimentos pela perda do menino tão
05:45jovem,
05:45mas é uma realidade expressada em números estatísticos.
05:48Hoje, a vítima e o autor dos crimes de homicídio são jovens de 15 a 25 anos,
05:54vulnerabilizados, moradores de periferia e negros.
05:57Tanto quem morre, quanto quem mata.
06:00Isso é uma realidade social que precisa ser revista.
06:02Precisamos, de fato, colocar nossas atenções, o nosso foco de políticas públicas
06:06para o desenvolvimento sadio desse adolescente e dessa criança.
06:09Perfeito, doutor.
06:11E quando você, mãe, quando você chegou na delegacia,
06:14qual foi a reação do seu filho quando ele te viu?
06:18Tomou um susto, né?
06:19É assim, porque eu nunca passei a mão em cima dele.
06:23Tanto que quando eu vi ele lá, eu já fui em cima dele, para poder já, tipo assim, dar um
06:28salavanco.
06:29Aí, na hora, a policial me repreendeu.
06:30Você chegou lá revoltada?
06:32Revoltada.
06:32Aí, a policial me repreendeu.
06:33Ela falou assim, não, senhora, que a senhora não pode bater nele.
06:36Falei, não, mas ele tem que tomar uns bons tapas, porque olha o que ele está fazendo com nós.
06:40Esfregando nossa cara, fazendo a gente passar vergonha, ele não precisa disso.
06:44Ele nunca precisou, entendeu?
06:46Igual eles falaram, o tráfico é quem não tem condições.
06:50Não, mentira.
06:52O tráfico, ele atrai os jovens de uma tal forma que não interessa se a mãe tem dinheiro, se o
06:56pai tem dinheiro.
06:57Não é classe social, entendeu?
06:59Existe uma maioria, né, doutor?
07:01Isso.
07:01Mas não é a única realidade.
07:04Não, não é.
07:04Porque ele nunca precisou.
07:06Eu sempre dei comida, dei roupa, sempre dei o que ele queria.
07:09Assim, nunca tive condições, né?
07:10A gente não é rico, a gente trabalha para poder conseguir.
07:13Você sabe, então, o que teria atraído o seu filho para o tráfico?
07:16Ah, eu acho que o poder.
07:18Ele sempre gostou de se sentir grande, né?
07:22Eu acho assim, no meu pensamento.
07:24Ele sempre foi, igual eu estava falando com o doutor aqui, envolvido de muitos amigos.
07:28Ele sempre teve essa liderança como os amigos, entendeu?
07:32Desde pequeno, no futebol, aonde ele ia.
07:35Se ele fosse sair, todo mundo, ah, Andrei, onde você vai?
07:38Aí ia com ele, você está entendendo?
07:40Então, ele sempre teve isso aí, sempre teve isso à volta dele.
07:43E eu não sei te explicar o que levou ele a isso.
07:46Porque nunca passou fome, nunca faltou uma roupa, nunca deixei de estar presente na vida dele, entendeu?
07:52E quem me conhece sabe, né?
07:54Só quem me conhece verdadeiramente para saber o tanto que eu lutei por ele.
07:57Mas, infelizmente, eu, realidade, eu preferia hoje ir numa cadeia e ver ele preso.
08:04Até onde eu matar a saudade dele do que eu viver igual eu estou vivendo há três meses só chorando.
08:09Eu choro 24 horas pela perda do meu filho, eu não aceito.
08:13Você sabe quando você não aceita você olhar para um lado, você não vê o seu filho?
08:17E você querer justiça e um Brasil, assim, onde a justiça é...
08:22Nada, vamos dizer assim, pode-se dizer.
08:24Porque são três meses que eu estou lutando por um inquérito fechar para poder ter justiça com a morte do
08:30meu filho.
08:31E o mais engraçado, quem mata o meu filho são amigos, são pessoas conhecidas.
08:36É isso que dói no meu coração, você entende?
08:38É importante frisar que não existe amizade no tráfico, né?
08:42Não tem, não tem.
08:43Nossa, quem matou ele, assim, né, são crescidos com ele de oito anos.
08:48Quando ele tinha oito anos, quando a gente foi morar em São Francisco, até agora, aos 18 anos.
08:52Gente que vivia todos os dias do lado dele, é quem mata ele.
08:56Você entendeu?
08:58Durante as investigações, o processo todinho que a gente fez, da morte até hoje.
09:03Então, é mais que comprovado que quem mata ele são os amigos dele.
09:06Agora a gente vai envolver uma outra mãe aqui no nosso bate-papo, que ela também fez de tudo.
09:11faz de tudo, né, pelo filho.
09:14O nome dela é Shirley Lopes, ela já participou com a gente em um outro momento.
09:18Shirley, obrigada mais uma vez pela sua participação.
09:21E você se identifica muito, né, com esse depoimento da mãe aqui, que também não mediu esforços pelo filho.
09:29Oi, Roberta, boa tarde.
09:31Obrigada a todos.
09:33É justamente isso.
09:35A gente luta dia a dia e chega um momento da vida da gente que parece que a gente perdeu
09:43a guerra
09:46e as pessoas que estão de fora acham que a gente desistiu,
09:50mas é porque a única coisa que nos resta ao final de tudo é orar, né?
09:55A gente não desiste de um filho nunca, né?
09:59Mas chega um momento que a gente perde, né, as forças.
10:03É só pra você ter uma ideia, é hoje, né, a notícia que eu tenho do meu filho
10:09é que ele tá vivendo na rua, né?
10:12E há um mês atrás ele tava em casa trabalhando e hoje a notícia que eu tenho dele é que
10:19ele tá na rua,
10:20porque mais uma vez a droga, ela venceu, ela teve um poder muito maior sobre a vida dele, né?
10:29E nós como mães e pais, a gente se sente impotente diante de uma situação dessa.
10:37O que que você já chegou a fazer, Shirley?
10:41Em outros momentos você já participou aqui com a gente, você já lutou muito pelo seu filho.
10:46Resume pra gente momentos pontuais, o que que você já chegou a fazer por ele?
10:52Eu já tirei meu filho daqui do estado inúmeras vezes, né?
10:57Já mandei ele pra Minas Gerais, eu já mandei o meu filho pro interior do estado inúmeras vezes.
11:03Eu já retirei o meu filho quase morto, espancado de morro, né, aqui dentro do nosso estado.
11:12Eu já paguei dívida de drogas do meu filho, né?
11:17Assim, como mãe, o que eu pude fazer, não somente eu, como meu esposo e a minha família, nós fizemos,
11:26né, por ele.
11:28Mas, infelizmente, todas as vezes que ele retorna, ele, quando ele vai pra rua, ele vai dando algum tipo de
11:36prejuízo, né?
11:37Porque ele pega as coisas.
11:39O meu filho, hoje, ele não está mais praticando tráfico de drogas, porque hoje ele é um dependente químico.
11:48Mas, até um ano, alguns meses atrás, uns dois, três meses atrás, ele estava praticando tráfico de drogas, né?
11:57Quando eu estive aí no programa, inclusive, eu sabia onde ele estava morando.
12:02Logo após o programa, aí a gente recebeu meu filho baleado, né?
12:09Que o próprio tráfico baleou ele, entendeu?
12:13Ele chegou em casa baleado, com um tiro em cada mão, com um tiro nas pernas.
12:18Nós cuidamos, nós fizemos tudo.
12:21E, quando ele melhorou, ele foi embora.
12:24Ele foi pra rua, né?
12:26Então, assim, como mãe, família, nós fizemos tudo o que estava ao nosso alcance.
12:33Coloquei em clínicas, tá?
12:35Eu internei o meu filho também.
12:37Eu tirei ele daqui inúmeras vezes pra não morrer.
12:40Porque eu enfrentei, eu cheguei a ponto de enfrentar bandido, eu cheguei a ponto de enfrentar polícia, né?
12:47Por conta do meu filho.
12:48E, infelizmente, se não for Deus, não é mais ninguém.
12:54Somente o senhor pode tirar eles dessa situação.
12:59E aí, você falou muito, né?
13:01Achei muito forte quando você disse que o próprio tráfico foi atrás dele.
13:05E eu quero trazer essa discussão aqui pro delegado, doutor Fábio.
13:09É isso, doutor?
13:10O tráfico não perdoa o jovem, o adolescente, entra achando que, ah, vai ter poder, que vai conquistar bens materiais.
13:19Mas só que chega uma hora que essa relação vai se desgastando e chega a esse ponto?
13:24Sem dúvida.
13:25Ele busca, nessa venda ilícita de drogas, um reconhecimento que ele nunca teve.
13:30Invisibilizado que foi durante toda a sua vida.
13:32Porque não consegue, muitas das vezes, acesso a uma educação de qualidade, se ele tem algum problema de saúde mental.
13:39O CAPS-I, será que está preparado para recebê-lo?
13:42Será que existe o fomento para que esses equipamentos funcionem?
13:45Os CAPS-AD, os CREAS, estão tendo o devido reconhecimento por parte dos órgãos executivos?
13:55Essa é a questão.
13:56Então, ele, na condição de adolescente, de criança, que não recebe esse serviço de base,
14:03ele acaba buscando, em interações sociais ilícitas, um reconhecimento, uma visibilidade, como a própria mãe falou.
14:09Ele se sente empoderado na medida em que ele coloca uma arma na cintura, muitas das vezes,
14:13e projeta todo esse pseudo-poder pela comunidade.
14:18Então, é perfeitamente explicável, pesquisas apontam essa questão, no sentido de que aquele adolescente,
14:25ele, sim, é seduzido mais por um sentimento de empoderamento, um sentimento de interação naquele grupo,
14:31do que propriamente por outros motivos.
14:34Você, Verônica, várias falas também, assim, a gente vê essa conexão de mães, de pais, que sofrem dessa mesma dor.
14:43Várias falas da Shirley, você também se identificou, né?
14:47Porque você também já chegou a pagar dívidas de drogas do seu filho.
14:51Sim, paguei sim, porque na época ele tinha perdido uma grande quantidade de droga.
14:56Aí, assim, igual eu te falei, a gente sempre foi muito unido.
14:59E ele chegou para mim, para a minha filha e falou,
15:01Mãe, ó, eu perdi assim, assim, assim, não tenho dinheiro para pagar, não sei o que fazer.
15:07Eu peguei e liguei para o tal cara e falei com ele, falei, olha, quanto que é a dívida do
15:12meu filho,
15:13a gente vai pagar, mas antes eu conversei com ele.
15:16Ele falou comigo, não, mamãe, se a senhora pagar, nunca mais eu boto o pé nisso, nunca mais, nunca mais
15:22mesmo.
15:22Falei, olha, Andrei, se eu pagar essa dívida e você voltar, eu não me envolvo mais.
15:27A partir desse dia, você vai se virar com o que você fazer.
15:30E fui lá, negociei com o rapaz, paguei a dívida, quatro dias depois ele estava de volta.
15:36Aí, o que aconteceu? Falei com ele.
15:38Aí, daí, o que ele fez? Ele foi perdendo, ele mesmo foi pagando.
15:41Aí, ele já não pediu nossa ajuda mais, mas não saiu.
15:44Foi a primeira e única vez que ele te pediu ajuda.
15:46Sim, a primeira e única vez.
15:48Assim, quando ele ia preso, eu ia lá e tirava ele, igual eu te falei.
15:51Mas nunca mandei ele embora de casa, assim, a não ser por coisas que, às vezes, não tinha jeito mesmo.
15:57Aí, eu falei, não, você vai passar uns dias fora de casa que a gente não está te aguentando mais.
16:00Porque chega uma hora que a gente não estava aguentando mais.
16:02Porque ele, assim, tinha um...
16:05Como é que eu vou te explicar?
16:06Isso afeta a família toda, né?
16:08Isso, ele era impossível.
16:09Ele estava afetando nós tudo, entendeu?
16:11Aí, chegou uma hora que eu mandei ele passar, ele ficou uns...
16:13Eu acho que nem 15 dias na casa do amigo e voltou de volta.
16:16Não teve jeito.
16:17Dentro de casa.
16:18Então, o que a gente sofre é isso.
16:20Põe a gente tudo no meio.
16:21Põe a família, põe os irmãos, põe a gente tudo à mercê da vida deles.
16:25Igual a minha filha fala.
16:27Mamãe, a senhora parou para viver a vida do Andrei.
16:30Infelizmente, é.
16:31Porque a gente fica preocupado.
16:33Se vai preso, a gente tem que ir atrás.
16:35Se perde uma droga, alguma coisa, a gente tem que pagar.
16:37Porque se não pagar, paga ele, paga a família toda.
16:41Então, a gente acaba se envolvendo.
16:42A gente acaba vivendo a vida deles.
16:44A gente fica à mercê deles.
16:46Infelizmente, é complicado.
16:47Olha só, quem também compartilha desse mesmo sentimento é a Davinha Silva.
16:51Ela fala que também sempre fez tudo pelo filho, pagou drogas, roubos dele, internei, fiz de tudo.
16:59Sou a mãe daquele adolescente que foi espancado no terminal de Campo Grande.
17:02Ela ainda se identifica.
17:04Meu filho me deixou depois de eu fazer tudo, gente.
17:08Olha só quantos relatos, quantas mães que sofrem, que compartilham, que se conectam com esse mesmo sentimento.
17:15E aí, a gente já viu aqui, já noticiamos quantos e quantos casos de mães que preferem.
17:21Como a Verônica disse, preferem que o filho permaneça preso para que ele, ao menos, se proteja de alguma forma.
17:30Também é comum ouvir esse relato, doutor?
17:33É muito comum ouvir esse relato.
17:34São mães desesperadas com o quadro que aquele menino apresenta, de reiteração infracional, violência sofrida.
17:43E veja, voltando ainda naquela questão do acolhimento prévio, dos serviços públicos prévios.
17:50Porque a polícia não pode ser o único serviço público a se apresentar.
17:53É necessário que, se esse menino fosse acolhido por outros serviços públicos, tratando as causas do problema,
18:00será que ele hoje estaria internado?
18:03Então, vejam, a polícia não é a panaceia para todos os males.
18:06A polícia é excepcional.
18:09Na medida que os outros serviços públicos funcionam corretamente, direcionando aquele jovem para uma vida sadia, para uma vida virtuosa,
18:16a polícia não atuará.
18:18Então, essa perspectiva precisa ser mudada.
18:20A polícia não é a solução para o problema social.
18:23A polícia atua quando o problema social já está deflagrado.
18:27Que isso fique muito claro.
18:29E eu, inclusive, compartilho dessas preocupações dessas mães, porque tenho filhas também.
18:35E entendo definitivamente que a atuação da polícia tem que ser subsidiária.
18:40Precisamos privilegiar, equipar e valorizar esses equipamentos públicos de apoio.
18:45Ainda falando sobre as consequências das drogas na vida dos nossos jovens,
18:50ontem nós mostramos aqui no Fale Espírito Santo o caso do Carlos Alberto Franco Jr.,
18:56que foi assassinado a reagir a um assalto em Cariacica.
19:00Com a ajuda das imagens das câmeras de segurança, que flagram toda a ação,
19:05a polícia conseguiu chegar a um dos suspeitos do crime.
19:08Ele tem 23 anos e foi preso na casa da namorada em Viana.
19:13E, segundo a polícia, foi ele quem atirou em Carlos.
19:17Ele contou, gente, aos policiais que não conhecia as vítimas e cometeu o crime.
19:23Olha só, presta atenção.
19:24Cometeu um crime com a intenção de roubar a moto e vendê-la.
19:29O delegado que fez essa prisão confirmou que na hora da apreensão,
19:34o jovem confessou que devia o tráfico e que aí venderia o veículo, a moto,
19:41para pagar essa dívida. Vamos ver.
19:45Ele confessa que foi o atirador que acertou a cabeça da vítima e ele nos informa que ele estava devendo
19:54o tráfico de drogas da região
19:55e, por isso, ele tinha que fazer, na linguagem dele, um corre.
19:59Então, a arma não foi recuperada, segundo ele, está com o comparsa e seria a arma do tráfico de drogas.
20:05Para garantir o furto, o roubo, eles vão atirar porque, normalmente, igual a gente viu esses outros crimes,
20:14eles não têm pena da pessoa, eles não têm valor pela vida.
20:19Então, uma pessoa de bem perdeu a vida por uma moto.
20:25...trago que o tráfico faz, né?
20:27Até pessoas inocentes que não têm nada a ver.
20:30Olha isso, doutor.
20:31E a gente, infelizmente, noticia tantas e tantas violências que têm como pano de fundo justamente o quê?
20:39O tráfico de drogas.
20:40E a sociedade de bem fica no meio desse fogo cruzado, né?
20:44Sim, reflexo de uma sociedade brutalmente desigual,
20:47com concentração de renda extrema e com universos de milhões de pessoas miserabilizadas.
20:53O resultado não poderia ser outro.
20:55Doutor, tem um comentário aqui que eu acho importante a gente trazer para a nossa discussão,
20:59que é o comentário do Luiz.
21:00Ele disse, sinceramente, eu acho que já passou da hora de mudar o Código Penal brasileiro,
21:04mudar a maioridade, né?
21:06Ele até sugere aqui uma idade, enfim.
21:08Mas o senhor acredita que, caso isso acontecesse,
21:14poderia ser uma alternativa para esses casos que a gente vê de jovens reincidentes,
21:21adolescentes, na verdade, né?
21:22Reincidentes no mundo do crime?
21:24Entendo que não.
21:25A redução da maioridade não é a solução para o problema.
21:27Seria tentar solucionar, de forma simples, um problema extremamente complexo,
21:33que parte de bases causais absolutamente variáveis e múltiplas.
21:37Então, se eu estabeleço uma redução de maioridade penal,
21:40eu vou continuar encarcerando adolescente, 16, 15, 14,
21:44e o tráfico vai continuar recrutando cada vez mais jovens.
21:47Se eu coloco a idade mínima penal para 12 anos,
21:51o tráfico vai recrutar com 11, com 10, com 9, com 8.
21:54Isso não é a solução.
21:55Pelo contrário, isso piora o quadro.
21:57Lembrando sempre que a prática de crimes barrato e infracionais praticados no Brasil,
22:01por adolescentes, corresponde a 0,5% do total de casos.
22:05Não é um número significativo.
22:06A solução do problema não passa pela redução da maioridade penal,
22:09não deve ser aqui no Brasil assim,
22:12e em nenhum lugar, em nenhum país civilizado do mundo é dessa maneira.
22:16E mãe, como é que tem sido a sua vida de três meses para cá?
22:22Acabou.
22:23Assim, não vou falar para você que acabou, porque eu tenho os meus pequenos.
22:26Agradeço a Deus por tê-los, porque eu acho que eu não estaria de pé, não.
22:31Acabaram com a minha vida.
22:33Eu amava, não, eu amo demais o meu filho.
22:36Demais, demais, demais.
22:38Assim, independente da vida que ele levava, né?
22:41Da forma que ele foi morto.
22:43Mas só a gente que é família, a gente que está ali do lado, que sabe a verdade.
22:47Já escutei muito falar comigo.
22:49Ah, mas ela sabia que o filho dela vivia nessa vida?
22:52Era caixão ou cadeia.
22:54Para quem está por fora, é fácil, né?
22:56Escutar uma palavra dessa.
22:57Agora, a gente que é mãe que luta pelo filho, você vê o filho caído, igual eu vi.
23:01Eu fui a primeira a achar meu filho junto com a polícia.
23:04Isso doeu demais.
23:05Ninguém me contou.
23:06Eu fui com a polícia, eu achei o meu filho.
23:08Você entendeu?
23:09Eu ia no DML, eu reconhecer ele, eu ver ele dentro do caixão.
23:13Então, assim, é de balançar a sua estrutura.
23:17Eu acho que eu não enlouqueci porque, primeiramente, Deus na minha vida e quero muito justiça.
23:23Eu estou cega por justiça porque eu não vou aceitar o que fizeram com o meu filho.
23:28Ele era errado na visão de todos, está certo, mas eu, como mãe, quero justiça.
23:33Entendeu?
23:33Não importa se ele traficava, o que ele fazia, mas ele é o meu filho.
23:38E é o meu filho que vai ter justiça, não importa.
23:42O que eu tenho que fazer, o que eu vou fazer, mas ele vai ter justiça.
23:46Ele não vai ser mais um na estatística.
23:49Você pode ter certeza disso.
23:50Eu vou lutar até os últimos dias da minha vida para botar todos que mataram ele atrás das grades.
23:57Nem que seja a última coisa que eu faço na vida, mas eu vou fazer.
24:01É o sentimento de mãe, né?
24:03E a gente sabe, quem é mãe, quem é pai, quem é mãe, sabe que, independentemente do que o filho
24:10fez ou faz, é filho.
24:13E a gente precisa muito respeitar essa dor, muito.
24:16Deixa eu voltar a falar com a Shirley, que não perde as esperanças, né, Shirley?
24:22Que esse é o sentimento de mãe.
24:26Não, eu não perco as minhas esperanças, né?
24:30Porque eu falo o seguinte, que Deus, ele me deu um filho honesto, né?
24:38As promessas do Senhor para a vida do meu filho eram as melhores e as mais maravilhosas.
24:43Então, eu não tive um filho traficante.
24:46O Senhor não me deu um filho traficante.
24:48Ele não me deu um filho usuário de drogas.
24:50E é a esperança que eu tenho que um dia o meu filho, ele vai se reerguer, ele vai sim
24:56sair dessa.
24:58Essa mãe falando, parece eu, né, Roberta?
25:03Porque aos 41 anos, Deus me deu um filho.
25:06Eu tratando uma menopausa e hoje eu entendo que o Senhor me deu noa porque eu precisava levantar da cama
25:13todos os dias.
25:15Porque quando eu olho para o meu bebê, que fez 10 meses, eu vejo que ele precisa de mim para
25:20tudo.
25:21Então, eu me levanto da cama todos os dias para cuidar do meu filho.
25:25Porque se não fosse ele, eu acho que eu já nem estaria mais aqui.
25:30Porque é uma dor que só quem passa, que sabe.
25:34Você deitar sua cabeça no travesseiro e não saber aonde o seu filho está.
25:39Você dormir e não saber se quando der a madrugada o seu telefone vai tocar, que o seu filho está
25:45morto, né?
25:46A gente vive essa incerteza, né?
25:49Mas eu não desisto.
25:51Eu não perco a minha esperança, eu não perco a fé em Deus que o meu filho, ele vai sim
25:57sair dessa.
25:59Eu estou lutando há 11 anos, não são 11 dias.
26:02O meu filho entrou muito novo para o tráfico aos 14 anos.
26:05Agora ele fez 25 anos e eu não desisto do meu filho.
26:10Eu nunca vou desistir do meu filho.
26:12Hoje eu choro, eu sofro por não saber dele, por ele ter escolhido esse caminho.
26:20Mas eu tenho fé que ele vai sim sair.
26:23Porque eu também tenho meus outros filhos que precisam de mim.
26:27E para a gente encerrar, vou deixar aqui as palavras da Silene Souza.
26:32Ela falou que já passou por tudo que essas duas mães também passaram, né?
26:37Ela passou isso com os dois filhos.
26:39Mas hoje os dois filhos estão livres, graças a Deus, e as orações também da igreja.
26:45E ela agradece muito aqui a todos que ajudaram.
26:47Então, para a gente encerrar com uma positividade, para as mães nunca desistirem.
26:54Obrigada, Verônica, pela sua participação.
26:56Obrigada, doutor Fábio, também pela sua presença.
26:58E obrigada, Shirley, pela sua contribuição com a gente.
27:01Uma boa tarde, viu?