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  • há 3 semanas
O nosso assunto do 'E aí, Doutor' de hoje vamos falar sobre os principais desafios para os adultos com TDAH. A psiquiatra Maria Carolina e o Julio Nico, que foi diagnosticado aos 29 anos, conversam sobre os desafios após o diagnóstico.

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Transcrição
00:00Participa com a gente, mande suas dúvidas, suas perguntas aqui no nosso Facebook.
00:04Como que esse diagnóstico deve ser encarado, hein?
00:07E quais são os principais desafios para o adulto com TDAH?
00:11Vamos bater um papo então com a psiquiatra, a doutora Maria Carolina.
00:16Muito obrigada, doutora, pela sua participação. Seja bem-vinda, viu?
00:19Obrigada, meu velho.
00:20E a gente também recebe aqui o Júlio Nico, que ele foi diagnosticado ano passado, Júlio?
00:25Com TDAH.
00:28Boa tarde. Conta pra gente o que te levou a fazer essa investigação.
00:34Na verdade, desde criança, eu já esquecia, era muito comum esquecer chave, esquecer carteira, esquecer as coisas.
00:42E assim, até os meus amigos, quando eu ia sair de casa, eles já brincavam disso aí.
00:45Mas foi passando, a gente não levava assim, ninguém achava que era coisa de médico e tal.
00:50E foi passando até que eu entrei na faculdade.
00:53E durante a faculdade, comecei a sentir uma dificuldade nos estudos, comparado com os meus colegas, meus amigos.
01:03Mas não era nem de aprender, mas eu percebia que eu demorava mais tempo assim, pra ler um certo livro,
01:10pra terminar um certo exercício, do que eles.
01:13E eu vim pra Vitória, em 2020, comecei a fazer um acompanhamento com uma psicóloga.
01:18E aí, com o tempo, a gente foi vendo vários fatores, ela falou, olha, eu acho que você deveria procurar
01:24um psiquiatra pra poder...
01:27Porque eu acredito, se você tem alguns sintomas de TDAH, seria legal se algum psiquiatra pudesse avaliar você e tudo
01:33mais.
01:34E aí, o ano passado, eu fui, e aí fui diagnosticado com TDAH mesmo, entendeu?
01:42Como é que foi pra você receber essa notícia?
01:44Então, pra mim, foi relativamente tranquilo, porque, na verdade, assim, tudo fez sentido do que eu tinha passado a minha
01:54vida inteira.
01:55Era muito comum as pessoas falarem assim, Júlio, você tem que prestar mais atenção, você não tá prestando atenção.
01:59Só que eu tava tentando prestar atenção, entendeu?
02:02Só que as pessoas não entendem o que eu tava tentando, mas aí, vamos lá, tô na sala de aula
02:05aqui, vendo o professor.
02:09Aí, enquanto ele tá falando, eu já tô pensando em outra coisa, e eu nem sei, tipo assim, não é?
02:13Entendeu?
02:14E aí, de repente, eu volto em alguns momentos, né?
02:17Mas foi relativamente tranquilo, por causa que eu tinha, como eu tinha psicóloga já,
02:21eu já tinha algumas técnicas de rotina, de organização, de horário, né?
02:28Então, eu conseguia levar numa boa, me organizar, e depois eu comecei a tomar medicação também, e aí, tranquilo, assim.
02:37Doutora, essa é a realidade de muitas pessoas que não sabem que tem.
02:41Hoje em dia, a gente ouve muito, né?
02:43Crianças que foram diagnosticadas, mas e adultos?
02:46Que passaram a vida inteira sem saber, e talvez agora, com essa reportagem, estão se identificando.
02:51Sim.
02:52Então, o TDAH, ele se manifesta de formas muito diferentes nas pessoas, né?
02:56A psiquiatria tem essa característica, a gente não segue uma receitinha, né?
03:02Não é todo mundo que tem TDAH que se manifesta igual, né?
03:05Então, hoje, a gente tem o TDAH do tipo mais impulsivo, hiperativo, do tipo desatento e o tipo misto.
03:14Antigamente, né, os diagnósticos só eram feitos quando tinham as duas coisas ao mesmo tempo.
03:18E aí, depois, as pesquisas foram mostrando que não é bem assim na prática.
03:24Tem pessoas que têm o TDAH, têm um prejuízo grande, mas têm mais um tipo do que outro, né?
03:30No caso do Júlio, era o tipo desatento.
03:34E esse tipo costuma passar mais tempo despercebido.
03:36Porque o tipo impulsivo, hiperativo, são aquelas pessoas que não conseguem ficar muito tempo sentada,
03:43interrompe o pai, a mãe, o adolescente ou a criança, ou até o adulto, interrompe as pessoas o tempo todo,
03:50não consegue esperar a vez, finaliza a frase do outro.
03:54E aí, essas pessoas, elas incomodam.
03:57Então, o diagnóstico costuma ser na infância.
04:00O tipo desatento, como não incomoda muito, parece que é uma pessoa mais viajante, daydreamer, né?
04:06Que fica viajando, sonhando.
04:08Essas pessoas costumam ter o atraso no diagnóstico.
04:11E aí, assim, a gente precisa estar atento.
04:13Porque é o prejuízo no dia a dia que deve chamar a atenção.
04:17Pra gente poder procurar um médico.
04:20Se você se sente desatento, mas você dá conta de todas as suas demandas sem dificuldade,
04:25pode ser só uma sobrecarga, né?
04:27E aí, só um especialista mesmo, com uma anamnese, com uma entrevista muito detalhada,
04:32que vai conseguir diferenciar de uma vida cotidiana apressada,
04:37de uma sobrecarga ou de um TDAH, que é um transtorno neuropsiquiátrico,
04:41que precisa ser meio de tratado, né?
04:43É, até porque também vão com calma aí, meu povo.
04:46Porque também tem um monte de gente em casa, hoje em dia, como o repórter mostrou ali,
04:50a vida louca, a vida já tá agitada.
04:52Às vezes você também mistura o estresse, tem ansiedade também.
04:56Tem gente que fala, ai meu Deus, eu tenho.
04:58Também não é por aí, né, doutora?
04:59Isso daí, Roberto, isso daí.
05:00Tem que tomar cuidado.
05:01A gente tem que, pro diagnóstico, a gente tem a nossa base científica, né?
05:06Tanto o CID, que agora tem o CID11, como o DSM, né?
05:10O DSM-5 revisado.
05:12Que é a base que a gente usa pra ciência pesquisar.
05:15Porque você imagina se cada um tivesse o próprio critério.
05:18Então, a gente tenta ter um critério, assim, universal pra poder fazer pesquisas,
05:23pra poder nos basear nas intervenções.
05:26Mas os manuais, né, de diagnóstico, eles não são livros de psicopatologia.
05:32Ou seja, eles não ensinam a pessoa a analisar a variedade humana possível.
05:39E isso, a gente na psiquiatria, né, na neurologia, a gente aprende a fazer uma análise das nuances humanas.
05:49Não é só seguir uma regrinha de bolo ali no DSM, achar que você...
05:53Olhou na internet, quais são os sintomas?
05:55Ah, eu preencho, então eu tenho.
05:56Não é bem assim, sabe?
05:58E você tocou num ponto muito importante.
06:01Você falou também que chega a trazer um certo prejuízo pra vida da pessoa, né?
06:07Você percebeu esse prejuízo em algum momento?
06:10É, se eu pego de 2020 pra trás,
06:18como eu não tinha rotina, não tinha técnicas de atenção e tal,
06:24Eu chegava atrasado em várias situações, assim, era muito comum,
06:31mas também tinha muita dificuldade, às vezes, de ler um livro, por exemplo.
06:35E aí eu começava a ler o livro, e aí quando eu lia uma página ou, às vezes, até um
06:41parágrafo...
06:42Gente, o que eu li mesmo?
06:44Às vezes, durante uma conversa também é muito comum, assim,
06:48estamos conversando, às vezes até numa questão de um trabalho, estar trabalhando,
06:52e, de repente, numa reunião e tal, você está ali focado,
06:55e aí, de repente, gente, o que essa pessoa falou mesmo?
06:59Aí eu começo umas técnicas de anotação, já anotando algumas palavras-chave
07:03que eu possa olhar e lembrar o que a pessoa falou ali.
07:07Então, assim, tem essa coisa.
07:10É difícil se você não tem um profissional te orientando, te acompanhando,
07:15te ensinando como você lidar com aquela situação, entendeu?
07:18E é muito, também, um problema, é a família achar que é você que não quer,
07:26você, ah, ele que não está indo bem porque...
07:27Que é preguiçoso.
07:28É, que é preguiçoso, que esse tipo de...
07:30E aí começa a sofrer até preconceito, achando que é uma característica sua,
07:35de comportamento, que, na verdade, é muito mais do que isso, né, doutor?
07:39Então, exatamente, é muito diferente de uma personalidade de uma pessoa que é naturalmente
07:44mais preguiçosa, mas que quando ela se propõe, ela vai e faz sem dificuldade.
07:49O TDAH é o contexto de coisas, são várias alterações.
07:53Por exemplo, o indivíduo, ele tem dificuldade de observar detalhes,
07:58então, desde a infância, costuma errar por bobeira,
08:01e sofre com aquilo, mesmo tendo se esforçado, tendo tentado estudar,
08:07ele passa despercebidos detalhes, isso é um tipo mais desatento, né?
08:12Tem dificuldade mesmo, assim, de guardar, organizar e de planejar as tarefas,
08:19isso é uma coisa fundamental para entender.
08:22Porque como vocês viram lá na apresentação, né, até da doutora Paula e doutor Luiz Gikman,
08:27a alteração é no neurotransmissor dopaminérgico, principalmente no córtex pré-frontal,
08:32essa área aqui perto da nossa testa, tá?
08:35Uma região cerebral que eu falo que é a região mais humana,
08:37que é aquela região que a gente consegue planejar, fazer,
08:40o que eu vou executar primeiro?
08:42Ah, eu vou primeiro tomar café, tomar banho, depois eu vou estudar,
08:46depois do estudo eu vou fazer tal coisa.
08:47Esse planejamento é o córtex pré-frontal.
08:50E quem tem TDAH tem essa dificuldade de planejamento.
08:53Então a pessoa já tem a própria dificuldade de colocar em prática o que o terapeuta fala.
09:01É muito diferente de alguém que só está preguiçoso, é muito diferente.
09:05Doutora, olha só, vou abrir um espaço aqui para algumas perguntas que a gente está recebendo.
09:08A Rosiane e a Marilsa Gonçalves querem saber qual é o profissional,
09:12onde que elas encontram, onde que elas procuram um profissional que dá esse diagnóstico?
09:15O ideal é o psiquiatra, né?
09:18Os neurologistas também são capacitados, neurologistas e psiquiatras.
09:22São as duas especialidades que treinam, treinam para isso.
09:27O psicólogo ajuda muito, né?
09:30Às vezes um psicólogo que já acompanha o paciente, já capta várias alterações, como foi o caso de Júlio.
09:35Mas o ideal é que um psiquiatra faça uma análise. Por quê?
09:38Porque a gente precisa fazer o diagnóstico diferencial com transtorno de ansiedade, né?
09:43Que é o que você falou, o pensamento fica acelerado no ansioso, né?
09:46A gente tem que diferenciar se aquilo ali, de não estar conseguindo executar as coisas,
09:50é porque a pessoa está extremamente ansiosa ou não.
09:52A gente precisa fazer diagnóstico diferencial com abuso de substâncias,
09:56uma pessoa que usa algum tipo de droga, né?
09:58E que pode estar tendo alterações da atenção por isso.
10:02Depressão, tá gente?
10:04Depressão causa um prejuízo da atenção, da cognição,
10:07aquela dificuldade de prestar atenção no deprimido.
10:09É um sintoma da depressão.
10:11Então, a pessoa nunca teve nada.
10:13De repente, ela está lá com 20 e poucos anos,
10:17desanimada, desatenta, sem memória.
10:19Pode ser depressão também.
10:20Então, esse diagnóstico diferencial tem que ser um profissional.
10:23Olha só, aqui a gente tem vários comentários.
10:25O Leonardo está falando sobre o seu relato.
10:28Diz que tudo que você disse, ele se identifica, né?
10:31Ele está com essa dúvida.
10:33Será que eu tenho TDAH?
10:34É importante, então, investigar com esses profissionais que a doutora disse também.
10:38A Miriam Campos fala, minha filha de 12 anos tem TDAH.
10:42Ela sofre com isso e eu também, porque na escola as pessoas não entendem.
10:46Ela chora porque não consegue aprender as fases das atividades.
10:50Eles me cobram muito.
10:52Ela faz acompanhamento com o psicólogo.
10:54E aí, doutora, diferenciando, né?
10:56Quando descobre na fase da infância, da adolescência,
10:59ou então agora para a fase do adulto.
11:00O que muda na vida da pessoa depois que ela tem esse diagnóstico?
11:05Primeiro é o autoconhecimento, né?
11:07Você se identificar, você se aceitar e se acolher naquele novo diagnóstico
11:12para se perdoar por tantas vezes que você se culpou por um prejuízo,
11:16às vezes acadêmico ou algum desempenho ruim.
11:19Segundo é buscar terapias adequadas.
11:22Então, por exemplo, a psicologia tem profissionais hoje,
11:25por exemplo, que fazem reabilitação neurocognitiva mesmo,
11:28ou TCC, ou terapia cognitiva comportamental,
11:31ou análise comportamental, que vão te dar ferramentas,
11:34como o Júlio explicou, para aprender a se organizar,
11:39para aprender a fazer uma rotina,
11:41porque tudo que o cérebro precisa, tanto o cérebro saudável,
11:44quanto um cérebro que tem algum tipo de transtorno, é rotina, né?
11:48A rotina auxilia muito o cérebro.
11:50Então, esse paciente vai aprender com as terapias essa rotina.
11:53E uma equipe multi, né?
11:54Então, ele vai ter que reaprender os horários de alimentação.
11:57Existem alimentos que vão ajudá-lo a focar melhor, né?
12:00Alguns tipos de suplementos podem ajudar esse cérebro a funcionar um pouquinho melhor.
12:04Mas o ideal mesmo é fazer,
12:06se tiver necessidade de tratamento medicamentoso,
12:09é o remédio com o psiquiatra, ou com o neuro, né?
12:12E a terapia com o psicólogo, focada, direcionada para o TDAH.
12:16E sempre que possível, estímulos cerebrais,
12:19atividade física, nutrição adequada,
12:22e estímulos para que você cada vez mais aprenda a focar mais tempo.
12:26Então, eu vou só dar um exemplo.
12:27Se você tem TDAH, você tem uma chance maior de se viciar ao celular.
12:32Por quê?
12:33Porque é um estímulo rápido e fácil, que não cansa.
12:37Então, geralmente, o vício no celular pode acontecer mais facilmente em quem tem TDAH.
12:42Então, eu preciso tomar mais cuidado com esse adolescente, com esse adulto,
12:46para que ele possa ler um livro, por exemplo,
12:49ao invés de usar o celular o tempo todo.
12:51Perfeito.
12:51Agora, Júlio, para a gente finalizar, o que que para você ajudou muito, né?
12:55Uma atividade que você passou a incluir, um planejamento e que foi muito importante para você?
13:01Nossa, é difícil responder, porque são várias coisas.
13:05Não tem, assim, uma coisa específica.
13:09Mas eu acredito que a rotina é o que você faz na hora de acordar.
13:15Depois, o que eu vou fazer na hora do almoço, de que horas a que horas eu vou almoçar,
13:20que horas eu vou voltar, que horas eu vou estudar.
13:23Então, assim, você ter esse cronograma, não como para você sofrer com isso,
13:28mas para você se orientar com isso, me ajuda muito.
13:32O planejamento, né?
13:32Deixa o planejamento te levar e não você tentar planejar, porque se você tentar planejar...
13:37Tivemos uma aula aqui hoje.
13:39Obrigada, doutora Maria Carolina.
13:41Júlio, obrigada também, viu, por abrir, né, essa sua intimidade para os nossos telespectadores,
13:47porque a gente tem uma pauta aí muito interessante, muito importante.

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