- há 3 semanas
Uma conversa importante sobre a inovação no ensino público, visando promover o interesse do aluno pela leitura e escrita através do suporte das matérias eletivas.
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NotíciasTranscrição
00:01Começa agora, Vitrine Literária, com professor e escritor Francisco Grijó.
00:07Tudo sobre literatura contemporânea, temas, autores, obras, debates, análises, curiosidades e bate-papo com autores e editores.
00:19Olá pessoal, tudo bem? Podcast e YouTube, Vitrine Literária com Francisco Grijó.
00:26Hoje, como eu havia prometido a vocês, nós temos a segunda parte do bate-papo com Samira Freitas e com
00:34Ricardo Savalaio,
00:35que são professores de literatura, que tem um trabalho muitíssimo interessante e, dentro de todo o meu pequeno conhecimento sobre
00:43escola pública,
00:44é um trabalho inovador, é um trabalho de leitura, é um trabalho de literatura e de apresentação de autores,
00:50é um trabalho de difusão da escrita e é um trabalho em que teatro se conecta diretamente com a literatura,
01:00o texto dramático conectado com o texto poético e um trabalho que depende muito da boa vontade de uma escola.
01:11Fundamental é isso.
01:12Por isso, tanto escolas particulares quanto escolas públicas, se elas não tiverem a vontade política de fazer um trabalho cultural,
01:22além do trabalho curricular, a coisa não vai adiante.
01:26E é justamente por isso que eu começo fazendo um pedido, não é propaganda, é um pedido à Samira,
01:32para nos dizer aqui o seguinte, como é que é essa escola Maria Ortiz?
01:37Olha, a Escola Maria Ortiz é uma escola maravilhosa, eu tenho a oportunidade de dar aula lá, né,
01:44dou aula de língua portuguesa, sou professora de língua portuguesa, para os primeiros e segundos anos do ensino médio,
01:50e dou uma eletiva de atuação.
01:53O que é uma eletiva?
01:54O que é uma eletiva?
01:55É uma disciplina, digamos, optativa, em que o aluno tem uma lista de algumas possibilidades.
02:0515, né?
02:06Somos 15.
02:08Temos 15 eletivas na nossa escola, e o aluno pode escolher de acordo com a sua afinidade.
02:15O que é que ele quer é se aprofundar mais.
02:17São matérias, normalmente, mais artísticas, são matérias que não estão na grade padrão, né?
02:29A minha, como sou atriz, eu oferto uma disciplina de atuação, em que, cujo produto dessa eletiva vai ser uma
02:38peça musical,
02:41cujo texto é deles, cenografia deles, figurino deles, elenco, eles.
02:48Então, é uma peça que está sendo toda produzida por eles, e vamos apresentar, pretendemos apresentar, em setembro, no Sônia
02:58Cabral.
02:59Ótimo!
03:00E também na nossa escola, e eles farão também um intercâmbio entre algumas escolas estaduais.
03:06A gente vai ter essa oportunidade de apresentar em outras escolas também.
03:10Ótimo!
03:10Então, nós temos o gancho para perguntar justamente para você, depois que você concluir, eu te interrompi, peço desculpas,
03:17mas depois eu quero já pegar o gancho para saber como é que vocês transformam a aula,
03:25é o professor falando, o aluno ouvindo, o aluno falando, o professor ouvindo.
03:29É uma troca, como você mesma disse.
03:31Mas, e a produção literária?
03:34Você está me falando que eles produzem literatura.
03:36Produzem.
03:36Então, conclua, por favor, e depois me diga, entre nesse mérito.
03:42Essa produção, o que eles ganham com isso?
03:45Ou seja, eles vão produzir um livro?
03:48Eles vão produzir só uma peça?
03:50Quer dizer, só não, né?
03:50Mas, uma peça?
03:53Aonde isso vai parar?
03:53Na minha aula, como docente de língua portuguesa, a gente trabalha, eu foco muito na produção de texto,
04:05na assistência textual, e eles gostam muito, eu tenho um bom retorno na parte de performance e apresentação,
04:13porque eles gostam dessa coisa da atuação, então, a oralidade, eu trabalho muito, a oralidade, escrita e leitura, né?
04:22Isso no âmbito da língua portuguesa.
04:24Mas, no âmbito da eletiva, eles são protagonistas da própria peça, não é fácil produzir um musical,
04:33está sendo um desafio para mim.
04:35E para eles?
04:35E para eles, muito também, mas eles estão trabalhando direitinho.
04:39Eles criam o texto musical? As canções?
04:43O texto é do Tales, que é um aluno nosso de terceiro ano,
04:47terceiro ano,
04:49cenografia também,
04:51figurino também, a escola da apoio, governo do estado também,
04:54e eles estão construindo tudo,
04:56com a minha coordenação,
04:58a gente conta também com um diretor cênico,
05:01o Lucas da NASA,
05:02uma coreógrafa também, Ludlene,
05:03a gente tem uma equipe bacana,
05:05e eles são os grandes protagonistas.
05:07Em língua portuguesa, eles produzem,
05:10a gente vai ter até na escola um concurso literário,
05:12eles são leitores e escritores, assim, ativos,
05:15eu trabalho muito isso em língua portuguesa,
05:17e no âmbito da eletiva, de atuação,
05:20eles têm como produto, aí artístico, uma peça.
05:25E assim, a gente está suando para entregar um trabalho bonito em setembro,
05:29inclusive você está convidado.
05:31Ótimo, e quem financia isso?
05:33Quem financia isso, sim.
05:36Ótimo, ótimo.
05:37Você falou de eletiva também, né, o Salvalaio,
05:40como é que a sua eletiva é em cima de canções?
05:42É, a minha eletiva trabalha com o MPB, né,
05:45o título MPB é Ontem e Hoje Histórias e Canções, né,
05:47a gente vai estudar o século da canção, né,
05:50como o Luiz Tati nomeou, né,
05:52a MPB é muito rica, né,
05:54a gente chega um momento da eletiva,
05:56a gente até acontece esse termo, né, MPB, né,
05:59que é a música universitária ali da época da ditadura,
06:02e depois a gente vai para outro gênero,
06:04chega até os dias atuais, né, até o rap, né,
06:07que é uma coisa que os alunos gostam muito, né,
06:09o rap tem esse diálogo com a literatura,
06:12que é o Islã, aquelas batalhas de rap, né,
06:14a gente já foi algumas ali no Sônia Cabral,
06:17já teve algumas na escola,
06:18o Islã é um movimento muito bacana,
06:21que os alunos, partes do lado do lado gostam muito, né,
06:24do Islã, tem esse que é literário,
06:25eu acho essa coisa textual que eles escrevem, né,
06:30muitos participam de uma batalha de rima,
06:31acho que a parte da literatura que chega a eles,
06:36muitos leitores começaram com rap, né,
06:38muitos alunos começaram a ler por causa do rap.
06:40No começo dos anos 1980, na Universidade, na UFES, né,
06:47havia um projeto de extensão chamado Oficina Literária,
06:53com o professor Edelinho Gomes,
06:55que é uma figura importantíssima para muitas gerações,
07:00inclusive para mim, e eu saí justamente dessa oficina.
07:03Então eu e outros autores como Valdo Mota,
07:06Paulo Roberto Sodré, Robson Torres,
07:09figuras que continuaram na literatura,
07:11muito por conta dessa oficina.
07:14Eu tinha 20 anos de idade quando comecei a fazer oficina
07:16e fui orientado e fui aprendendo aos poucos
07:20até me arriscar na publicação.
07:23O processo que vocês utilizam com os alunos de vocês,
07:27porque vocês têm uma meta a cumprir,
07:31porque os alunos de vocês de terceiro ano
07:33querem fazer o Enem.
07:36Mas vocês oferecem também algo a eles
07:40muito mais interessante do que o Enem.
07:44Como é que vocês conseguem casar isso aí?
07:45E como é que eles conseguem casar isso?
07:47Até porque é interessante essa provocação sua,
07:51porque o que eu digo para eles assim, por exemplo,
07:53o que justifica para um aluno de língua portuguesa
07:56ir a uma galeria de arte, por exemplo,
07:59na aula de língua portuguesa?
08:00E eu repito sempre que para você ter o que escrever
08:07e o que contar, você precisa ter bagagem,
08:11você precisa ter história, você precisa ser culto.
08:16Então, para isso, é preciso uma bagagem complexa.
08:20E aí a gente vai traçando assim.
08:25O que vocês, extra classe, o que vocês oferecem a eles
08:30para que eles transformem o que eles veem em texto literário?
08:35Por exemplo, a escola apoia essas ações culturais,
08:40o Mário X, a diretora Rovena, apoia muito.
08:42E ela é cosmopolita, a gente recebe alunos de municípios diferentes.
08:47Mas eu, quando entrei ali, vi essa pegada da escola,
08:53a gente frequentou todos os espaços culturais do centro.
08:56O centro cultural ali, o Homero Macena,
08:58o Sônia Cabral, que você falou, a Biblioteca Pública Municipal,
09:02o Sesc Glória, o MAS, o Mais.
09:05O Museu Capixão do Negro.
09:06Isso, vamos lá também.
09:08O Palácio de Chiesa.
09:09O Palácio de Chiesa.
09:09O Palácio de Chiesa.
09:15E o aluno voltar, né?
09:17Porque, de repente, né, Grijó?
09:18Ele nunca liga no museu, não vê em uma exposição que a gente está apresentando ali.
09:23Isso, como a mãe falou, é bagagem, né?
09:25Às vezes a pessoa pode achar, ah, não tem relação com português, né?
09:29Mas tem, né?
09:30Com certeza tem.
09:31É arte, é literatura, tem discussão, né?
09:33No Homero Macena tem até uma exposição ali,
09:36e nós, mulheres pretas, né?
09:37Então, a arte, ela é um encontro, um diálogo, né?
09:42Nunca é uma coisa só, né, Grijó?
09:44É, no dia que eu tive contato com os alunos de vocês, na Biblioteca Pública, semana passada, né?
09:50Foi uma experiência muito boa, porque eu vi alunos de 16, 17 anos interessados no que eu estava falando,
09:59sem terem lido meus livros.
10:01Então, quer dizer, houve uma preparação, eles foram para lá para ouvir o que um desconhecido deles tinha para falar.
10:07E eu vi que havia um interesse deles no que as pessoas, mesmo desconhecidas, estavam falando.
10:17Isso é fruto de uma sedução.
10:20Essa sedução, como é que se dá essa sedução no seu caso, Sabalaio?
10:25Como é que você faz para o aluno se interessar por isso?
10:27Eu tenho uma linguagem mais simples, né? Mais direta, com o aluno, né?
10:32Ele é uma figura.
10:33A sua fala lá, acho que foi isso.
10:37Você conseguir atingir o aluno ali que eles falaram na escola, né?
10:41Porque a gente já foi a várias, né?
10:43Não é porque a gente está aqui, né?
10:44Mas eles comentaram dos livros, tiveram interesse, né?
10:48Reclamaram que não teve mais sorteio, né?
10:50Também, inclusive, mas essa palavra é interessante, sedução, né?
10:54Eles confiam na gente também.
10:55O trabalho é o trabalho de sedução, de confiança.
11:00Ninguém seduz o outro se o outro não confiar nele.
11:02É, e não dá para... assim, eu acho que a gente não é chato, né?
11:06Deve ser um pouco isso também.
11:07Porque aluno não gosta de professor, assim...
11:11Talvez, nesse sentido, a gente seduza, porque a gente é próximo...
11:14Ricardo tem uma linguagem muito engraçada, os alunos riem o tempo inteiro dele.
11:19Então, assim, acho que a sedução parte dessa proximidade, eu diria.
11:23Porque literatura, cá entre nós, né?
11:27Ensinar literatura...
11:28Literatura é uma coisa chata, é bom ler, é bom descobrir as coisas sozinho.
11:32Isso.
11:32Mas as estéticas literais são chatas.
11:35Isso.
11:35Caracteriza o romantismo, do realismo, do naturalismo.
11:40Eu, por exemplo, desafio muito o meu aluno.
11:43Eu parto dessa ideia de que o meu aluno tem que ser incomodado, de alguma maneira.
11:48Ninguém incomoda o cara.
11:49O cara está lá tranquilo, ninguém incomoda.
11:52Alguém tem que fazer esse papel de incomodá-lo.
11:54Então, eu vou lá e tento incomodá-lo.
11:56Claro que, às vezes, eu extrapolo, às vezes, eu fico devendo.
12:01Mas o que eu percebi ali é que eles estavam prontos para a literatura de uma forma muito suave,
12:10de uma forma muito tranquila, como se literatura fizesse parte da vida deles.
12:14Isso é muito bom.
12:15Que bonito.
12:15O que você falou, né?
12:17Porque literatura não faz parte da vida de quase ninguém.
12:19Sim.
12:19Faz parte da nossa vida.
12:21Isso aqui faz parte da minha vida.
12:23Isso.
12:23Mas literatura não faz parte da vida das pessoas.
12:27Na verdade, eu acho que quando eles percebem que a literatura vessa, fala das coisas do dia a dia,
12:31fica suave, do jeito que você falou, né?
12:34Porque quando a gente está trabalhando essa peça, a Capital Federal, que é o tema do realismo,
12:39para a gente sair daquela literatura canônica, eu pensei na Atua Azevedo por isso.
12:43A gente pensa no Enem, a gente tem que cumprir um currículo, como você falou, né?
12:46Mas a gente ir além disso, com criatividade, com uma coisa lúdica, que seja acessível na linguagem e no ensino.
12:56Mas eu acho que quando a pessoa se vê, quando tem um cotidiano, e os seus livros, acho que o
13:03da sua fala lá,
13:04você falou de coisas do cotidiano, né?
13:06Amores.
13:07Mas olha só, uma pergunta para Ricardo e para Samira, vocês vão escolher quem é que vai responder.
13:14O trabalho que vocês fazem com literatura e com língua portuguesa, é um trabalho que vocês me disseram,
13:23que vocês optam por escolher um livro que pertença à estética que eles estão estudando.
13:30No caso aí, o realismo, optaram por Arthur Azevedo.
13:33E aí, a minha pergunta para vocês foi, além disso, aí você me falou sobre a questão de que eles
13:39têm uma ligação
13:39com a produção literária coreana, a produção literária de revista, de mangá, etc.
13:45Tudo bem, mas e a nossa literatura, a literatura brasileira?
13:50E outra coisa, vocês trabalham com literatura do Espírito Santo?
13:54Boa pergunta.
13:55Não, não é chamar o autor para ir lá, não.
13:58É pegar o livro de um autor do Espírito Santo.
14:01Então, no primeiro trimestre, ficou livre.
14:04Teve aluno que leu Bernadette Lira, leu mangá, né?
14:08Foi assim, porque como você falou, a gente não...
14:10Às vezes na escola, a gente não ensina literatura, a gente ensina história da literatura, né?
14:15Aquela periodização, né?
14:18No primeiro trimestre, ficou muito evidente que teve o seminário de literatura sobre romantismo,
14:23e eles leram mangá Bernadette Lira, leram Luiz Fernando Veríssimo, né?
14:28Foi livre, né?
14:30Mas a pedido deles, no segundo trimestre, eles solicitaram,
14:34professor, por que a gente não trabalha obras do gênero?
14:37Do gênero, sim.
14:37Que é até um link com o Enem, né?
14:39Só que aí, o que eu pensei?
14:41Além da gente ler...
14:42Sai desse lance do seminário, da formalização, assim, de períodos, né?
14:47Além de ler um livro do Machado de Assis, né?
14:49Do Luiz de Azevedo, a gente também faz uma leitura dramática de uma peça.
14:53Então, eles vão estar lendo duas coisas do período.
14:57Distintas, né?
14:57Às vezes.
14:58Porque vai ter menino que vai estar lendo Machado, e a peça é para cinco turmas.
15:03Mas foi a pedido deles, isso que é interessante.
15:05É, mas aí vem uma pergunta para a Samira.
15:07Samira trabalha com língua portuguesa.
15:09Língua portuguesa é, inevitavelmente, regra.
15:13Certo?
15:14E literatura é, essencialmente, burlar a regra.
15:19Então, são...
15:20Não são...
15:21Ajudam-se, mas tem uma rusga entre elas.
15:25Como é que você faz com o teatro, que é uma coisa livre, é uma arte,
15:30e que tem uma linguagem solta,
15:32uma linguagem, por muitas vezes, que corrompe a própria linguagem, a própria língua estruturada.
15:39Como é que você faz para juntar isso aí?
15:42E o que você diz para o seu aluno?
15:45Nós estamos falando assim, mas no Enem você não pode falar assim, na redação você não pode falar assim.
15:50E aí?
15:51Então, tem o lance da licença poética, né?
15:53Que eles amam e a gente também, enfim.
15:56Mas eu acho que a gramática, ela não é inimiga da literatura, não.
16:01Dá para andar junto, assim.
16:02É.
16:03Tem umas rusgas entre elas, né?
16:04Tem umas rusgas, claro.
16:05E é importante transgredir,
16:09mas é importante conhecer para questionar.
16:12É o que eu sempre falo para eles, né?
16:13Na verdade...
16:14Não dá para você transgredir se você não souber.
16:17Sem conhecer, exatamente.
16:18Porque se você não souber, você não sabe o que está transgredindo.
16:20Exatamente.
16:21Na verdade, o que eu passo para os alunos é saberem separar situações comunicativas.
16:25O WhatsApp é uma linguagem, ele está em entrevista de emprego, é outra.
16:29Exato.
16:29Situações formais e informais, ele tem esse time, né?
16:32Que às vezes os alunos não têm, ele quer falar ou escrever com o padre,
16:36o mesmo que ele fala com a mãe, com um amigo, ele separar, né?
16:40Uma entrevista de emprego, um Enem, situações formais, né?
16:43O WhatsApp é uma conversa com um amigo ali, é algo informal.
16:46Saber transpor a linguagem ali, né?
16:48Esse que é o barato, a cheia da coisa.
16:49Sim, e isso na produção literária deles, como é que vocês fazem?
16:53Então, porque a gente, Grisó, a gente é professor de três frentes.
16:57Os cursinhos geralmente separam literatura, redação e gramática.
17:00A gente tem que dar as três frentes ali em quatro aulas semanais.
17:06Então, e agora, como o vestibular morreu, né?
17:08A gente é do tempo do vestibular, né?
17:10São os mais velhos.
17:11O Enem continua, né?
17:12O Enem é o vestibular.
17:14Só que aí você pega, com a morte do vestibular, você só produz o texto dissertativo.
17:20Por que você está insistindo nessa ideia de que o vestibular morreu?
17:22O vestibular da UF, o Veste UF, por exemplo.
17:24Ah, aquele vestibular, daquele modelo.
17:27Isso, porque se escrevia mais.
17:28Porque eu, quando fiz letras, eu fiz uma discursiva de português, história, redação, três dias.
17:34Ele vai só fazer o Enem em dois dias, a escrita dele vai ser um texto dissertativo argumentativo, somente.
17:40Então, ele não vai...
17:41Eu, por exemplo, fiz uma narrativa, um edital, um editorial e um cartão postal.
17:47Então, são gêneros diferentes.
17:49Então, é um desafio mesmo.
17:50A gente fica muito bitolado ali no texto dissertativo.
17:54Mas eu também costumo trabalhar o ofício, o texto narrativo, né?
17:59Isso é algo que me incomoda um pouco também.
18:02Em que medida?
18:03Por exemplo, no terceiro ano, eles estudam só dissertação.
18:06Só.
18:06Pelo menos nesse formato em que a gente está inserido.
18:09Eu sou professora especificamente de primeiros e segundos anos.
18:13Só na minha letiva de atuação é que eu tenho alunos de terceiro ano.
18:17Mas, em língua portuguesa, no terceiro ano, eles estudam só dissertação.
18:21Nem tem gramática, eu acho.
18:22É só redação e literatura.
18:24E eu acho muito importante esse processo, para que eles, inclusive, tenham o que escrever.
18:30Porque não adianta você trabalhar argumentação se o menino não tem o que argumentar.
18:35Não tem bagagem, não tem repertório, né?
18:38Então, primeiros e segundos anos, eu tento conduzir dessa maneira.
18:44Para que eles cheguem no terceiro ano com alguma bagagem mais complexa, né?
18:49Bagagem essa que tenha cultura, que tenha não só a questão de conteúdo, mas também o repertório de vida.
18:58O Brilhão falou de escrita literária, mas também essa escrita de redação.
19:02É interessante que a gente trabalha desde o primeiro ano, né?
19:04Mas eu estava comentando com ela que houve uma robotização.
19:09Existe um texto pronto.
19:11Existem formas textuais que alguns professores passam.
19:14Isso foi uma loucura.
19:15Eu até compartilhei com o Ricardo.
19:16Eu já fui corretor do Enem, né?
19:18Por exemplo, você corrige lá 100 redações por dia, né?
19:21A meta lá.
19:23Tem uma padronização, Grigio.
19:26O cara só muda os dados.
19:27Eu não sabia.
19:28Eu não sabia disso.
19:30Se você não tirar aquela fórmula dele, ele não produz.
19:32Eu não faço isso.
19:34Eu dou expressões coesivas, né?
19:36Logicamente, explico a função de cada parágrafo.
19:39Mas eu trabalho justamente dentro do primeiro ano para ele ter musculatura textual.
19:42Até para não acontecer esse fenômeno.
19:44Que não sei se é só no discursinho, se é uma padronização.
19:47Mas é um fato.
19:48Existem escolas que dizem...
19:51Você tem que escrever assim, dessa maneira.
19:53Bem, eu como sou professor de literatura, eu prezo o tempo todo pela liberdade.
19:58Por romper isso aí, né?
20:00Não sou professor de redação.
20:01Talvez se eu fosse professor de redação, eu tivesse um pouco mais de transigência com esses modelos.
20:09Mas, como eu não sou, não preciso transigir.
20:12Mas vamos voltar para a produção literária.
20:17Porque vocês têm alunos interessados em literatura, em leitura.
20:22Vocês estimulam a leitura e estimulam a escrita.
20:25No caso seu, você trabalha uma peça teatral.
20:29E no seu caso?
20:30O que o aluno vai produzir na sua eletiva?
20:34A melativa é mais contemplativa, né?
20:37Porque a gente recebe convidados.
20:37Não há produção sobre música?
20:39A gente produz uma playlist no Spotify, né?
20:43Tudo que a gente viu, dos convidados que a gente recebeu, a gente recebe muitos convidados, né?
20:48A gente vai receber a visita de uma rádio escola, que é a Rádio Farofa, lá de Cariacica, do Escola
20:54Olímpico Cunha.
20:55Vai ter esse intercâmbio, né?
20:57Mas a gente vai recebendo convidados e é mais para o conhecimento, né, Grijó?
21:03Assim, das canções do Brasil, que eles não conhecem, né?
21:07Caetano, Chico, estão aí.
21:08Eles são eternos, mas muita gente ali não conhece.
21:11O próprio Amaro Lima, que foi lá, e o Anderson Ventura, do Java Roots,
21:15eles não conheciam essa produção do início do século, desse movimento do rock congo, né?
21:21O Edu Rende vai lá falar da relação dos beats com o MPB, por exemplo.
21:25O Jorge Nascimento foi falar da literatura marginal.
21:27Então, cada convidado traz sua contribuição.
21:31Eu não me preocupei, assim, de oferecer um produto, assim,
21:34além dessa questão da playlist, porque eu acho que a playlist, por si só, é um produto.
21:40Você vai ouvir lá desde o João Gilberto ao Crioulo, o Emicida, né?
21:45Já citados, né?
21:47Então, é bagagem, né, que ela falou, bagagem mesmo.
21:50Eu achei, olha, eu estou, assim, encantado com esse trabalho de vocês.
21:55Espero que outras escolas tenham essa política, né?
21:59Isso é uma política cultural.
22:00Sim.
22:01Espero que outras escolas do Estado tenham isso.
22:04Não sei como é que funciona, se uma escola é independente da outra e cada um faz o que quer.
22:09Não sei.
22:10Tem um currículo mínimo e as escolas criam.
22:13Mas vocês estão de parabéns.
22:14Eu agradeço muito, muito, muito a participação de vocês.
22:18Convido vocês para voltarem aqui.
22:19Eu acho que a gente pode trazer um dia, fazer um com dois ou três alunos.
22:24Claro.
22:24Para vocês escolherem.
22:25Ah, seria lindo.
22:26Para eles virem aqui, para a gente conversar.
22:27Porque ter a visão do aluno é interessante.
22:30Eu já chamei professores, editores, escritores, poetas, dramaturgos, fotógrafos que trabalham com literatura.
22:38Mas eu nunca chamei aluno.
22:40Eu quero chamar aluno.
22:41Mas eu não quero chamar aluno de escola particular.
22:45Eu quero chamar aluno de escola pública.
22:46Onde a dificuldade com a literatura é maior.
22:50Em tese, né?
22:51Porque vocês estão gostando justamente o contrário.
22:53E é legal também ter a visão do que ele assimila, do que ele acha desse ensino, né?
22:58Perfeito.
22:58Da letiva, da...
23:00Gente, olha, muito obrigado a vocês dois.
23:02Obrigado, Samira.
23:02Bom te rever demais.
23:04Ótimo.
23:05Muito obrigado, Ricardo.
23:06Vocês estão convidados já a voltar.
23:09Foi um grande prazer conversar com vocês dois.
23:11E foi um papo muito esclarecedor para todos que nos ouvem sobre a ideia que se tem de que existe
23:18uma falência da escola pública.
23:20O que é um grande erro.
23:22Porque a gente está vendo aí o trabalho que vocês estão fazendo.
23:25Meus parabéns.
23:26Muito obrigado.
23:27Voltem sempre.
23:28Beleza?
23:28Obrigada.
23:29Valeu, gente.
23:30Até a próxima edição de Vitoria Literária com Francisco Guirijó.
23:35Lembrando a vocês que na próxima nós teremos uma convidada muito especial, cujo nome eu não vou falar agora.
23:43Vocês vão ter que esperar para saber.
23:45Valeu, gente.
23:47Você ouveu Vitrine Literária com o professor e escritor Francisco Guirijó.
23:52Tudo sobre literatura contemporânea.
23:55Temas, autores, obras, debates, análises, curiosidades e bate-papo com autores e editores.
24:02Vitoria Literária com o professor Francisco Guirijó.
24:03Tchau.
24:04E aí
24:04Legenda por Sônia Ruberti