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  • há 2 semanas
Os frequentes casos de violência contra a mulher são revoltantes. Você denunciaria se identificasse uma pessoa sofrendo violência? A psicóloga Daniela Sampaio, a advogada Kamilla Dias e a Juciléia Ribeiro, que já denunciou um caso de agressão, falam do nosso papel como sociedade.

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Transcrição
00:00Eu recebo Daniela Sampaio, que é psicóloga. Muito obrigada pela sua participação, Dani. Boa tarde.
00:06Camila Dias, que é advogada também. Seja bem-vinda. Uma boa tarde.
00:10E a Júcilaia Ribeiro, que tem uma força incrível.
00:15Ela não só já viveu essa violência, como hoje ajuda, incentiva essas mulheres a denunciarem.
00:23Até aconteceu, há um tempo atrás, um caso em que você foi com uma mulher até a delegacia. Jú, boa
00:29tarde.
00:30Fui. A gente chamou a mulher, ela ia fazer a denúncia, levamos ela até a delegacia.
00:36Demos carona, até eu e a Patrícia, minha colega, ela voltou para o marido.
00:41E ainda falou que foi nós que mandamos ela denunciar.
00:44O marido agora não conversa com a gente, porque ela falou que nós que mandamos ela denunciar.
00:47O que nós fazemos, eu acho que todo mundo faz, não é denunciar.
00:52É empoderar essa mulher para que ela mesmo se veja como que ela é violentada.
00:57Porque a maioria dessas mulheres que não denuncia, elas não se vêem como violentadas.
01:01Elas não veem que elas sofrem violência.
01:03Só que no meu caso, por quê?
01:04Enquanto eu não via que eu era vítima, que eu achava que aquilo ali fazia para a normalidade,
01:09eu achava normal, eu sofria violência e meus filhos presenciarem.
01:12Só que isso tem um dano irreversível nas crianças.
01:15Eu tenho filhos que têm problemas até hoje por causa disso.
01:19Eu criei uma filha que ela não aprendeu a escolher, agora ela faz tratamento, devido
01:23a achar que era normal o sistema de violência que eu vivia.
01:28Então assim, a mulher quando ela é agrigida, ela tem que pensar não somente nela, nas
01:32crianças.
01:33Então assim, esses homens bateram nas mulheres.
01:35E se eles pegam essas crianças?
01:37O elo mais fraco ali não era a mulher, era as crianças.
01:40E a gente não temos noção que quando a gente estamos apanhando, essa plateia está
01:44presenciando tudo e isso vai ter efeitos terríveis.
01:47É claro que naquele dia, naquele momento, a dor da mãe, a dor da mulher, ela é muito
01:53latente.
01:54E aí às vezes acaba que ela não consegue, naquele momento, parar para pensar na dor
02:00do filho.
02:02É isso, Dani?
02:04Acontece?
02:05Acaba que é claro que nós somos mães, a gente tem um instinto protetor com a criança,
02:11mas a dor está muito latente na mãe, então ela meio que não consegue dosar, pensar no
02:16quanto o filho está sendo impactado com aquilo tudo.
02:20Exatamente.
02:21No momento que está acontecendo, é muito impactante fisicamente e psicologicamente
02:27também para essa mulher que está sofrendo isso.
02:29Porque veja, pode ser inúmeras possibilidades, pode ser aquela mulher que já é agredida
02:33com alguma frequência, pode ser aquele impacto de primeira vez que você não esperava passar
02:37por aquilo, porque sempre vai ter a primeira vez.
02:41Então existe esse momento que de fato eles refletem de forma diferente.
02:45Acontece que, também é verdade, que os impactos para essa criança, eu diria que são quase
02:50que irreversíveis, porque a gente não tem dimensão, a gente não consegue mensurar
02:54o que vai vir a partir dali, né?
02:56Eu posso ter uma criança que tem dificuldade na fala, eu posso ter uma criança que quando
03:01crescer vai encontrar um agressor, porque como ela bem disse, normalizou aquela situação.
03:06Então, bom, o que tem?
03:07Isso aqui já é normal, já sei como é que é.
03:09Então pode ter uma criança que vai ser o agressor, pode ser aquela que vai crescer
03:13e ser o agressor, aquela que vai crescer e normalizar ser agredido.
03:16Então os impactos realmente eles são inúmeros, mas eu concordo plenamente com a sua fala
03:20quando você diz que no momento, assim, que está acontecendo ali, é uma dor que a gente
03:25não pode imaginar e ela pensa naquele momento, assim, muito provavelmente, por mais que ela
03:31não tenha força para sair daquela situação, a gente não sabe, mas naquele momento eu quero
03:34que aquilo ali acabe, só isso.
03:35Agora, Jusceléia, hoje, com toda a sua maturidade, a sua experiência e vivência, você denunciaria
03:44um caso de violência doméstica de alguma vizinha?
03:48Como que você trata esse assunto?
03:50Eu acho que ninguém, não só, a gente tem o hábito de culpar muito o governo pelas
03:55mazelas que as mulheres estão passando, mas nós como sociedade civil, como vizinha,
03:59nós temos a obrigação de preservar a vida daquela mulher.
04:02Eu acho assim que, hoje em dia, eu não veria uma mulher apanhando e ficaria insensiva
04:08a situação, porque essa insensibilidade também de vizinhos que está levando muita
04:13mulher.
04:13Nós temos 15 feminicídios no Estado somente nos seis primeiros meses do ano.
04:17Um número maior em comparação ao mesmo período do ano passado.
04:21Nesse mesmo período, nós tivemos 13 feminicídios no ano passado e agora já temos 15, ou seja,
04:2915% a mais, o que muito nos preocupa, né, Camila?
04:34Muito, Roberta.
04:35E essa fala de nós, como sociedade, o que fazer nessa hora, realmente é muito importante,
04:41porque não tem nada isolado.
04:43Nós temos lei, nós temos medidas que são tomadas e nós entendemos também que, muitas
04:49vezes, para chegar até a lei e a medida, nós temos a nossa parte.
04:53Então, se eu vejo uma vizinha, uma colega, alguém na rua, no meu prédio, eu estou
04:59escutando, que eu estou percebendo que está em uma situação de risco, eu vou esperar
05:04essa mulher ser morta, mais um caso?
05:07Ou eu vou ficar aqui do outro lado pensando, ah, mas depois eles se resolvem?
05:11Ah, mas ela volta de novo, eu vou me meter nisso?
05:14Não, você vai se meter nisso.
05:15A gente precisa se meter nisso, porque uma dessas vezes que a gente toma o partido, pode
05:19ser uma vez que a gente está evitando de um crime desse acontecer.
05:22Ainda mais se tratando quando ainda tem crianças envolvidas ou adolescentes, que são mais
05:28vidas ao redor desse agressor correndo risco.
05:32E por mais que essa mulher não tenha ainda uma estrutura emocional para que ela denuncie,
05:37qual é a importância, Dani, dela receber, de certa forma, isso é um apoio da vizinhança,
05:44qual é a importância disso para ela?
05:47Roberto, acho que a gente pode avaliar a partir de duas perspectivas.
05:49Uma é, de fato, a nossa geração foi criada com aquela premissa de que briga de marido
05:55e mulher não se mete a colher, né?
05:56E a gente sabe que não devemos partir desse princípio, porque enquanto sociedade nós
06:01temos sim nossas obrigações.
06:02E a gente sabe que a importância, por exemplo, de um vizinho quando acolhe, igual mostramos
06:07aqui em algumas matérias, né?
06:09A gente tem que ter a noção que a gente vai criar memórias nessas crianças.
06:14E aí a gente tem que entender qual tipo de memória eu estou disposto a criar nessa criança.
06:18E até enquanto vizinho, enquanto sociedade mesmo.
06:20Quando a gente acolhe essa criança, eu estou trazendo uma memória para ela que, de fato,
06:25ela vai carregar uma memória de algo bom, de outras possibilidades para além daquilo ali
06:30que está acontecendo comigo nesse momento.
06:32Então, os vizinhos, eles têm essa importância, Roberta, também, porque elas, por vezes,
06:36não têm força para denunciar por vergonha.
06:40Imagina você se casa, tira foto, mostra para todo mundo, felizes para sempre.
06:44Aí depois você tem que ir para essa mesma sociedade e falar, olha só, isso aqui que
06:48eu estava tão feliz, esse homem, ele é o meu agressor.
06:50Então, por vergonha, por falta de coragem, por falta de força mesmo, por vezes essa mulher
06:55se coloca numa posição mais retraída.
06:57Aí entra a sociedade, os vizinhos, nesse papel que eu acho que é tão importante.
07:00E a gente está aqui pontuando agora a denúncia, mas existem outras formas, além da denúncia,
07:06da gente também ajudar essa mulher, ajudar essa criança.
07:11Uma dessas formas, o projeto da Jusceléia também já atuou, né?
07:17De que forma?
07:17Ju, conta para a gente, vou deixar você contar.
07:19Por exemplo, a gente aqui em Vitória, a gente no Espírito Santo, a gente não tem ferramentas
07:22eletrônicas de proteção a essa mulher.
07:24Lá em Vila Velha, por exemplo, a gente trabalha na região 5, que é uma área extensiva,
07:27mas não tem tecnologia como botão do pânico.
07:31E muitas dessas mulheres sabem que realmente o agressor vai matá-la.
07:34Nós fazemos deslocamento delas de Estado.
07:37Nós tiramos elas daqui e mandamos por Estado de origem.
07:41Por que esse nome, esse projeto, tem o nome de Libertas?
07:45Porque os escravos, como for o livre, igual essas mulheres, não sabem o que fazer.
07:49E a gente fazemos para que elas tenham uma sobrevida após a denúncia.
07:54Porque a gente, em Vila Velha, nós temos uma lei que fala bem assim,
07:57que a criança, filho de mulher, vítima de violência, ela pode ser remanejada de escola.
08:03Mas um dos artífices que os homens usam lá é pegar essas crianças na escola e obrigar a mulher a
08:08voltar para ele.
08:10Então, assim, muitas das vezes essas crianças são usadas até como moeda de tortura da mãe.
08:15Porque a gente fala assim, ah, só a criança presenciou.
08:17Essa criança, muitas das vezes, ela já começa assim, tem criança, igual eu falei, que elas têm pânico do pai.
08:23Nós citamos no caso de um assistente social, amiga nossa, que ela recolheu as crianças, três meninas, da mãe era
08:28agredida.
08:29Ela recolheu essas três crianças que ficaram com ela uma noite até no outro dia, quando acalmou o caso dos
08:35pais brigando.
08:36O que é uma atitude muito comum quando a gente vê, quando a gente tem uma casa, uma vizinhança,
08:44que a gente sabe que ali é conflituoso.
08:46E aí, diante daquele dia onde os ânimos estão mais exaltados, a gente sabe que muitos vizinhos tentam agir dessa
08:55forma,
08:55retirando a criança daquele ambiente para que ela não presencie todo aquele conflito.
09:01E foi isso que essa assistente social fez?
09:04Ela recolheu essas crianças até para que eles saíssem do foco, porque a mãe não se reconhecia como vítima,
09:09então ela não iria fazer a denúncia.
09:11Provavelmente a polícia ia chegar, ela ia falar que não ia.
09:13E ela retirou essas crianças.
09:15Essas crianças ficaram lá com ela uma noite, um dia.
09:17Quando chegaram lá, estava tudo destruído, o homem havia destruído.
09:21E essas crianças não quiseram voltar com a mãe.
09:26Elas tiveram pânico.
09:27Então, antes que uma, quando fala do pai, ela tem tremura.
09:30A psicóloga que atende falou que ele tem estresse pós-traumático.
09:33É como se ele tivesse ido para uma guerra.
09:36E a avó pegou a guarda, baseado nisso, a avó pediu a guarda, porque a mãe não se reconhece,
09:40por causa da religião, porque são evangélicos, a mãe não se reconhece como vítima,
09:46acha que ali é um ato de submissão normal, ela não se reconhece como vítima,
09:50fala que ele está possuído.
09:52E ele continua batendo nela e essas crianças em pânico.
09:56Então, as crianças até, você tem ideia, as crianças agregaram o homem ao mal,
10:00agregaram a figura paterna a uma coisa ruim, e a religião também do pai agregaram a uma coisa ruim.
10:06Porque a gente não tem noção, a mãe está na hora do fogo cruzado, a mãe está apanhando.
10:10Mas quem mais está sofrendo é a criança, porque ele não consegue tomar partido entre o pai e a mãe.
10:15Ele está no meio daquele fogo cruzado.
10:17Ele não sabe se protege a mãe e vai contra o pai, porque o pai também é o herói dele,
10:22e ele não sabe se ele toma o partido do pai e ir contra a mãe, que a mãe já
10:26está se tornando vítima.
10:27Então, assim, a gente fala assim, que eu falo como mulher que sofreu violência,
10:31que os maiores prejudicados na minha história foram meus filhos.
10:34Eu consegui superar, eu consegui me reerguer, mas meus filhos, eles trazem traumas,
10:38traumas que vêm de 14 anos, eles trazem trauma, que hoje em dia eu tenho uma parcela de culpa porque
10:45eu fui omissa.
10:47Porque a mulher sofre muito julgamento.
10:49Mas o meu mal hoje em dia foi eu ter me omitido durante tantos anos e ter deixado eles passarem
10:54por um sofrimento tão grande.
10:55Assim, eu não tinha dimensão do sofrimento que eles passavam, era maior do que o meu.
10:59Essas mulheres têm que conscientizar que aquelas crianças que apresentaram aquilo,
11:02o sofrimento dela é muito maior do que o dela.
11:04Meu sofrimento era físico, eu não tenho cicatriz nenhuma mais hoje em dia.
11:07Agora os deles são na alma.
11:09E aí, Camila, nós enquanto vizinhos, a gente enquanto sociedade, como eu já disse, né?
11:15Assim, é muito comum que a gente às vezes escute, uns ficam quietos, apenas analisando,
11:20olha, acho que eles estão brigando.
11:22Outros vão lá, batem na porta e falam assim, vem cá, vem com a tia, né?
11:27Pega a criança, tira a criança daquele ambiente.
11:29E a gente se pergunta, a gente pode fazer isso?
11:31Podemos.
11:36A gente deve?
11:36A criança está acima de qualquer outra coisa.
11:39Então, como ela relatou aí um caso.
11:41Se eu vejo, noto uma situação de risco, onde estão envolvidos crianças e adolescentes,
11:46eu posso tomar partido no sentido de protegê-los da forma que naquele momento for conveniente.
11:52Como não dá tempo, muitas vezes, de ligar para o 190 e pedir à polícia para intervir,
11:57e você está ali naquela situação de, se eu pegar, vai ser menos, pior, recolha essas
12:02crianças, liga para o Conselho Tutelar, relata o que está acontecendo, a situação de
12:06risco que está ali, né?
12:07Até porque a gente às vezes não tem como acolher essas crianças por um período maior,
12:11ou esse homem pode vir também, e aconteceu como aconteceu no caso do relato, né?
12:17Invadiu a casa da vizinha, onde a ex-companheira estava.
12:21Então, assim, primeiro faça a sua parte, né?
12:23A gente, eu também, enquanto advogada, já escutei histórias de vítimas onde os filhos
12:29foram acolhidos de alguma forma, seja para pegar a criança para dar um copo de água,
12:33não vem aqui rapidinho, e deixa, infelizmente, enquanto a polícia não chega para tomar uma
12:38medida, que aquilo continue, mas sem a presença dessas crianças ali naquele ambiente.
12:42Ou seja, resumindo, até agora, tudo o que a gente falou é a importância da denúncia
12:46e até que a polícia chegue, tente acolher essas crianças.
12:50O que isso pode significar para os pequenos, Dani?
12:55Esse acolhimento, o olhar de um adulto querendo ajudá-los?
13:00Eu acho que é muito do que eu falei com relação a criar memórias, né?
13:04Então, assim, essa criança tem a possibilidade de ter uma memória terrível, ou ela tem a
13:09possibilidade de ter uma memória de uma situação difícil, mas que junto com essa
13:12memória de uma situação difícil, ela também entende que existem boas coisas para
13:17acontecer com ela, né?
13:18Situações melhores.
13:19E, Roberta, eu queria só mencionar, como ela bem disse, sobre o julgamento, né?
13:23A gente falou sobre isso, assim, eu já atendi uma paciente que ela falava assim, eu tenho
13:27uma amiga, mas ela falou que já está cansada de me ajudar e agora eu não tenho nem mais
13:31ela, eu não tenho mais ninguém para contar.
13:34Eu entendo o outro lado que ficou vindo aquilo e que às vezes quer ajudar, mas o julgamento,
13:40assim, para a gente que não está sofrendo a violência, é mais fácil falar e falar
13:44é só você sair disso.
13:45Mas, Roberta, é tão difícil?
13:47Pensa.
13:47Às vezes a pessoa fala que é questão de religião e que está possuído, enfim.
13:52Para a gente, a gente pode pensar, né?
13:54Bom, você não precisa acreditar nisso, mas para quem está ali vivendo é como se realmente
13:57por vezes pode querer criar uma nova história para acreditar que a culpa de fato não é
14:02dele, assim, e acreditar de fato que ele vai mudar, enfim.
14:05Eu acho que o não julgamento é uma das principais características boas que a gente pode ter.
14:10E acolher essa mulher, quantas vezes ela precisar, assim, ela sofreu agressão, saiu, voltou, então
14:15que ela tenha alguém que ela possa contar.
14:17E se essa pessoa for você, que você tenha essa paciência mesmo, né?
14:20De estar ali.
14:21Perfeito.
14:22Vamos fazer o seguinte?
14:23Vamos convidar a Jéssica Martins para esse nosso bate-papo?
14:26Olha só, ela já vivenciou um caso de violência e foram os vizinhos que ajudaram ela a denunciar.
14:33Olha aí, mais uma vez, a importância da denúncia, a importância dos vizinhos se meterem sim.
14:39Não é verdade, Jéssica?
14:41Boa tarde.
14:42Boa tarde, boa tarde a todos.
14:45É de fato muito importante, né?
14:47A denúncia, né?
14:49A primeira vez que eu necessitei de uma denúncia, eu denunciei duas vezes, não me acharam, né?
14:55Os policiais não me acharam.
14:57E por conta dos meus vizinhos que denunciaram, ajudaram na denúncia, né?
15:01A terceira vez foi que os policiais me acharam, né?
15:05E eu consegui sair de um quadro de um feno de feminicídio, né?
15:10Que foi até antes do meu outro caso.
15:13Ele estava até com a chave de fenda, ele estava já me segurando para tentar me matar.
15:17Quando os policiais chegaram e os vizinhos evitaram que eu fosse morta naquele dia.
15:22E de que forma que a denúncia te ajudou, te fortaleceu, a mesmo que depois, não de imediato, mas mais
15:32adiante, a dar um ponto final nesse relacionamento?
15:37Olha, ela me ajudou mais porque eu reconheci que eu estava na situação de risco, né?
15:43Os vizinhos escutando a vicaria e tudo mais.
15:47Eles me denunciaram, devido a isso, eu percebi aonde que eu estava, né?
15:51Que eu estava sofrendo a partir dali.
15:54Perfeito.
15:55Já volto a falar com você, Jéssica, porque quando a gente fala de denúncia, a gente também fica imaginando...
16:01Eu me perguntei isso, Jusceléia, se com a denúncia, independentemente se a mulher vai ou não romper aquele relacionamento imediatamente,
16:12mas se isso ajuda a coibir uma próxima agressão do homem, o que você percebe?
16:19Eu percebo que a denúncia, no momento de chamar a polícia naquele momento, é um ato de preservação da vida.
16:25E, segundo assim, a gente fala dos vizinhos, não é o caso da denúncia, eu falo dos vizinhos mais amplos.
16:29Por exemplo, o vizinho pode formar uma rede de proteção para essa mulher.
16:32Eu só consegui sair do ciclo de violência porque eu tive uma rede de proteção.
16:36formado para os vizinhos, por igreja, por várias outras pessoas que solidarizaram com a minha dor.
16:42E, assim, eu não tive julgamento, não tive julgamento.
16:45As pessoas não quiseram saber se eu estava há 14 anos.
16:47Eles vieram e se proporam me ajudar.
16:50Mas como que eu vou ajudar essa vizinha que está sofrendo violência e fez a denúncia?
16:53Tomando conta dos filhos dela, talvez, para ela procurar um emprego,
16:56porque a dependência financeira, muitas das vezes, faz a mulher ficar agarrada nesse ciclo de agressão.
17:02Então, ajudando ela de uma forma, muitas das vezes, o homem, o agressor e o provedor, o vizinho pode ajudar,
17:08mas eu não tenho nada para ajudar, o mínimo seu faz a diferença se não é vítima de violência doméstica.
17:13Porque essa mulher, ela é totalmente, a mulher que é vítima de violência,
17:16ela é totalmente dependente de tudo, ela é dependente do amor daquele agressor.
17:19Porque muitas pessoas falam assim, ah, mas por que não larga?
17:21As pessoas não têm noção do que é dependência emocional.
17:24Dependência emocional é uma pessoa que fuma craque,
17:26que sabe que o craque faz mal e todo dia ela vai na boca buscar.
17:29E a gente somos semelhantes a eles.
17:32Não tem diferença.
17:33A gente sabemos que o cara vai bater na gente, sabemos que aquele momento ele não é aquilo.
17:37Muitas vezes nós sabemos, Roberta.
17:38E mesmo assim, nós voltamos.
17:40Porque a dependência é tão grande, porque aquele cara já minou tanto sua autoestima
17:44que as pessoas julgam.
17:45Ah, mas não larga, porque não quer, você não tem noção.
17:48O que é?
17:49É tanto que quando eu larguei, eu fiz tratamento para dependente químico.
17:53De tão dependente que eu era daquela presença.
17:56Eu sabia que ele me fazia mal, sabia que eu ia atrás dele.
17:59Ah, mas a mulher vítima de violência não vai atrás, vai.
18:02Tem vezes que o agressor até não vai atrás da gente, a gente vamos.
18:06E a gente levamos os filhos, a gente fala assim, ah, eu voltei com ele por causa dos filhos.
18:09A gente usamos os filhos também.
18:10Não é só o agressor que usa o filho na hora da agressão.
18:13Nós também usamos os filhos, nós que somos dependentes emocional.
18:16O meu filho quer ver o pai, aquelas coisas tudinhas.
18:18Então, assim, as pessoas julgam sem saber o que é o círculo de violência doméstica.
18:21Porque quando você casa, igual ela falou, a gente casamos para viver a vida toda.
18:25É o nosso príncipe, é o nosso momento.
18:27E ali você vai dizer para o vizinho que deu tudo errado.
18:30E a gente julga, ah, é culpa da mulher.
18:31Porque ela não é uma boa esposa, porque ela não cuida da casa, ela não limpa.
18:35E o fardo da culpa vem para cima da gente.
18:38E a gente carrega aquele fardo de culpa até pelos filhos também serem criados sem pai.
18:41Porque a figura paterna na educação dos filhos, ela é essencial.
18:45As pessoas tendo assim, ah, a lei Maria da Penha traz esse negócio de destruir o casamento.
18:48Não, a lei Maria da Penha, ela estrutura as casas.
18:51É que as pessoas não conseguiram ver isso ainda.
18:53Então, assim, a figura paterna, o homem, ele tem que saber, a responsabilidade dele saber qual é o papel dele
18:58dentro da casa.
18:59Ele tem um papel primordial.
19:01Agora, você tocou num ponto também muito importante, já que a gente está falando para a vizinhança.
19:06O que a gente pode fazer para ajudar essas mulheres, essas famílias?
19:11Você disse que, às vezes, o que é pouco para a gente, é muito para eles.
19:15Ainda mais se tratando de criança nesse ambiente.
19:19Por exemplo, esse caso que você contou dessas três crianças que foram acolhidas.
19:23Qual era o estado emocional delas quando elas passaram, né, opa, foram retiradas da casa naquele dia?
19:30Elas choravam muito.
19:32Elas choravam muito, muito.
19:34E aí, o que acontece?
19:35Essa assistente social começou a fazer, tipo, atividade lúdica com ela, brincar.
19:40Fala, não, está tudo bem, sua pai e sua mãe só estão falando um pouquinho mais alto, mas eles estão
19:43tranquilos.
19:45Tirando eles daquele foco da violência.
19:46Que não adianta você chegar para uma criança de sete, seis anos e falar assim, ah, sua mãe está apanhando.
19:51E a gente acha que na escola eles não ouvem isso, mas eles ouvem.
19:53As crianças de filhos de mulheres que apanham, eles ouvem isso.
19:55Ah, eu vi sua mãe apanhando, gritando ontem.
19:57Porque a criança talvez não fala por maldade, eu não sei, mas algumas crianças comentam, os meus ouviam isso.
20:02Então, assim, a gente não tem noção, assim, quando você tira aquela criança do ambiente, aquele ambiente nocivo,
20:07você pode até mudar a história daquela história, mas você melhora a história daquela criança momentaneamente.
20:14Os meus filhos viram mestre e eram tirados.
20:17Eram tirados.
20:17Porque eu sabia o dia que eu ia apanhar.
20:20Então, geralmente, eu deixava eles na casa de uma irmã, deixava eles na casa de alguém.
20:23Para poupar.
20:24Para poupar, mas tinha vezes que não tinha jeito.
20:26Tinha vezes que era de uma hora, estourava e eles estavam ali presentes.
20:30Dani, a gente se pergunta, né, depois que Jusceléia tocou nesse ponto tão específico,
20:35a gente conversa com as crianças sobre esse assunto?
20:38De que forma?
20:39Assim, às vezes, se a gente não conversar na escola, olha, eu vi seu pai ontem batendo na sua mãe.
20:45Como que a gente trata esse assunto com as crianças?
20:48Que impactante, né, Roberta?
20:50Ela falar que sabia até a hora, que às vezes, o dia, enfim, muito forte mesmo.
20:54Imagino que tenha muita gente que possa também estar passando por isso.
20:58Com relação à criança, de fato, eu sempre falo, tudo que for relacionado à criança,
21:02todos os assuntos difíceis, complexos e complicados,
21:05que a gente tem que conversar com criança, a gente tem que partir do seguinte princípio, se perguntar.
21:09O que ela sabe sobre esse assunto?
21:11Às vezes, ela sabe mais do que você vai falar.
21:15Às vezes, você vai usar jeitos lúdicos para falar e ela está ali pensando, eu já sei tudo isso.
21:19Então, o caminho, normalmente, e o melhor que eu penso e que eu sugiro é,
21:24entenda o que ela sabe sobre esse assunto, assim, pergunte para ela como ela está, escute dela.
21:29Entendeu mais ou menos o que ela sabe sobre isso?
21:32Aí você vai em cima disso e conta, é claro que tentando dar uma, não digo nem melhorada, mas, assim,
21:39à medida do que ela está apta a ouvir, assim.
21:42E aí, realmente, é importante que a gente converse com elas, como eu disse,
21:46do que ela estiver disposta a ouvir, disponibilidade a ouvir, entendimento para ouvir,
21:50porque, às vezes, a gente em casa vai esconder tanto e aí tem apartamento que dá para ouvir,
21:55tem casas muito próximas, né, que dá para ouvir, e aí chega na escola, essas pessoas todas se conhecem,
22:00mas aí todo mundo imagina, o assunto da sala é a minha mãe que foi agredida e eu estou ali,
22:05meio que, então, o ideal é, converse e, principalmente, ouça o que essa criança já sabe sobre esse assunto.
22:11Perfeito. Agora, Camila, para a gente encerrar, quando que é a hora de denunciar?
22:16Porque, às vezes, a gente ouve gritos, a gente ouve um bate-boca, aí fala assim,
22:21opa, não sei se ele está partindo para cima dela ou se é só uma discussão em um tom mais
22:25ríspido um com o outro.
22:27Qual que é a hora?
22:28Olha, Roberta, isso é bem relativo, né, mas a nossa sugestão é sempre do seguinte,
22:35enquanto vizinhos, né, se já é recorrente, então a gente já tem ali uma noção, mais ou menos,
22:40de como que acontece aquele padrão na família.
22:42Escutei um objeto, escutei uma palavra, uma frase, gatilho, né, vou te pegar, vou fazer isso,
22:51vou escutar o barulho na cozinha, qualquer movimento, e se escutar choro de criança
22:55ou perceber que a criança está no ambiente, primeira coisa, vai lá bater na porta, né,
23:00se é vizinho, se é prédio, bate, interfona para a portaria, se ficar constrangido de
23:04já ir lá direto, porque pode ser só uma briga de casal, interfona na portaria, se
23:09for o caso de prédio, para que o porteiro interfone no apartamento.
23:12Se for um vizinho, já dá um grito, para ele perceber, esse agressor perceber que tem
23:16pessoas ao redor.
23:17Então, isso, tudo bem, aí você sabe o nome da criança, né, fulano está aí, sabe,
23:23assim, fazer esse movimento para já ficar ligado de que tem gente escutando isso, não
23:27estão sozinhos.
23:28Essa atitude pode ajudar a dar uma esfriada nos ânimos?
23:32Pode, pode ajudar, sim, pode ser que nesse dia, você agir desse jeito, está evitando
23:37com que um assassinato aconteça.
23:38A gente não sabe nunca quando aquela vez vai ser fatídica.
23:43A nossa colega está viva hoje, tem uma história para contar, mas tantas ali não
23:47tiveram as suas histórias, não tem mais, são as famílias que estão contando.
23:50Então, Tomás, nós tivemos um feminicídio, né, noticiamos aqui...
23:54Terrível.
23:56Ele assassinou a ex-companheira, que já tinha procurado, inclusive, ajuda, já estava
24:01fora desse relacionamento, ela já tinha tomado essa coragem, ele ligou para a
24:05própria filha, avisando que havia matado a mãe e, em sequência, se suicidou.
24:10Então, houve um ciclo completo ali e agora essa menina é o que nós chamamos de órfã
24:15do feminicídio.
24:16Não tem uma mãe, não tem o pai e vai ter só traumas daí em diante para lidar.
24:22Então, fica essa sugestão que vocês metam a colher, todos nós.
24:26Se a mulher gritar por socorro, aí já é o limite, né?
24:29Já é o limite.
24:30E nisso já pode ligar para...
24:31Independente de ir lá, já liga para a polícia, é 190 nessa hora, não é 180, né,
24:37que o 180 é o canal de auxílio à violência doméstica, violência contra a mulher, mas
24:42nessa hora para a polícia intervir é o 190 e aí, ah, ela vai voltar, não é um
24:46problema nosso se ela vai voltar.
24:48Faça a sua parte.
24:49Faça a sua parte para aquele momento.
24:51Deixa eu finalizar aqui com a Jéssica, que ela está participando com a gente.
24:55Quero saber o que você se expressou, de que forma que você se expressou que as pessoas
25:00que tentaram te ajudar na denúncia, elas validavam, se ela está precisando de ajuda.
25:07Eu gritei socorro, mas eu quero também...
25:11Peraí, a gente, Jéssica, que falhou um pouquinho o início da sua fala.
25:13Você começou a gritar por socorro, foi isso?
25:16É, na primeira vez ele tinha me mantido em cárcere, né, e aí quando eu consegui
25:20uma oportunidade de socorro, foi quando eles perceberam que eu estava, né, na situação
25:25complicada.
25:26E na segunda vez, eu quero deixar também para as pessoas como alerta, que foi quando
25:32aconteceu dele invadir minha casa, né, eles já estavam separados, ele invadiu minha casa
25:37e me sequestrou para outro local.
25:39Enquanto ele estava me sequestrando, era num domingo, quando não tinha quase ninguém
25:42na rua, não tinha ninguém na rua, na verdade, e a única pessoa que eu vi na rua era um
25:47homem,
25:47ele estava de desfleta, e eu gritei por ajuda, eu falei que eu estava precisando de ajuda,
25:52meu ex chegou até a me soltar, quando eu gritei, e o meu ex começou a falar que eu estava
25:59bêbada, ele falou que eu estava bêbada.
26:02Ele falando isso, o cara que estava na bicicleta, ele foi embora e não entrou.
26:08E naquele momento, se ele tivesse denunciado, ele teria evitado muitas coisas que aconteceram
26:14comigo depois que ele me colocou lá dentro daquele ginásio.
26:18Então, assim, uma denúncia pode evitar muitas coisas.
26:21Hoje eu estou aqui para contar, mas por muito pouco não estaria aqui para contar.
26:25Perfeito, Jéssica.
26:26Mais uma vez, a gente agradece a sua participação para esse assunto tão importante aqui no Fala
26:31Espírito Santo.
26:32Obrigada, viu?
26:33Uma boa tarde para você.
26:35Boa tarde.
26:36Muito obrigada também, Dani, pela sua contribuição.
26:39Camila e Jusceléia.

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