Pular para o playerIr para o conteúdo principal
  • há 3 semanas
Pesquisa da UFES relacionada feminicídios a recusa de medidas protetivas

Categoria

🗞
Notícias
Transcrição
00:00Vários casos de violência contra a mulher, você percebeu?
00:03E a consequência mais grave dessa violência é o quê?
00:09É o feminicídio.
00:11Até o mês de março, o Espírito Santo registrou oito casos,
00:16ou seja, mulheres que foram assassinadas por ciúme e pelo sentimento de posse.
00:23Uma pesquisa feita pelo Fordan,
00:26um programa de extensão da Universidade Federal do Espírito Santo
00:30para o enfrentamento às violências, trouxe dados importantíssimos.
00:36Esse estudo, presta atenção, relaciona a recusa de medidas protetivas
00:42ao aumento de casos de feminicídio.
00:46Aqui no nosso estado, os registros de feminicídio tiveram uma alta
00:52de 46% entre os anos de 2015 e 2021.
00:59E nesse mesmo período, o indeferimento de medidas protetivas chegou a 8,49%.
01:06E a gente vai falar sobre esse assunto agora aqui no nosso estúdio.
01:11Participa comigo porque eu recebo a professora Roseli Pires.
01:15Muito obrigada pela sua participação.
01:17Professora, ela é coordenadora dessa pesquisa e também recebo, gente,
01:22a Alessandra da Silva, que ela já foi vítima de violência doméstica
01:27e hoje ajuda a professora Roseli nas pesquisas.
01:31Inclusive, a gente vai trazer também uma novidade,
01:34uma ferramenta muito importante que o Fordan também está desenvolvendo
01:40para ajudar nesse enfrentamento à violência.
01:42Primeiramente, boa tarde.
01:44Sejam bem-vindas mais uma vez.
01:46Professora, eu queria que você começasse explicando
01:49de que forma que esses dados, de que forma que eles podem contribuir
01:56de agora em diante.
01:57Ou seja, houve então uma pesquisa, um estudo, que mostrou que quando
02:02há o aumento dessa negação da medida protetiva ou da burocracia,
02:07seja lá o que for, que ela não chega até as mãos da mulher,
02:09isso está relacionado também com o aumento do feminicídio?
02:13Sim, boa tarde.
02:15Gente, é importante entender que essa pesquisa foi feita com base no banco de dados do CNJ.
02:22Então, o CNJ mostrou que os estados em que havia um aumento de medida protetiva,
02:30a gente tinha uma redução de feminicídio.
02:33Os estados em que havia uma diminuição de feminicídio,
02:38a gente tinha um aumento de entrega de medidas protetivas.
02:44Então, a gente fez uma relação direta primeiro.
02:47O estado que mais está negando medida protetiva é o estado onde as mulheres mais estão morrendo.
02:54E esses estados onde as mulheres mais estão morrendo são mulheres negras e de periferia.
03:00O caso do estado do Espírito Santo, nós tivemos, como você já colocou,
03:0446% de aumento de feminicídio nesse período.
03:07Nós tivemos morte de 85% de mulheres negras.
03:11Então, o que os dados estão nos dizendo?
03:13Existe um grupo específico que precisa de uma política pública específica.
03:19E aí, há 18 anos, o Fordão faz esse movimento,
03:22de acolher mulheres como a Alessandra,
03:24que inicialmente ela entra como uma acolhida,
03:27e hoje ela já é parceira do Fordão.
03:29Então, a gente entra para acolher e fortalecer essa mulher.
03:32E junto com essa mulher, pensar essas políticas públicas.
03:36Nós chegamos, então, nesse ano de 2022, agora entrando em 2023,
03:41com o projeto aprovado pela FAPS para a produção de um boletim,
03:46de um aplicativo para a denúncia da violência contra a mulher negra de periferia.
03:50E já já você vai explicar para a gente como que ele funciona,
03:54como que essa ferramenta pode ajudar nesse enfrentamento à violência contra a mulher.
04:00Mas antes, deixa eu só conversar um pouquinho aqui com a Alessandra,
04:04entender, Alessandra, um pouquinho da sua história.
04:06Você passou por violência doméstica também.
04:09E como que foi que você encontrou todo o acolhimento no grupo?
04:14Boa tarde.
04:15Boa tarde.
04:15Sim, eu contei assim, porque eu teve um...
04:17Todos sabem que tem um programa.
04:19Aí a gente tem dois anos, tem um programa.
04:21Aí na reunião a gente estava conversando sobre a violência.
04:24Aí eu vi que eu encaixava no perfil.
04:27Aí foi a hora que eu dei o primeiro passo.
04:29Aí procurei a Rosemary e falei o que estava acontecendo sobre a minha vida.
04:32Aí eu peguei e tomei a decisão, saí de casa.
04:35Você não tinha noção, você não conseguia identificar que você sofria violência doméstica?
04:41Não, porque quando a gente sofre violência doméstica, a gente, nós mulheres, nós pensamos que é porque ele está gostando,
04:49que ele gosta da gente.
04:50Por exemplo, eu botava uma roupa, ele me xingava, falava que eu era velha, já estava com coroa, que eu
04:56tinha que usar roupa adequadamente com a minha aparência.
04:58Aí eu não me arrumava, não passava batom e não me olhava no espelho.
05:05E começou com a violência, então, psicológica.
05:08Psicológica.
05:08Ela chegou a evoluir?
05:10Evoluiu, foi cada dia evoluindo mais.
05:12Aí começou, aí eu gravidei.
05:14Tenho cinco filhas, né?
05:16No relacionamento nisso.
05:18Aí eu gravidei, aí foi pior.
05:20Cada gravidez minha é um abuso pra mim.
05:23Porque eu não podia me arrumar, não podia sair.
05:25A minha vida estava gorda, estava feia.
05:28E eu ficava calada, não contava pra ninguém.
05:32Aí um dia eu tive uma decisão de contar pra uma pessoa, que foi que eu se abrigo com ela.
05:36Aí ela falou, não, depois de seis anos eu consegui conversar com ela.
05:40Agora eu tenho uma filha de seis, de dois anos.
05:43Aí eu fui saber o que é a violência doméstica, que é abuso.
05:47Você também chegou a sofrer violência física?
05:50Sim.
05:51Já fui...
05:52Tanto é que quando, cinco anos atrás, eu já estava com seis anos, estava agrada e chegou alcoolizado.
06:00Aí eu falo bem assim que nós ia separar e não ia ter mais relacionamento, porque não queria...
06:05Eu gostava de vir, estava cheia de filha.
06:07Aí ficou que ia matar eu e minha filha.
06:09Eu estava agrada de seis meses.
06:11Tanto é que eu peguei qualquer mão na barriga.
06:13Quando eu coloquei a mão na barriga, a faca pegou aqui no braço.
06:15Aí foi a hora que eu...
06:17Mas eu continuei no relacionamento.
06:19Aí fiquei mais anos com ele.
06:21Aí depois de ano, gravidei da minha última filha, tem dois, três anos agora.
06:26Aí que eu conheci o projeto, aí eu saí do casamento.
06:29Fiquei 20 anos com ele.
06:31Professora, esse é o perfil de vítima que precisa de ser acolhida nesse projeto?
06:37Porque quando chega ao ponto do homem falar, eu vou te matar, muitas mulheres não acreditam.
06:45E aí vai postergando, vai levando a relação adiante.
06:49Mas ainda bem que ela encontrou um grupo de acolhimento para justamente alertá-la.
06:54É esse o perfil de vítima?
06:56Sim, tem uma questão importante no caso da Alessandra e das demais mulheres da periferia,
07:01que é a falta de autonomia financeira.
07:03Então, a Alessandra não trabalhava, ela não tinha uma renda.
07:08Para onde que ela iria com essas crianças?
07:11E o projeto foi também dando esse aporte, esse suporte para ela.
07:16Então, ela foi se profissionalizando.
07:17Hoje ela é uma esteticista.
07:19Então, também entender que o processo da violência contra a mulher negra de periferia
07:23tem uma complexidade necessária de ser olhada com cuidado.
07:27Quando a gente fala da denúncia da mulher à delegacia,
07:30precisa compreender que, quando ela faz a denúncia, a violência não acabou.
07:35Foi o fato dela ter ido à delegacia que a violência acabou.
07:38Uma mulher classe média, quando ela faz a denúncia, ela volta para onde?
07:43Ela vai para uma outra casa.
07:45No caso da Alessandra, a gente teve que tirar a Alessandra de madrugada de casa.
07:50Então, como é que a gente ia fazer?
07:52O lugar onde ela mora não entra a polícia.
07:54A gente esperou o ex-companheiro sair de casa e aí a gente conseguiu tirá-la de casa
08:01e ir para um outro lugar, para que ela conseguisse chegar na condição de dizer
08:06eu não quero mais nenhum relacionamento com você.
08:10Mas todo um aporte também financeiro foi necessário.
08:14Cesta básica, acolhimento das crianças, para que ela não só tivesse à vontade,
08:19mas tivesse condições de abandonar o casamento abusivo.
08:23E na sua pesquisa, no estudo que o Fordan realizou,
08:27esse estudo que a gente acha de uma grande importância até mesmo
08:31para que existam políticas públicas, porque esses dados são alarmantes
08:38e mostra ao mesmo tempo um direcionamento para que a gente consiga combater esse tipo de violência.
08:46Porque até então a gente fala, tá, mas qual é a solução?
08:48A gente fica meio cego em tiroteio.
08:50Agora isso mostra um direcionamento, mostra que de fato a medida protetiva tem contribuído.
08:56Mas nem todas as mulheres conseguem essa medida protetiva.
09:01Por que elas não conseguem?
09:04Tem uma pesquisa de Toronto, em parceria com o Brasil, e as nossas pesquisas do Fordan,
09:10que são lançadas no site da universidade, que mostra que nós também estamos vivendo
09:17muito do resquício que nós chamamos de uma sociedade misógina, racista.
09:23Não é só a questão da misoginia, que é o ódio à mulher, mas o próximo racismo, que é estrutural.
09:28Então, a pesquisa de Toronto, em parceria com o Brasil, mostra que as mulheres negras de periferia,
09:35elas não têm um bom atendimento nas delegacias.
09:38E esse bom atendimento significa que elas não se sentem acolhidas e representadas.
09:43Então, a pesquisa diz, você não tem uma juíza negra, você não tem uma escrevã negra,
09:47você não tem um delegado negro, você não tem um policial que faz acolhimento na rua negro.
09:54Então, às vezes, isso impacta direto no atendimento.
10:00Nas nossas pesquisas, a gente mostra que as nossas mulheres negras de periferia,
10:04quando a gente entra com a solicitação de medida protetiva,
10:07quando a gente leva para fazer a denúncia, nós temos caso, uma pesquisa nossa, CNPq,
10:12de iniciação científica, que nós mostramos que a mulher sofreu racismo
10:17na solicitação de medida protetiva.
10:19Porque a sentença da juíza era uma sentença racista, com dados racistas, com forma de expressão racista.
10:26Então, a gente entender esse processo, que o racismo também está interligado,
10:30quando se fala de violência doméstica contra a mulher negra, é fundamental.
10:35Olha só, a gente vai convidar aqui para o nosso bate-papo a Liliane, Liliane Pinheiro.
10:41A irmã dela pediu medida protetiva em 2015.
10:44Mas escuta só, a medida só chegou em 2019, quando a irmã faleceu.
10:52Boa tarde, Liliane, obrigada pela sua participação, recebo nosso abraço aí na sua casa.
10:58Queria que você contasse um pouquinho, né, do quanto essa medida, se ela chegasse a tempo,
11:04o quanto ela poderia ter ajudado, né, evitado um final tão trágico com a sua irmã.
11:12Boa tarde, Roberta.
11:15A minha irmã, ela tinha sido ameaçada, né, em 2015.
11:23E aí, então, ela denunciou, né.
11:28Então, o ex-marido dela, ele estava sendo preso por conta de outra coisa, né,
11:36que ele já tinha já, e por causa, foi preso por causa dessas ameaças.
11:41E, então, deram a ela a medida protetiva.
11:43Porém, ele estava preso.
11:46E, depois de 2015, ela sobreviveu quatro anos e meio, né.
11:53Então, ela sobreviveu porque ele estava preso, não por causa da medida.
11:59Quando foi em 2019, que ele saiu, ele já estava ameaçando ela de dentro da cadeia, né.
12:06Então, ele saiu e continuou ameaçando.
12:10Fomos à delegacia, ela denunciou e, infelizmente, a medida só veio quando ela já estava morta,
12:20dois anos depois, né.
12:22Que ainda é um pedaço de papel a medida, né, na verdade.
12:28As mulheres tinham que ter algo mais, assim, que traz mais segurança do que um pedaço de papel.
12:35Porque, quando me ligaram para falar, aí perguntaram nesse telefone, eu falo com Maria Madalena,
12:41eu falei, não.
12:44Porque a medida dela saiu.
12:46Falei, medida de quê?
12:47Medida protetiva.
12:48Então, eu falei, minha irmã está morta, já tem dois anos.
12:52E eu chorei muito nesse dia, eu passei mal.
12:54De tanto que eu chorei, porque tudo aconteceu na minha frente, né.
12:57Então, é...
12:59Só de, como falou, a medida protetiva saiu.
13:02Falei, como assim?
13:03Medida saiu.
13:04Então, é...
13:08A medida não é tão medida assim, né.
13:10Não protege tanto, assim, as mulheres.
13:13Porque minha irmã sobreviveu, viveu, né.
13:18Só enquanto o ex-marido dela estava preso.
13:21Porque, quando ele foi solto, ele cumpriu a medida.
13:25Então, a medida mesmo é a mulher fugir, né.
13:28Das ameaças, fugir da prática.
13:30Na prática, fugir.
13:32E é importante a gente ressaltar, Liliane, assim, você disse, né.
13:36A gente entende, seu sentimento é legítimo.
13:39Quando você diz, ah, é um pedaço de papel.
13:41É uma ferramenta que a gente tem a nosso favor e a gente não pode, né, deixar de usar.
13:47A gente tem que usar.
13:48E a gente tem que cobrar das nossas autoridades que aquilo seja eficaz.
13:53Agora, você trouxe esse ponto aí.
13:55Ou uma cobrança muito importante é que essa medida, ela tem...
14:00Ela tem um prazo para ser expedida, não é isso, professora?
14:06A medida protetiva, ela é uma ferramenta fundamental, né.
14:10A gente fala que a medida protetiva de urgência, porque ela deveria ser emitida com urgência, até 24 horas.
14:17Segundo o documento CNJ, que fez avaliação das medidas protetivas do Brasil, isso não acontece.
14:23Quando, por exemplo, não há o cumprimento da medida.
14:26A medida chegou e o agressor, ele não cumpre.
14:29Você tem que ficar a 300 metros da vítima, ele não fica.
14:31Então, o que acontece com esse agressor?
14:33Deve ser o caso que ela também está relatando.
14:35Não existe registro nos documentos do que é realizado com esses agressores.
14:41No caso Fordan, a gente mapeou que não acontece nada.
14:45Então, alguns chegam à polícia, olha, está descumprindo a medida.
14:50E aí, você tem que provar que ele está descumprindo a medida.
14:53Olha a situação da mulher, ela tem que provar que ela está em risco.
14:57Como é que você prova que você está em risco?
14:59Porque o agressor, ele é muito inteligente, ele tem formas de trabalhar.
15:02Agora, o que eu queria dizer para ela é o seguinte.
15:05Independente de qualquer coisa, a medida protetiva, ela é fundamental.
15:08E ela não é só um papel, gente.
15:10Uma vez deferida a medida protetiva, você pode chamar a polícia e com a medida na mão, você pode prender
15:17o agressor.
15:18Sem a medida protetiva, isso é muito difícil.
15:21Porque a polícia, ela não pode prender qualquer pessoa.
15:25Então, se você não tem nada contra ele, como você vai prender?
15:28Mas se você foi lá, fez a solicitação, saiu a medida, fez um boletim de ocorrência,
15:33então, a nossa indicação é sempre faça o boletim de ocorrência.
15:38Mesmo que ele seja online, porque aí você tem uma prova de que você está passando por um processo de
15:45violência.
15:45Uma vez que você tem essa medida, essa medida precisa ser cumprida.
15:49Tanto pela pessoa que recebe, a mulher não pode ir buscar o filho que está na casa do companheiro, isso
15:56é importante.
15:57Nem ele pode descumprir.
15:58No caso dela, o que aconteceu?
16:00A demora da medida, que eu acho que é o ponto que você quer tocar.
16:04Então, nós temos um processo muito grave, que é isso.
16:07A burocracia em relação ao deferimento da medida, como a gente diz, medida protetiva de urgência.
16:15Mas ela não tem sido de urgência.
16:17É dentro dessa perspectiva que a gente está trabalhando.
16:19E se você me permite, eu queria dar um informe.
16:22Hoje, dia 20, quinta-feira, o presidente da República, ele então fez uma adequação na lei Maria da Penha,
16:31em que as medidas protetivas de urgência não precisam mais de boletim de ocorrência, não precisam mais de inquérito policial.
16:38Uma vez feita a denúncia, ela tem que ser emitida imediatamente.
16:43Então, vamos reforçar aí para as mulheres, porque agora não precisa mais de boletim de ocorrência para você solicitar a
16:52medida protetiva.
16:52Ela tem que ser viada imediatamente.
16:56Imediatamente.
16:56A gente já tinha no Espírito Santo um avanço com a Defessoria Pública, o NUDEM, que é o Núcleo de
17:04Violências da Defessoria Pública,
17:05em que eles ganharam o prêmio, inclusive, semana passada, com medidas protetivas que eram preenchidas online, no formulário,
17:12e ali eles estão conseguindo muitas medidas assim, sem precisar fazer boletim de ocorrência,
17:18mas agora isso já é algo nacional, é federal.
17:22Então, a mulher, ela tem esse possível.
17:25Agora, o que a gente sempre fala, assim, como que isso vai ser viabilizado, é um processo.
17:30Daí a importância do aplicativo.
17:32E a gente precisa aproveitar esse espaço aqui, eu chamo mais uma vez a sua atenção, você que está acompanhando
17:37o Fala Espírito Santo,
17:38é que, além de realizar esse estudo, o Fordan ainda está desenvolvendo, desenvolveu já, um aplicativo que vem justamente para
17:48contribuir com esse enfrentamento,
17:50pensar em soluções.
17:52Como é que funciona esse aplicativo, professora?
17:54Então, ele tem três fases.
17:56A primeira fase era um aplicativo que a gente chama de funcional.
17:59Existem outros aplicativos, mas o nosso, ele tem uma funcionalidade, porque ele foi e está sendo produzido com as mulheres
18:07que sofrem violências
18:08e que são mulheres da periferia, e a Alessandra é o representante.
18:11A Alessandra participou, ou seja, ela como uma pessoa que viveu isso na pele, contribui justamente para ver o que
18:19funciona e o que não funciona.
18:21Sim, quando os técnicos foram, a gente levou, é uma equipe hoje, né, são bolsistas da FAPS e outros programas
18:28que a gente junta muitas bolsas,
18:30a gente levou os técnicos para conversar com ela.
18:33Qual é o seu celular, como você faz a denúncia.
18:36A Alessandra é uma que diz assim, às vezes a gente, no banheiro, é o tempo que a gente tem
18:40de pedir ajuda.
18:41Foi o meu caso.
18:42Que foi o caso dela.
18:43Então, eu no banheiro.
18:45A última vez que eu saí de casa, sim, que ele chegou alcoolizado, aí começou a me xingar, aí teve
18:51briga, aí foi tentando me matar.
18:54Pegou uma faca e foi para ir nas minhas costas, para me curar.
18:58Aí eu peguei e já liguei para a minha filha, para ela me acolher, porque não tinha o aplicativo ainda,
19:04que lançou agora.
19:05Aí se tivesse o aplicativo no meu anterior, já podia ter me ajudado, já mandava o áudio, já resolvia, né.
19:12No caso de Alessandra, tinha o Furdão.
19:15Então, a gente imediatamente, né, a advogada, a doutora Laila, pegou a Alessandra, levou para a delegacia.
19:20Mas as mulheres de periferia não têm uma advogada à disposição, né.
19:24Não tinha dinheiro, a gente pagou Uber, mas as pessoas da periferia não têm tudo isso à disposição.
19:29Então, o aplicativo, ele tem essa funcionalidade.
19:31Primeiro, ele não é um aplicativo só para denúncia.
19:34É um aplicativo amigo.
19:36Quando abre a tela, você não está sozinha.
19:39Que é a frase que elas mais gostam de dizer quando são acolhidos.
19:42Naquela tela, ela vai encontrar ali todas as orientações para muitas coisas.
19:47Pensar uma alimentícia, tirar dúvidas sobre o processo de violência, sobre cuidados e etc.
19:53E aí, ali dentro, a mulher não consegue ler e nem escrever, ou diante da violência não consegue também, mesmo
19:58que ela seja letrada.
20:00O que acontece?
20:02O aplicativo, ele tem um dispositivo de voz.
20:05Que você fala, ele vai produzindo texto.
20:07E ela vai ouvindo.
20:08Você deseja denunciar?
20:10Ela diz sim.
20:11Aí vai produzindo texto.
20:12Isso é um avanço que a gente está conseguindo.
20:15Porque o aplicativo, ele é de ponta.
20:17Porque a gente conta com uma equipe da Engenharia de Computação da Universidade Federal do Espírito Santo, que é a
20:23nossa.
20:23E aí, o aplicativo, dentro dessa perspectiva, uma vez que aconteceu a violência,
20:29ela vai abrir uma aula onde tem as ações.
20:32As ações têm.
20:33Você deseja fazer o boletim de ocorrência?
20:36Então, ali mesmo já encaminha.
20:38Já encaminha.
20:39Isso.
20:39Vamos falar da Defensoria Pública.
20:41Você fez o boletim, então, você vai respondendo as perguntas.
20:45Porque ela tem todos os dados dentro do aplicativo.
20:48Qual é o seu nome, onde você mora, o nome das suas crianças.
20:51Tudo já está ali.
20:52Na hora da denúncia, não precisa.
20:53Já está registrado.
20:55Mas, na hora da denúncia, tem perguntas específicas.
20:58Ele usou faca?
21:00Ele usou arma de fogo?
21:01Ele estava alcoolizado?
21:03Ele estava usando drogas?
21:04E outras questões.
21:05Então, o aplicativo, quando você vai acionar o boletim de ocorrência, vai fazer essas perguntas.
21:11Medida protetiva, essas perguntas.
21:13Quem vai receber a solicitação é a Defensoria Pública.
21:16Nós fizemos, essa semana, uma parceria com a Defensoria Pública.
21:19Então, todos os dados vão ser enviados para a Defensoria Pública.
21:22Porque, hoje, na política pública nossa do Espírito Santo, quem está ganhando o prêmio em acolher a mulher em relação
21:28à medida protetiva e outros é a Defensoria.
21:32Importante relatar que esse aplicativo, além de ser produzido com as mulheres,
21:36a gente também está produzindo com o negro, que é o Fórum Nacional.
21:40O Fórum de Mulheres Negro.
21:45O Fórum Nacional de Mulheres Negras.
21:48Porque eles sabem como fazer o enfrentamento ao racismo.
21:51Porque a gente está sempre evidenciando.
21:53Nesses casos, a misoginia está colada com o racismo.
21:58Não é só a violência contra a mulher.
21:59É também a questão do racismo que está fazendo com que as mulheres negras morram mais do que as mulheres
22:05brancas.
22:06Então, há alguma pergunta que faz para nós assim,
22:08mas esse aplicativo não é para a mulher branca?
22:10Por que a mulher branca também sofre violência?
22:13Sofre.
22:13Nós somos sensíveis e acolhemos mulheres brancas.
22:16A gente acolhe estudante da universidade.
22:18Nós fizemos duas denúncias agora urgentes de um professor que assediou quatro estudantes.
22:23Assédio sexual.
22:24Acabou de entrar nas denúncias.
22:27Mas a gente vê que esse público específico precisa de uma política específica.
22:31Por isso que o aplicativo vem para ela.
22:33Mas o aplicativo também é usado por mulheres brancas.
22:36Importante você trazer já essa resposta, porque a gente recebeu aqui no nosso Facebook, né?
22:41Tem telespectadores que estão falando exatamente isso.
22:43Mas por que?
22:44É só a mulher negra de periferia que sofre violência doméstica?
22:47Não.
22:48A gente não está aqui falando da dor, que a gente sabe que isso acontece independentemente da classe social.
22:53Mas, infelizmente, a gente vê conforme pesquisas que a mulher negra da periferia, muitas vezes, a professora já trouxe esse
23:03dado aqui, não tem o dinheiro para pagar a passagem, para ir lá na polícia, na delegacia, fazer o boletim
23:12de ocorrência.
23:13Não tem dinheiro para poder fazer isso.
23:15Então, ela vai e se acostuma naquela realidade.
23:19Então, são ferramentas que a gente atende, que estão sendo desenvolvidas para atender esse público, já que existe essa dificuldade
23:25relatada com esse público.
23:27É muito importante a gente falar isso.
23:28Agora, para a gente finalizar, professora, como que as pessoas baixam esse aplicativo, qual é o nome que encontram e
23:33como é que faz também para ter esse acolhimento do Fordan?
23:37Sim.
23:37O aplicativo, ele está em produção, nós fizemos o protótipo, apresentamos para a Procuradoria da Mulher, da Assembleia Legislativa, na
23:45presença da Irine, que vai nos ajudar.
23:47Ela foi ministra de Mulheres, então, ela sabe bem o caminho.
23:50Apresentamos para a Defensoria Pública, para o Negro e para o Fórum Nacional de Mulheres Negras e Elas.
23:55São várias mulheres, a Alessandra é uma representante, mas são várias.
23:58E aí, a partir dessa primeira fase, que o aplicativo já está pronto, ele está aí na tela, as fases
24:04que eu falei lá, as ações.
24:05Então, a solicitação, você não está sozinho, está vendo? A primeira parte que aparece.
24:11Então, a solicitação de tudo o que acontece no aplicativo vai depender da segunda fase.
24:17Nós agora estamos, primeiro a gente entende como faz a denúncia.
24:21Então, precisa de ter, a primeira pergunta que você fez, precisa de ter uma internet?
24:25Então, a gente entendeu com elas como é que a internet funciona, mas é preciso conversar com o governo,
24:30para que a política pública também entenda que colocar a internet à disposição na periferia e de qualidade é salvar
24:36vidas.
24:37Não colocar é necropolítica, é matar mulheres negras.
24:41Desde a pandemia que a gente está com essa conversa.
24:44Mas o aplicativo, ele começa a funcionar daqui a dois meses, porque ele está na fase de adequação.
24:49A primeira fase está pronta, que é o aplicativo.
24:52Tem ainda a segunda fase, que é quando a gente, então, transforma o aplicativo em política pública, porque ele tem
24:58que rodar.
24:59E a outra fase, que é quando ele gera um mapa de dados, um banco de dados, rapidamente.
25:07Esse banco de dados, ele está na universidade e vai ser acessado.
25:11E até lá, doutora, já que faltam, professora, já que faltam dois meses, né?
25:15Como é que as mulheres têm acesso ao FORDAN?
25:18Então, o programa de extensão, ele acontece em São Pedro.
25:22E a gente tem nas redes sociais os nossos contatos, as mulheres podem acessar.
25:27Como que nós fazemos?
25:29O programa de extensão não consegue atender as mulheres do Estado Espírito Santo toda.
25:32A gente encaminha.
25:34A gente acolhe as mulheres que estão no FORDAN, porque o programa, ele tem três linhas de atuação.
25:40Ensino, eu sou professora da universidade, e a gente trabalha também com a formação de agentes que acolhem as mulheres.
25:46Tem a linha de extensão, que são os projetos, que não é só a mulher, mas as crianças que atendem,
25:51que recebem.
25:51E tem a linha da pesquisa, que tudo que a gente aprende na periferia, a gente publica e a gente
25:56produz política pública.
25:58Então, o nosso atendimento, ele é restrito.
26:01A gente não consegue pegar, porque isso é uma atividade política pública.
26:04Muito obrigada.
26:04Professora, muito obrigada.
26:06Professora Rosely Pires, muito obrigada, coordenadora do projeto FORDAN,
26:10e também a Alessandra Silva, que participou hoje aqui com a gente,
26:13trazendo esse relato muito importante, de alerta, né?
26:17A todas nós que podemos sofrer violência doméstica e a gente nem percebe.
26:21Obrigada.
26:22Obrigada.

Recomendado