- há 4 horas
Muitas pessoas desconhecem que têm direito à acompanhante e plano de parto, por exemplo.
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00:00E agora a gente vai mandar de assunto e vai seguir o programa.
00:02Eu já chamo a sua atenção para esses dados que a gente vai divulgar agora.
00:06Entre os anos de 2018 e 2020, quase 56 mil partos foram realizados pelo SUS.
00:14Aproximadamente, gente, 55% dos partos realizados aqui no Brasil são cesáreas.
00:21É a segunda maior taxa do mundo, atrás apenas da República Dominicana.
00:27E aí se levarmos em conta a realidade do sistema privado de saúde, aí a gente sabe que a proporção
00:33pula, avança para 86%.
00:37Dados da Organização Mundial da Saúde, a OMS, indicam que a taxa ideal de cesarianas deve estar aí entre 10
00:45% e 15% dos partos.
00:48Bem longe da realidade, né?
00:50Mas olha só, hoje, hoje é o dia da gestante.
00:54A mulher tem, por lei, presta atenção, o direito ao pré-natal, ao parto, tudo feito pelo SUS, o Serviço
01:03Único de Saúde.
01:04Só que a lei, ela é muito mais ampla, bem mais ampla do que a gente imagina.
01:09Só que a maioria de nós, mulheres, dos pais, a gente não sabe disso.
01:14Esse é o assunto que a gente vai debater agora aqui no nosso estúdio.
01:17Vem cá, eu recebo aqui, olha, a doutora Alice Sarsinelli, que é mestre em saúde pública.
01:24Eu tenho a honra em recebê-la.
01:25Obrigada, viu, doutora, pela sua participação.
01:28Eu também recebo aqui, gente, a Sandra.
01:31A Sandra é assistente social em um hospital público e vai explicar pra gente como que é o acolhimento das
01:37grávidas que buscam esse atendimento pelo SUS.
01:39Também agradeço muito a sua participação, Sandra.
01:42Boa tarde, boa tarde, seja bem-vinda.
01:44E também recebo a Ana Luíza, está barriguda.
01:48Gente, que barriga linda, queria eu, grávida, ficar bonita assim.
01:51Obrigada.
01:51Tá esperando o Samuel, tem seis meses, não é isso?
01:54Isso, seis meses, 24 semanas.
01:57Ah, mãe é assim, não calcula pelo mês, é pela semana, né?
02:00Gestante é assim.
02:02Queria que você contasse pra gente tudo que você já tem feito desse pré-natal,
02:07se você tem conversado com a sua médica a respeito do parto, né?
02:12Tudo que você está planejando pra chegada do Samuel.
02:15Legal.
02:16O Samuel foi muito sonhado, né?
02:18Há um ano eu já tentava essa gravidez, eu me preparava pra isso.
02:22E o parto normal sempre foi um sonho também.
02:25É algo que eu tenho me preparado pra ser uma via natural e normal.
02:30Lógico que a gente considera a cesárea em caso de realmente necessidade,
02:34mas a gente tem se preparado buscando conhecimento, né?
02:39Junto com a médica e também através de vias, né?
02:43Internet, outras alternativas, pra que de fato a gente consiga viver esse parto natural.
02:48Porque a gente ouve muitas experiências mesmo de mães que por opções que talvez nem seriam necessárias
02:56o parto cesárea, acabaram indo pra cesárea por falta de conhecimento
03:01ou até mesmo, né? Por argumentação médica e tudo mais.
03:05Então, a preparação é pra via normal.
03:08Esse aqui é o meu objetivo.
03:10Agora a gente já percebe o quanto você é bem informada, bem instruída.
03:15É importante a gente diferenciar aqui, você tá sendo atendida pelo SUS ou pela rede privada?
03:21Eu sou atendida pela rede privada.
03:24Eu tenho um plano de saúde, né?
03:26Então esse atendimento é pela rede privada.
03:28E você, mesmo sendo atendida pela rede privada, você sabe de todos os direitos que a gestante tem?
03:36Com certeza não, né?
03:38Por mais que a gente busque a informação, a insegurança, ela é real, né?
03:44E diária.
03:44E as informações, elas divergem, né?
03:47Então, nessa busca...
03:49Então, assim, com certeza eu não conheço todos os direitos.
03:53Muito bem colocado.
03:54Olha só, as informações, elas divergem.
03:56Eu queria que a doutora Alice Sassina, ela explicasse pra gente, doutora, por que a gente ouve, assim como a
04:03Ana Luísa, assim como eu também passei por isso.
04:06Tenho certeza que talvez você, Sandra, também tenha vivido essa situação.
04:10A gente não sabe de todos os nossos direitos enquanto gestante.
04:14Até mesmo os pais, viu?
04:15Também tem direitos, não é isso, doutora?
04:18Boa tarde.
04:19Boa tarde.
04:20Boa tarde, obrigada aí pelo convite.
04:21A oportunidade da gente conversar um pouco sobre o direito do cidadão como um direito de saúde.
04:27Então, o SUS é um direito adquirido e quanto mais a gente conhece o direito que a gente tem, a
04:33gente age menos como consumidor de saúde, mais como cidadão.
04:37E aí a gente consegue ampliar a voz de quem precisa daquele direito, porque a pessoa, pra ela exigir o
04:45direito, ela tem que conhecer.
04:46Então, é isso que a gente quer fazer aqui hoje, mostrar qual é o direito e pra quem deixou de
04:51ter esse direito, saber até em quanto tempo ela pode reclamar daquele direito, daquela violência que ela passou, tá?
04:57Então, Roberto, a primeira coisa que a gente tem que ter em mente, a gestante, ela tem os direitos trabalhistas,
05:04ela tem os direitos sociais, mas ela tem os direitos no âmbito da saúde também.
05:09Infelizmente, aquele caso do anestesiologista, aquele médico que estuprou uma gestante durante o próprio parto, ele, lógico, teve esse lado
05:17ruim, mas o lado bom disso é que aflorou o direito à gestante ao acompanhante,
05:24que é um direito que a gente tem que falar e tem que esclarecer.
05:29Então, a gestante, ela tem o direito ao acompanhante desde o início do seu pré-natal.
05:34Muita gente não sabe, mas existe o pré-natal do homem.
05:38Então, ontem foi o dia dos pais, hoje, dia da gestante, a gente tem um tema que linka o direito
05:44do homem, o direito da mulher, enquanto pai e mãe.
05:48Então, não é só a mulher que pode faltar ao trabalho e ter o seu CID lá, ter o seu
05:54atestado para fazer o pré-natal.
05:56O homem também é estimulado pelo SUS a acompanhar essa mulher desde o pré-natal.
06:03No mínimo, nas seis consultas que são prescritas como fundamentais e em todas as outras, ele deve também passar por
06:11exames.
06:12O SUS, a partir do pré-natal do homem, ele abre um espaço para que esse homem, que tem adoecido
06:20mais no Brasil do que a mulher, morrido antes do que a mulher,
06:23sete anos a menos o homem vive no Brasil, o SUS, ele quer trazer a partir do pré-natal esse
06:30homem para dentro da unidade de saúde,
06:33cuidar da saúde dele também e envolver ele, não só naquele momento do parto, que hoje é um momento de
06:39medo, né?
06:40Será que meu marido vai poder estar ao meu lado? Não precisa ser marido.
06:44Quem você escolher para estar ao seu lado durante o parto, quem você determinar que é seu companheiro ou sua
06:49companheira, pode estar lá.
06:51Então, eu acho que esse é o primeiro direito que a gente tem que falar aqui, o direito a ter
06:56o seu acompanhante no momento do parto e durante todo o seu pré-natal.
07:01Agora, a gente já ouviu relatos, que inclusive daqui a pouco a gente vai ter um relato aqui participando com
07:06a gente,
07:06de mulheres que tiveram esse acompanhante negado e inclusive mandaram voltar para casa.
07:11Daqui a pouquinho a gente vai conversar com essa mãe pela internet, mas antes, queria conversar, bater um papo com
07:16você, Sandra.
07:17Como que é o acolhimento, está ligado já o microfone, como que é o acolhimento dessa gestante pelo SUS?
07:25Então, o acolhimento da gestante pelo SUS, ele inicia, conforme a professora já falou aqui, desde o início do pré
07:33-natal,
07:33que vai começar na sua unidade de atenção básica, para as pacientes que são predominantemente atendidas pelo SUS,
07:40ou no pré-natal da rede privada, como a nossa gestante que está aqui participando hoje do programa.
07:46Então, é fundamental que a mulher, assim que faça o primeiro teste de gravidez, descubra que está grávida,
07:52que inicie o pré-natal mais adequado e o mais rápido possível, porque ela pode deixar de ter intercorrências e
08:01comprometimento
08:02com o desenvolvimento desse feto, dessa criança, se ela não fizer um pré-natal adequado.
08:07Então, a gente percebeu, até bom, a gente está abordando isso no programa, um aumento lá na nossa instituição de
08:13pré-natal,
08:13de número de consultas inadequadas, que seria abaixo das seis consultas mínimas, até nove, que a gente indica.
08:20O pré-natal de alto risco, que também é fundamental para aquelas gestantes que tenham algum risco durante a gestação,
08:27para que elas possam ser melhores atendidas e acompanhadas.
08:31E isso tem gerado, infelizmente, alguns casos de óbitos, de natimortos.
08:36Então, a gente não ainda tem dados de estudo, a gente espera que as universidades, escolas, comecem a fazer as
08:42pesquisas
08:43sobre quais foram os impactos dessa pandemia para as gestantes e para as puéperas.
08:48Mas a primeira dica que eu oriento é procurar o pré-natal, fazer o acompanhamento ao gestante com o seu
08:55companheiro, com o seu familiar.
08:56Nós temos hoje muitas mães, ontem foi o dia dos pais, mas algumas falaram, mas eu que sou pai, né?
09:01Tem mães que são pais também.
09:04Então, é importante ter o familiar, o responsável com essa gestante acompanhando, para dar segurança.
09:10E aí, as instituições públicas têm garantido, sim, o direito ao acompanhante, que é de livre escolha da gestante.
09:17Então, é a pessoa que ela tem confiança, que ela vai escolher para acompanhar aquele momento.
09:21E hoje a gente tem observado como que cresceu o trabalho das doulas, né?
09:26No nosso estado, até no nosso país.
09:28Então, nos hospitais é permitido, sim, a entrada da doula, desde que a gestante solicite, converse com a equipe,
09:35porque é mais uma pessoa que vai dar esse apoio e esse suporte também emocional, né?
09:40De conforto, num momento tão bonito e tão importante que é da maternidade.
09:45Daqui a pouquinho eu quero saber se o SUS oferece essa possibilidade de ter a doula.
09:50Não só abre espaço, ok, está liberado, mas o SUS também oferece esse serviço.
09:54Daqui a pouquinho você conta para a gente, porque antes eu vou convidar aqui pela internet,
09:58para esse nosso bate-papo tão importante, a Aline.
10:01E ela que vai contar para a gente como é que foi a experiência do parto dela pelo SUS.
10:05O pouco que eu conversei foi bem traumatizante, né, Aline? Boa tarde.
10:12Boa tarde.
10:13É isso mesmo? Queria que você contasse, explicasse para os nossos telespectadores, né?
10:17O que que te deixou traumatizada no seu último parto?
10:22Então, no último parto, foi há três anos atrás, né?
10:26Completou três anos em junho.
10:29Quando eu fui ganhar minha filha, eu estava já com 40 mil semanas, né?
10:33E, assim, não quiseram me internar porque eu não estava com contrações, né?
10:40E mandaram voltar para casa.
10:42E eu já tiro três vezes já, na maternidade, para poder estar ganhando minha filha.
10:47Eu já estava ganhando 42 semanas, né?
10:49Eu estava com bastante...
10:51Vai falar o seguinte, Aline, rapidinho, só para eu te interromper um minuto.
10:53Abaixa o volume da sua televisão, para a gente conseguir ouvir a sua voz com bastante clareza.
11:00A televisão está muda.
11:02Vou falar mais alto.
11:03Tá, Joia.
11:05Tá.
11:06Então, aí eu fui no hospital várias vezes, né?
11:09Para eles poderem me internar, porque eu estava passando da data de ganhar minha filha.
11:14E, assim, não quiseram me internar porque não estavam com contrações.
11:19E não tinha dilatação.
11:21Foi aí que eu resolvi fazer um ultrassom.
11:24Quando eu fiz esse ultrassom, né?
11:26Por conta própria, porque eles não pediram o ultrassom.
11:29Quando eu fiz esse ultrassom, eu descobri que eu já não estava mais com líquido amniótico.
11:35E a neném já estava praticamente morta, né?
11:38Tinha que fazer cesárea de urgência.
11:40Aí foi aí que, então, com esse ultrassom, eu voltei na maternidade.
11:45E me internaram uma hora da tarde.
11:48Mas o que aconteceu?
11:50Depois que eu internei, né?
11:51Mandaram tomar banho.
11:53Foram procedimento para poder realizar uma cesárea.
11:56Mas não fizeram de imediato, assim como o homem do ultrassom falou que tinha que ter feito, né?
12:02De imediato.
12:03Não fizeram em mim a cesárea.
12:06E eu fiquei ali mais seis horas na maternidade, numa cama isolada, né?
12:11Sem atendimento médico.
12:13Quando vi alguma enfermeira, eu perguntava, né?
12:16Sobre o meu caso, ela saia que estava ocupada fazendo outros partos.
12:20E eu fiquei ali, assim, bastante preocupada, né?
12:23Que alguma coisa poderia acontecer com a minha filha.
12:25A gente se coloca no seu lugar.
12:27Eu, como mãe, também passei por essa questão de ter pouco líquido amniótico.
12:32E aí, conseguir fazer uma cesárea, digamos...
12:35No meu caso, ainda não precisou.
12:37Não chegou ao termo de urgência.
12:38Mas eu estou entendendo, já vivi na pele o que você passou.
12:42Como é que fica o seu coração nessas seis horas a mais que você esperou com o neném ali?
12:48E com esse medo, essa tensão?
12:51Então, aí depois, como eu internei uma hora, depois quando passou três horas, começou a me dar bastante dor.
12:57Bastante dor.
12:58E realmente a sonda, ela causa um grande incômodo.
13:01E eu não sabia o que eu fazia, entendeu?
13:02Se eu fazia força para o nascimento normal, o que eu deveria fazer, o que estava acontecendo comigo.
13:08Eu fiquei bastante preocupada.
13:10E foi aí que, quando foi seis horas da noite, que eles resolveram fazer o meu parto.
13:15Que, segundo eles, teve um espaço, um tempo, porque eles estavam ocupados.
13:20E ali, seis horas, fizeram a cesárea em mim.
13:23E nesse período todo, você estava acompanhada?
13:27Não.
13:28Depois que internou, entrou para dentro sozinha.
13:31Nem o celular podia ficar comigo.
13:34Não, nem o celular podia ficar comigo.
13:37Nada, nada.
13:39Infelizmente, eu passei por isso.
13:41E como já tive uma cesárea quatro anos atrás, e assim, essa segunda cesárea, para mim, foi muito difícil.
13:47Eu senti muitas, muitas dores que eu não conseguia nem falar.
13:51Se eu falasse, doía bastante, bastante mesmo.
13:54E assim, eu não conseguia fazer nada.
13:56Teve um momento, no primeiro dia que minha filha nasceu, à noite,
14:01eu não conseguia levantar para poder pegar ela.
14:03Ela estava chorando na caminha do lado, no bercinho.
14:07E não tinha ninguém, entendeu?
14:08Tinha as outras mães.
14:10Quem estava ajudando eram as outras mães que estavam lá.
14:12Mas ninguém tinha acompanhante, ninguém podia ter acompanhante.
14:16Só mesmo o horário de visita.
14:18Espera aí que eu já volto a falar com você, Aline, que você já trouxe pontos que eu quero debater
14:23aqui no estúdio.
14:23Já volto a falar com você.
14:25Doutora Alice, essa mãe, pela sua experiência, você que é mestre, especializada em saúde pública,
14:33ela teve os direitos dela violados?
14:36É, parece que sim.
14:37Claro que a gente tem que ouvir o relato.
14:48Como ela, a mulher desconfiar que sofreu uma violência obstétrica,
14:53porque a violência, ela não precisa ser validada pelo outro.
14:56A gente não precisa investigar e perguntar para outras pessoas.
15:00A violência é algo que você tem que achar que você sentiu.
15:04Ela tem uma questão de subjetividade.
15:06Então, se ela está fazendo o relato, se ela sente que foi violentada,
15:11mesmo que ela não conheça todos os pontos da violência obstétrica,
15:15ela tem até três anos para entrar contra o serviço, contra o médico,
15:21procurar os direitos dela, procurar entender o que aconteceu,
15:26até para explicarem, isso aqui aconteceu porque estava certo, isso aqui não estava,
15:31isso aqui foi responsabilidade, isso aqui foi responsabilidade mesmo.
15:34Então, qualquer violência obstétrica, a mulher tem o direito de até três anos,
15:39depois de ter sofrido, de ligar para o 180, para o 136,
15:44ou procurar a própria maternidade ou hospital, o serviço onde ela teve o filho,
15:49para entrar com um processo contra quem o cometeu.
15:53Isso não é só o ato médico em si ou o ato da enfermagem em si.
15:58O que se fala, o que não se fala, o que se sente, o que se explica ou se deixa
16:04de se explicar.
16:05Então, é bom a gestante entrar na internet mesmo e conhecer um pouco mais sobre violência obstétrica,
16:12porque, às vezes, ela se sente culpada e se sente mal por ter se sentido violentada,
16:17ninguém valida que aquilo foi uma violência, ela fica sem saber e não vai atrás.
16:22Na verdade, não são só casos extremos como esse que a gente está ouvindo, que são uma violência.
16:29Xingar é uma violência, fazer força em cima da barriga da mulher é uma violência,
16:33falar que ela está sendo fraca, falar que ela não consegue,
16:39xingamentos, discriminações de todo tipo, tudo isso é violência obstétrica.
16:43Até mesmo, raspar pelo pubiano de mulher é violência obstétrica.
16:47E foi o que aconteceu, gente, com esse depoimento que a gente vai ver agora,
16:51foi o que aconteceu com a Rosimar.
16:53Ela ouviu de tudo e muito mais na sala de parto.
16:55Ela ficou traumatizada no parto da primeira filha.
16:59Ela, inclusive, falou para mim, olha, Roberta,
17:01depois disso eu fiquei, botei na minha cabeça, que eu não quero mais ter filho.
17:04Acompanhe.
17:06Foi um domingo, quando eu cheguei para ter minha filha,
17:09era troca de plantão, então a médica que me atendeu,
17:12quando eu cheguei no centro cirúrgico, ela estava muito nervosa,
17:17porque tinha muitas pacientes para ela atender.
17:21A fala dela era que eram muitas pacientes para ela cortar.
17:26Então, assim, era minha primeira filha e eu já estava com medo.
17:30Eles não deixaram o meu esposo acompanhar meu parto,
17:34mandaram ele para casa enquanto eu subia para o centro cirúrgico.
17:37Quando eu entrei no centro cirúrgico, tinha acabado de sair outra paciente,
17:41então, assim, foi muito traumático.
17:44E enquanto ela fazia a minha cesariana, né, porque minha filha nasceu de parto cesárea,
17:50ela falava coisas que eu ouvindo aquilo fiquei muito assustada e eu fiquei com muito medo,
17:56muito traumatizada.
17:57Tive até medo de morrer no parto, assim, por causa das coisas que ela dizia.
18:01E depois a cicatrização da minha cesariana ficou, assim, sabe, tão feia.
18:06Ficou aquela cicatriz que depois eu tive outra cirurgia e o médico teve que refazer,
18:12porque ela costurou na hora da cesariana e ficou muito feia,
18:15porque, assim, com pressa ela fazia aquilo e ela falava e ela puxava com tanta força
18:20que eu acabei tendo problema depois com a cesariana.
18:24Meu Deus, né? É para ser um momento tão lindo, tão pleno.
18:28Você, como uma gestante, ouvindo isso aqui no estúdio, te deixa até um pouco receosa,
18:35assim, de, de repente, vir a passar por essas questões que a gente ouve.
18:38Você sempre vê também os comentários aqui no Facebook, Ana, sabe?
18:42Isso te deixa um pouco receosa, com medo?
18:44Com certeza. A insegurança, ela existe, por mais que seja na rede privada, né?
18:48A gente tem a possibilidade de enfrentar um plantão de uma rede privada
18:52que não é, muitas vezes, na maioria das vezes, não é o médico que te acompanhou no pré-natal.
18:58Então, existe essa insegurança, sim.
19:00E esses relatos, a gente, como mãe, né, gestante, participando de grupos,
19:05a gente vê acontecendo e não somente na rede pública.
19:08Mas é por isso que é importante você ter ciência de todos os seus direitos.
19:12Se você chegar lá no hospital e falar, não, pai, você não pode participar,
19:16como a doutora Alice disse, tem direito sim, né, doutora?
19:21O que a gente deve fazer na hora?
19:22Quem que a gente deve buscar ali dentro do hospital,
19:24caso seja negada a permanência do acompanhante?
19:28Ó, você pode procurar o próprio serviço de assistência social do hospital, né,
19:33que tá ali pra fazer essa ponte,
19:35e você vai buscar a própria direção, coordenação,
19:39quem é que está sendo responsável naquele momento.
19:42Mas a verdade é que quando a gente explicita conhecer o direito,
19:46rapidamente as portas se abrem.
19:48Por isso que é muito importante conhecer o seu direito,
19:51mostrar que você sabe, como eu falei, não só como consumidor, mas como cidadão.
19:56Inclusive, Roberta, é direito da gestante, gente, isso vocês precisam saber.
20:01Começou o pré-natal, a gestante, ela deve conhecer o local onde ela vai,
20:07é direito dela conhecer o lugar, a maternidade ou o hospital onde ela vai ter o parto.
20:12Então, na mesma hora que começou, ela tem que falar,
20:14a referência pra você é tal maternidade.
20:17Aí ela pode protocolar nessa maternidade, além de ir lá conhecer agora,
20:23com seis meses, com dois meses, com três meses,
20:25ela pode ir lá conhecer essa maternidade, protocolar seu plano de parto.
20:30O plano de parto é a maneira como você sonha que seja o seu parto,
20:35que você vai construir junto com o seu médico, com o seu obstetra, com o seu ginecologista.
20:40Então, ele vai te explicar, e a mulher tem que conhecer as vantagens e desvantagens das vias de parto,
20:47os riscos anestésicos, passar por palestras coletivas ou individualmente,
20:51e aí ela vai escrever todo o seu desejo, todos os seus sonhos, vai protocolar nessa maternidade,
20:58e, claro, dentro da eletividade, o médico vai respeitar o desejo dessa gestante.
21:05Ela não pode escolher o dia que ela vai querer ter neném, isso não é permitido,
21:10mas ela, a partir de 39 semanas, pode sim optar pela cesárea,
21:15desde que o médico estude os riscos, realmente a indicação, os benefícios,
21:20desde que ela já tenha sido informada que o melhor é o parto natural, o parto normal,
21:25mas se ela decidir pela cesárea, for uma situação eletiva depois de 39 semanas, é direito dela.
21:31E se o médico não quiser fazer?
21:33Essa é a pergunta de milhões.
21:35E se você já passou de 39 semanas, o médico não quer fazer cesárea?
21:40Como aqui...
21:41É o caso da Aline.
21:43Da Aline.
21:44Gente, se o médico não quiser fazer, está lá na lei, é direito dele não querer.
21:51Ele pode alegar que não quer, que não concorda, ele vai justificar por quê,
21:56e ele vai te passar para um outro colega.
21:59Então, isso está escrito lá na lei.
22:01Ele pode falar, não, eu não concordo, se não for uma situação médica razoável,
22:06ele te passa para um colega, para que o colega possa, então, seguir com o seu parto.
22:11Então, isso está na lei.
22:13Pode digitar lá na internet, cartão do SUS, que tem todas as leis do cidadão perante o SUS,
22:20e essa lei explicita.
22:22É claro que o que a gente quer, e o que é mais difícil, é diminuir o número de cesáreas
22:27e aumentar o número de parto normal.
22:29Então, foi muito difícil essa conquista, por quê?
22:33Cesárea é programada, entre aspas, para o médico, é um ambiente controlado.
22:37O parto natural, ele passa a ser o sonho da maioria das gestantes,
22:42quando ela conhece os benefícios para ela e para a criança.
22:45Mas, se o medo é maior, se o medo da dor é maior,
22:49e se é uma escolha você estando no público ou no privado,
22:52você pode ter esse acordo junto com o seu médico, sim.
22:55E, Sandro, eu queria que você comentasse a importância da assistente social nessas horas, né?
22:59Para garantir que os direitos da gestante sejam cumpridos,
23:04seja também na rede privada ou na rede pública.
23:07Isso, então, é bom estar abordando sobre isso, porque como a gente começou,
23:12se ela teve aquele primeiro atendimento inicial na sua unidade de atenção básica de saúde do município,
23:18ela conheceu ou ela vai saber qual é a sua maternidade de referência.
23:22Muitas vezes, as pacientes não são adequadamente informadas.
23:25Então, nós temos a gestação de baixo risco, que vai ser encaminhada para uma maternidade de baixo a médio risco.
23:32E nós temos as gestações de alto risco, essa sim.
23:35Nós temos que ter um hospital com profissionais, com uma equipe qualificada,
23:39e com toda a infraestrutura de uma UTI para receber essa mulher, se for o caso, né?
23:45Se ela tiver uma intercorrência e agravar, e isso acontece, né?
23:49Infelizmente, a gente sabe que pode acontecer.
23:51Como também uma UTI, que é uma UTI neonatal, para dar todos os cuidados para aquele recém-nascido.
23:56Então, saber do plano de parto, mas principalmente a maternidade de referência, é fundamental.
24:02E o nosso hospital, ele está equipado com uma equipe, né?
24:06Nós temos uma equipe, além de obstetas, de profissionais, enfermeiras também especializadas na área de formação de obstetrícia,
24:13que eu acho que isso é um diferencial numa maternidade, porque elas têm uma formação para saber lidar melhor com
24:19a gestante,
24:20com as intercorrências, com as gestações que nós atendemos lá de alto risco.
24:24E nós temos uma equipe multiprofissional.
24:26Então, além do serviço social, né?
24:29Que seria assistente social, nós temos também psicólogos para atender as nossas pacientes.
24:33Nós podemos chamar fisioterapia, nós temos fonoaudiologia, dentistas, farmacêuticos.
24:39Então, é equipe multiprofissional.
24:41Então, a gente consegue dar um atendimento mais na sua totalidade para a gestante.
24:46E lembrando, como você apontou, que o direito da paciente é no pré-parto, no parto e no puerpério.
24:54Esse puerpério é o momento que ela está no alojamento conjunto, né?
24:57Porque ela aqui vai para um espaço, talvez, de uma enfermaria privada.
25:00Lá na nossa maternidade, no público, no SUS, nós temos as enfermarias coletivas.
25:05Mas nesse alojamento conjunto, também é garantida a presença deste acompanhante,
25:10que é de livre escolha, que a gente sempre pontua da paciente.
25:14A doula também, ela é fornecida pelo SUS?
25:19A doula, hoje, passou com as últimas legislações a ser uma profissão regulamentada.
25:26Ainda não temos dessa forma, como a gente gostaria, do SUS oferecer, junto com o seu pré-natal, uma doula.
25:32Então, a gente sabe que a maioria, hoje, ainda são profissionais, como é uma profissão regulamentada,
25:38em que há um custo para essa gestante.
25:40E o SUS está se aprimorando ainda, nesse sentido, de oferecer esse serviço.
25:46Porque é um serviço, realmente, que contribui com o parto vaginal, que é o parto normal,
25:50que a gente quer que esse índice aumente, né?
25:53E a gente diminua cada vez mais as cesáreas.
25:55Só que as pacientes ainda têm esse desejo.
25:58Então, como a doutora disse, se a paciente tiver o desejo, depois de 39 semanas, de fazer o parto cesárea,
26:05ela vai manifestar esse desejo e o médico vai respeitar.
26:07Porém, o médico também tem essa prerrogativa de negar e ele vai ter que passar para o próximo plantonista.
26:13Então, o melhor é ela já conversar com o seu obstetra, durante o seu pré-natal,
26:18para ela saber dos direitos, mas também dos seus deveres e das suas responsabilidades.
26:22E eu acho que, neste contexto, eu queria aproveitar para lembrar que, na semana passada,
26:26foi sancionada uma legislação que a gente já viu enquanto profissional da saúde,
26:31os profissionais que lutam, que militam da educação, enfim,
26:36por esse direito da mulher de fazer a laqueadura.
26:38Então, hoje a gente recebe, assim, esse é um dos maiores pedidos que nós recebemos
26:42com os nossos pacientes internos que desejam fazer a laqueadura.
26:45E a gente segue a legislação do SUS, que era da idade mínima de 25 anos.
26:50Houve um avanço com a diminuição da idade.
26:51A gente até debateu esse assunto aqui no programa.
26:54Isso, e agora a mulher também vai poder pedir, né, solicitar o desejo em fazer a laqueadura.
27:00Nada melhor do que como a gente ter ciência dos nossos direitos,
27:03para a gente, se precisar, bater de frente com argumentos,
27:07falar assim, mas eu tenho direito a isso.
27:09E aí, vou resumir para vocês os comentários que eu estou lendo aqui no Facebook,
27:14não dá para ler todos, mas em suma, doutora,
27:17muita gente falando, ah, na televisão, falando, tudo é lindo.
27:21Na prática, gente, vai lá no SUS para você ver como que acontece.
27:25O que eu vi aqui de relatos de mulheres que tiveram o acesso negado do acompanhante,
27:30tiveram que retirar da sala.
27:32Outras mães também falando que não tiveram escolha do tipo de parto a partir de 39 semanas,
27:39não puderam ter essa escolha.
27:41Doutora, qual a orientação que a gente pode deixar
27:45para que a gente não veja mais casos, assim, sendo relatados?
27:50Infelizmente, Roberta, essa não é uma realidade do SUS,
27:53essa é uma realidade cultural do Brasil.
27:56Então, a gente viu o caso de uma blogueira famosíssima em São Paulo,
27:59no melhor hospital privado, sofrendo violência obstétrica de um médico renomado.
28:04Isso filmado, as palavras dele divulgadas e que deu todo aquele bafafá.
28:09Então, infelizmente, contra essa cultura da violência,
28:14o problema não está no SUS, não está no sistema,
28:17está na falta de humanização.
28:19Quando o SUS traz uma política de humanização,
28:22isso quer dizer o quê?
28:23Não é tornar as pessoas mais humano.
28:27Não, é uma política mesmo.
28:29É treinar as pessoas, explicar o que é certo e errado,
28:33vigiar, punir os profissionais.
28:36Porque se você tem uma lei, ela tem que ser cumprida,
28:38se ela não está sendo cumprida, tem que haver punição.
28:41Então, a gente tem que, mais do que pensar em punir,
28:45pensar em preparar.
28:46Se eu estou vivenciando um ambiente em que é recorrente
28:50a reclamação de violência obstétrica,
28:52eu tenho que tentar mudar essa cultura através da educação,
28:56da educação continuada desses profissionais.
28:59Está certo.
28:59Olha, eu agradeço muito a participação de vocês.
29:01Se deixar, eu queria ficar continuando aqui com esse assunto,
29:04porque muito nos interessa.
29:05Eu só queria fazer um complemento aqui,
29:07acho que é para fechar, que é a ouvidoria.
29:09Então, no nosso hospital e todas as instituições públicas do SUS,
29:14existe esse canal para reclamação, para denúncia,
29:17que é a ouvidoria.
29:19Então, a paciente familiar pode, deve registrar
29:22e depois também terá direito a seu prontuário,
29:25caso seja necessário entrar com alguma ação legal.
29:28Está certo, Sandra. Obrigada.
29:30Obrigada, doutora Alice Sarsinelli,
29:32que inclusive, gente, a doutora Alice tem uma página no Folha Vitória,
29:35onde ela trata de vários temas relacionados à saúde,
29:39à vida saudável.
29:40Então, vai lá que tem muito conteúdo bacana para vocês.
29:43E obrigada também, Ana Luísa,
29:45tudo de maravilhoso aí para a chegada do Samuel, viu?
29:48Um beijo para vocês.
29:49Beijo, Aline, também que participou com a gente,
29:51também trouxe um relato muito importante,
29:53que muitas mães se identificaram.
29:56Um beijo, Aline.
29:57Obrigada, beijo.
29:59Beijo.