00:00Eu continuo com os moleques do meu bairro, tô no conceito pra além de um baseado.
00:04Quantos quevaram já estevam do meu lado, persistiram, cansaram, andaram, andaram, eu não parei.
00:08Vou caminhar, eles tudo pra mim não dar, armado vou atirar, cansei duas, blá, blá, blá.
00:14Eu tenho um plano sozinho, não vou conseguir, o fim tá longe, nem tudo é certo, eu não sou festim.
00:18Acho que é isso.
00:20Rapaz, acho que é isso. E aí, tudo bom, John?
00:23Esse aqui é o John Conceito.
00:25Você vai conhecer um pouco da história dele hoje, pra começo de conversa.
00:30O que é isso que você abriu na nossa reportagem? É uma poesia? Que estilo é esse?
00:35Isso aqui é literatura periférica. Literatura periférica feita na margem da sociedade.
00:41É a voz dos desassistidos, é a voz daqueles que nunca foram escutados.
00:46Peraí, mas literatura, poesia, na comunidade?
00:50Comunidade?
00:51É isso aí. A comunidade, na verdade, ela, como diz, como fala, né, a Conceição Evaristo,
00:57a gente não tem muito a escrita em si, a gente não desenvolve muito,
01:05mas a oralidade a gente sempre teve, sempre teve presente, né, histórias de família contada
01:09nas reuniões, e isso tudo é literatura também.
01:12Bem, esse estilo que você falou, a gente tava conversando antes aqui, você é um...
01:17Islã, né?
01:18Islã Master.
01:19Islã, Islã, Islã Master.
01:22É o cara que desenvolve os campeonatos de Islã.
01:25E como é que você chegou até nisso?
01:27Aí é o seguinte, eu fui o primeiro no Espírito Santo a desenvolver um Islã, né,
01:34que é um campeonato mundial, acontece no mundo todo.
01:36Hoje a gente tem um campeonato mundial, a gente tem até os campeonatos latino-americanos,
01:42e tem um... é classificado tipo Libertadores da América.
01:46Entendi.
01:46Entendeu?
01:47Tipo assim, a gente tem.
01:48Então, no Espírito Santo, eu fui o pioneiro.
01:51E aí eu me tornei o Islã Master, capixaba.
01:54E essa poesia que você declama?
01:57É... você pega um livro e lê ela de um livro, como é que funciona isso?
02:00É, tá tudo na cachola.
02:02A gente desenvolve na cabeça, escreve também, mas a gente grava essas coesias.
02:10Agora, você pode retirar de um livro e fazer isso, né?
02:13Não, tem que ser autoral.
02:13Ah, tem que ser autoral.
02:14Tem que ser autoral.
02:15Você tem que criar.
02:16Você tem que criar.
02:17Todo mundo pode, todo mundo é capaz, né?
02:20A gente só não tem essa prática.
02:21Mas é isso, é autoral.
02:23Cada um tem a sua particularidade.
02:25E aí quando a gente fala de periferia, de bairro mil, de bairro simples,
02:29a gente acha assim, pô, a poesia chega até lá, a literatura chega até a essas comunidades.
02:37É possível?
02:38Eu acho que sim.
02:39Pô, a gente hoje tá lançando livro, cara.
02:41A gente tem livro hoje, Neto da Periferia, entendeu?
02:44E tem vários parceiros meus também que estão lançando livro que são de bairros periféricos,
02:48aqui no Espírito Santo.
02:49Então hoje a gente tem, na verdade, nós somos empreendedores também da literatura.
02:54A gente tira leite de pedra.
02:56Caramba, que massa.
02:57Vamos andando aqui, a gente tá aqui na comunidade de Vila Garrido,
03:01um bairro bastante conhecido, né?
03:04Pela sua tradição.
03:05É um bairro antigo aqui do município de Vila Velho.
03:09Você foi nascido e criado aqui?
03:11Nessa rua aqui.
03:12Nessa rua?
03:13Nessa rua.
03:13Como é que é o nome dessa rua?
03:14Rua São José, Rua Curubichá.
03:16E aí...
03:16Aqui até aqui é São José, ali é Curubichá.
03:18E é aqui que você corria quando era moleque?
03:20Ah, eu já põe muito dedão de pé aqui.
03:22É mesmo, cara?
03:23Eu já soltei muita pipa aqui nessa rua.
03:30E o que que te fez chegar até a poesia, chegar até a literatura, ao ponto de ser o iniciante,
03:39né?
03:40Você que deu o pontapé inicial nisso tudo aqui no estado, hein?
03:43Cara, eu acho que foi a trajetória de vida mesmo.
03:46Eu sempre fui muito apegado a letras, a escrever, certo?
03:50Eu só não sabia disso.
03:52Na época da adolescência, por exemplo, eu escrevia funk, cantava.
03:56Então era a arte que chegava até a mim, né?
03:59O rap e o funk é muito mais fácil, chega mais fácil na periferia.
04:04O rap é o quê?
04:05Ritmo e poesia.
04:06Então, quando eu escrevia minhas letras de rap, eu já estava desenvolvendo essa literatura.
04:10Depois de mais velho, eu fiquei curioso, né?
04:14E eu comecei, através das redes sociais, quando eu comecei a postar as coisas que saíam da minha cabeça,
04:19as pessoas começaram a falar comigo que eu escrevia bem.
04:23Meus amigos estão morrendo sem entender a guerra.
04:26Na montanha, um apetei e mal pegaram na caneta.
04:28Porque a fome que eu sinto é a mesma que nos nega, filho consequente de uma pátria de tragédia.
04:34Ô, John, enquanto a gente está andando aqui no Garrido, que me chama muita atenção,
04:38porque a gente está aqui conversando, né?
04:39E olha a molecadinha ali, ó.
04:41Levando aquela vida na rua, né?
04:43Sensacional.
04:44Que você levava, né?
04:45Sim.
04:46Você acredita que a poesia, pode ser a sua ou não, vai chegar nessa molecada aí?
04:51Eu acho que já chegou.
04:52É?
04:52Já chegou de certa forma, sim.
04:54Eu percebo a forma como a galera me trata aqui no bairro.
04:58Como me olha.
04:59E isso dá até um certo medo, assim, né?
05:02Mas eu acho que a gente precisa, em bairros, não importa de onde, ter referências.
05:08Tá ligado?
05:08Se você, aqui no bairro, por exemplo, a gente não tem nenhuma referência, por exemplo,
05:12de um médico.
05:13A gente não tem referência de um engenheiro.
05:16Entendeu?
05:17Ó, fulano, ele é engenheiro.
05:18Olha o carro bacana dele.
05:19Quando eu crescer, eu quero ser engenheiro igual a ele.
05:21Mas é possível.
05:22Exatamente.
05:23Totalmente possível.
05:23Mas através da literatura, o que a gente percebe?
05:26Que você não precisa ser poeta.
05:27A ideia aqui não é formar poeta.
05:29É você ter essa visão de mundo, de que você, maneiras de se correr atrás.
05:35Então, tipo assim, eu não quero formar jovens poetas.
05:38Eu quero formar jovens engenheiros que não percam isso aqui, ó.
05:42Toda criança é poeta.
05:43Não percam essa sensibilidade de criança quando crescer.
05:46Que o tempo dele não se desgaste somente em trabalho e ele vira uma pessoa desumana.
05:51É um trabalhador humano.
05:52Acho que é essa a missão da minha literatura, pelo menos.
06:02E pra terminar a reportagem, nada melhor do que você fazer uma poesia pra essa galera
06:07da sua comunidade e pra galera que você vai começar a fazer parte da família também,
06:12que tá lá em casa, não tá assistindo.
06:13É com você.
06:14Fazia das estrelas seu teto, fazia da lua sua mãe, dos cães irmãos semelhantes.
06:24Fazia ter luz, não tinha palco, não tinha saída, não tinha carinho, solidão.
06:32Criança tão cheia de mágoa, buscando alimento sozinha.
06:35Fazia, fazia, fazia, fazia, fazia, fazia poesia.
06:40Cadê aquela menina que fazia poesia?
06:44Fazia E, fazia A, fazia, pois fazia poesia.
06:50John Conceito, agora é John Balanço também, fechou?
06:55É nóis.
06:55É nóis.
06:56É nóis.