00:04Essa é a Afari, uma jovem que contrariou as estatísticas da violência por meio da arte.
00:12Eu venho não só de uma comunidade onde a criminalidade é bem hostil,
00:19mas também eu venho de uma família onde foram a maior parte envolvidos com o crime organizado.
00:28Muitas pessoas desacreditaram e falaram para minha mãe várias vezes, acho que umas cinco vezes,
00:35ela não vai passar dos 15 e hoje eu estou aqui 30 anos contrariando as estatísticas.
00:49Eu digo que o hip hop me puxou pelos cabelos do crime organizado e me jogou dentro da arte
00:55para que eu pudesse entender o quão a minha vida era importante e o quanto eu poderia me destacar no
01:01mundo,
01:02sendo tudo o que eu sonhei em ser e que nunca tinha tido acesso nem oportunidade.
01:08Desde nova, ela busca melhorar a perspectiva de vida da família e da própria comunidade.
01:15Hoje, além de ser cantora e produtora cultural, faz acolhimentos de jovens da periferia de Vila Velha.
01:22Eu dou muito afeto, coisas que eu recebi em alguns momentos da minha vida, mas não todos.
01:30Então eu dou muito afeto para os meus filhos de batalha, que é do coletivo Batalha da Ponte.
01:36São seis anos de resistência debaixo de uma ponte, trazendo possibilidades para jovens de vários lugares de Vila Velha
01:45a conhecer a arte e a cultura de diversas formas.
01:49Carlos viu no esporte a oportunidade de fazer a diferença na região de Nova Palestina, em Vitória,
01:57um local marcado pelo histórico de conflitos.
02:00Junto com amigos, criou um projeto social que viabiliza aulas gratuitas de futebol de salão.
02:07Em 2016, dois amigos tiveram essa ideia de criar um projeto social, até mesmo para poder ajudar a formar cidadãos
02:17do nosso bairro,
02:18devido a nossa onda de violência e tal.
02:23O projeto existe há cinco anos. A iniciativa virou referência para a juventude do bairro.
02:29As atividades estão suspensas, mas em breve vão voltar.
02:33O que a Fari, Carlos, tem em comum?
02:36A vontade de mudar a realidade das comunidades onde atuam.
02:41Regiões onde, infelizmente, a criminalidade se faz presente.
02:46Dados divulgados no Atlas da Violência, produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada, o IPEA,
02:53apontam que a principal causa de mortes em 2019, de jovens entre 18 e 29 anos, foi a violência.
03:04Violência que tirou a vida de Leonardo Torrentes Barros, de 24 anos.
03:10Segundo a polícia, ele foi assassinado com mais de 14 tiros.
03:14O corpo foi encontrado no alto do Morro do Cruzamento, em Vitória.
03:18O crime aconteceu em 2019.
03:20História que faz parte de um levantamento que revela dados alarmantes.
03:26Em todo o país, dos mais de 45 mil assassinatos que aconteceram no mesmo ano,
03:3251,3% vitimaram jovens entre 15 e 29 anos de idade.
03:39Uma média de 64 mortes por dia.
03:42No caso específico da juventude, é importante destacar que a violência está intimamente ligada
03:49à inexistência de oportunidades para os jovens.
03:52De modo geral, a sociedade oferta aos jovens possibilidades de acesso a bens, a consumo,
04:00mas não garante de forma efetiva esse acesso.
04:04E com isso, muitos jovens recorrem a formas ilícitas de ter acesso a esses bens de consumo.
04:10Isso gera disputas, disputas violentas e que muitas das vezes provocam mortes.
04:17No Espírito Santo, o número de homicídios de jovens por grupo de 100 mil habitantes
04:22está acima da média nacional.
04:25A taxa é de 57,9 contra 45,8 no Brasil.
04:31Dos homicídios cometidos em agosto, e a análise que a gente faz também ao longo do ano de 2021,
04:3880% estão ligados ao tráfico de entorpecentes.
04:41E o que mais nos entristece é que numa faixa etária muito precoce, que vai de 12 a 28 anos.
04:48Então, jovens estão se matando por conta do tráfico de entorpecentes, da guerra que eles travam armados.
04:55Então, como desfazer o problema estrutural da violência que leva à morte de tantos jovens no Espírito Santo?
05:03Sobre a ótica da segurança pública, é preciso desconstruir isso na mente desses jovens.
05:09É preciso trabalhar muito com a educação, curso de qualificação, a presença da família, religião,
05:16enfim, ações que vão muito além do que nós temos feito como polícia.
05:20Enquanto a solução não chega, por meio de políticas públicas concretas,
05:25é por meio de iniciativas como a Geafari e Carlos,
05:29que a esperança de milhares de crianças, futuros jovens, é renovada.