00:00O euninho é um fenômeno natural de variabilidade na bacia do Oceano Pacífico.
00:06Tem anos que está mais frio, é a laninha.
00:09Tem anos que está mais quente do que a média, é o euninho.
00:12Geralmente, o euninho é mais estudado porque é o que tem maior impacto.
00:16Na verdade, historicamente, quem descobriu o euninho foram os pescadores ali do Equador,
00:21do Peru, na costa oeste da América do Sul, a indústria pesqueira muito forte.
00:25Vinha essa corrente quente, geralmente no final do ano, perto do Natal,
00:29e chamam os pescadores mesmo, denominado de euninho, que é o menino, o menino Jesus.
00:34O Pacífico ocupa um terço do globo, então o que acontece ali tem repercussão global.
00:39Na Amazônia e no Nordeste Brasileiro, aquele aquecimento induz uma mudança
00:45na circulação dos ventos, na circulação geral da atmosfera,
00:49de maneira que tem um movimento descendo, ar descendo de cima para baixo,
00:54que impede a formação de nuvem.
00:56E essa condição climática de sem nuvem, sem chuva, não tem a recarga dos rios,
01:05os rios ficam baixos, o impacto de seca, secas prolongadas e o risco maior também de incêndio,
01:14porque imagina, atmosfera seca, vegetação seca por longos períodos,
01:20então qualquer uso de fogo é preocupante para espalhar as queimadas.
01:26Então o risco de queimada também é muito alto durante os eventos euninho.
01:29O euninho em 2026 e 2027 está em curso, a gente tem aqui os dados mais atualizados.
01:37Essa grande área aqui na bacia do Oceano Pacífico Equatorial me diz que a intensidade já está chegando a 4
01:44graus acima da média.
01:47O último euninho mais forte foi em 2015-16, isso aqui chegou a, eu diria, 3 graus.
01:54Ele já vai ser 1 grau a mais, então tudo indica, de fato, que vai ser o euninho mais intenso
02:00de todos os passados.
02:01Eventos passados em que a extensão espacial na Amazônia, na Bacia Amazônia, chegava a 25, 30% da área afetada
02:09pela seca
02:09e esse impacto era maior em janeiro.
02:13Então o euninho informa agora, setembro, outubro, dezembro é o pico, aí vira o ano, o impacto era janeiro.
02:19Agora, a informação mais atualizada, o conceito atual de impacto do euninho é de que essa área está muito maior,
02:26passa de metade, mas na média de 60% da bacia é atingida por seca e o grande problema é
02:35que esse impacto está antecipado
02:37para o mês de novembro, o mês mais crítico é novembro.
02:41Então é um mês aí de preocupação em termos de secas prolongadas, risco de queimadas, ondas de calor,
02:47afetando a população em geral, particularmente ribeirinhos, né?
02:51A gente tem realmente uma preocupação com as pessoas mais vulneráveis.
02:55Um evento como o que a gente está passando hoje, a gente já teve isso em anos anteriores,
03:01nós já tivemos outros El Ninho, já tivemos Laninha e etc.
03:05O que nos choca hoje é a intensidade do fenômeno e as possibilidades de efeito dele na região como um
03:13todo
03:13e também a frequência com que esse tipo de fenômenos vem acontecendo,
03:17tanto no continente quanto na própria região amazônica.
03:19Os nossos ribeirinhos, eles conhecem essa ciclicidade que é natural, né?
03:25Que é o que a gente chama de ciclo hidrológico, o hidrograma natural do pulso de inundação que a gente
03:33tem.
03:33Então você tem um período do ano que o rio está mais alto, depois ele baixa, desce, vai...
03:38Só que isso não é homogêneo na bacia amazônica, porque muitas vezes um fenômeno que afeta uma região da bacia
03:45ainda não está afetando outra, mas se ele permanecer, ele vai afetar.
03:50Significa isolamento dos ribeirinhos, né?
03:53Comunidades que estão um pouco mais para dentro das regiões tradicionais, que é ao longo dos grandes rios,
03:59mas às vezes você tem pequenos rios que são tributários, né?
04:01Como, sei lá, o Tefé, o Porus, o Juruá e etc.
04:06Então tem áreas desses rios que podem sofrer uma redução tão drástica no nível
04:10que as comunidades não têm como ser abastecidas por combustível, por alimentos e tal.
04:17Então as pessoas ficam isoladas.
04:19E, além disso, é o abastecimento de água, porque aí como diminui muito o nível, a água fica turva, né?
04:26Muitas vezes é só lama e as pessoas não têm poço e abrir um poço é uma coisa cara.
04:32A maior parte das comunidades trabalham com poço raso, que é o popularmente conhecido como poços Amazonas, né?
04:3830 metros, 40 metros, que não tem normalmente boa qualidade da água, né?
04:43Então vai ser uma coisa complexa.
04:46E como não tem chuva também, não tem nem como captar água de chuva, né?
04:49Porque as chuvas têm sido muito reduzidas.
04:51Em Manaus, a gente tem tido um déficit bastante significativo de chuva de forma homogênea.
04:58Olha, não dá para dizer efetivamente uma conectividade direta entre a nossa ação como humanos
05:04e o evento que tem um ciclo natural aí, né?
05:08Agora, o que está se aventando é de que essas mudanças climáticas que têm sido induzidas
05:13de forma antropogênica, né?
05:17Ou seja, por ações humanas, tá?
05:19Elas aparentemente têm uma relação com o aumento na frequência desse evento, tá?
05:24Nós não temos uma...
05:26De uma forma categórica que ninguém bateu o martelo de que é isso.
05:30Mas é o que a gente está percebendo, né?
05:32E como é que eu posso dizer?
05:33Conectado com outros efeitos que podem estar ou não diretamente relacionados com o evento El Ninho,
05:40e que vão intensificando ou reduzindo um pouco os efeitos pajuzantes,
05:45já dependendo do que você tenha.
05:46Mas o que a gente tem visto é o contrário.
05:48O que a gente tem, a tendência é de que o nível dos rios, de forma mais homogênea,
05:53como foi em 2023, 2024, ele tenda a ficar mais baixo do que o normal, né?
05:58E a gente viva um fenômeno aí semelhante.
06:02Porque se ele permanecer no início do ano, como está se anunciando aí,
06:06e atingir o período que normalmente a água está...
06:11O nível dos rios está subindo,
06:13aí é uma forte tendência de você não conseguir botar...
06:16De uma natureza conseguir botar água novamente nos rios o suficiente
06:19para ele resistir a uma seca.
06:22E aí você tem como um efeito dominó, né?
06:27Prejudicando a seca do ano que vem, que pode vir a ser mais intensa até.
06:31A problemática é atingir as atividades de agricultura de subsistência, né?
06:35Então isso também prejudica as roças de mandioca, por exemplo, né?
06:40Do nosso caboclo, ribeirinho e tal.
06:43Então isso, com certeza, gera alguns impactos sucessivos aí
06:49para as comunidades ribeirinhas e também para as cidades,
06:52porque muitas das nossas cidades, mesmo de tamanho maior, né?
06:57Elas têm uma certa dependência em relação a alguns produtos
07:00que vêm por meio de embarcações.
07:03E a redução disso realmente prejudica.
07:06O caso, por exemplo, do polo industrial de Manaus, né?
07:10Aqui tem navios de grande porte e com determinado nível de rio,
07:16o calado não é o suficiente para que eles possam chegar até Manaus.
07:20Então isso gera uma série de implicações.
07:22Por exemplo, se conversa já em anos anteriores
07:25a criação de uma taxa de transporte para a seca, né?
07:29Um sobrepreço em cima das mercadorias, né?
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