Pular para o playerIr para o conteúdo principal
  • há 1 dia
Transcrição
00:00Vamos repercutir agora esse assunto na nossa coluna da semana Olhar do Amanhã.
00:17E vamos receber doutor Álvaro Machado Dias, neurocientista, futurista, professor da Unifesp e colunista do Olhar Digital.
00:27Vamos lá falar com doutor Álvaro.
00:31Aqui está doutor Álvaro Machado Dias.
00:34Muitíssimo, boa noite.
00:35Seja bem-vindo aqui aos estúdios do Olhar Digital mais uma vez.
00:40Obrigado, Marisa.
00:41Doutor Álvaro Machado, falamos aí sobre um assunto muito importante, interessantíssimo, não é?
00:49Que boa notícia isso.
00:51Agora, o que muda biologicamente quando o mRNA deixa de ensinar o corpo a reconhecer um vírus externo
01:01e passa a ensinar o corpo a reconhecer o próprio tumor do paciente?
01:06Como é esse caso da vacina e do melanoma?
01:10Que notícia bacana é essa, não, doutor Álvaro?
01:12Pois é, com o arrefecimento da pandemia de Covid-19, essas vacinas que são tratativas e não preventivas
01:23se tornaram a demanda da vez nesse mundo do RNA, né?
01:27E o que muda nessa história, né?
01:29Uma vacina que vai ser usada para o sistema imunológico atacar o câncer, né?
01:34Qual que é a ideia?
01:35O que muda aí é o seguinte, um vírus, eu vou usar aqui de uma alegoria fenomenológica,
01:43um vírus é um não eu, ele é um corpo estranho em você.
01:49Consequentemente, o seu sistema imunológico, do ponto de vista da ativação,
01:55ele está desenhado para identificar esse ser intruso, esse ser que não é bem-vindo e atacá-lo.
02:05Um tumor é um eu alterado, não um não eu.
02:10Quase tudo nele é idêntico aos tecidos saudáveis.
02:15Olha que coisa, esse é o negócio.
02:18O sistema imune, ele passou a vida, por assim dizer, a vida evolucionária dele
02:24sendo preparado para identificar o não eu e eliminá-lo.
02:29Mas o tumor traz esse outro tipo de desafio.
02:33Então, qual é a questão aqui?
02:35Como a coisa funciona?
02:36Existem pequenas alterações, pequenas proteínas levemente distorcidas no tumor,
02:42os chamados neoantígenos, que não existem nas células saudáveis.
02:47E a identificação é justamente disso.
02:50Então, na prática, qual que é o negócio?
02:52Você tem que sequenciar o tumor, o tecido saudável da pessoa,
02:56e algoritmos, igual ao software de inteligência artificial, reconhecem os dois genomas.
03:02E a partir disso, a partir de algumas dezenas de mutações,
03:06identificam e criam essa capacidade de mobilização imunológica.
03:12Então, no final das contas, a diferença é fundamental,
03:17porque a gente está treinando o corpo para a identificação de algo que, em última análise,
03:23é ele próprio.
03:25Muito interessante.
03:27Agora, inclusive, nesse sentido, nos últimos dias,
03:31a primeira vacina de mRNA contra a gripe foi aprovada nos Estados Unidos.
03:38E se a mesma plataforma serve tanto para a gripe quanto câncer, doutor Álvaro,
03:43significa que a vacina, que ainda é uma vacina no sentido clássico,
03:48ou seja, o conceito já ficou pequeno para o que a tecnologia faz?
03:54Essa é uma baita de uma pergunta filosófica.
03:56Olha só, de fato, a gente tem agora vacinas preventivas e tratativas.
04:00Agora, em todos os casos, o que está acontecendo?
04:03A gente está ensinando, por assim dizer,
04:06direcionando o sistema imunológico para ele reconhecer um alvo
04:09e, nesse sentido, é tudo vacina.
04:12Agora, será que dá para a gente dizer
04:15que alguma coisa mudou categoricamente?
04:18Por isso que eu estou dizendo que é uma pergunta filosófica.
04:20Existe alguma mudança mais profunda?
04:23De fato, existe.
04:25Pelo seguinte, o que caracteriza esse mundo das vacinas de RNA
04:30é que a cápsula externa, a lógica de funcionamento, segue a mesma,
04:37mas o que vai dentro muda, como num software.
04:41É muito mais uma lógica da informação.
04:44Então, quer dizer, em última análise,
04:47o RNA, o RNA mensageiro, o mRNA,
04:51ele é um medicamento de informação.
04:54A plataforma pode ser a mesma,
04:58mas o que acontece, o que está ali dentro, não.
05:00Então, por exemplo,
05:02quando a gente pode falar assim,
05:03o que está dentro é a mensagem.
05:05Então, no caso, por exemplo, do influenza, da gripe,
05:08é a hemagglutinina que é o alvo.
05:11No caso do melanoma, são mutações do tumor e assim por diante.
05:15Então, você vai trocando o que tem dentro,
05:18assim como a gente troca software sem mudar o hardware.
05:21Está aí a grande diferença categórica que essa nova categoria,
05:26não só de vacinas, mas de medicamentos de maneira mais ampla,
05:29traz para a gente desde a COVID e agora,
05:32cada vez mais de maneira importante, impactante,
05:35do ponto de vista clínico mesmo.
05:37Muito bem ilustrado até com essa imagem da cápsula.
05:40Faz muito sentido para a gente poder entender o que significa.
05:45Agora, doutor Álvaro, você até chegou a falar aí no começo
05:48que essa tecnologia do mRNA já existe há décadas,
05:52mas foi na COVID-19, que efetivamente ela surgiu, né?
05:57Que foi uma corrida por uma vacina contra a COVID-19
06:01e aí acabou tirando do papel em tempo.
06:04Recorde essa vacina, esse tipo de vacina do mRNA.
06:09Sociedades só se permitem dar certos saltos científicos,
06:13como foi, por exemplo, essa velocidade da criação da vacina,
06:16quando pressionados por uma emergência, por exemplo, como aconteceu?
06:23Eu vou começar com a primeira parte, corroborando o que você disse.
06:26De fato, isso já existia, tá?
06:27Isso é a invenção da Kathleen Karikonik, que acabou ganhando o Nobel.
06:31Ela resolveu o problema, que é um problema de modificação de nucleosídeos, né?
06:36Para driblar a resposta, no caso era inflamatória, em 2005, tá?
06:40Ela estava lá, atrás de financiamento, e com o Drill, que era um cara que trabalha com ela,
06:46querendo levar isso para frente, mas ninguém estava com muita disposição.
06:50E agora eu entro na resposta que interessa.
06:52Não é necessário que exista uma emergência de saúde ou qualquer outra,
06:58mas de fato, uma emergência de saúde ou qualquer outra,
07:04cria um mecanismo muito importante.
07:07Ela zera o custo político desse tipo de investimento.
07:12Porque, olha só, a grande questão é que esses investimentos em medicina são muito caros.
07:18Muitas vezes, a maior parte das vezes, o resultado é nulo.
07:24E, claro, sempre existe um risco.
07:27Portanto, é preciso que haja vontade política, vontade dos ministérios da saúde,
07:34vontade das agências de fomento.
07:36Todo mundo precisa estar com vontade de promover essa história.
07:39Por exemplo, olha esse caso aqui da vacina de influência de RNA da Moderna.
07:44Quase não saiu.
07:45Não fosse uma pressão da opinião pública, tinha ficado travada no FDA nos Estados Unidos.
07:50Não queria que saísse.
07:51Então, tem uma questão que é política.
07:54que a gente tem que entender que essa é uma realidade.
07:56Quando existe uma má vontade com aquilo, as coisas demoram mais para sair.
08:03E, verdade seja, isso aconteceu no Brasil.
08:06Goste quem gostar, não goste quem não gostar.
08:10Milhares de vidas inocentes foram perdidas por isso.
08:13Tem muitos estudos publicados mostrando.
08:15É fato consumado.
08:16Dezenas de milhares.
08:17É um legado de uma má vontade no tratamento da emergência de saúde
08:23do ponto de vista do entusiasmo com a vacina, das tentativas de aceleração.
08:27Tem mil questões para dizer no caminho que não é bem isso, não foi tão simples.
08:30E eu concordo com uma parte delas.
08:31Não é assim também.
08:32Mas houve esse fator.
08:33Lógico que houve.
08:34Quem estava lá sabe.
08:36E aqui a gente tem que pensar que é a mesma coisa.
08:38Só que não é necessário uma emergência.
08:39Olha, uma exceção importante.
08:40Quando a gente vai para os agonistas de LP1,
08:44quando a gente vai para o Ozempic, Monjaro e etc e tal,
08:47não tem...
08:49Tem um problema crônico de saúde que é a obesidade, né?
08:52Que é subjacente a vários outros,
08:55como má alimentação e sedentarismo, etc e tal.
08:58Mas não havia nada de agudo acontecendo.
09:01E mesmo assim o negócio explodiu.
09:02Então não é exatamente necessário que exista uma emergência no planeta.
09:08Mas é sim que exista muita vontade.
09:10No final das contas, quem tem a última palavra nesse papo
09:13são os economistas.
09:15Quando eles falam, é o incentivo que move montanhas.
09:19Pois é, mas de qualquer forma, realmente,
09:22é um cenário desafiador, não é, doutor Álvaro?
09:24Mas que bom que temos evoluções assim, de tempos em tempos.
09:28Essa realmente é uma boa notícia para a gente trazer aqui
09:31no nosso quadro do Olhar do Amanhã.
09:33Bom, semana que vem, teremos mais assuntos para falar por aqui, doutor Álvaro.
09:38Muito obrigada pela presença e vamos nos encontrar na próxima semana.
09:42Excelente semana para você.
09:44Com certeza, vai ser mais uma grande satisfação.
09:46Obrigado para você, obrigado para todo mundo que nos acompanhou.
09:49Não se esqueça de seguir sempre o Olhar Digital
09:51e compartilhar os cortes que saem depois,
09:54onde estão aí os debates mais quentes em tecnologia,
09:58em saúde e vários outros temas da internet brasileira.
10:01Até semana que vem.
10:02Até isso mesmo, doutor Álvaro.
10:04Obrigada, boa noite.
10:06Está aí, doutor Álvaro Machado Dias,
10:08mais uma vez aqui conosco na coluna Olhar do Amanhã,
10:12dessa vez trazendo aí esse cenário,
10:14dessa boa notícia da vacina da moderna.
10:18Interessante, não, pessoal?
10:19Que bom.
10:20Bom, semana que vem, como vocês já sabem,
10:22tem mais Olhar do Amanhã com o doutor Álvaro Machado Dias.
Comentários

Recomendado