00:00Ele colocava os jornais e os livros, estava sempre com essa sacolinha de plástico, pelandradas.
00:06Como estranhas lembranças de outras vidas que outros viveram num estranho mundo.
00:13Quantas coisas perdidas e esquecidas no teu baú de espantos, bem no fundo.
00:24Aí estava escrito assim, ó.
00:26Para a querida Sandra Ritzel, ele botou no sobrenome, o seu também querido, Mário Quintana, Porto Alegre, em novembro de
00:3485.
00:37Eu conheci o Quintana quando eu fiz uma entrevista de colégio.
00:40Eu tinha 14 para 15 anos, não me recordo o mês.
00:45E aí eu levei, eu fui a uma colega, né, levei as perguntas, um gravador e uma caixinha de bombons
00:52pra andar pro poeta.
00:53Mais tarde, ele foi morar no Porto Alegre Residência Hotel.
00:58E aí eu imagino que como ele já estava velhinho, já estava cansado de morar sozinho, até um pouco inseguro.
01:04Ele conversou com a Helena Quintana, que é a sobrinha neta que cuidava, administrava a obra e as coisas dele.
01:11E aí eu fui morar com ele no Porto Alegre Residência Hotel.
01:21Querida Sandra, no dia de teu aniversário, desejo-te que conserves durante a vida inteira o mesmo entusiasmo e ardor
01:31destes teus floridos 15 anos.
01:34Porto Alegre, 11 de setembro de 1985. Mário Quintana.
01:40Eu também era como uma secretária, né, que ele fez toda a documentação, carteira de trabalho, né, sempre pagou tudo
01:48certinho.
01:48Mas, na verdade, eu fazia companhia pra ele. A gente ia no cinema, passeava, por Porto Alegre.
01:59Eu e ele aqui na pracinha Madame de Sevigny. A parte de cima do pijama, a calça social e eu
02:08com o cabelão, né, toda estranha, mas estava com ele ali na pracinha.
02:13A gente ia muito na pracinha.
02:20Pegava os filmes antigos pra eu poder assistir com ele, que era uma da manhã, já estava caindo de sono
02:26e ele me sacudindo a corda.
02:28Olha a Greta, Rainha Cristina. O humor dele, como era muito peculiar, que em 60, 70, era um título de
02:38um bar que a gente abriria de brincadeira, né.
02:46Para a minha mãe adotiva Sandra, de me proibir quase tudo, como as outras mães, me ensinou muita coisa.
02:55Com este beijo do teu filho, Mário. 12 de maio de 1991, dia das mães. Olha que querido.
03:08Ele brincava que Freud se deliciava, porque às vezes ele era um pai pra mim, eu era como uma filha,
03:14outras vezes eu era mãe, ele era um filho, principalmente quando ele ficava internado, né.
03:19Uma lembrança do seu papai, né, entre aspas, Mário Quintana, no Natal de 1991.
03:27Vivia de pijama, só quando tinha que receber alguém que colocava camisa, terninho, né.
03:41Todo esse carinho, todo esse reconhecimento, esse respeito, ele teve em vida.
03:47Foi sempre muito bonito ver a maneira com que as pessoas tratavam ele, o carinho.
03:54Transformou em tudo, né, a influência cultural, literária, o gosto pela poesia.
04:00Que foi no Baú de Espantos, que nesse livro ele falou que eu podia escolher um poema, que daí eu
04:06escolhi um poema pra mim, mas a dedicatória dele é tão bonita.
04:10Para a querida Sandra, com aquele amor de sempre, seu eterno pretendente.
04:17Mário Quintana, 8 de junho de 1986.
04:23Hoje, porém, são tantos os cuidados, que se custa morrer na flor dos anos.
04:28Mas que mundo, que sonhos, que esperanças, se houvesse apenas jovens e crianças, e os poetas, que não têm nenhuma
04:37idade, inauguram o mundo a cada instante.
04:42Ele escreveu assim, achando que eu ia ficar muito friosa, ia brigar e tal.
04:47Se a Sandrinha foi perdida e por acaso for achada, não deve ser devolvida, porque não presta pra nada.
04:53E eu adorei, assim, fiquei rindo, dei um abraço nele.
04:58Foi enriquecedor.
04:59Além dessa bagagem cultural, ele foi o poeta do meu cotidiano.
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