Pular para o playerIr para o conteúdo principal
Na infância, havia ratos sob a tábua carcomida,
e um pai de hálito ardente devastando-lhe a vida;
cada prato era um litígio, cada noite uma cilada,
a casa, um mausoléu de infância violentada.

A mãe, entre hematomas e rosários de fadiga,
costurava o próprio pranto na penumbra inimiga;
e a menina, muito cedo, aprendeu sem alegoria
que há criaturas sorrindo com punhais de cortesia.

Vieram homens viscosos de gravata e devoção,
com moedas nos bolsos e enxôfre no coração;
tomaram-lhe a adolescência num quarto isolado,
onde até Cristo na parede parecia estar vendado...

Senhora da madrugada...
Hoje ela risca fumaça na esquina do cemitério
e transforma desespero num perfume grave e etéreo
Seu vestido tem a noite das mulheres sem perdão
mas há lírios invisíveis florescendo em sua mão

Fugiu por vielas turvas sob garoas de ferragem,
dormindo entre cães magros e jornais de estiagem;
na sarjeta repartia pão mofado e cobertores,
mesmo tendo nos próprios ossos um deserto de dores.

Havia mendigos cegos que chamavam seu nome,
e crianças sem sapato, raquíticas da mesma fome;
ela dava o que não tinha, cigarro, abraço, migalha
como santa clandestina sob a fuligem da batalha.

Às vezes ria sozinha nos viadutos da cidade,
com batom barato e frio disfarçando a tempestade;
mas depois, diante da lua e das vitrines apagadas,
chorava como quem guarda catedrais abandonadas.

Senhora da madrugada...
Hoje ela risca fumaça na esquina do cemitério
e transforma desespero num perfume grave e etéreo
Seu vestido tem a noite das mulheres sem perdão
mas há lírios invisíveis florescendo em sua mão

Numa madrugada ríspida de junho sem clemência,
quatro homens a cercaram com navalhas e indigência;
o asfalto bebeu seu sangue com garrafas partidas,
e a aurora nasceu doente sobre as avenidas.

Agora vem nos terreiros entre rosas e aguardente,
com gargalhada de brasa e olhar antigo, penitente;
ampara moças feridas por amantes e violência,
e ensina às almas partidas o difícil da existência.

Quando baixa, até o luar modifica a travessia,
pois existe nela um resto de miséria e poesia;
e quem sente sua presença junto às velas da gira
ouve as ruas soluçando na chegada da pomba-gira.

Senhora da madrugada...
Hoje ela risca fumaça na esquina do cemitério
e transforma desespero num perfume grave e etéreo
Seu vestido tem a noite das mulheres sem perdão
mas há lírios invisíveis florescendo em sua mão

_________________________

Astrikos Katoikos
Copyright ©️ 2020
Todos os Direitos Reservados ®

#astrikoskatoikos #punkrock #heavymetal #pombagira #umbanda #pontodeumbanda #rockumbanda #pombagiramariapadilha #pombagiramariamulambo #pombagirapontos #pombagirarainhadasalmas #pombagiracigana

Categoria

🎵
Música
Transcrição
00:00Oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh,
00:14oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh,
00:16oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh,
00:16oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh,
00:19oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh,
00:20oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh
00:29Cada prato era um litígio, cada noite uma cilada
00:34A casa ou um mausoléu de infância violentada
00:39A mãe entre hematomas e rosários de fadiga
00:43Costurava o próprio pranto na penumbra inimiga
00:48E a menina muito cedo aprendeu sem alegoria
00:53Que a criatura sorrindo com punhas de cortesia
00:57E eram homens viscosos de gravata e devoção
01:03Com moedas nos bolsos e enxofre no coração
01:07Tomaram-lhe a adolescência num quarto isolado
01:12Onde até Cristo na parede parecia estar vendado
01:17Senhora da madrugada
01:21Hoje ela risca a fumaça na esquina do cemitério
01:25E transforma a desespero num perfume grave e etéreo
01:30Seu vestido tem a noite das mulheres sem perdão
01:35Mas alírios invisíveis florescendo em sua mão
01:48Fugiu por vielas turvas sob garoas de ferragem
01:53Dormindo entre cães magros e jornais de estiagem
01:58Na sarjeta repartia pão mofado e cobertores
02:03Mesmo tendo nos próprios ossos um deserto de dores
02:07Havia mendigos cegos que chamavam seu nome
02:12E crianças sem sapato raquíticas da mesma fome
02:17Ela dava o que não tinha cigarro, abraço, migalha
02:22Como santa clandestina sob a fuligem da batalha
02:27Às vezes ria sozinha nos viadutos da cidade
02:31Com batom barato e frio disfarçando a tempestade
02:36Mas depois diante da lua e das vitrines apagadas
02:41Chorava como quem guarda catedrais abandonadas
02:46Senhora da madrugada
02:50Hoje ela arrisca a fumaça na esquina do cemitério
02:54E transforma desespero num perfume grave etéreo
02:59Seu vestido tem a noite das mulheres sem perdão
03:04Mas alírios invisíveis florescendo em sua mão
03:17Numa madrugada arrispida de junho sem clemência
03:21Quatro homens acercaram com navalhas indigência
03:25O asfalto bebeu seu sangue com garrafas partidas
03:31E Aurora nasceu doente sobre as avenidas
03:36Agora vem nos terreiros entre rosas e aguardente
03:41Com gargalhada de brasa e olhar antigo penitente
03:46Ampara moças feridas por amante e violência
03:51E ensina as almas partidas o difícil da existência
03:55Quando baixa até o luar modifica a travessia
04:00Pois existe nela um resto de miséria e poesia
04:05E quem sente sua presença junto às velas da gira
04:10Ouve as ruas soluçando na chegada
04:15Da bomba gira
04:17Senhora da madrugada
04:21Hoje ela arrisca a fumaça na esquina do cemitério
04:25E transforma a desespero no perfume grave e etéreo
04:30Seu vestido tem a noite das mulheres sem perdão
04:35Mas há lírios invisíveis florescendo em sua mão
04:41Sobretudo tem a noite e ela é um estupendo
04:43Seu vestido tem a noite e see Robin
04:46No sorprende tem a noite lá
04:59Seu vestido tem a noite e vai ficar com Cleveland
05:01Obrigado.
Comentários

Recomendado