00:13Na Caatinga o sol tinha garras de desventura
00:18E a fome ruía crianças na extensão da secura
00:23Ele nasceu entre ossadas, mandacaros e poeira
00:27Vendo a morte por a mesa na miséria brasileira
00:32A mãe fervia água turva com pedras e desespero
00:37O pai bebia cachaça para esquecer o paradeiro
00:42Cabras magras, olhos fundos, rezas feitas sem igreja
00:47E urubus desenhando círculos sobre a pele sertaneja
00:51Quando o menino furtava a rapadura nos mercados
00:56Apanhando dos soldados e dos homens engomados
01:01Mas dividia o que tinha com velhas e retirantes
01:06Como quem já compreendesse o idioma dos errantes
01:11Então surgiu o conselheiro, barba sujeira e profecia
01:15Arrastando multidões pela racha da Bahia
01:20E ele foi pacanudo sob um céu de epidemia
01:25Vendo pobres construírem uma espécie de utopia
01:30Hoje ele risca o chão nas encruzilhadas da aflição
01:35Com gargalhadas de charuto e punhas de proteção
01:40Sua cartola ainda guarda retirantes sem destino
01:45Feito um santo, maldito do sedão nordestino
02:10Enganudos ouviu sermões antigos contra a república fria
02:14Contra impostos e fuzis da recente tirania
02:19Mas depois vieram tropas como cães de mortandade
02:24Incendiando casas tortas e ofendendo a humanidade
02:28Canhões abriram crateras entre rezas e gemidos
02:33O sangue virou um barro de cadáveres vencidos
02:38Ele fugiu entre espinhos, visceras, pólvora e poeira
02:43Com a imagem de Antônio, conselheiro ardendo inteira
02:48Na cidade fez-se bruto com faca, jogo e contrabando
02:52Dormindo atrás dos cortiços e dos portos fumegando
02:57Muitas vezes lutou com homens por um gole e por um prato
03:02Pois a fome torna o peito semelhante ao desacato
03:07Havia nele um incêndio de vergonha e violência
03:12Uma sede sem repouso devastando a consciência
03:16Embora risse nas tavernas entre a revolta e o aguardente
03:21Carregava canudos carbonizado eternamente
03:26Hoje ele risca o chão nas encruzilhadas da aflição
03:32Com gargalhadas de charuto e punhas de proteção
03:37Sua cartola ainda guarda retirante sem destino
03:42Feito um santo maldito do sertão nordestino
03:59Morreu num beco imundo por ódio e de vida escura
04:03Com facadas lhe abrindo flores negras na nervura
04:08Ninguém velou seu cadáver sob a chuva dos lampiões
04:13Só os ratos e o apito funerário dos vagões
04:18Agora baixa nos terreiros com charutos e fumaça
04:22Com capa escura, olha duro e uma estranha velha graça
04:27Ampara homens derrotados pelos descaminhos e pelo crime
04:32Pois conhece cada umbral onde a miséria redime
04:37Quando aparece no terreiro até o couro do tambor delira
04:42Como se canudos inteira ressurgisse na gira
04:46E quem escuta seu ponto na madrugada mais fria
04:51Ouve o sertão soluçando dentro da alta magia
04:56Hoje ele risca o chão nas encruzilhadas da aflição
05:02Com gargalhadas de charuto e punhas de proteção
05:07Sua cartola ainda guarda retirante sem destino
05:12Feito um santo maldito do sertão nordestino
05:28Sempre com muita sabedoria e calma
05:32Sarabá, senhor, tranca ruas das almas
05:37Oh oh oh oh oh oh oh oh oh oh oh oh oh oh oh oh oh oh oh oh
05:38oh oh oh oh oh oh oh oh oh oh oh oh oh oh oh oh oh oh oh oh
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05:41oh
05:41Obrigado.
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