00:20Meu avô distinguia sementes Pela gluma, pela arista
00:26Nunca abriu tratados, régios, desmascarava o rentista
00:31Via tulhas descomunais, via era, via o celeiro
00:37Mas nossa mesa permanecia mais deserta que o terreiro
00:52O tabelião, seis marias, rua agrimensor, demarcação
00:58Toda gleba tinha registro, nunca nossa privação
01:03Quando um forno conserva brasas, enquanto a infância vivencia a prisão
01:09Não culpem a providência, roube chancela e arrecadação
01:14Quando um estuário despacha trigo, enquanto o labrador jejua
01:19Não culpem o firmamento, foi a usura que perpetua
01:36Conheci um velho labrador, intérprete da ramagem
01:41Li o pulso de cada leiva, como ortopedista, lê cartilagem
01:46Reconheci a cada espiga, pelo brilho, pelo teu momento
01:51Conhecia todas as chuvas, jamais provou o contentamento
01:56Sabia o instante da colheita, sem astrolábio ou calendário
02:02Morreu deixando por herança, somente seus trapos no inventário
02:17Quando um forno conserva brasas, enquanto a infância vivencia a prisão
02:23Não culpem a providência, roube chancela e arrecadação
02:28Quando um estuário despacha trigo, enquanto o labrador jejua
02:33Não culpem o firmamento, foi a usura que perpetua
03:00Os jornais diziam, escassez prevista
03:05Os entrepostos diziam, inflação
03:10Os gabinetes diziam, contingência
03:16O pobre suplicava, por uma refeição
03:21Nenhum acórdão trouxe ceia, nenhum despacho provisão
03:27Toda sentença foi perfeita, também perfeita a exploração
03:47A velhice reclama o tempo, o caruncho reclama o grão
03:53A cobiça registra a escritura contra quem vive da plantação
03:58Há espantalhos na seara, jamais vigiam o explorador
04:03O saque veste caligrafia e rouba o pobre agricultor
04:10Quando um forno conserva brasas, enquanto a infância vivencia a prisão
04:15Não culpem a providência, roube chancela e arrecadação
04:20Quando um estuário despacha trigo, enquanto o labrador jejua
04:25Não culpem o firmamento, foi a usura que perpetua
04:30Tua
04:35Música
04:49Música
05:07Música