00:00Eu tenho uns amigos que são ali da Oswaldo.
00:04Eu tinha que ir ali de noite, eu atravessava, anoiteceu, qualquer hora eu atravessava e ia lá meus amigos, entendeu?
00:09Agora eu não consigo mais.
00:10Eu só não levava o celular, porque o meu medo sempre era só algum dependente químico ou algum ladrão querer
00:18me agredir, entendeu?
00:19Para me roubar.
00:20Essa é a única preocupação que eu tinha.
00:21Eu nunca imaginei na minha vida que ia ter um ataque homofóbico, entendeu?
00:26Eu nunca pensei na minha vida.
00:43A gente que fica aqui na frente diariamente, a minha escola é na frente, né?
00:46Então, eu fico diariamente aqui na frente.
00:48Ela acaba se tornando o pátio da minha escola, de tudo.
00:53Só que aí eu fui e não tinha ninguém.
00:55E aí, eu disse, eu sou fumante, eu disse, eu vou fumar esse cigarro, se não aparecer ninguém, eu vou
01:00me embora.
01:01Nesse meio tempo, eu estava sentado naquela grade que tem de costa para o pedalinho.
01:07De frente aqui que seria para João Pessoa, né?
01:09Para a rua João Pessoa.
01:10E aí, quando eu sentado ali, eu vi alguém me chamar.
01:14Subiu e me chamou.
01:15E aí eu fui ver o que que era.
01:16O que que poderia ser?
01:17O que que será isso?
01:18Aí eu fui lá e perguntei o que que seria, meu.
01:20Ele foi bem claro comigo, eu não quero saber de viado mais passando aqui.
01:26Aí eu falei, então, tu faz o seguinte.
01:28Tu muda de emprego.
01:29Porque aqui, o que mais tem é isso.
01:31Inclusive, vai ter a parada gay.
01:33Que ia ter a parada gay.
01:34Até que um tempo, vai ter milhares de viado aqui.
01:36Então, tu vai ter que sair mesmo daqui, se tu não gosta de gay.
01:38E aí, ele veio me acreditar.
01:40Só que ele veio com a Tazers e estreia de fimento.
01:44Na mesma hora, eu saquei uma pedra que tinha no chão e um pedaço de madeirinha, assim, uns 50 centímetros.
01:49E aí, eu consegui ir me defendendo dele.
01:52E aí, da época, apareciam mais dois seguranças.
01:54Esses dois seguranças perguntaram, o que que tá acontecendo, meu?
01:57Eu disse, ó, eu moro aqui na frente, esse cara tá querendo me atacar, diz que eu não quero saber
02:00de gay aqui.
02:02Eles disseram, não, não, meu.
02:04Vai na boa.
02:05Vai na boa.
02:06Larga essa pedra aí, vai a gente embora.
02:08Vai na boa, larga essa pedra aí, esse pau.
02:09Quando eu fui, me abaixei pra largar a pedra e o pau.
02:12Quando eu levantei, eu já ganhei a primeira pau ao lado, que aí eu me tontei.
02:15E aí, é aquilo que aconteceu, o estado do ator.
02:18Eu levei oito pontos aqui, eu perdi seis dentes na frente.
02:22E eu, eu, eu, ah, tem mais isso.
02:25Eu fraturei o ombro, eu fiquei de tipoia.
02:28Fiquei um mês sem trabalhar.
02:29Porque eu botei a cara a tapa, que é muito difícil pra gente botar a cara a tapa.
02:33Assim como tem pessoas que me defendem horror, tem pessoas que me criticam horror.
02:38É só olhar os comentários no Instagram.
02:40Eu tenho muita gente criticando, né, entendeu?
02:42Assim como tem muita gente me defendendo.
02:45Então, tu aguentar as críticas é muito difícil.
02:48Colocar assim, sabe, era muito mais simples eu fingir que era um acidente de carro, por exemplo.
02:53Né?
02:54Não falar pra ninguém, não.
02:56Eu coloquei a cara a tapa, isso acabar.
02:58Isso tem que acabar, eles tem que ser presos.
03:00São criminosos, eles fizeram isso que eles fizeram comigo.
03:03Porque o dano fosse só físico, já era muito problema.
03:06Mas o psicológico tá assim, ó, né, eu tô com crise do pânico, eu tô tendo insônia, sabe, coisas que
03:12eu nunca tive antes.
03:13E a vergonha, porque no início a gente tem vergonha.
03:16Tem ideia de a gente entender que eu fui entender que eu era vítima, de fato, de qualquer jeito eu
03:20era vítima,
03:21quando eu fui na delegacia da intolerância.
03:24Que é o delegado lá que conversou comigo, e a escrivão conversou comigo e explicaram pra mim.
03:28Tu tem que entender que tu é vítima.
03:30Entendeu?
03:31Nada que eu fizeram contigo.
03:33Aí aquilo me aliviou.
03:36Tchau, tchau.