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00:00Oi, Né, aqui oi.
00:02Um, dois, três, testando o áudio aí, ok?
00:05Está vendo melhor?
00:06Ok.
00:08Carlos Alberto da Silva, repórter fotográfico de A Gazeta.
00:13Carlos, o seu trabalho naquele tempo?
00:16Você falou que foi o seu trabalho, como que começou o seu trabalho?
00:19O que aconteceu ao longo do seu trabalho?
00:26Bem, 2020, como todo mundo sabe, foi o início da pandemia, né?
00:30Começa em março, no Brasil, e eu já fiz outros trabalhos em hospitais,
00:38outros trabalhos na área de saúde.
00:43Eu estava bastante preocupado com a situação, como todo mundo,
00:47principalmente que era uma doença nova e que, pior, né?
00:52Ela levava, poderia levar à morte.
00:55O que me levou a fazer esse trabalho foi justamente não só
00:59pela minha posição de jornalista, de repórter fotográfico,
01:02mas pela posição que o governo vinha tomando, né?
01:05Eu já sabia que a doença tinha começado na China,
01:08que estava na Europa,
01:11foi o local de maior, de centro, né?
01:15Apesar de onde houve mais mortes foi nos Estados Unidos.
01:18E eu sabia que era uma situação grave,
01:21e o governo brasileiro falando que, né?
01:24A gente tinha um presidente que falava que podia ser uma gripe,
01:26ia ser uma gripezinha,
01:28que ele não era coveiro, e assim, etc, etc.
01:31Então, isso aguçou a minha vontade de fazer essa cobertura sobre a Covid,
01:38porque era preciso documentar isso,
01:41mostrar que isso era verdade.
01:43As pessoas estavam ficando doentes,
01:45muitas pessoas estavam morrendo.
01:47Quando eu fiz o trabalho, acho que foi junho ou julho de 2020,
01:50eu não lembro,
01:52nós tivemos, no final da pandemia,
01:53mais de 700 mil pessoas morreram.
01:56Foram 600, se não me engano,
01:58620 médicos no Brasil,
02:00200 e poucos enfermeiros,
02:04470 técnicos de enfermagem,
02:07e, no geral, mais de 700 mil pessoas.
02:11Então, como jornalista,
02:13como repórter fotográfico,
02:14eu me senti na obrigação de documentar isso
02:17para mostrar para as pessoas o que estava acontecendo,
02:22que a gente não tinha acesso ao hospital.
02:24Para você ter ideia,
02:25a gente não tinha condições de ter máscara para todo mundo.
02:30Máscara cirúrgica era difícil de achar.
02:32Depois começaram as máscaras N95 de maior proteção.
02:36Mas, mesmo assim,
02:38eu senti a necessidade de entrar nesse mundo,
02:40entrar, procurar ter acesso à UTI
02:42para fazer esse trabalho.
02:45Lógico, para você entrar no hospital,
02:47você precisa de autorização
02:48para cobrir, fazer uma cobertura dentro do hospital
02:51de uma doença que não tinha nem vacina,
02:56ainda estava havendo entendimento de como ela funcionava,
03:00não havia medicamento.
03:02É mais preocupante ainda.
03:04que se você não é da área médica,
03:06não é da área de saúde, melhor dizendo,
03:10isso é mais complicado.
03:11Mas eu, como já fiz alguns trabalhos na área de saúde,
03:14tenho amigos médicos,
03:16brusquei essas pessoas que são médicos,
03:18que são influentes,
03:20para tentar...
03:25para tentar...
03:27Vou voltar.
03:30Então, para eu começar esse trabalho,
03:32a primeira...
03:37Normal isso, normal, normal.
03:41Então, quando eu decidi que iria fazer esse trabalho,
03:45fazer um documento fotográfico,
03:48em vídeo sobre isso,
03:50a primeira coisa para você entrar no hospital
03:52já é algo complicado.
03:54Ou se você não é da área de saúde
03:56e não trabalha naquela empresa,
03:58no hospital,
03:59você não tem acesso.
04:00Então, era mais difícil ainda.
04:03Mas, como eu já fiz outros trabalhos na área de saúde,
04:05eu tenho alguns contatos,
04:06tenho amigos que são médicos,
04:07já viram o meu trabalho,
04:10sabem como eu trabalho,
04:11eu busquei essas pessoas
04:12para conseguir autorização.
04:26Aí, eu busquei...
04:35Ninguém vai ver isso,
04:36ninguém está acostumado.
04:41Então, eu busquei a ajuda de alguns...
04:44de alguns amigos da área de saúde
04:47para conseguir um local que eu pudesse fotografar,
04:51fazer a cobertura disso,
04:52desse momento que o mundo vivia,
04:55que era a pandemia de Covid-19.
04:58E o local que eu consegui
05:00foi o Hospital Evangelico.
05:04Aí, eu passei.
05:06Primeiro contato, segundo contato,
05:08cheguei lá, falei com o chefe,
05:10tive uma reunião com o chefe da UTI lá.
05:13O hospital era...
05:15acho que sete unidades de UTI.
05:17O hospital, no normal, no dia a dia,
05:19fora da pandemia, acho que eram duas só,
05:21somente duas.
05:22Depois abriu mais.
05:24Eu trabalhava...
05:26Eu foquei meu trabalho mais em duas,
05:28até para ter perna para fazer isso,
05:30porque é muita coisa.
05:32E, apesar de me sentir seguro,
05:36usava todo o equipamento de segurança,
05:38mas, quanto mais eu circulasse,
05:41talvez aumentasse o meu risco também.
05:43Eu podia ser contaminado,
05:45como médicos foram,
05:46como enfermeiro ou auxiliar técnicos foram.
05:51O trabalho durou,
05:53eu acho que cinco, seis dias.
05:56Eu já começo a esquecer um pouco isso.
06:01Mas eu chegava, mais ou menos,
06:03às sete horas da manhã,
06:04entre sete e sete e meia,
06:06e eu ia até uma hora da tarde,
06:09que era o horário do almoço,
06:10ali eu costumava me retirar,
06:12para, algumas vezes,
06:15a gente estava de home office.
06:17Então, de manhã,
06:19meu horário no jornal aqui na empresa
06:22era tarde,
06:23eu procurava ficar sempre no horário da manhã lá,
06:25para a tarde,
06:27ficar à disposição do jornal,
06:30caso precisasse de mim.
06:32A demanda caiu muito,
06:33então, nem todos os dias,
06:35a gente praticamente ficava dois, três dias
06:37sem fazer nenhuma pauta.
06:40Então, isso foi o básico,
06:43conseguir autorização,
06:45entrar,
06:46e você fazer um trabalho dentro do hospital,
06:48imagina,
06:48quando você chega em qualquer local
06:50que você não é conhecido,
06:51você é um corpo estranho.
06:52Quando você entra dentro do hospital,
06:54essa situação é muito maior.
06:56Quando você entra na UTI,
06:58é um negócio absurdo,
07:01porque você imagina você chegar dentro da UTI
07:03com tripé, com câmera,
07:05com microfone,
07:06você não conhece ninguém.
07:08Então,
07:08eu sempre trabalho da seguinte forma,
07:10eu trabalho um dia,
07:12dois dias,
07:12e dou um descanso,
07:14para as pessoas até falarem,
07:16você viu aquele fotógrafo,
07:17quem era,
07:18quem é,
07:19o que ele está fazendo aqui.
07:20Aí, quando eu volto,
07:21já é uma outra forma de recepção.
07:25É muito difícil você trabalhar,
07:27fazer um trabalho,
07:28eu já fiz outros trabalhos,
07:29como disse,
07:30na área de saúde,
07:30mas eu nunca vi,
07:33nunca fiz um trabalho em que todo dia eu chegava,
07:36alguém tinha morrido aonde eu passei,
07:38uma,
07:39duas pessoas.
07:42Quando morria uma só na UTI,
07:44aonde eu passava,
07:46na outra UTI podia ter morrido,
07:48às vezes eu morria dois,
07:50três.
07:52era uma rotatividade de quarto muito grande,
07:56por exemplo,
07:56eu chegava,
07:58vou te dar um exemplo,
07:59uma UTI,
08:00essa que eu frequentava,
08:01tinha,
08:01eu acho que eram dez quartos,
08:04todo mundo em isolamento.
08:06Então,
08:07eu saía ali da tarde,
08:08por exemplo,
08:09as dez,
08:09os dez quartos estavam ocupados.
08:12Aí,
08:12quando eu chegava no outro dia,
08:13às vezes um estava escuro,
08:16apagado,
08:17a luz apagada.
08:19a pessoa dava um branco na minha cabeça,
08:22mas depois que eu caía na real,
08:24eu via que aquela pessoa morreu,
08:25que estava ali na noite,
08:26no dia anterior que eu fiz imagem.
08:28Porque quem está com Covid,
08:29está na UTI,
08:30não vai embora de um dia para o outro.
08:33Ela chega,
08:34a Covid,
08:35na maioria das vezes,
08:37você pega a Covid,
08:39aí você vai para o hospital,
08:41se você piorar,
08:43você vai para a UTI,
08:44na UTI você está lúcido,
08:46e depois você pode ser entubado.
08:47Quando você é entubado,
08:49a situação é muito grave.
08:50E aí você fica os dias,
08:52e a gente torce para a pessoa voltar,
08:54tirar a entubação.
08:56Enfim.
08:58E aí você fala sobre a sua experiência
08:59com a entubatura,
09:00principalmente,
09:01e a entubatura na parte da saúde,
09:03com a entubatagem e tudo mais.
09:05Veja esse caminho de possibilização,
09:07com a entubatização,
09:09Pelo menos,
09:09com a entubatura,
09:10com a entubatividade,
09:12com a entubatividade,
09:14que você poderia colocar no ar.
09:15O que você via,
09:17aí,
09:18o que você me distrava?
09:19Qual era o ponto mais marcante
09:21que você via,
09:22o que você via fazer a parte,
09:23para você trazer ao futuro?
09:24Essa questão de mostrar
09:26e não poder mostrar
09:28é muito delicada.
09:31Eu tinha autorização
09:32para estar dentro do hospital,
09:33fazendo o trabalho,
09:35mas eu tinha pessoas
09:38na minha frente
09:38que eu não tinha contato.
09:41E a Covid é uma doença
09:43tão cruel
09:45que ela afasta
09:47o doente
09:48do familiar.
09:50No dia da visita,
09:51é uma pessoa só
09:53que fica,
09:53só a senhora,
09:54se é casado,
09:55o paciente é casado
09:57ou casada,
09:57então ela só recebe
09:58a visita da esposa,
10:00da pessoa que pode ir.
10:02E nem todo dia
10:03ela vai,
10:04entra na UTI.
10:05Então,
10:06o meu trabalho
10:07era todo
10:08sem identificar as pessoas.
10:11eu só mostrava
10:14a imagem
10:14do corpo profissional,
10:16dos funcionários.
10:17Até isso
10:18é difícil
10:20porque eles usavam
10:21uma máscara,
10:23depois a máscara
10:24de N95,
10:26aquela máscara branca
10:27de tecido,
10:28entre aspas,
10:29e ainda
10:30uma máscara
10:31de acrílico
10:32na frente,
10:33mais uma touca,
10:34mais aquela roupa fechada.
10:36Para você ter ideia,
10:39de todo esse tempo
10:40que eu fiquei no hospital,
10:42eu só conheci
10:43as pessoas,
10:44a face das pessoas,
10:46dos profissionais,
10:47algum tempo depois,
10:49quando elas
10:50me adicionaram
10:50ao Instagram,
10:52e aí,
10:53ah,
10:54você trabalhou
10:54lá no hospital,
10:55você é o fotógrafo
10:56que fez as imagens,
10:58porque eu não vi
10:59o rosto.
10:59Com relação
11:00aos pacientes,
11:01eu sempre buscava
11:03um jeito
11:03de fotografar,
11:04a pessoa está sendo cuidada,
11:06entrou o médico,
11:07a mão,
11:08passou na hora,
11:10a máscara também
11:11ajuda a não mostrar
11:13quem são as pessoas.
11:15Então,
11:15esse cuidado
11:15é principal.
11:16A gente que trabalha
11:17com jornalismo,
11:19faz jornalismo sério,
11:20a primeira coisa
11:22é respeitar
11:22o ser humano.
11:23Quando ele está doente,
11:25mais ainda.
11:26Eu costumo dizer
11:27que,
11:28quando você está doente
11:29no leito de hospital,
11:30é todo mundo igual.
11:32Ali,
11:33a dor,
11:34talvez para um
11:35é até mais forte,
11:36e a gente
11:37que está documentando,
11:38você chega
11:38no espaço,
11:39você tem que ter
11:40esse cuidado.
11:40Eu tive o máximo
11:41cuidado,
11:43até tive autorização.
11:45Por exemplo,
11:46eu lembro que teve
11:47um médico,
11:47olha que curioso,
11:48um médico,
11:49a mãe dele
11:50estava lá.
11:51A mãe dele
11:51estava lá.
11:52Ele falou,
11:53Carlos Alberto,
11:55fica à vontade
11:55para fazer
11:56a imagem
11:56da minha mãe
11:58quando entrarem,
11:59se tirar a máscara
12:01dela.
12:01Eu falei assim,
12:02obrigado,
12:03mas eu não quero fazer,
12:05eu quero evitar isso.
12:06Porque depois
12:07que você documenta,
12:09isso fica.
12:11Fica na internet.
12:12No caso,
12:14quando eu fiz
12:14essa cobertura
12:15da Covid,
12:16ainda existia
12:17o jornal impresso.
12:19Então,
12:20eu não lembro,
12:22não saiu no jornal,
12:23acho que impresso,
12:24ainda não circular,
12:25mas a gente já tinha no PDF,
12:27mas está aí na internet.
12:29Enfim,
12:30esse cuidado
12:32foi básico
12:33de preservar
12:35as pessoas.
12:36Fala-se do cuidado
12:38que você tem
12:39no caso
12:40de preservar as pessoas
12:41no caso
12:42de restrição
12:42dos médicos
12:43quanto a luta
12:44de sintagos
12:45da internet.
12:46Naquela época
12:47você estava
12:47alimentado em 59,
12:48quase 60 anos.
12:49Quase 60 anos.
12:50Nesse meio tempo
12:51também,
12:52você chegou a sentir
12:52isso mesmo.
12:54como que era
12:55isso mesmo para você?
12:56Porque você já estava
12:56em um grupo ali
12:57que já era considerado
12:57de risco.
12:58Apesar de muitas pessoas
12:59novas internadas
13:00naquela época
13:01como as fotos mortas,
13:02as pessoas mortas,
13:03você já era uma pessoa
13:04mais velha.
13:06Estava naquele ambiente
13:07e disse
13:08como que era isso
13:08para você?
13:09E o Itália,
13:10cumprindo o seu trabalho
13:11também,
13:11fazendo algo claro
13:12que você gosta,
13:13mas o risco
13:14que a sua opção
13:15estava apresentando
13:16naquele momento.
13:17esse negócio
13:18da idade
13:19é sempre
13:22curioso para mim
13:23porque eu estava
13:23com 59 anos,
13:25faltava,
13:27era 2020,
13:28eu ia fazer 59 anos.
13:30Para você ter ideia,
13:31não tinha nenhum médico
13:32próximo da minha idade.
13:34A minha grande fonte
13:36lá dentro
13:37foi o doutor Otílio Canuto,
13:39tinha 35 anos.
13:41O chefe da UTI,
13:42perdão,
13:43esqueci o nome dele agora,
13:44é um nome difícil,
13:45complicado,
13:46deve ter 44 anos,
13:4845 anos na época,
13:50os médicos,
13:52os enfermeiros,
13:5232,
13:5327,
13:5428 anos.
13:55Se eu disser
13:56para você
13:56que eu tinha medo,
13:58eu vou estar
13:59dizendo uma mentira,
14:00eu não tinha medo,
14:01mas eu existia
14:02uma preocupação,
14:04eu tinha que ir
14:04para casa,
14:06eu tinha que ir
14:07para casa,
14:07os médicos
14:08também tinham
14:09que ir para casa,
14:09mas a minha preocupação
14:10era igual a dos médicos.
14:12Eu saia dali,
14:13a roupa que eu usava
14:14ficava ali,
14:15a máscara não,
14:16a máscara eu tinha
14:17que levar para casa,
14:18essa máscara a gente
14:19usava ela
14:20há 20 dias,
14:22você só podia
14:23trocar ela
14:24se acontecesse
14:26alguma coisa,
14:26mas era uma máscara
14:27que você usava
14:28muitos dias,
14:29não era máscara
14:30cirúrgica comum,
14:31essa máscara cirúrgica comum
14:32não era permitida
14:33lá dentro,
14:34é muito frágil.
14:37eu tinha uma preocupação,
14:39a preocupação era,
14:40você vai entrar na UTI,
14:42você lava as mãos,
14:44você está ali,
14:44depois passa álcool,
14:46você está lá dentro,
14:47mesmo lá dentro,
14:49toda hora você está
14:50lavando a mão,
14:51tem uma pia,
14:52tem o álcool,
14:53tem a máscara,
14:54eu não entrava
14:56dentro dos boxes
14:57onde estavam os pacientes,
14:58eu estava sempre
14:59através do vidro,
15:00mas isso não significa
15:01que eu não estou
15:02num local de contaminação,
15:04porque os médicos,
15:06os enfermeiros
15:06e técnicos de enfermagem
15:07entravam
15:08e aí eles saem,
15:10toda vez que eles
15:11entravam num box,
15:12eles saiam e jogam
15:14a luva fora,
15:15o avental,
15:15e ficam só com aquela
15:16roupa verde,
15:17tradicional do centro cirúrgico,
15:19da UTI.
15:20Então,
15:20eu ficava só com a roupa verde,
15:22quando eu ia para casa,
15:24você vai,
15:24troca de roupa,
15:25aquela roupa tira
15:27com cuidado,
15:27jogava fora,
15:28eu ia para casa,
15:30tirar o calçado,
15:31o calçado,
15:32a gente usa também
15:33uma botinha,
15:34eu tinha uma preocupação,
15:36medo não.
15:37Quando a gente,
15:38quando a gente é repórter fotográfico,
15:40a gente é jornalista,
15:41a gente tem um pouquinho
15:43de coragem,
15:45a gente deixa um pouco
15:46de lado essa coisa.
15:48Lógico,
15:49eu,
15:50sem nenhuma modéstia,
15:51eu tenho experiência
15:52dentro do hospital,
15:53eu já fiz muitos trabalhos,
15:55eu já fiz,
15:56por exemplo,
15:56eu já fiquei oito meses
15:57dentro do hospital São Lucas,
15:59fiz um trabalho no São Lucas
16:00em 1995,
16:02há 30 anos,
16:03porque eu fiquei oito meses,
16:05eu trabalhava como freelancer,
16:07então eu permitia ficar esse tempo.
16:08E às vezes eu fazia plantões
16:10de 24 horas,
16:12ficava cinco horas,
16:14seis horas,
16:14então eu conheço
16:15como funciona
16:16de entrar,
16:17sair,
16:18a hora que é para entrar,
16:19a hora que não é para entrar,
16:20a hora que é para falar,
16:21a hora que não é para falar,
16:22eu conheço o ambiente,
16:23desde o consultório
16:25até o centro cirúrgico,
16:26todas as cirurgias,
16:27já passei,
16:28já fotografei cirurgias,
16:30todo tipo,
16:31traumas,
16:32acidente de carro,
16:33enfim,
16:34cuidado,
16:35então,
16:35eu não tinha medo,
16:36eu tinha uma preocupação,
16:38porque se eu fosse pensar,
16:39se eu ter medo,
16:41aí você não faz o trabalho,
16:43aí meu objetivo era maior,
16:44era documentar aquele fato,
16:46que estava acontecendo.
16:48Quantas pessoas no Brasil
16:49entraram na UTI
16:50para fazer esse trabalho?
16:52Eu pesquisei,
16:53acho que eu e mais dois fotógrafos,
16:57teve gente que entrou de TV,
16:59entrou uma manhã,
17:01eu fui cinco ou seis dias,
17:03o primeiro dia foi difícil,
17:06porque o primeiro dia é estranho,
17:07você chegar,
17:08você não conhece as pessoas,
17:09no primeiro dia que eu entrei,
17:12e a Covid no início,
17:14se falava muito,
17:15a pessoa de idade é mais frágil,
17:17no primeiro dia que eu entrei,
17:19o corpo que saiu foi de uma jovem
17:21de 25 anos,
17:23muito triste,
17:24estava dois meses internada,
17:26passou o aniversário dela
17:28lá dentro da UTI,
17:29ela foi curada da Covid,
17:31mas a Covid é algo tão,
17:33em alguns casos é tão dolorosa,
17:36é tão cruel,
17:37que às vezes o paciente é curado da Covid,
17:40mas ela faz um estrago tão grande
17:42no corpo, no pulmão,
17:44que ela acaba não resistindo.
17:46no primeiro dia,
17:47agora imagina você chegar na UTI,
17:49primeiro dia de trabalho,
17:51aí está aquela,
17:52eu entrei,
17:53e eu estranhei o ambiente,
17:55aí eu falei para o doutor,
17:56o chefe,
17:56que estava me apresentando,
17:58ele me apresentou,
17:59falei,
17:59doutor,
18:01tem alguma coisa errada aqui,
18:02esse pessoal está muito calado,
18:04isso aqui é um ambiente que a pessoa,
18:06né,
18:06é agitado,
18:08o hospital é assim,
18:09de manhã,
18:10acordou,
18:11aí começa o banho,
18:12que ele chama,
18:12limpar os pacientes,
18:14trocar a fralda,
18:14que não é soro,
18:15medicamento,
18:16é o chama de banho ali,
18:17aquela manhã,
18:18nove,
18:18oito horas da manhã,
18:19sei lá,
18:19e eu cheguei depois disso,
18:21assim,
18:22já tinha passado,
18:23e estava o ambiente quieto,
18:25ele falou,
18:25Carlos Roberto,
18:27nós perdemos uma paciente hoje,
18:3025 anos,
18:31que estava aqui há dois meses,
18:33e aí,
18:34não sei se você vai projetar,
18:36é a foto,
18:36a primeira foto que eu faço,
18:37é duas enfermeiras se abraçando,
18:41para quem não entende muito,
18:43não liga esse gesto,
18:45não se podia abraçar naquela época,
18:47ainda mais dentro da UTI,
18:50sem evitar o contato,
18:52ninguém ficava apertando mão,
18:54abraçando,
18:55mas o sofrimento ali era tão grande,
18:57essas pessoas estavam carregando já há dois,
18:59três meses ali,
19:01uma UTI,
19:02perdendo,
19:03porque eles se entregam,
19:05é salvar a vida,
19:06é salvar a vida,
19:07e aí perde uma jovem de 25 anos,
19:09eu chego nesse momento,
19:12e quando eu vejo eles se abraçarem,
19:15eu fotografo,
19:16que eu normalmente nem faria essa foto,
19:17eu nem sei porque eu cliquei,
19:19eu fiz três cliques,
19:21a melhor foto é aquela ali,
19:22depois que eu fui entender,
19:24eu falei,
19:25gente,
19:26porque a enfermeira chorou,
19:27ela começou a chorar,
19:28e ela deu um abraço,
19:29depois que eu fui entender,
19:30que não podia nem abraçar,
19:32então foi nesse momento que eu cheguei,
19:34na UTI,
19:35pegar nesse momento difícil,
19:37e ali eu vi,
19:38de 25,
19:39de 35,
19:40de 60 anos,
19:42morrer,
19:44o fumante,
19:46o atleta,
19:48e gente que se curou,
19:50gente de 70 anos,
19:51que entrou e saiu,
19:52de boa,
19:54fazendo o V da vitória,
19:56sabe,
19:57então a Covid,
19:58ela pega do novinho,
20:00da pessoa jovem,
20:01até a pessoa mais velha,
20:02não tem isso,
20:03não tem isso,
20:04eu por exemplo,
20:05eu peguei,
20:06eu tive a Covid agora,
20:07o ano passado,
20:09quatro anos depois,
20:10já tinha tomado cinco vacinas,
20:13na minha casa,
20:14meu filho teve,
20:14minha esposa pegou duas vezes,
20:16meu filho pegou duas vezes,
20:17a gente conviveu,
20:18e eu não peguei Covid,
20:19eu peguei agora,
20:20no passado,
20:20eu fui ao médico,
20:21doutor,
20:21eu estou com uma gripezinha,
20:22aí faz o teste,
20:23você está com Covid,
20:25eu estava assim,
20:26tranquilo,
20:26sabe,
20:28então é isso.
20:31O cara,
20:31você falou sobre,
20:33dificuldade,
20:34no meio da diretoria,
20:35as suas observações,
20:37as preocupações,
20:38com a qualidade do seu trabalho,
20:39também são exercíveis,
20:40porque vocês estavam lá dentro,
20:41trabalhando,
20:42internados,
20:44a última edição que chegou,
20:45teve 25 anos,
20:47desde que as pessoas recebiam,
20:49ao longo do dia,
20:49o que você recebeu,
20:50o que você recebeu,
20:50o que você recebeu,
20:52já tem anos de comunicação,
20:55outros estudos,
20:56pegados a autonomia,
20:57como eu recebeu,
20:58os estudos também,
20:59mas,
21:00acho que quando a gente tem,
21:01que já trabalhou naquela época,
21:02por isso,
21:02uma cobertura muito marcante,
21:04ainda,
21:04se seguindo essa linha,
21:05de um marcante,
21:06dois,
21:06cinco anos depois,
21:08eu disse,
21:09quatro anos depois,
21:10eu disse,
21:10já passei o paciente,
21:11o que você ainda volta,
21:13naturalmente,
21:14quando,
21:16quando está sendo tocado,
21:17quando você para,
21:18para pensar,
21:19naquilo que você já fez,
21:20eu sei que você vai,
21:20isso,
21:21eu já teve,
21:21esse tipo de conversa,
21:22para,
21:23para reivindicar,
21:24aquela cobertura,
21:25para para pensar,
21:27para pensar,
21:27o que você já fez,
21:30não vai sair da sua lei,
21:31não saiu até hoje,
21:33e é algo que realmente,
21:35vai marcar você,
21:36e dar um jogo,
21:36dentro da sua porta,
21:37de um jogo.
21:38Olha,
21:40essa cobertura,
21:41eu costumo dizer,
21:42apesar de já ter feito outras,
21:44na área de saúde,
21:45já ter feito algumas matérias,
21:46com outros colegas,
21:47na época do impresso,
21:48que são marcantes,
21:49mas,
21:49sem dúvida,
21:50a pandemia é a mais marcante,
21:52primeiro,
21:53porque,
21:53o mundo inteiro,
21:54foi afetado,
21:55ninguém imaginaria,
21:56que você,
21:58olha,
21:58gente,
21:58só para ter uma ideia,
21:59eu estava de férias,
22:00em fevereiro,
22:02e aí,
22:02surgiu a Covid,
22:04quando eu voltei,
22:06a empresa falou,
22:07fica quatro dias em casa,
22:09porque eu estava fora do país,
22:10eu via a Covid,
22:12chegar onde eu estava,
22:13fora do país,
22:14e todo dia,
22:16uma,
22:17tem um outro nome,
22:18mas era uma senhora,
22:19equivalente à,
22:20ministra da saúde,
22:21todo dia,
22:2111 horas da manhã,
22:22eu ligava a televisão,
22:23onde eu estava,
22:24nesse país,
22:24e ela falava da Covid,
22:26o primeiro caso,
22:27o segundo,
22:27quando eu saí desse país,
22:28eu estava em Portugal,
22:30tinham 11 casos,
22:32quando eu cheguei no Brasil,
22:33dia 11 de março,
22:34foi o primeiro caso,
22:35aí eu falei,
22:36gente,
22:36eu estou vindo,
22:37da Europa,
22:38o que eu faço,
22:39aí a empresa falou,
22:40fica quatro dias em casa,
22:42porque se você tiver algum problema,
22:44vai acusar depois de quatro dias,
22:45isso era o que na época,
22:47já começava,
22:47os médicos estavam,
22:49é quatro dias para ter o sintoma,
22:51então eu estava vindo de um lugar,
22:53onde todo dia,
22:54uma senhora,
22:55equivalente ao Ministro da Saúde,
22:56dava satisfação à população,
23:00olha,
23:00se acontecer isso,
23:01nós vamos fazer isso,
23:02nós estamos com o seguinte planejamento,
23:04se acontecer isso,
23:05nós vamos fechar,
23:06se a escola,
23:06depois nós vamos fechar,
23:07eles vão fechar aquilo,
23:09aí,
23:10eu venho para o Brasil,
23:11fico quatro dias em casa,
23:12depois mais uma semana,
23:13e a gente fica em home office,
23:15aí eu começo a fazer esse trabalho,
23:17aí eu vejo todo dia,
23:18pessoas morrendo,
23:20todo dia,
23:21tinha gente que morria,
23:22nova,
23:24jovem,
23:24idoso,
23:24todo dia morria no hospital,
23:26morria fora daquele hospital,
23:28e o doloroso,
23:29era sair dali,
23:32doloroso,
23:33era sair do hospital,
23:34e ver gente,
23:35que não acreditava na gravidade,
23:38você vê,
23:39o líder da nação,
23:40o presidente da república,
23:42falando que isso poderia ser uma gripezinha,
23:45ele não era coveiro,
23:47é triste,
23:48é triste,
23:48a gente está vendo como os médicos,
23:50viram como mais de 600 médicos morreram trabalhando para salvar pessoas,
23:56como mais de 200 enfermeiros no país morreram para salvar pessoas,
24:00como mais de 470 auxiliares técnicos morreram,
24:03e aí você sai na rua,
24:05vê todos aqueles profissionais correndo risco,
24:08tendo que sair dali para casa,
24:09para casa,
24:10porque ele está indo para casa,
24:11por mais higiene que eles façam,
24:14pode estar contaminado,
24:16e aí você sai na rua,
24:19e ligar a televisão,
24:21ou ver na rua as pessoas,
24:23não acreditando no que estava acontecendo,
24:25Então,
24:27para mim,
24:28é muito,
24:28quando eu lembro da pandemia,
24:29eu lembro desse trabalho,
24:32lembro da luta,
24:34do pessoal da saúde,
24:36tanta gente,
24:38João,
24:39eu tenho certeza,
24:41se você parar para pensar,
24:43você no mínimo,
24:45conhece alguém que morreu na Covid,
24:47eu,
24:49diretamente,
24:50ou indiretamente,
24:51eu perdi 5 pessoas no meu convívio,
24:545 pessoas assim,
24:55gente que eu andava de moto,
24:57gente que eu conversava,
24:58gente que eu via uma vez ou outra,
25:00gente que era,
25:02oi,
25:02como vai,
25:02nove,
25:04nove,
25:06foi duro,
25:07foi duro,
25:08mas podia ter morrido muito mais,
25:10muito menos gente,
25:12se fosse outra situação,
25:15se tivesse,
25:15se tivesse outro discurso,
25:17sabe,
25:19é,
25:20quando eu lembro desse trabalho,
25:23eu lembro de muito sofrimento,
25:42quando a gente é pai,
25:46quando a gente é pai,
25:47quando a gente é mãe,
25:50quem não tem,
25:51eu respeito quem não tenha filho,
25:52mas é,
25:54esse sentimento de perda,
25:56de ver um jovem de 25 anos,
25:58como eu vi no primeiro dia do meu trabalho,
26:02eu lembrei de um negócio agora,
26:04meu amigo,
26:05quando eu estava trocando de roupa,
26:07para entrar na UTI,
26:08o texto meu no jornal,
26:09se você pegar,
26:10se for no arquivo,
26:11você vai ver,
26:12meu texto começa assim,
26:15cinco segundos,
26:16a luz acabou,
26:17quando eu estava trocando de roupa,
26:19para entrar na UTI,
26:20tirando essa roupa comum,
26:21do dia a dia,
26:21para botar roupa verde,
26:22a energia do hospital acabou,
26:24a energia elétrica,
26:26e ela,
26:27acho que dois ou três segundos,
26:28voltou,
26:30achei aquilo estranho,
26:31difícil,
26:31quando eu entrei na UTI,
26:33eu vi aquele ambiente calado,
26:35quieto,
26:36foi que,
26:38naquele exato momento ali,
26:39depois que a menina,
26:40o corpo dessa jovem saiu,
26:42a energia do hospital acabou,
26:45a energia do hospital acabou,
26:47e ligou o gerador,
26:49eu começo o meu texto falando isso,
26:53cinco segundos de alguma coisa,
26:5525 anos que se vão,
26:58alguma coisa assim,
26:58eu não me lembro,
26:59tem que pegar o texto,
27:00então,
27:01para a gente que,
27:02para mim,
27:02eu tenho um filho de 28 anos hoje,
27:04eu tenho uma filha de 34 anos,
27:06eu tenho uma neta de 14,
27:08meu enteado de 38,
27:09quando você vê um jovem de 25 anos morrendo,
27:13tem muita coisa pela frente para um jovem,
27:16para ele fazer,
27:18estudar,
27:21viajar,
27:22entendeu?
27:23Quantos jovens,
27:25quantos jovens partiram por causa da Covid,
27:29quantos pais,
27:31quantos médicos,
27:32engenheiros,
27:33músicos,
27:34homens,
27:35mulheres,
27:37muito triste,
27:38muito triste,
27:39quem imaginaria que um dia você ia ficar proibido de sair dentro de casa,
27:43home office,
27:46ninguém falava de home office,
27:49é isso,
27:51é isso.
28:06Como que eu volto?
28:10Quando eu penso nisso,
28:20faz a pergunta de novo,
28:21porque eu pensei que eu tinha respondido isso,
28:22cara.
28:28Ah,
28:29perdão,
28:30sim,
28:30quando,
28:33eu falei para você que eu,
28:38cara,
28:39eu vim com a camisa que eu nem sabia,
28:41que eu nem lembrava mais desse negócio,
28:42com a camisa larga hoje,
28:43que eu disse que é difícil encontrar um brasileiro que não tenha perdido alguém da família,
28:53ou amigo,
28:53ou colega,
28:54de alguma ligação,
28:55eu como,
28:55eu perdi cinco pessoas,
28:58essas cinco pessoas tinham alguma ligação comigo de alguma forma,
29:01umas mais presentes,
29:02outras pontuais,
29:04por exemplo,
29:05eu perdi um colega que andava de moto comigo,
29:07não vou andar mais de moto com ele,
29:10perdi uma advogada,
29:11uma colega,
29:12que eu conheci no jornalismo durante uma pauta,
29:1532 anos,
29:16no dia que eu fiz a pauta,
29:17eu falei para ela que eu gostava de tocar violão,
29:20ela tinha um violão perto,
29:21ela tocou para mim,
29:22eu não tenho mais,
29:22eu não vou conversar mais sobre música com essa advogada,
29:25de 32 anos,
29:27eu não vou conversar mais o carpinteiro,
29:30que fez o móvel lá de casa,
29:34eu nem lembro direito as outras pessoas que eu perdi,
29:38mas são nove pessoas que eu não vou conviver no Instagram,
29:41ou para falar de música,
29:43ou para pedir um conselho,
29:44ou para rir,
29:45ou para se encontrar uma vez por ano,
29:47são nove pessoas que eu não vou conviver mais,
29:50que tinham alguma ligação comigo,
29:52de alguma forma,
29:55e é assustador,
29:58em poucos meses,
30:00uma coisa começar mais ou menos em fevereiro,
30:03em um ano,
30:06você perder nove pessoas que você tem alguma ligação.
30:12Ok.
30:13Umidos.
30:17Umidos.
30:21Umidos mais ou menos em realeza,
30:25umidos que nem estavam perto de ver a expressão,
30:28no treino.
30:30Umidos.
30:31É umavermo.
30:452020, essa menina tinha 25 anos, meu filho, quando eu falo aqui, no primeiro dia de reportagem,
30:55é o corpo de uma jovem que estava saindo da UTI, ela completou 25 anos dentro da UTI, ela estava
31:04internada há dois anos.
31:05É difícil você não pensar num filho, porque eu tenho um filho que nessa época ele devia estar com 23
31:11anos, acho que é isso, 23 anos ele estava.
31:17É difícil você não pensar que podia ser seu filho, essa jovem, sadia, ela não tinha nenhum problema de saúde,
31:26a Covid ela pega, lógico, o cara que é fumante, é mais fácil,
31:29porque ela atinge o pulmão direto, primeira coisa, mas uma jovem, sadia, é difícil ter um filho de 23 anos,
31:43uma netinha de 4 anos,
31:46jovem, 4 anos, era mais difícil, mas teve criança que também pegou Covid, minha filha, que estava com 30 anos,
31:5628, o enteado que estava com 30.
32:05Graças a Deus, na minha família, diretamente, eu não perdi nenhum, nenhum parente, ninguém, eu tenho parentes já bem mais
32:15velhos do que eu.
32:20A minha preocupação redobrava na hora de ir para casa, a questão da desinfetar, higienizar.
32:32Eu tinha preocupação com isso, será que o trabalho valia a pena isso tudo?
32:40Mas na rua eu também estava correndo risco, todo mundo estava correndo risco, quem mais se expõe mais, meus colegas
32:47da TV, que vão todo dia, motorista de ônibus,
32:51as pessoas também estavam correndo, muita gente estava correndo risco.
32:56Só que dentro da UTI, gente, é assim, como se está dentro do vulcão, né?
33:01Dentro do vulcão, ali, a Covid, ela está ali no grau máximo mesmo.
33:09Aquilo que eu falei, eu não sou médico, mas assim, você sente uma coisa, toma um remédio,
33:14que eles davam lá na época, melhorava, tem gente que é internada,
33:17aí depois da internada, vai para a UTI, se piora, dá UTI, aí o outro grau é entubar.
33:24Aí a situação que se agrava mais.
33:28Lógico que eu tinha preocupação.
33:31Como você vê aquela jovem saindo não lembrar dos teus filhos?
33:54Eu tentei um depoimento com a família dessa jovem, mas não consegui.
34:02Eu não consegui, também porque existe uma dificuldade, eu não tive acesso direto, né?
34:09Eu tinha que falar com o pessoal do serviço social, que tinha acesso a essa família,
34:14aí eles entravam em contato, eles não quiseram falar, se preservaram.
34:20A gente respeita.
34:21A gente sabe que quando o jornalista aqui entra em contato direto,
34:25a gente sempre, às vezes, consegue um depoimento, né?
34:29Porque tem um depoimento com foto, ou vídeo, ou só escrito.
34:33Às vezes, você tenta resolver isso de alguma forma, mas eu não consegui.
34:41Foi uma...
34:43Foi algo que eu tentei, mas não consegui.
34:47Ok?
34:48Foi algo que eu tentei, mas não consegui.
35:17Essa menina, essa jovem que faleceu, que foi mais marcante para mim,
35:23tanto que eu começo o meu texto na época citando ela,
35:29eu fico imaginando se eu estivesse no lugar dos pais dela, não sei o que diria,
35:34mas eu imagino, cinco anos se passaram, cinco aniversários,
35:41ela poderia estar com 31 anos hoje, 30, não sei a data exata dela,
35:47vou botar junho, né?
35:48Ela ia completar 30 anos agora.
35:52São cinco aniversários, sem dar um abraço,
35:54cinco natais, cinco anos novo, cinco anos novos, ano novo,
36:00cinco datas, finais de ano, cinco dias das mães, cinco dias dos pais, cinco.
36:10Difícil.
36:12Difícil.
36:14Cinco anos, a gente lembra da pandemia,
36:19a gente não tem como não lembrar de sofrimento, né?
36:23É impossível não lembrar de tantas pessoas que morreram,
36:27que perderam pais, perderam mães,
36:33tem famílias que perderam pai, mãe, irmão.
36:35Você já pensou?
36:37É muito sofrimento, muito sofrimento.
36:43Não é uma época boa para lembrar, não.
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