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  • há 4 semanas

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Transcrição
00:00Então, meu nome é Carlos Eduardo Ribeiro Lemos, eu sou juiz desde 1998, quando eu ingressei na magistratura.
00:07Atualmente sou titular da sétima vara criminal de Vitória, que é de execução de penas e medidas alternativas.
00:14Também respondendo como juiz, auxiliando em outras varas que estão precisando de demandas, mas eu sou titular da sétima.
00:19Respondo por outras duas varas também.
00:22Bem, eu conheci o doutor Alexandre Martins de Castro Filho quando do nosso concurso.
00:26Nós fizemos concurso junto.
00:28Então, como ele vinha do Rio de Janeiro e fazia concurso aqui, eu lembro que quando saiu o resultado da
00:36primeira prova,
00:38estávamos todos lá esperando o resultado e tal, foi ali que eu conheci, naquela comemoração da primeira prova.
00:43E um grupo de amigos que eram de fora, chegaram a gente e eles pediram, olha, nós somos de fora,
00:49dá para vocês ficarem com o telefone, quando marcarem a próxima prova, comunicar a gente.
00:53Então, foi assim que eu comecei a conhecê-lo, foi ainda no início do nosso concurso.
01:02E como que era a relação do senhor com ele, né? Vocês entraram, ingressaram juntos na magistratura?
01:09Ingressamos juntos na magistratura e fomos designados para algumas varas diferentes.
01:15E ele foi para o interior, eu fui para o interior, cada um para um lado,
01:19até que chegamos na capital como juízes substitutos.
01:23E quando fomos, então, designados como juízes substitutos,
01:28auxiliares da antiga quinta vara criminal de Vitória,
01:32que fazia execução penal como vara única de todo o Estado.
01:34Então, nós dois viemos para auxiliar o juiz, que na época era o titular, da quinta vara,
01:40e também, concomitante a isso, somos designados para atuar na vara de central de inquéritos.
01:47Então, nós trabalhávamos juntos, então, a partir daí, isso já por volta do ano 2000,
01:53nessas duas frentes, na vara de execução penal e na central de inquéritos.
01:57Foi aí, no caso, o titular, que vocês auxiliavam, que era o juiz Antônio Leopoldo Teixeira.
02:03Exatamente.
02:03Pode falar um pouco como que foi a reação, como foi a atuação de vocês dois com o doutor Leopoldo?
02:11É, como nós chegamos para ser juízes auxiliares de um juiz antigo, titular,
02:17que já estava prestes a chegar ao tribunal,
02:19a gente sempre teve o respeito, porque a gente, na verdade, ele era o titular,
02:23o serviço, ele era o responsável, nós estávamos ali para auxiliar.
02:26Só que nós começamos a descobrir várias irregularidades, várias irregularidades,
02:30tipo, transferência de presos irregularmente, progressões de regime dadas sem requisito objetivo,
02:37por exemplo, a lei fala, tem que ter um sexto da pena no regime fechado para ir para o semiaberto.
02:42A gente viu progressões sendo dadas com muito menos que isso.
02:45A gente achou, no primeiro momento, que era um erro dele, pelo volume, era uma vara muito grande,
02:50ele pode estar errando.
02:51Então, nós começamos a identificar, pegamos e fomos levar ao titular,
02:54olha, identificamos isso aqui, em vez de comunicar, que a gente vai ter que acertar.
02:58E aí a gente viu que ele virou para a gente e falou assim, não, isso aí é para deixar
03:01assim, não mexa,
03:02se eu fiz é assim, a gente viu que estava errado.
03:05E aí começamos a ter mais atenção e começamos a identificar várias irregularidades,
03:10principalmente transferências de presos muito perigosos,
03:13ligados a tráfico e grupos de extermínio.
03:15e homicídio, né?
03:17Então, a gente viu e começamos, então, a deixar bem claro que a gente não ia aceitar aquilo.
03:23Ele começou a resistir e nós tínhamos duas opções,
03:26como juízes auxiliares e ainda estágio probatório,
03:31era ficar quieto, deixar ele fazer o que ele quisesse,
03:35ou representar o tribunal mostrando as irregularidades que a gente tinha identificado.
03:39Tanto eu quanto o Alexandre não tínhamos personalidade para deixar aquilo passar,
03:44fingindo que a gente não estava vendo.
03:46Então, resolvemos e optamos, então, por representar contra ele, junto ao tribunal,
03:50que culminou no processo administrativo de expulsão do mesmo da magistratura.
03:55E quando foi feita a denúncia até ela ser investigada?
04:00Quanto tempo levou, senhor?
04:02Não, eu não saberia precisar.
04:06Isso começou nos anos 2000, 2001,
04:11e o processo todo de exclusão dele demorou um bom tempo.
04:15Primeiro ele foi afastado para responder ao processo, afastado da vara,
04:19depois ele foi chamado a tirar as férias vencidas que ele tinha,
04:22ele ficou quase seis meses de férias para não estar na vara,
04:28e nisso o processo foi se realizando até que chegou e culminou na exclusão.
04:38Eu vou dar alguns exemplos.
04:44Eu já não me lembro mais os nomes,
04:46e na época foi juntada toda essa documentação para o tribunal,
04:49a gente juntou cópia de tudo, dos processos que a gente viu.
04:52Eu vou dar um exemplo.
04:53A gente descobriu que ele tinha transferido sempre pistoleiros,
04:58pessoas envolvidas com pistolagem,
05:0020 e tantos presos do fechado para o semiaberto,
05:03sem direito a essa progressão.
05:06E alguns, inclusive, ele colocava no semiaberto sem nem mesmo dar progressão,
05:12ele só transferia administrativamente para o semiaberto.
05:15Isso, claro, naquela época a penitenciária agrícola não tinha nenhum sistema de segurança.
05:19O cara entrava e saía a hora que queria.
05:21Então ficava claro que aquilo ali era um risco muito grande para a sociedade.
05:25Como nós vimos que ele queria manter esse erro,
05:28numa mesma decisão, eu e o Alexandre tiramos,
05:31pegamos esses 20 e tantos pistoleiros que estavam no semiaberto
05:34e transferimos de volta para o fechado.
05:36E colocamos na nossa decisão.
05:37Está errado, foi dado errado, estamos tornando sem efeito,
05:41vamos voltar todo mundo para o fechado.
05:42Isso deu uma repercussão muito grande.
05:45principalmente quando um servidor chegou para mim,
05:47isso tudo está no processo administrativo,
05:49o servidor chegou para mim e falou assim,
05:50olha, doutor, ficou muito simbrio até sempre que o juiz titular
05:55rasgou algumas decisões que o senhor deu.
05:56Eu falei, olha, isso aí não.
05:58Fui ao gabinete dele e falei, olha, ouço, retome as decisões que eu já dei,
06:02que eu sou juiz tanto quanto o senhor, apesar de ser um juiz auxiliar,
06:05não pode fazer isso.
06:06Aí ele reconheceu, pediu desculpa e voltou a decisão.
06:10Aí nós vimos que tinham muitos sinais de irregularidades envolvendo esses grupos de extermínio.
06:17E aí então que a gente fez a representação.
06:20E o tribunal adotou a medida imediatamente?
06:23O senhor falou que foi por volta de 2000, 2001.
06:26O tribunal de Justiça adotou a medida?
06:28Sim, sim.
06:29O tribunal abriu o procedimento administrativo e, obviamente,
06:31dentro do trâmite legal e burocrático do procedimento,
06:36o procedimento foi feito até que gerou,
06:38quando a gente fala na exclusão, é a aposentadoria compulsória,
06:41que é a sanção administrativa maior prevista para o Poder Judiciário.
06:48Então a sanção foi a aposentadoria compulsória do magistrado.
06:54Nessa mesma época, vocês também foram convidados para atuar na missão especial.
06:59Eu queria que o senhor contasse como é que foi esse processo
07:02e como que foi a atuação de vocês na missão especial.
07:07E até somar,
07:11se puder dar até um panorama histórico de como era o Espírito Santo e tudo mais.
07:17O Estado do Espírito Santo passava por um momento bastante conturbado,
07:22dominado por várias organizações criminosas, na verdade,
07:25que principalmente de lapidável horário público.
07:26A gente tinha pessoas da contravenção no poder legislativo,
07:31a gente teve situações de governadores respondendo por desvios de dinheiro.
07:36Então, realmente, o Estado estava bastante comprometido
07:40com relação à dilapidação do horário público.
07:43E isso era um grande foco de preocupação.
07:45Tanto é que, quando um governador foi afastado, na época o Zé Nácio,
07:49teve um pedido de intervenção federal no Espírito Santo,
07:52que o presidente da República, a época, chegou a anunciar que faria intervenção federal no Espírito Santo.
07:58Foi o Fernando Henrique Cardoso.
07:59E, por questões políticas, o governador era do mesmo partido dele,
08:03ele voltou atrás e resolveu, então, não fazer mais intervenção federal,
08:07e sim fazer a missão especial de investigação contra o crime organizado aqui,
08:12mandando mais de 200 policiais federais, 10 delegados federais.
08:15Isso, inclusive, gerou até o pedido de demissão do ministro da Justiça da época,
08:19que não concordou com esse posicionamento do presidente,
08:22mas veio a missão federal para cá.
08:24E eu e o Alexandre fomos convidados pela presidência do Tribunal de Justiça da época
08:29a sermos os juízes responsáveis pela central de inquérito,
08:32ou seja, que atenderíamos a todos os pedidos da missão federal.
08:36E, com isso, muita coisa foi feita.
08:38Nós entregamos para a missão federal mais de mil mandados de prisão para serem cumpridos.
08:49Entregamos para a missão federal o mandado de prisão de um preso,
08:54que, na verdade, esse cara tinha sido preso,
08:57porque é bastante conhecido a história dele, que é o Manuel Corrêa da Silva Filho.
09:00Ele era a principal testemunha contra esses grupos de extermínio
09:04e contra o próprio magistrado, porque ele tinha dado depoimentos
09:08falando da participação do juiz, do policial militar, do policial civil no grupo de extermínio.
09:16Ele era a principal testemunha.
09:18Então, na verdade, apesar de ele estar com o mandado de prisão,
09:21a gente sabia que, se ele fosse para o presídio, ele seria executado,
09:24porque ele fazia isso na facção.
09:27Ele, muitas vezes, sabia que o modo desoperante deles era fazer transferência de presos
09:32para queimarem arquivos, ou para matar, ou para ser morto,
09:37ou seja, mandar uma pessoa para um presídio que sabia que tinha alguém lá que poderia matá-lo,
09:40ou para fugir.
09:42Então, ele mesmo falava, ele falava, se eu for preso, eu vou ser morto.
09:46Quando chegou a missão federal, eu e o doutor Alexandre entregamos o mandado de prisão dele na mão,
09:50o delegado-chefe da missão federal, e falamos,
09:52olha, vão lá buscar ele, nós sabemos onde ele está,
09:55que ele estava solto, a gente estava deixando ele solto,
09:57porque a gente sabia que ele ia morrer,
09:59ele só pode ficar preso na polícia federal.
10:01E eles foram lá, onde nós falamos, a gente sabia que ele estava escondido num local,
10:06ele recebeu a polícia federal com duas espingadas calibre 12,
10:10dois colheitos à prova de bala, que ele achou que era a polícia militar,
10:12que estava indo lá para matá-lo, ele era um policial militar,
10:15e quando ele só se entregou, porque ele viu que era a polícia federal.
10:19E ele foi colocado na polícia federal.
10:21Contra a nossa ordem, alguns meses depois, um delegado resolveu,
10:26não, os caras precisam ficar aqui não, fez a transferência contra a nossa ordem.
10:29E aí, a história mostra, algumas pessoas devem lembrar,
10:34ele foi mandado para o presídio de Cachoeiro,
10:36em duas horas ele foi executado dentro do presídio de Cachoeiro.
10:39Então, ele era grande testemunha contra o juiz
10:42e contra todos aqueles que depois foram condenados pela morte do Alexandre.
10:47Foi nessa época que o senhor teve contato, conheceu o coronel Ferreira?
10:52É, na verdade, o coronel Ferreira era uma pessoa muito conhecida no Estado, né?
10:56Muito reconhecido dos bastidores, todo mundo falava das ações dele,
11:01ele era muito temido pela própria polícia, muito respeitado, como se falava, pela própria polícia.
11:07E a gente já ouvia falar e, por mais de uma vez, eu e o Alexandre vimos o coronel Ferreira
11:17vindo ao gabinete do juiz, estar com ele, quando a gente estava como juiz auxiliar.
11:21A gente não ficava na mesma sala, a gente não quis ficar na mesma sala que ele,
11:25mas a gente viu o coronel Ferreira, a gente via o Calu indo ao gabinete dele
11:31e a gente via, essas ligações eram bastante estreitas entre eles.
11:36O senhor falou que, quando começou a atuar na missão especial,
11:41mas naquele momento em diante já começam as ameaças, né?
11:45Eu queria que você contasse para a gente exatamente como vocês lidaram com essas ameaças.
11:49Você começou até a não acreditar?
11:51É, eu vou falar para você.
11:53As ameaças foram muitas, principalmente por telefone.
11:56Eu recebi várias falando de mim, que iam atentar contra a minha vida,
12:00dando detalhes sobre a minha esposa, de quem a minha esposa era filha,
12:04onde que eu morava, que iam matar a minha esposa, eu sou de várias.
12:06Mas eu confesso a você, o que mais me preocupou não foram as ameaças.
12:11Foram, na verdade, cartas e fax que nós recebemos na época,
12:15todos foram juntados ao processo, de pessoas nos informando que seríamos mortos.
12:22A gente recebeu carta de pessoas do tipo assim,
12:27participei de uma reunião onde estava o Cornel Ferreira, fulano, fulano, fulano,
12:33tramando a morte do senhor doutor Alexandre,
12:36inclusive falaram que vão pagar tanto, isso muito antes da morte do Alexandre.
12:40Já falava o nome do Cornel Ferreira, falava o nome dos policiais, inclusive envolvidos.
12:46E isso que passou a preocupar, que aquilo ali pareceu algo assim,
12:49realmente alguém que está próximo, mas que não quer que a gente morra,
12:52que está tentando avisar.
12:52Isso nós recebemos alguns fax, na época era difícil identificar de onde vinham os fax,
12:58porque tinha uma central de fax na direção do fórum,
13:01quando chegava para o nosso fax aqui, não saía identificação do número.
13:04Essa identificação, parece que a pessoa até sabia disso.
13:06Então os fax que a gente recebeu, que davam nomes, valores,
13:10que iam ser pagos para matar a gente.
13:13Então assim, isso começou a preocupar um pouco mais.
13:16Mas no fundo, no fundo, nós não acreditávamos que eles teriam coragem.
13:20A gente acreditava muito mais do que estão tentando nos intimidar,
13:24estão tentando fazer com que a gente freie,
13:27mas porque a gente fez muitas prisões no Estado na época,
13:31mas a gente não acreditava.
13:33E acabou que a gente talvez tenha dado pouca importância,
13:37e isso custou a vida do doutor Alexandre.
13:39E em relação a esse perigo aí, teve a morte do Manuel Correia,
13:46vocês estavam aí na missão especial,
13:48teve o processo de transferência do Coronel Correira para o ar.
13:52E o senhor contasse como que foi esse processo de transferência,
13:56como é que foi a negociação,
13:57e até o dia da transferência que ele saiu daqui para ir para o ar.
14:06Essa cadeira é pesada demais, não é?
14:09É, pela verdade.
14:10Obrigado.
14:12Pode responder?
14:15Bem, o Coronel Ferreira, nós tínhamos decretado a prisão dele também,
14:20já na missão especial,
14:22porque foi pego numa interceptação telefônica,
14:25desculpe, corrigindo.
14:28O Coronel Ferreira, ele estava preso, acusado de alguns homicídios.
14:34E, numa interceptação telefônica feita por nós,
14:39pegamos uma conversa do Coronel Ferreira,
14:42sendo contratado para matar um fazendeiro em Colatina.
14:46Ou seja, ele preso dentro do presídio do QCG
14:49e acertando a morte de um fazendeiro em Colatina
14:51com a esposa desse fazendeiro.
14:54Que, inclusive, depois, anos depois,
14:56alguns anos atrás, ele foi condenado por esse homicídio também.
14:59Então, nós vimos que ele,
15:01que era acusado de ser um dos maiores responsáveis
15:03do grupo de extermínio do Estado,
15:04não tinha controle nem dentro do presídio da Polícia Militar.
15:08Então, nós vimos que tínhamos que tirar ele daqui.
15:10Foi quando eu e Alexandre, que éramos os responsáveis para fazer isso,
15:14na época não tinha CNJ, não tinha prisão federal.
15:18Eu fui ao ministro da Justiça, fui a Brasília,
15:21e pedi para o ministro da Justiça conseguir uma vaga em algum estado,
15:24o ministro da Justiça que conseguiu a vaga no Acre,
15:27o ministro da Justiça que disponibilizou um avião da Polícia Federal
15:30para vir buscá-lo.
15:32Depois que a gente já tinha a vaga, a gente já estava tudo certo,
15:34que nós falamos, agora vamos dar a ordem de transferência.
15:37E a ordem era secreta, porque a gente tinha medo de vazar
15:40e alguma coisa acontecer.
15:43E eu estava num período, entrando de férias,
15:46num período que eu, justamente, como a gente estava em muito tumulto,
15:49eu ia sair do país, com a minha família,
15:52passar uns dias para eu conseguir relaxar um pouco a minha família.
15:55Eu ia entrar de férias, nós fizemos a decisão juntos,
15:58e eu saí de férias.
16:01E nisso o Alexandre, ele acabou que ele que entregou a decisão.
16:06E entregou para a Polícia Federal, justamente porque tinha um certo receio
16:13da própria corporação com o Coronel Ferreira, a gente via e percebia isso.
16:17Então, foram um comboio da Missão Federal para buscar o Ferreira lá no quartel.
16:21Foram quatro viaturas, com, salvo engano, 16 policiais federais.
16:26E chegaram lá com a ordem de transferência nossa para o AAC.
16:29O avião já estava esperando no aeroporto.
16:32E houve uma resistência.
16:34Os coronéis se reuniram e falaram para o delegado,
16:37não, não, vamos entregar, não vão levar o Guadalha Ferreira, não.
16:40Nisso, o delegado liga para o Alexandre e falou,
16:44Doutor Alexandre, a ordem do senhor do teu caso é doado,
16:46eles falaram que não vão cumprir.
16:48É para fazer cumprir, vai da morte.
16:51O Alexandre falou assim, para evitar a morte, o Alexandre falou assim,
16:55não, espera que eu vou aí, então.
16:57Então, o Alexandre foi lá e eu já estava de férias.
17:02O Alexandre foi lá sozinho.
17:05Tem as imagens até na televisão que ele chegou lá para os coronéis e falou assim,
17:08o que está acontecendo porque não estão cumprindo a ordem que eu e o doutor Carlos Eduardo demos.
17:12E o comandante-geral da época chegou para ele e falou assim,
17:15não, doutor, o que é muito constrangedor, isso é contra a polícia militar,
17:19transferiu um coronel para outro estado, polícia federal vem buscar.
17:23O Alexandre, ele era muito objetivo, muito direto,
17:26ele virou e falou, isso ele me contou depois, ele virou e falou,
17:29olha, eu vim para levar o coronel Ferreira,
17:33se vocês não me entregarem o preso, eu vou levar vários coronéis presos.
17:38E deu as costas e saiu.
17:40Dô cinco minutos para entregar o preso para a polícia federal.
17:43Então, os coronéis conversaram lá, viram que o negócio era sério
17:47e entregaram o coronel Ferreira.
17:49Então, teve esse embrólio aí para cumprir a nossa ordem de transferência.
17:54Mas teve também, ele passou mal, falou que estava passando mal, pressão alta.
18:01Foi um dia bem complicado.
18:04Teve esse momento aí, até ele entrar no avião,
18:12o doutor Alexandre chegou a contar para o senhor, por exemplo,
18:15de alguma verbalização, alguma ameaça,
18:18ou alguma coisa do coronel?
18:21Isso...
18:21Tem até um episódio de se algemaram, não algemaram,
18:29e disse que ele ficou muito nervoso lá dentro do cartel.
18:35É, o que o Alexandre me contou à época foi justamente que ele determinou
18:42que o preso fosse algemado para transferência,
18:45que algemaram, e ele conferiu a algema.
18:50Para ver se realmente ela estava...
18:52Ele conferiu pessoalmente.
18:53O Alexandre tinha sido delegado de polícia no Rio de Janeiro.
18:55Ele foi delegado de polícia no Rio de Janeiro.
18:58Ele tinha um ímpeto um tanto, talvez, mais forte.
19:05E nesse momento ele falou que o coronel Forreira balbuciou para ele
19:09que não ia ficar assim não, que ele ia morrer.
19:12E para ele, ele não tinha medo, ele era uma pessoa destemida.
19:17E isso ele me contou na época, quando eu voltei das minhas férias,
19:20ele me contou que tinha ocorrido isso.
19:24Mas era uma questão assim,
19:25a cumprimento de uma ordem judicial é a desmoralização do poder judiciário,
19:29não o cumprimento.
19:30Se eu dou uma ordem, isso é uma máxima que eu tenho na minha vida como juiz,
19:33eu só dou uma ordem que eu posso fazer cumprir.
19:36Nunca vou dar uma ordem que eu não faço cumprir.
19:38Agora, quando eu der uma ordem, vai ter que ser cumprida,
19:41senão a desmoralização não é comigo, é com o poder judiciário.
19:43A gente vê que a justiça perde tanto o seu prestígio
19:45porque ela começa a determinar várias coisas que ela não faz cumprir.
19:49Então, isso eu e ele, a gente tinha a mesma dinâmica
19:53de que se chegamos a ter que dar essa ordem, a ordem vai ser cumprida.
19:58O senhor acredita que esse episódio da transferência do coronel Ferreira para o Acre,
20:03ele contribuiu ou foi determinante para a morte do Alexandre?
20:09Eu acho que foi uma somatória de coisas, um somatório de coisas.
20:13Na verdade, na época da morte do Alexandre, o coronel Ferreira estava preso,
20:20o Calu estava preso, por determinação nossa também,
20:24deixando claro que o Calu foi absolvido da morte do Alexandre, do processo, por falta de prova,
20:30mas eles estavam presos na época por determinações nossas.
20:35E também a questão do afastamento do doutor Leopoldo,
20:38que fazia as transferências para essa organização.
20:42Então, porque os pedidos eram feitos por um escritório de advocacia
20:46que era do Calu ao Leopoldo, para a transferência dessas pessoas do que o Pris-Termin.
20:52Então, foi um conjunto de fatores que eu acho que pode ter levado a essa vontade de nos parar,
21:01apesar que como as ameaças não funcionaram,
21:04o próprio Alexandre chegou a falar, na própria entrevista que deu para a Gazeta,
21:07que a gente não ia nos intimidar, nós não iríamos nos intimidar,
21:15e isso deixou claro, então, que talvez a gente tinha que fazer mais alguma coisa.
21:18E foi o que eu acho que pode ter culminado nessa determinação de matar o doutor Alexandre.
21:24E o senhor, pessoalmente, como que foi o processo, assim, durante esse período aí,
21:29desde que vocês assumiram como substitutos na vara de execução penal,
21:36a participação na missão especial,
21:38como que foi esse processo de acompanhamento, de começar a ter escolta?
21:44Se o senhor relatasse um pouco, em que momento exatamente começaram a andar com segurança?
21:49Bem, a gente começou a andar com segurança, começou, eu não lembro bem a data,
21:55foi bem antes da morte do Alexandre, acho que por volta do ano 2000, 2001,
21:58quando estavam muitas ameaças chegando, chegando, chegando, chegando,
22:02e nós fomos ao presidente do tribunal, fomos relatar esse presidente do tribunal,
22:05e o presidente do tribunal, na época, ele virou para a gente e falou assim,
22:08não, vocês não saem daqui sem escolta.
22:10Eu lembro que o presidente pediu, a Polícia Federal ligou na nossa frente,
22:14a Polícia Federal falou assim, não temos condição de fazer escolta deles agora,
22:17ligou para a própria Polícia Militar,
22:19a Polícia Militar, não temos condição de fazer escolta deles agora,
22:21ligou para todo mundo, aí chegou um pouco e ligou para a PRF.
22:24A PRF nos atendeu, vieram duas viaturas da PRF para frente do tribunal,
22:28nós saímos de lá escoltados.
22:30E começamos a ser escoltados, a primeira escota pela Polícia Rodoviária Federal,
22:34e ficamos alguns meses escoltados, muito constrangedor,
22:38em viatura caracterizada, policiais caracterizados, com armamento ostensivo.
22:44Então, essa é uma coisa assim, que as pessoas não sabem o peso disso.
22:47E começamos, então, a obrigatoriamente andar com a escolta.
22:50Depois foi trocada, aí o presidente do tribunal pediu a Polícia Federal para assumir,
22:55a Polícia Federal depois assumiu.
22:58Primeiro, eu acho que foi a Polícia Federal, depois a Polícia Civil,
23:01até que chegamos à escolta da Polícia Militar,
23:05com a qual eu estou até hoje, há mais de 20 anos, com a Polícia Militar fazendo a escolta.
23:12E, ou seja, basicamente foi esse o processo dessa nossa escolta aí.
23:18Como que isso afetou a sua vida?
23:24Olha, andar escoltado, eu sou uma pessoa, primeira coisa,
23:27eu sou uma pessoa que eu não costumo reclamar da minha vida.
23:30Muita gente chega para mim e fala assim,
23:32ah, nossa, sua vida deve ser muito ruim, se ela escoltada, seus filhos escoltados,
23:35sua mulher escoltada.
23:36É.
23:37Mas eu sei que tem muita gente com muito mais problema e de segurança do que eu.
23:43Tem muito policial que enfrenta o criminoso e depois tem que morar do lado desse criminoso.
23:50Então, essas pessoas sofrem muito mais do que eu com matéria de segurança.
23:54Mas, obviamente, é ruim eu saber que a minha família pagou e paga um preço alto
24:02pela minha atuação profissional.
24:04Isso é uma realidade.
24:06Eu tenho a sorte de ter uma mulher forte, fabulosa, companheira,
24:12que sempre entendeu e nunca me cobrou não fazer o meu trabalho
24:16e resistiu a todos os problemas.
24:22E, na mesma coisa, meus filhos.
24:25Minha filha era neném quando começou a andar escoltada,
24:28meu filho nasceu escoltado.
24:30Hoje já são uma mulher e um homem que são obrigados a ainda andar escoltados até hoje.
24:37Mas eu repito, eu acho que eu tenho muita sorte de ter a mulher e os filhos que eu tenho,
24:42que são pessoas mais do que especiais.
24:45Porque, se fosse qualquer outro, teria aguentado, não.
24:51Eu resisto muito porque é constrangedor, a vida da gente passa a ser controlada, programada.
24:59Não existe, nunca existiu dos meus filhos assim,
25:02vou sair agora e vou na casa de um colega.
25:04Não, não existe isso.
25:05Sempre foi assim, eu vou na casa do colega tal hora, a escolta tem que estar aqui tal hora.
25:11Nunca teve, eles não tiveram o direito de ter imprevistos ou combinações com os colegas de última hora.
25:17Então, a vida nossa, eles aprenderam a ter a vida programada.
25:21Eu aprendi, minha esposa aprendeu.
25:24O nosso esquédulo do dia seguinte é passado um dia antes para as nossas escoltas,
25:29porque eles têm que fazer as programações também de logística.
25:32Então, a nossa vida é programada, é uma vida limitada.
25:35Mas, repito, eu não fico chorando por causa disso.
25:38A gente viu, a gente já pensou durante alguns anos assim,
25:41Ah, isso vai durar um ano, dois anos, três anos, depois acaba, volta ao normal.
25:47Aí foram passados dois, três, dez, quinze, chegou uma hora que a gente falou assim,
25:52vamos parar de pensar nisso?
25:53A gente tem que viver.
25:55E a gente começou, a escolta começou a ter que se adaptar
25:58para deixar a gente viver um pouco mais.
26:01Então, a minha mulher tem que ter o direito de poder ir no salão,
26:05como qualquer mulher vai para fazer a unha.
26:07Minha mulher tem que ter o direito, se ela quiser ir no shopping, ir no shopping.
26:11Então, a verdade é que o Estado tem que nos dar a garantia
26:15para a gente ter minimamente segurança para realizar a minha função.
26:20E isso inclui a minha família também.
26:22E muita gente não entende isso.
26:24Muita gente acha que é regalia, acha que é chique andar com escolta,
26:28acha que é chique andar com segurança,
26:30quando, na verdade, é segurança, obviamente, eu não posso reclamar disso,
26:35que nós temos, mas é limitação de vida em tudo.
26:40E isso tem muita gente que tem muita dificuldade ou maldade em não querer entender.
26:46A gente está querendo aparecer, quer ter motorista.
26:51Escolta não é motorista.
26:52Eu dirijo meu carro, a minha esposa dirige o carro dela,
26:56porque quando eu tenho o segurança dirigindo, ele não é segurança, ele é motorista,
27:00e nós não precisamos de motorista.
27:02Eu gostaria muito de não ter ninguém andando atrás de mim,
27:05eu gostaria de ter minha liberdade, minha esposa também, meus filhos também.
27:08Mas é um peso que, infelizmente, o destino colocou na minha profissão.
27:11E eu tenho uma máxima de vida.
27:13Muitas pessoas já me perguntaram assim,
27:15mas por que? Sai disso, você fica procurando problema.
27:17Eu vi isso muito, como se eu procurasse problema.
27:20Eu nunca procurei problema.
27:23Mas quando o problema chega para mim, e se eu sou o responsável para resolvê-lo,
27:27eu nunca vou deixar de resolver esse problema.
27:29E eu tive todo o apoio da minha família para isso,
27:33e eu sou muito grato a eles por isso.
27:37No dia da morte do Luiz Alexandre,
27:40eu soube que vocês tiveram um encontro na noite anterior,
27:44acho que na tarde anterior, não sei se o senhor estava no churrasco, né?
27:47No dia anterior.
27:48No dia anterior.
27:50Ele estava sem escolta.
27:52No dia do churrasco, ele estava com a escolta, né?
27:54Estava.
27:55E aí, no dia seguinte, queria que você contasse assim,
27:58como o senhor estava, e como o senhor ficou sabendo da morte do Luiz Alexandre?
28:02E, se possível também, como o senhor recebeu essa notícia?
28:06Porque a presença tem um impacto muito grande,
28:08porque acaba validando essa história de ameaça.
28:11É.
28:11A gente estava, no dia anterior ao crime,
28:13a gente estava com uma escolta muito precária.
28:15Era um policial fazendo a nossa escolta de cada um,
28:18um policial para cada um, 24 horas por dia.
28:21Ou seja, o policial, por exemplo, o Alexandre,
28:25ele dava aula até as 10h30 da noite na faculdade,
28:28o policial tinha que estar com ele,
28:29aí chegava na casa dele 11h30 da noite,
28:32e se ele fosse para a academia 7h da manhã,
28:34o policial tinha que estar lá de novo.
28:36O mesmo policial, que não tinha direito a descanso,
28:39a gente ficava com pena dos policiais.
28:41E era uma escolta absolutamente precária,
28:43mal estruturada, mas a gente estava.
28:46É o que o governo disponibilizou para a gente naquele momento.
28:51Bem, no dia anterior à morte,
28:53a gente estava na Associação dos Magistrados,
28:55no Clube dos Magistrados,
28:56onde tinha um estande de tiro,
28:57nós fomos lá para treinar tiro.
29:00fomos nós dois,
29:02o secretário de segurança na época,
29:03os dois subsecretários de segurança,
29:06e mais os policiais.
29:07Fomos fazer um treinamento de tiro.
29:10Como eu não tinha outra opção de onde levar a minha família,
29:12levamos, como todos os policiais já estavam juntos,
29:14levamos as famílias também,
29:15e acabamos, fizemos um churrasco lá,
29:17para a família também,
29:19passar um domingo, acho que estava no domingo.
29:22Então, foi o último contato que eu tive com o Dr. Alexandre,
29:26foi ali.
29:27Aí, eu me despedi, saí com a minha família,
29:31e ele foi para a casa dele,
29:32no outro dia que eu tive a notícia,
29:35pela manhã.
29:36Diga um pouco,
29:39nessa relatação,
29:40que a gente vai estar ali na beira,
29:41como é que é o dia?
29:44No dia 5, como é que foi esse dia aí?
29:45No dia anterior.
29:48No dia anterior à morte,
29:50a gente
29:53combinou um treinamento de tiro,
29:55porque a gente andava armado,
29:56achava necessário a gente andar armado também,
29:58para a nossa segurança.
30:00E a gente combinou um treinamento de tiro
30:01com o secretário de segurança,
30:02os dois subsecretários,
30:04e fomos no clube dos juízes,
30:05que tinha um stand de tiro lá.
30:07Então, nós fomos para lá,
30:08levamos nossas famílias também,
30:10já que a segurança ia estar lá,
30:11para eles poderem aproveitar um pouquinho.
30:13Minha filha, que era bebezinha,
30:15poder aproveitar um pouquinho lá na piscina e tal.
30:17E nós fizemos um treinamento de tiro,
30:19com o secretário de segurança,
30:20os policiais, todos lá.
30:21E foi a última vez que eu vi o Alexandre.
30:23Então, naquele dia,
30:24acabamos o treinamento de tiro,
30:25acabamos o churrasco,
30:27e cada um foi para a sua casa,
30:29ele saiu com segurança dele,
30:30e eu fui no outro dia de manhã,
30:32eu dava aula na faculdade,
30:34eu estava em sala de aula,
30:36quando por volta das 8 horas da manhã,
30:38eu recebo uma ligação,
30:40e eu estava dentro da sala de aula,
30:42recebo uma ligação de um servidor do Tribunal de Justiça,
30:46que morava em frente à academia,
30:48onde ele foi executado,
30:50e esse servidor me ligou e falou assim,
30:52Dr. Carlos Eduardo,
30:53eu estou aqui na frente do corpo,
30:55o Dr. Alexandre foi morto.
30:57E eu conheci esse servidor,
30:59falei, não,
31:00não, foi aqui agora,
31:01em Vila Velha,
31:02estão levando o corpo para o hospital.
31:05Aí, foi realmente um baque muito grande,
31:08eu pedi licença à turma,
31:10saí, né,
31:11para ir ao hospital para ver,
31:13são coisas assim que eu lembro
31:14que o meu irmão,
31:15que é promotor,
31:16me ligou,
31:18quando eu atendi,
31:19eu estava no carro indo,
31:19meu irmão me ligou,
31:21e falou assim,
31:22é você?
31:22Eu falei, sou eu, cara.
31:24Aí ele falou assim,
31:25que acabaram de me ligar,
31:25falando que você tinha sido morto.
31:29Eles confundiram,
31:29ligaram para o meu irmão,
31:30falando que eu tinha sido morto.
31:31Aí eu falei,
31:32não, não fui eu não,
31:33foi o Alexandre,
31:33eu estou indo para lá para ver,
31:35e quando eu fui até o hospital,
31:37é aquela coisa que a gente,
31:38é difícil da gente acreditar, né,
31:41eu fui,
31:41eu fiz questão de ver o corpo,
31:44aí a ficha realmente caiu,
31:47e dali eu saí,
31:49eu fui ao presidente do Tribunal de Justiça,
31:51obviamente,
31:53né,
31:53e depois tivemos uma reunião com o governador,
31:56e quando começaram as investigações,
31:58com relação ao homicídio.
32:01O senhor pode contar,
32:02como que foi esse início das investigações,
32:05e como que foi,
32:06o que, assim,
32:07como que o senhor participou
32:08dessas investigações iniciais,
32:10como que o Alexandre morreu diretamente?
32:12Assim,
32:13deixando bem claro,
32:14o juiz não investiga,
32:16né,
32:16eu não investiguei a moda Alexandre,
32:18dentro da,
32:19mas eu continuava responsável pela central de inquéritos,
32:22aonde a polícia demandava o judiciário
32:25para fazer as investigações,
32:26então,
32:26realmente,
32:27eu dei ordens,
32:27demandados,
32:28a pedido da polícia,
32:29que foi muito eficiente.
32:32Tanto é que,
32:34que eu lembro que os executores,
32:36e os intermediários,
32:37foram presos imediatamente após,
32:40salvo engano,
32:41no mesmo dia,
32:41ou no dia seguinte.
32:43Tanto o Giliard,
32:45que foi um dos que atirou no Alexandre,
32:48o Yoshito e o Pardal,
32:51um que prestou a moto,
32:52um que prestou a arma.
32:54O único que conseguiu fugir
32:57foi o Lombrigão,
32:58que demorou mais de mês
32:59para ser capturado.
33:00A imprensa estava participando,
33:02tal,
33:02mas, assim,
33:03a morte do Alexandre
33:05só foi elucidada
33:06com a prisão imediata
33:08desses três participantes.
33:10Se não,
33:11talvez,
33:11tivesse sido mais um crime impune no Estado.
33:14Então,
33:14a polícia teve um grande mérito
33:16de conseguir efetuar,
33:17praticamente,
33:18no mesmo dia,
33:20achar a moto que foi usada,
33:22achar a arma,
33:23achar os executores,
33:24e ali,
33:25as investigações realmente andaram.
33:28Teve outras hipóteses,
33:30como a de latrocínio,
33:32foram levantadas,
33:33o doutor fala assim,
33:34como é que essas hipóteses foram caindo?
33:36As hipóteses foram caindo
33:38e durante o processo ficou bem claro isso,
33:39porque todos que foram condenados
33:42pelo homicídio,
33:44isso já foi um recurso até o STF
33:46e foram todas as sentenças confirmadas,
33:48o que já deixa bem claro
33:49que foi o homicídio.
33:50Mas, realmente,
33:51as teses de latrocínio
33:52eram, por um lado,
33:55compreensíveis,
33:55porque, se era latrocínio
33:57por parte dos executores,
33:58não tinha mandante.
34:00Latrocínio,
34:00ele matou para roubar,
34:03então, não tinha mandante.
34:04Então, só interessava aos mandantes.
34:06Era interessante,
34:07quando você vê,
34:08até os executores defendendo
34:09a tese de latrocínio,
34:10que a pena do latrocínio
34:10poderia ser maior.
34:12Então, não fazia lógica
34:13ser uma tese de defesa
34:14dos executores pelo latrocínio,
34:16que a pena é maior
34:17que a do homicídio.
34:18Então,
34:19são coisas que levavam,
34:21deixavam bem claro.
34:22Tiveram muitas testemunhas
34:23que foram chaves, realmente,
34:25durante o processo.
34:26Eu me lembro que teve
34:27uma testemunha,
34:28especificamente,
34:29um eletricista
34:30que estava trabalhando
34:31no prédio
34:32ao lado da academia.
34:34Estava ele,
34:34um amigo,
34:35e essa pessoa
34:36foi ouvida durante o processo.
34:37E ele foi textual
34:39e muito firme em dizer.
34:40Ele falou assim,
34:41ele viu
34:43a caminhonete do Alexandre
34:44sendo parada,
34:45parando em frente à academia.
34:46Ele viu os dois caras
34:47passando na moto,
34:48olhando para ele,
34:49e viu que os caras voltaram.
34:50Quando ele viu
34:51que os caras estavam voltando,
34:52ele falou para o colega,
34:53e vão assaltar o cara.
34:56E ele viu,
34:57e ele relata isso,
34:59que o Giliard desceu
35:03da garupa,
35:04que estava na garupa,
35:05e falou,
35:06doutor Alexandre,
35:07ele relata isso,
35:09chamou pelo nome.
35:10E o Alexandre virou
35:11e tomou o tiro no peito.
35:14O primeiro tiro dele
35:15foi no peito,
35:15dado pelo Giliard.
35:16O lombrigão
35:17estava pilotando a moto.
35:18O Alexandre estava
35:20com a pistola
35:20dentro da pochete.
35:21O Alexandre,
35:22ele tentou,
35:24quando ele viu
35:25o sujeito
35:26apontando a arma
35:26para ele,
35:27ele tentou sacar a pistola
35:28e tomou um tiro no peito.
35:30Ele tomou um tiro no peito
35:31e foi cambaleando
35:32para o meio da rua.
35:33Isso foi feito
35:34na reconstituição
35:35do crime.
35:36Foi cambaleando
35:37no meio da rua,
35:38tentando sacar a arma dele.
35:40Ele sacou a arma
35:41já caindo,
35:42tanto é que ele caiu
35:43e a arma disparou,
35:45foi achado um tiro
35:46da arma dele,
35:46um único tiro,
35:47no oitavo andar do prédio.
35:48Ele atirou caindo,
35:50atirou para cima.
35:51A perícia fez esse levantamento.
35:52No oitavo andar
35:53estava o tiro
35:54da arma dele.
35:55E logo depois,
35:56o lombrigão
35:57que estava pilotando a moto,
35:58quando viu o Alexandre
35:58caminhando,
35:59tentando sacar,
36:00ele largou a moto,
36:01sacou a arma dele
36:03e deu dois tiros
36:04no Alexandre.
36:05O primeiro acertou
36:06na cabeça do Alexandre
36:08e depois ele chegou
36:09perto do corpo
36:10e deu um tiro,
36:10um último tiro
36:11a queima-roupa,
36:12que pegou na lateral
36:13do corpo do Alexandre,
36:14que inclusive a perícia
36:14conclui que foi esse tiro
36:15que o matou.
36:17Isso tudo está
36:18nos autos do processo,
36:19isso é público.
36:20Então,
36:21acho que todos
36:22esses dados
36:23e informações
36:23que levaram
36:25à conclusão
36:27do Ministério Público
36:28e à conclusão
36:29dos jurados,
36:30que foi o júri
36:30que julgou,
36:32pelo convencimento
36:33pela prática
36:33do homicídio
36:34e não o atrocínio.
36:36Então,
36:36sem falar em outras evidências,
36:38foram muitas testemunhas,
36:39mais de 100 pessoas
36:40foram ouvidas,
36:41muitas pessoas
36:43confirmavam
36:44o homicídio,
36:45então as provas
36:47eram bastante
36:48robustas
36:49para a condenação
36:50dos intermediários
36:52e dos executores.
36:55Gerou,
36:56não foi robusto
36:57o suficiente
36:57pelos jurados
36:58para condenar
36:59um dos denunciados
37:00que foi o Calu,
37:01que foi absolvido,
37:02isso tem que ser dito,
37:03ele foi absolvido.
37:04O coronel Ferreira
37:05foi condenado também
37:06como um mandante
37:07e falta ainda
37:08o doutor Leopoldo
37:09ser julgado,
37:10ou seja,
37:12não acabou ainda
37:13o processo.
37:14Em mais de 20 anos
37:16o processo não acaba.
37:18E é o que é interessante,
37:19as pessoas falam,
37:20bem,
37:21o judiciário
37:22tinha interesse
37:23em julgar rápido isso
37:25e poderia condenar
37:26todo mundo,
37:26a prova disso
37:27que não houve interferência
37:27de nada,
37:28porque o processo
37:28não acabou ainda.
37:30Eu acho que
37:31a sociedade capixaba
37:33quer ver esse processo
37:34terminar.
37:36Porque eu já ouvi
37:37isso de pessoas,
37:38falo,
37:38doutor,
37:38se não conseguem
37:40terminar um processo
37:41que matou um juiz,
37:42imagina se for um pobre
37:43coitado qualquer.
37:44Nós não temos segurança
37:46nessa sociedade mais.
37:47Então,
37:48o não término
37:50desse processo
37:50gera e continua
37:52gerando
37:52insegurança jurídica
37:54para toda a sociedade.
37:56Em relação a essa
37:57questão do tempo,
37:59foi anexado ao processo
38:01uma prova nova,
38:03que é o que levou
38:05ao cancelamento
38:09suspensão
38:09do juiz,
38:11do juiz Leopoldo
38:12estava marcado
38:12agora em 2021
38:13e há uma discussão jurídica
38:15sobre a aceitação
38:16ou não
38:17dessa prova
38:18do Partido do Ministério Público
38:19e da defesa dele,
38:21que é um depoimento
38:22que foi tomado
38:23pelo delegado
38:24Danilo Baense
38:26do doutor Leopoldo.
38:30acompanhou,
38:33tinha informação
38:34em relação a isso?
38:36Pode-se eu ver
38:37uma prova
38:38de um depoimento
38:39que foi tomado
38:40há mais de 15 anos
38:41atrás sem...
38:42Eu confesso a você
38:44que eu não conheço
38:45essas novas provas,
38:46não conheço
38:47esse documento,
38:48porque eu atuei
38:49somente no processo
38:51dos executores,
38:52nada com relação
38:53aos mandantes,
38:54eu atuei,
38:54tanto é que eu sou
38:55arrolado como testemunha
38:56de acusação.
38:58Então,
38:58eu não tenho como
38:59falar dessa prova
39:00porque eu não conheço.
39:01Não sei se...
39:01Não sei que prova que é,
39:03não sei se é uma prova válida,
39:04realmente não sei.
39:06E o senhor acha
39:07que a apresentação
39:09de uma prova
39:09depois de tanta demora
39:12que pode inclusive
39:13levar à prescrição,
39:15já que o doutor Leopoldo
39:16vai completar 70 anos
39:17em 2027,
39:19então, assim, né,
39:20se aproxima,
39:22aí reduz a pena.
39:23Pode-se eu ver
39:24essa possibilidade
39:25de mais adiamento
39:26de mais demora
39:27e a possibilidade
39:29de prescrição.
39:30Com tristeza,
39:32com tristeza
39:34pelo nosso sistema
39:35de justiça,
39:36que sempre é debitado
39:37ao poder judiciário
39:38quando isso acontece
39:39e que, na verdade,
39:40o que dá margem
39:41é a nossa legislação.
39:42Os advogados,
39:43eles jogam com as armas
39:44que a lei dá para eles.
39:46E aí chega o momento
39:47da sociedade cobrar
39:48dos deputados federais,
39:50dos nossos senadores,
39:51que pensem em reformular
39:53a nossa legislação
39:54processual penal
39:55e penal
39:56para que isso
39:57não seja fácil
39:58de acontecer.
39:59Infelizmente,
39:59é.
40:00É frustrante
40:01como juiz
40:02quando eu dou
40:03tantas sentenças
40:04de prescrição
40:05e que todo mundo
40:06acha que a culpa
40:07é do poder judiciário
40:07quando, na verdade,
40:08é da legislação
40:09que permite isso.
40:09Por exemplo,
40:10uma série de recursos
40:12protelatórios.
40:13A gente vê que
40:13quando alguns réus
40:14têm dinheiro para gastar
40:16com bons advogados
40:17e fazerem recursos
40:18protelatórios,
40:19eles arrastam
40:20esse processo
40:20buscando justamente
40:22a prescrição.
40:23Isso, infelizmente,
40:24com tristeza ou vejo,
40:25de forma genérica.
40:26E esse processo
40:27é somente
40:28mais um caso
40:29onde isso pode acontecer.
40:31É.
40:33Doutor,
40:34a gente que não
40:35participou
40:35dessa parte
40:36dos mandantes,
40:37mas você consegue
40:38contar para a gente
40:39um pouco
40:39como se chegou
40:41nesses nomes
40:42no Coronel Ferreira,
40:43no Calu
40:43e no Luiz do Pouco?
40:47É.
40:47Uma das principais
40:48testemunhas,
40:48como eu falei,
40:49foi o Manuel Corrêa da Silva Filho,
40:50que foi morto.
40:52Ele falava
40:53que ele era membro
40:54do grupo de extermínio
40:55e que ele sabia,
40:58ele que falava tudo,
40:59que era o escritório
41:00do Calu
41:00que fazia os pedidos
41:02ao doutor Leopoldo
41:03a pedido de interesse
41:04do grupo
41:04do Coronel Ferreira
41:05e dele
41:06para transferir presos
41:07para serem ou mortos
41:08ou para matarem
41:09ou para fugir.
41:11Então,
41:11o próprio membro
41:12do grupo
41:13que deu essa declaração
41:14era a principal testemunha
41:16contra o grupo
41:16e contra a nossa ordem
41:19foi transferido
41:19para o presídio
41:20e foi executado
41:20em menos de duas horas
41:21quando chegou
41:22no presídio estadual.
41:23Então,
41:24assim,
41:25fora isso,
41:26é tudo que tem
41:28no processo
41:28que mostra
41:29a ligação
41:29entre eles.
41:30Repito,
41:32salientando
41:32que o Calu
41:34foi absolvido
41:35pelo Tribunal do Júri
41:36por falta de provas.
41:37Uma coisa interessante
41:38sobre o processo
41:41também
41:41é falar
41:42para a gente
41:43a relação
41:44do doutor
41:45com o juiz
41:46Alexandre Martins,
41:46não eram exatamente
41:48amigos,
41:49mas eram
41:49colegas de trabalho
41:51e o senhor participou
41:52no processo.
41:53É,
41:54isso é uma coisa
41:54que me questionaram
41:55muito durante todo
41:56o processo
41:56da minha suspeição
41:58para conduzir
41:59a instrução
41:59com relação
42:00aos mandantes
42:00e executores.
42:01Mandantes não,
42:02intermediários e executores.
42:04E eu nunca
42:05me considerei
42:06suspeito.
42:07Por quê?
42:08Eu me sentia
42:10absolutamente imparcial,
42:11não tinha
42:12interesse
42:13em condenar
42:14ninguém
42:14que não fosse
42:15responsável
42:16pelo crime.
42:17Eu tinha
42:18muita preocupação
42:19em conduzir
42:19da forma mais legal
42:21possível
42:21todo o processo
42:22e isso foi provado
42:24durante todos os recursos
42:25que alegaram
42:25minha suspeição
42:26que chegaram até o STF
42:27foram muitos.
42:28Eu sempre tive
42:29muito cuidado
42:30na condução,
42:31correta,
42:32legal,
42:33respeitando
42:34todos os procedimentos
42:36porque a nossa relação
42:38que as pessoas
42:39sempre falaram
42:40que nós éramos
42:40amigos pessoais
42:42e próximos
42:42isso não era verdade.
42:44Nós éramos
42:44colegas de trabalho
42:45tínhamos no trabalho
42:48um afinamento
42:49bastante positivo
42:52com relação
42:53à forma de atuar
42:54mas nossas vidas
42:55particulares
42:55eram absolutamente
42:56distintas e distantes
42:57mesmo porque eram
42:58díspares,
42:59ou seja,
43:00eu um sujeito casado,
43:01família,
43:02com esposa,
43:03com filho
43:04Alexandre solteiro
43:07namorando,
43:07namorador
43:08saindo,
43:09aproveitando a vida
43:10jovem
43:11então nós não
43:12tínhamos relação
43:13pessoal
43:14porque a nossa vida
43:14era muito diferente
43:15não tínhamos
43:17como ter isso
43:18nossa vida
43:18era meramente
43:19profissional
43:20e foi isso mesmo
43:22que me fez
43:22ter segurança
43:23e tranquilidade
43:24para conduzir o processo
43:26naquilo que me competia
43:27e eu não podia
43:28me furtar
43:29e eu não podia me furtar
43:41a isso
43:43vou falar
43:44eu vou falar
43:44para você assim
43:44o Alexandre
43:45era um
43:45um personagem
43:49multicolorido
43:50multifacetário
43:51com várias
43:52características
43:53muito distintas
43:55muito sério
43:56e muito contundente
43:57no trabalho
43:59e a imagem
44:00que eu tenho certeza
44:00que todos têm dele
44:01e era mesmo assim
44:02mas por outro lado
44:04como jovem
44:05ele tinha um ritmo
44:06de vida
44:07de jovem
44:08de alegria
44:10curtição
44:10de farras
44:12e que não dava
44:14para mim
44:16nesse ponto
44:17que a gente era
44:17muito diferente
44:18mas ele era uma pessoa
44:19bastante multifacetada
44:21e com muita experiência
44:22porque Alexandre
44:23foi delegado de polícia
44:25no Rio de Janeiro
44:25foi defensor público
44:26no Rio de Janeiro
44:27para depois vir a ser juiz
44:29aqui no estado
44:29do Espírito Santo
44:30então ele tinha
44:31bastante experiência
44:32em várias áreas
44:33da atuação
44:34do sistema de justiça
44:35então a visão dele
44:36era bastante contundente
44:38e mais
44:38era um professor
44:39de direito penal
44:40excepcional
44:41a competência técnica
44:43do doutor Alexandre
44:44era algo que era
44:45inspirador
44:45para todos que foram
44:46seus alunos
44:47todos que eram
44:47seus colegas
44:48muitos de nós juízes
44:50nos inspiramos
44:51até estudar mais
44:53pelo nível
44:54de conhecimento técnico
44:55que Alexandre
44:56trouxe para
44:57o Judiciário
44:58do Espírito Santo
44:58então
44:59se hoje
45:01eu sou a pessoa
45:02que me preparei
45:03mais
45:04para ser um
45:04melhor juiz
45:05para ser um
45:06bom professor
45:07foi muito inspirado
45:08na atuação dele
45:09como muitos
45:09foram inspirados
45:11e
45:12eu acho que
45:13a determinação
45:15de fazer o que era
45:16certo
45:16doer
45:17se é quem doer
45:18até a ele próprio
45:19isso que eu acho
45:20que é o melhor
45:21melhor legado
45:23que ele pode ter deixado
45:24e ele falava
45:25comigo isso
45:26ele falava
45:26rapaz
45:26nós temos o que fazer
45:28vamos fazer
45:28vamos fazer
45:30não vamos deixar de fazer
45:31não vamos nos intimidar
45:32e isso era
45:34acho que
45:35a maior
45:35característica
45:36da personalidade dele
45:38e de todos
45:39os períodos
45:40que vocês
45:41passaram
45:41trabalhando juntos
45:43na missão especial
45:44aqui na varia de edições
45:46o senhor se arrepende
45:47de alguma coisa
45:48se o senhor
45:49faria de novo
45:51olha
45:53eu não me arrependo
45:54de nada
45:55que eu fiz
45:55tudo que eu fiz
45:56foi preciso
45:57e eu tenho certeza
45:59pela postura profissional
46:00que o Alexandre
46:01faria tudo de novo
46:02mesmo sabendo
46:02de todos os riscos
46:04ele faria tudo de novo
46:05ele não deixaria
46:06de fazer nada
46:07por medo de morrer
46:09ele estava realmente
46:10disposto
46:11a assumir
46:12qualquer risco
46:13para fazer o que era certo
46:14isso deve ser inspirador
46:16para todo brasileiro
46:17a gente vive
46:18num país
46:19que a gente vê
46:19que as pessoas
46:19se omitem muito
46:21para ter algum tipo
46:22de benefício
46:24e a sensação
46:25que muitos têm
46:26a gente vê
46:26ah, mas eu não fiz isso
46:27você deixou de fazer
46:28o que você deveria fazer
46:30e isso ele nunca faria
46:32como eu também
46:33não
46:34nunca poderia
46:35fazer assim
46:36eu nunca ia poder
46:37viver com a minha
46:38minha consciência
46:39tranquila
46:40se eu não tivesse
46:41cumprido aquilo
46:42que a lei determina
46:43que eu cumprisse
46:43como magistrado
46:44fazendo aquilo
46:46que eu sei
46:46que o povo paga
46:47para eu fazer
46:49eu não conseguiria
46:50também ser diferente
46:51talvez eu tenha
46:52aprendido isso
46:52com meu pai
46:53que foi um
46:54um bom promotor
46:57um promotor
46:57que graças a Deus
46:58só me deixa orgulho
47:00pela atuação dele
47:00como é o meu irmão
47:02então eu não poderia
47:03agir diferente também
47:05eu acho que de alguma forma
47:07a morte do Alexandre
47:08contribuiu
47:09para desvendar
47:10um pouco do crime
47:11organizado aqui no Instituto Santo?
47:14eu não sei se eu posso dizer
47:15que ela contribuiu
47:17a morte em si
47:19a morte dele
47:20talvez tenha
47:21contribuído
47:22para que
47:23essa questão
47:24dos grupos de extermínio
47:26fossem
47:27enfrentadas
47:28de forma mais dinâmica
47:30mas
47:31a gente sabe que
47:33organizações criminosas
47:34existem
47:34e continuarão existindo
47:36em áreas diversas
47:38de lapidão
47:39no erário público
47:40tráfico de droga
47:41tráfico de arma
47:42grupos de extermínio
47:43eu acho que nós
47:45Espírito Santo
47:45nós temos que
47:46exigir dos nossos
47:48poderes constituídos
47:50que o poder
47:51e o Estado
47:52sejam sempre
47:53bem preparados
47:54para fazer o enfrentamento
47:56seja com as estruturas
47:57de polícia
47:58com o Ministério Público
47:59com a capacitação
48:00do Poder Judiciário
48:01para que consiga
48:03em cada uma
48:04dessas áreas
48:05atuar de forma
48:07a preservar
48:08os interesses
48:08da sociedade
48:09contra essas organizações
48:10e a missão especial
48:13em si
48:13não acha
48:14eu queria que você falasse
48:16quanto tempo durou
48:17eu sei que teve um período
48:19que ficou com a estrutura federal
48:21e depois
48:22quando o Arthur
48:23deixou como posse
48:24já mudou um pouco
48:25o senhor explicasse
48:27um pouco melhor
48:27como que foi
48:28quanto tempo durou
48:29e o resultado
48:31eu não vou ter
48:32datas a precisar
48:34assim
48:34eu realmente
48:35não lembro
48:35teria que olhar
48:36pesquisar
48:36para poder falar
48:37eu sei que
48:39a missão especial
48:40veio
48:41para atender
48:43o interesse
48:45político
48:45o governo federal
48:47via que precisava
48:48fazer uma intervenção
48:49no estado
48:49mas como
48:50politicamente
48:50o presidente
48:51não tinha como
48:51fazer isso
48:52com relação ao governador
48:53que era do mesmo partido
48:54resolveram mandar
48:55a missão federal
48:56para cá
48:57para tentar
48:59diminuir as ações
48:59dessas organizações
49:00criminosas
49:01principalmente
49:01as que dilapidavam
49:03e foi assim
49:04que veio a missão federal
49:05para cá
49:05então
49:05uma grande estrutura
49:07de delegados federais
49:08policiais federais
49:09e eu e o doutor Alexandre
49:11estávamos designados
49:12e atendendo então
49:13as necessidades
49:14da missão federal
49:15na central de inquéritos
49:16foi basicamente
49:18isso aí
49:18e a nossa atuação
49:20que gerou
49:21muitas prisões
49:23foram
49:25nós entregamos
49:26para a missão federal
49:27mais de mil
49:28mandados de prisão
49:28em aberto
49:29que eram para ser cumpridos
49:32de muita gente
49:33que a gente via
49:33que não era
49:35não tinham coragem
49:36de cumprir
49:36os mandados de prisão
49:37então nós entregamos
49:37e muita gente
49:38foi presa naquela época
49:40e em 2009
49:41o senhor decidiu
49:42se inscrever
49:43um livro
49:44lançou um livro
49:44junto com o secretário
49:45de segurança
49:46e o sociólogo
49:48
49:48isso
49:50eu queria que o senhor
49:51contasse
49:51o que motivou
49:52o senhor escrever
49:53esse livro
49:54e como que
49:54foram todos
49:56foi todo o processo
49:57de fazer o livro
49:59de contar
50:00essa história
50:00olha
50:01eu acho que
50:03o livro tem
50:04uma grande parte
50:05de ficção
50:06e uma grande parte
50:08de dados
50:08que são dados
50:09públicos
50:10são dados
50:10dos processos
50:12a gente nunca teve
50:13o interesse
50:14do livro
50:14de poder
50:16provocar
50:16pessoas ao revés
50:17a gente respeitou
50:18mesmo aquelas pessoas
50:19citadas oficialmente
50:20nos autos
50:21os autos são públicos
50:22então o livro
50:23retrata
50:24e conta
50:25um pouco
50:25dos bastidores
50:26da morte
50:27do Alexandre
50:28dessas investigações
50:29isso a gente
50:30entendeu
50:31naquele momento
50:32que seria importante
50:33até para a memória
50:34do estado
50:35com relação
50:36a enfrentamento
50:38dessas organizações
50:39criminosas
50:40a gente sabe
50:41que a história
50:42ela nos mostra
50:43de forma cíclica
50:44como as coisas
50:45acontecem
50:45se a gente não
50:46conhece a história
50:47a chance de voltar
50:48a ser como era
50:50é muito maior
50:51então o nosso
50:53interesse
50:53era unicamente
50:54registrar
50:55o que aconteceu
50:57no processo
50:58obviamente
50:59temos informações
51:01ficcionais
51:02para dar
51:03um tom literário
51:06à obra
51:06e tínhamos o cuidado
51:08de modificar
51:09os nomes
51:09mesmo daqueles citados
51:11oficialmente
51:11em investigações
51:12e tal
51:13praticamente até
51:14preservar
51:15a imagem
51:15das pessoas
51:16que muitas delas
51:16não tinham sido
51:17julgadas ainda
51:18muitos foram
51:20condenados
51:20daqueles citados
51:21ali
51:21outros não
51:22mas como era
51:24um documento
51:24dados que estavam
51:25públicos
51:27poderiam ser
51:28divulgados
51:29publicamente
51:29até com os nomes
51:30verdadeiros
51:30mas a gente teve
51:31tanta preocupação
51:32de não parecer
51:33que a gente queria
51:34atacar alguém
51:35que a gente mudou
51:36os nomes
51:37e
51:38para fazer esse
51:39registro histórico
51:40tem um livro
51:42que é o Espírito Santo
51:43a outra face
51:44da verdade
51:45tem conhecimento
51:47desse livro
51:47chegou a ler
51:48ele
51:49tem o conhecimento
51:50do livro
51:50foi
51:52uma resposta
51:53dada por
51:54várias associações
51:55policiais
51:56porque eles
51:57entenderam
51:58equivocadamente
52:00que no livro
52:01Espírito Santo
52:01nós estávamos
52:01atacando a corporação
52:03e nunca
52:04isso seria feito
52:05eu respeito
52:06demais
52:07a polícia militar
52:07tanto é que
52:09a segurança
52:10da minha vida
52:11da minha família
52:11há muitos anos
52:13é feita pela polícia militar
52:14se eu achasse
52:15que a polícia militar
52:16do Espírito Santo
52:16fosse toda
52:17uma banda
52:18uma fruta podre
52:19um saco
52:20podre de fruta
52:20eu não teria
52:21essa confiança
52:22na verdade
52:23é um número
52:24muito pequeno
52:25de policiais militares
52:26da época
52:26que faziam
52:27e eram membros
52:28de organizações
52:28criminosas
52:29então como houve
52:30esse mau entendimento
52:31houve uma reação
52:32como querendo
52:34dar uma resposta
52:35e aí
52:36obviamente
52:37eles praticaram
52:38vários excessos
52:39esses excessos
52:40foram objetos
52:41de ações
52:42judiciais
52:43por minha parte
52:44que eu ganhei
52:44todos os processos
52:45e fui indenizado
52:47pelos danos morais
52:48que eles praticaram
52:49contra mim
52:49naquele livro
52:50também
52:51mas é
52:53até compreensivo
52:54ou seja
52:55é um mau entendimento
52:57de que havia
52:58um ataque
52:59à corporação
53:00corporação
53:01essa
53:01que eu sou
53:02profundo admirador
53:03de todos os policiais
53:04do Espírito Santo
53:04que sacrificam
53:06suas vidas
53:06para nos dar
53:07segurança
53:08se a gente perder
53:09a polícia militar
53:10nossa última
53:12escudo de proteção
53:13da sociedade
53:14acabou
53:15então a gente tem
53:16que valorizar muito
53:17obviamente
53:18todos os bons
53:20profissionais
53:20assim como eu
53:22sempre vou querer
53:23que o mau juiz
53:25seja excluído
53:26eu tenho que querer
53:27que o mau policial
53:28seja excluído
53:29que o mau promotor
53:30seja excluído
53:31que a gente tenha
53:32os órgãos do Estado
53:34cada vez mais
53:36corretos
53:37e cumprindo
53:37as suas verdadeiras
53:38missões
53:3820 anos depois
53:40de ter
53:41acompanhado
53:42esse processo
53:42que levou a volta
53:43do seu colega
53:44o senhor ainda tem medo
53:46de
53:47sofrer algo
53:48por conta
53:49de tudo isso?
53:51Olha
53:53se eu falar
53:54para você
53:54que eu não tenho medo
53:55eu estou sendo incoerente
53:56porque eu continuo
53:57com a estrutura
53:58de segurança
53:59então
54:00não é medo
54:03hoje eu tenho
54:04claro
54:05de que
54:07eu e
54:08doutor Alexandre
54:08erramos
54:09como achamos
54:09que eles não seriam
54:10capazes de fazer
54:11hoje eu sei
54:12que são capazes
54:13e por saber
54:14que são capazes
54:15que eu tenho
54:15que aceitar
54:17a minha estrutura
54:18de segurança
54:20medo
54:21eu fui
54:22talhado
54:23na minha vida
54:23profissional
54:25para
54:28saber
54:28que o medo
54:30é necessário
54:30para a minha
54:31preservação
54:32mas nunca
54:33deixando o medo
54:34me privar
54:35de cumprir
54:36a minha obrigação
54:37então
54:38o medo
54:40
54:40quem fala
54:41que não tem medo
54:42acaba que é
54:42inconsequente
54:43em qualquer área
54:44da vida
54:44o medo
54:45ele é bom
54:47é salutar
54:48em nos fazer
54:49tomar mais cuidado
54:51não deixando
54:52a gente engessar
54:53nossas vidas
54:54por causa disso
54:57qual avaliação
54:58que o senhor faz
54:59desses 20 anos
55:01depois
55:02o que o senhor
55:03espera
55:03ainda que aconteça
55:05em relação
55:06a esse crime
55:08que
55:08bem
55:09com relação a esse crime
55:10o que
55:10acho que toda a sociedade
55:11capixaba espera
55:12é que acabe o julgamento
55:13seja para condenar
55:15ou absorver
55:16o processo
55:17tem que acabar
55:18enquanto tem
55:19alguém não sendo julgado
55:21por mais de 20 anos
55:22e se arrastando
55:23a sensação
55:24de insegurança jurídica
55:25terrível
55:26para a sociedade capixaba
55:27eu não torço
55:29por condenação
55:29de ninguém
55:30eu quero que seja julgado
55:32seja para condenar
55:33ou absorver
55:34e por um ponto final
55:36na história desse processo
55:37com a sociedade capixaba
56:09e aí
56:12E aí
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